entre as opiniões que mais respeito sobre cinema, encontram-se amigos que desprezam Charlie Kaufmann por um motivo ou outro. e com o tempo vi que eles são a maioria.
eu me coloco no grupo restante; e considero eternal sunshine of the spotless mind um filme tão bom que tenho até pouca vontade de discutir o assunto. além dele, tenho being john malkovich e adaptation entre os melhores filmes que a minha contemporaneidade produziu, num patamar tarantinesco de cineastas que ainda não me decepcionaram - embora eu esteja sempre esperando que o pior aconteça.

still via beingcharliekaufman.com
a questão da simpatia ao autor - nesse caso, roteiro e estreia de direção de Kaufman - não é despropositada, porque Synecdoche, NY é um filme que se pretende grandiloquente. e se já for com pé atrás, as chances de derrota são grandes. é elíptico, lento, em espiral e desafiador como se poderia imaginar de Kaufman dirigindo um texto seu.
além disso, é triste pra cacete.
então se não tiver paciência e zen pra entrar no timing - e no ritmo todo próprio dele, não vai rolar.
mas SE rolar, aí é a viagem de um cara capaz de ganhar um McArthur Genius Grant mas que não consegue guiar a si mesmo até a esquina.
Kaufman assume os riscos de produzir um filme ainda menos acessível que os seus anteriores. também banca metáforas visuais bastante arriscadas, que ultrapassam (seu parceiro de cinema onírico) Gondry e vão lá dar oizinho pro tio David Lynch. é do jogo, e do artista. levando o personagem Caden Cotard (vale relacionar com a síndrome) quase à fábula, Synecdoche NY ainda é um meta-filme - ou quase, já que lida com uma peça de teatro cujo assunto é uma peça de teatro sobre a vida que por sua vez é uma peça de teatro. ficar confuso vale. se perder no filme é parte do prazer e do processo.
porque ele mesmo diz, em entrevista, que escreve sob fluxo e que se espelha nos sonhos; que não sabe bem onde vai chegar quando começa um roteiro. para alguns, isso é receita de filme ruim; pra outros, é a única maneira de criar algo verdadeiramente genuíno.
outra vez, me encaixo no segundo grupo.
longe de portar argumentos cinéfilos; simplesmente me serve bem a forma como Kaufman se comunica. e com Synecdoche, NY não foi exceção. ainda que aqui, mais do que nos outros filmes, a incompatibilidade entre gênio criativo e da vida cotidiana venha de forma tão dura, e de poesia tão rarefeita.
(depois de assistir, fui ao tomatômetro e ao metacritic, esperando zeros e uns. mas 65/67? e aparentemente o filme caiu nas graças da crítica? não deixa de ser surpreendente.)
~.~
série segue amanhão com livro. or else.
*update: não cumpri o prazo. mas [tentando confundir] BP deixou esse comentário que valeu o post:
Não sei bem se chamaria de 'um filme bom', pois não é uma definição precisa, e até pequena. Mas, putz, que coisa boa.