empilhados na categoria (?) tremores

carcaça

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carcaça




ninguém se machucou no incêndio. diz-se à boca miúda que foi evento criminoso, com fins de fraude, mas de toda forma o colégio já não funcionava.

ainda assim me passou, e sempre e constante, uma tristeza enorme de salas de aula e bibliotecas - e até uma capela, janelas arredondadas - assim, casca, carcaça, fantasma, à esmo, vítima de uma cremação meia boca.


os azulejos; azuis daquele 40% ciano que cega qualquer criança nos corredores.

em dona francisca, irmãs palotinas; eu, sob jugo de franciscanas. as freiras deviam ter alguma barbada com o fornecedor de material de construção. sei como era aquele colégio fossilizado antes do fogo, porque eu assisti aulas ali. e aí a metáfora torna-se óbvia e não são mais necessárias palavras.


uma nostalgia enviesada e fora da linha do tempo, mas que ah, os humores, os humores, e as ruínas.

variogêneres II: the dreams

(se você é daqueles - como eu - que preferem ver um filme com o menor número de informações possíveis sobre ele, deixe pra ler esse post mais tarde -- de acordo com o IMDB, Synecdoche, NY deve estar nos cinemas brasileiros dia 19/04)






entre as opiniões que mais respeito sobre cinema, encontram-se amigos que desprezam Charlie Kaufmann por um motivo ou outro. e com o tempo vi que eles são a maioria.


eu me coloco no grupo restante; e considero eternal sunshine of the spotless mind um filme tão bom que tenho até pouca vontade de discutir o assunto. além dele, tenho being john malkovich e adaptation entre os melhores filmes que a minha contemporaneidade produziu, num patamar tarantinesco de cineastas que ainda não me decepcionaram - embora eu esteja sempre esperando que o pior aconteça.






still via beingcharliekaufman.com


a questão da simpatia ao autor - nesse caso, roteiro e estreia de direção de Kaufman - não é despropositada, porque Synecdoche, NY é um filme que se pretende grandiloquente. e se já for com pé atrás, as chances de derrota são grandes. é elíptico, lento, em espiral e desafiador como se poderia imaginar de Kaufman dirigindo um texto seu.

além disso, é triste pra cacete.

então se não tiver paciência e zen pra entrar no timing - e no ritmo todo próprio dele, não vai rolar.


mas SE rolar, aí é a viagem de um cara capaz de ganhar um McArthur Genius Grant mas que não consegue guiar a si mesmo até a esquina.

Kaufman assume os riscos de produzir um filme ainda menos acessível que os seus anteriores. também banca metáforas visuais bastante arriscadas, que ultrapassam (seu parceiro de cinema onírico) Gondry e vão lá dar oizinho pro tio David Lynch. é do jogo, e do artista. levando o personagem Caden Cotard (vale relacionar com a síndrome) quase à fábula, Synecdoche NY ainda é um meta-filme - ou quase, já que lida com uma peça de teatro cujo assunto é uma peça de teatro sobre a vida que por sua vez é uma peça de teatro. ficar confuso vale. se perder no filme é parte do prazer e do processo.

porque ele mesmo diz, em entrevista, que escreve sob fluxo e que se espelha nos sonhos; que não sabe bem onde vai chegar quando começa um roteiro. para alguns, isso é receita de filme ruim; pra outros, é a única maneira de criar algo verdadeiramente genuíno.

outra vez, me encaixo no segundo grupo.

longe de portar argumentos cinéfilos; simplesmente me serve bem a forma como Kaufman se comunica. e com Synecdoche, NY não foi exceção. ainda que aqui, mais do que nos outros filmes, a incompatibilidade entre gênio criativo e da vida cotidiana venha de forma tão dura, e de poesia tão rarefeita.






(depois de assistir, fui ao tomatômetro e ao metacritic, esperando zeros e uns. mas 65/67? e aparentemente o filme caiu nas graças da crítica? não deixa de ser surpreendente.)





~.~


série segue amanhão com livro. or else.


*update: não cumpri o prazo. mas [tentando confundir] BP deixou esse comentário que valeu o post:

Não sei bem se chamaria de 'um filme bom', pois não é uma definição precisa, e até pequena. Mas, putz, que coisa boa.

when you're smiling

segundo estudo das partículas

e quando se fecham os olhos no espasmo do sono que finalmente domina cresce uma escuridão, que até nos sonhos as sombras são sempre protagonistas tendo ao fundo figurantes que correm tentando chegar em primeiro foco, mas inevitavelmente derrotados por uma névoa de um negro denso que os sobrexiste em diversos planos. alguns não sonham pois não dormem antes feitos reféns daquilo que é antimatéria da consciência e que segue dragando horas, e eventos. não serve a qualquer deus senão alguma partícula galática elas, que terminarão por destruir a todos, satisfeitas imolam ciclos e pulsações até serem descobertas por um homem nobel que não ganhará seu prêmio porque a descoberta da anticonsciência não poderá ser assimilada por um oposto. a total ausência não é um dom apenas um fio desencapado. as projeções mnemônicas que trafegam e habitam os hologramas que assistimos mostram-se galhardas diante da calma e silenciosa nuvem de um causticante e impossível nada que se surge e permanece.

até que se desperte num soco.

nocaute poetikaos

(publicado originalmente em cacto-liptus)


quebrei
o pescoço da pirâmide
passei nas gemas batidas e empanei com areia de rosca
fritando em banha fervente
sequinho escorrendo no papel toalha
comi
sentado na grama
com meteoritos fazendo campo minado à minha volta
e os menores, grudando na pele
peguei pra mim
como verrugas
eu sou o pêlo do ovo da coruja, e desligo as luzes.

