V

Um aristocrata culto, que ama música, quer vingança. Ele foi vítima de outros, no passado; e aqueles que o prejudicaram vivem tranquilamente suas vidas. Um acidente, neste mesmo passado, queimou-lhe o corpo e a face - o que o obriga a usar uma máscara hoje. Ele busca a vingança mas tem estilo. E também uma assistente gostosa. Estou falando de "V de Vingança"? Não, estou falando do "Abominável Dr. Phibes".

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(Price como Phibes)

Fui ver "V de Vingança" no sábado, com Karen. Logo no início do filme, percebi as semelhanças entre "V" e "Dr. Phibes". "Bingo!", pensei em minha ingenuidade, "acho que ninguém fez essa conexão!". Ilusão minha, já ligaram a HQ ao clássico do terror com Vincent Price.

O elemento que distingue de fato as duas histórias é a ideologia - e Alan Moore é um provocador, um escritor desses poucos, como Julio Verne, Asimov ou Arthur C. Clarke que ANTECIPA. No caso dele, não antevê máquinas ou tecnologia; com um pé em Orwell e Huxley ele preconiza SITUAÇÕES históricas que têm ligações com a postura do Estado, do Cidadão e as relações simbióticas entre eles.

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(O personagem principal, uma máscara, sua boca não se move)

Phibes queria vingar a mulher. Num acidente, ela morre e ele fica deformado. Os médicos não salvam a vida dela e todos irão morrer, um a um, de acordo com a interpretação particular que Phibes faz das pragas bíblicas do Egito. Ele tem uma ajudante gostosa, chamada Vulnáááááávia, que ninguém sabe de onde saiu. E nas horas vagas, toca orgão acompanhado de uma orquestra de bonecos.

V, da HQ e do filme, quer vingar a sociedade - e a si mesmo. Ele foi usado em experiências e crimes do governo, acaba tendo o corpo todo deformado por queimaduras, se especializa na arte das adagas (não se sabe como), coleciona memorabilia (como Phibes e seus bonecos de orquestra) e acaba tendo, casualmente, uma ajudante gostosa (Natalie Portman). Ambos, V e Phibes, tem dinheiro que não se sabe de onde veio. Ambos, tem o refinamento e um super poder mortal, acima do bem e do mal, que todos invejamos e gostaríamos de ter. São irmãos gêmeos do cinema.

O aspecto subersivo de "V" costuma ser sempre ressaltado, mas poucos lembram que a HQ foi idealizada e começou a ser publicada em 1981, muito antes do ataque ao World Trade Center ou da proliferação dos terroristas-homens-bombas. Vinte e cinco anos, hoje, corresponde a 100 anos trinta anos atrás. (Essa frase ficou boa)

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(Cartaz propaganda de Lênin, desenhado por Klutsis e poster de "V de Vingança)

Independente da observação temporal, o filme é sim subversivo como há muito não se via no cinema. Isso não é constatação de gênio: os produtores montaram a Anarcho Films para lançar "V". Os conservadores americanos parecem ter ficados meio ofendidos com um "Terrorista do Bem"; os ingleses, mesmo os progressistas, não gostaram de ver o "Parlamento do Bem" indo para os ares; para os europeus, o filme tem explosões demais. Parece que não há público para novos anarquistas, novos subversivos, inconformados, terroristas da palavra, terroristas de idéias.

Existe a pasmaceira das artes, comédinhas bestas nas estréias do cinema, no teatro, na literatura. Marcelo Rubens Paiva escreveu sobre isso no Estadão dia desses: tá todo mundo rindo demais - e rir demais e de tudo é desespero, já disse alguém sábio.

Quando aparece um filme bombástico e ideológico-subversivo (desculpe a repetição) como "V de Vingança" imediatamente aparece uma turba tentando desqualificá-lo como "adaptação de história em quadrinhos", como se fosse um "Demolidor", ou rotulando o filme como "diversão descompromissada", como eu vi em algum jornal, dia desses.

O doidão do Alan Moore não deixou botar seu nome em "V", mas eu recomendo DE FATO o filme. E recomendo que você vá assistir com a família, amigos, galera. E depois sente para conversar sobre, tomando um chope. Um bom debate vai surgir. Essa é a grande finalidade de uma obra ousada.

APDEITE:
O leitor Murilo S. lembra, por e-mail, de outro "deformado com máscara": "O Fantasma da Ópera". Base para o GRANDE filme de Brian dePalma, "O Fantasma do Paraíso", ambos podem ser conectados a "V". Bem lembrado, Murilo. Tanto o "Dr. Phibes" como o filme de dePalma estão em minha lista de preferidos.

10 Comments

O V é um fofo, romântico, sensível...
Cry me a river.

Edv

Essa Isabela Boscov é uma boçal e trabalha na Veja!

Esquece ela e dê ouvidos ao Bia...que tb é um boçal...mas ao menos não trabalha na Veja... ufa

Como quadrinófila (existe isso?) assisti a V de Vingança com expectativa acima da média e muito antes de estrear nos cines. Posso dizer que não me decepcionei nem um pouco.
Me fez chorar. E olha que ultimamente foram poucas as películas capazes de tal feito.
Já disse e repito: V for Vendetta mudou minha percepção da vida num momento em que ela mais pedia por isso: a adolescência.
O filme é magnífico. Já vi duas vezes e veria outras. E todas as vezes que saí do cinema me fiz a mesmíssima pergunta "Será que impactou tanta gente o quanto impactou a mim"? "Será que, em dias de banalização geral, e até do terrorismo, essa gente vai achar que se trata de uma obra apelativa, como muitos jornais têm ridiculamente apontado, ou vão entender a idéia genial por trás de toda pantomima, que creio ter sido a intenção da mente lisérgica e GENIAL de Alan Moore?"

É incrível como a crítico só aceitam ver um grande filme quando eles chegam com 'jeitão' de grande filme. Adaptação de quadrinhos? Pff.

Não li pela possibilidade dos spoilers.

Mas passo aqui pra agradecer de novo.

Brigadão Bia!

Abraços!

é verdade!!! quer dizer q o progressista e grande democrata idelber avelar está censurando e deletando meus comentários em seu post lá no Bombordo... não fui grosseira com ele, não o xinguei, apenas discordei veemente dele e da defesa parcial q ele faz ao governo lulla. sua atitude reflete bem o caráter autoritário de certa parte da esquerda brasileiro. fica aqui registrado meu protesto. obrigado

vi no Gibizada - blog do Globo - uma matéria sobre o Capote e HQs.
Abração.

Por onde andará Virginia North...?
;-)

A Isabela Boscoli, crítica de cinema da Veja, chamou o filme de "B de Bobagem".

O fato dela não ter gostado me deixa muito mais interessado em assistir. Ela também não gosta de Matrix... De qual será que ela gostou? "E o Ventou Levou"?

rsss.... :)

não li todo o texto pq entregava algumas informações do plot de V, e esse eu só vou assistir no feriado. mas agora q sei q posso assistir fazendo conexão com dr. phibes, fiquei mais entusiasmada.

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Esta página contém um post de Biajoni publicado em abril 11, 2006 10:40 PM.

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