78-08

a partir de agora, 1978 começa a fazer 30 anos, e só termina quando for revelhão de novo.
o Brooklyn continua expandindo, mas a perspectiva vem melhorando. até porque, a partir de agora, ou de logo depois da páscoa, a sombra é o chefão do nível 40.

céus.

mídia [e/ou] ah

tem dias que eu queria poder desatarrachar a minha cabeça, abrir a tampa e tirar um monte de entulho de lá de dentro. com uma colher de sopa daquelas grandonas e bem cõncavas. que nem limpar caixa de gordura. tirar pás daquela massa escura pegajosa que entope os canos. e limpar a massa de fios de cabelos que escorreram de ti e entraram pelos meus ouvidos. as pausas não são longas o suficiente para realizar a devida manutenção e meus olhos ardem. cada vez mais preciso do que me abre clareiras. que me abram espaços de um vazio sorridente de frio na barriga por ser preenchido de momento. eu preciso instalar uns respiros na caixa craniana pra que a evaporação da incineração de lixo seja otimizada. tem que fazer geometria e balanceamento, também. na verdade tem mais é que fazer uma retífica completa. hoje passou por mim um gol tipo 84 com faróis de milha instalados no pára-choque traseiro. chug chug chug puf puf pof.

marine_.jpg
~.~

triema churrasco de cachaceiro
o relógio já mostrando umemeia da madrugada
e eu aqui
salada

~.~

aê. tamos aí. só não tamos aqui. ou aquê. nê.

bereteio #1000

efemérides. milésimo post da casa.

procrastinei a noite inteira, formulário em branco me esperando. reli dinamicamente o blog. um montão de palavras. tanto tempo embutido. deve caber num disquete, se zipar. reli e me vi envelhecendo. emagrecendo. trocando de geladeira. inventando. tendo dor de dente. trocando de paradigmas. adicionando estilos. chutando. largando o café. comendo pizza e nuggets. me derramando. brincando com dinossauros. fazendo amigos. quebrando aquários. assentando pilares. enchendo a cara. enchendo a casa. casando gente. fazendo inimigos. odiando. nonsense. depressivo. melancólico. com sono. atrasado. infame. brigando com o ganha-pão. me vi nos silêncios. nos poucos períodos sem postagens. nas garotas que nunca apareceram no blog. na que apareceu. nos sinais gráficos. nas pausas. nas intersecções. no que eu completo com memória. me vi cada vez mais subjetivo. advérbio. cada vez mais objetivo. econômico. adjetivo. volátil. vulnerável. tentando entender alguma coisa e fazendo um post sobre música. pulsão do expressar. respiradas. angústia de peito inchado. sóis. luas. estrelas. bancos de praça. avenida aberta, esparramada. dos elos. do que brilha. de todos os bereteios que não estão aqui. todos os fogos o fogo. felizes são os peixes. deixe-me em paz, eu nasci ontem demais. porque tudo é metáfora pra vida. e essa fada, essa fada, se ela voa onde andaria ou se não anda onde ela pensa eu apenas acho, que ela pensa e voa em mim ou se apenas anda eu acho fácil. que sinto-me deus, mas não deus como zeus no olimpo. de achar que a vida anda a passando a mão em mim. desatomizarte-me-irei.

mas penso que cumprir a vida seja simplesmente/compreender a marcha, ir tocando em frente.

que o negócio é sambacriar tamporilando heavy a unha no metal.

e estou amando até os dentes essa desmelancolia prateada que vem de um sorriso qualquer. negro, num dia sem trem. que estou na quinta estrofe, sem pai nem mãe no mundo; agradeço a quem, por amor, traduzir meu mergulho no mar.




a colagem de itálicos no final contém frases de poemas de michel melamed, pedro rocha, cazé peccini, viviane mosé, bruna beber e andré pessoa.

a neve [cena final deletada]

Dixie vai estudar na Europa, como quase todo mundo, e sai de cena por um tempo. se não tivesse trepado com ela, teria escrito alguma coisa. uma carta, um bilhete. uma poesia para ela ler nos momentos de solidão. ouvindo algum jazz deprê. se não tivesse trepado com ela, teria assunto pra escrever durante um semestre, enxergando-a daqui, Dixie longe, Dixie linda, caminhando de sobretudo cinza pelos pubs amarelados de Londres, ricocheteando o sol no sorriso, pedindo no balcão uma cerveja, bebendo até ficar possuída pelo selvagem rancor da solidão, subindo numa mesa e chorando alto o vazio que sente, Dixie desmaiando de cansaço, sendo recolhido por uma ambulância, esquecendo a bolsa no bar, perdida num hospital gelado, de ressaca e com apenas três euros no bolso, sentando na escadinha de mármore branco e acendendo um cigarro que filou do porteiro paquistanês, fumando a sobrevivência da noitada, os cabelos sujos, Dixie longe, Dixie linda, que não consegue evitar um sorriso, fade out.