Com Ovo: A Morte de Pterodáctilo
Thriller psicoculinário em dois atos, para levar
com agradecimentos a Sérgio Bruno e os autistas fundadores
A ação se passa na CLAREIRA de uma FLORESTA. O firmamento tem uma cor amarelo-dourada, opaca. Há tensão no ar e o medo se espalha como um vírus
Natasha: É isso. Finalmente começou. E vai acabar logo.
Ela olha para o céu, intrigada
Natasha: Tudo está vindo abaixo.
De cima, subitamente cai SILVANO, vestindo uma malha de ginástica rosa fosforecente
Silvano: Que me pariu, mêss'!
Natasha: Tinha nada menos chamativo, não?
Silvano: Iss'aqui é pra atingir a mássma perfórsce.
Natasha: Quê?
Silvano: Perfórm... Permós... Pra corrê mais ráp'do. Senão eu não avôo.
Natasha: Tá, e então? Descobriu alguma coisa?
Silvano: Acabei baten'o numa nuve e perdi os equilíbrio. Num enxerguei nada não.
Natasha: Seu idiota! A massa está se aproximando! Nós vamos morrer!
Sem ser notado, carregando uma maleta 007, entra ZERJEN, que se posta logo atrás de Silvano
Zerjen: Sinishtro.
Natasha: Aaaah!
Silvano: Porra! Qualé, cumpadi? Dá susto ni mim não! Dá não!
Natasha: Zerjen! Você voltou! Mas... porquê está usando essa batina?
Zerjen: Não é uma batina. É o meu manto de cerimônias.
Silvano (para a platéia): Hm. Pra cerimônia eu uso véu e grinalda.
Natasha: Entendo. (olhando pra cima) Você veio por causa do céu.
Zerjen: É isso. Finalmente começou.
Silvano: E vai acabá logo.
Natasha: Tudo está vindo abaixo.
De cima, subitamente cai KROKUS, seguido por uma bicicleta, que aterrissa sobre a cabeça de Silvano. Preso à cestinha da bicicleta, há um EMBRULHO PARDO
Zerjen: Trevaish.
Natasha: Aaaah!
Krokus: Maldito bicho desgraçado!
Krokus, bastante irritado, puxa o embrulho da cestinha; de dentro dele, sai um alienígena de cabeça achatada, dezoito olhos e dentes para fora, em péssimo estado: é o ET DE VARGINHA COVER. Krokus o esbofeteia
Krokus: Maldito bicho picareta! Olha o que esse monstro fez! Olha a sujeira que eu fiquei!
ET: Há uma nuvem de lágrimas sobre meus olhos.
Natasha: Quid?
Pintinho (no bolso de Silvano): Pil?
ET: A estupidez não lhe deixa perceber...
Krokus: Devolve meus cinqüenta dinheiros! Devolve! Silvano, me ajuda com isso aqui, fassavor?
Silvano e Krokus revistam o ET que, nervoso, cantarola um pout-pourri do cancioneiro popular mineiro. Silvano encontra a niqueleira do alienígena e a entrega para Krokus
Krokus: Isso fica comigo! Agora te arranca daqui!
Zerjen (com uma risota): "Adeus, amor, eu vou partir?"
ET: Eu vou equalizar você.
ET é chutado para fora da cena
Krokus: Inferno. (tentando limpar as calças batendo as costas da mão) Bem, não consegui descobrir nada. O bicho cansou antes de atingirmos altura suficiente.
Natasha: Mamãe tinha razão! Está tudo acabado! Em alguns instantes seremos esmagados por essa massa amarela nojenta!
Silvano: Será que o sol tá derreten'o?
Zerjen (solene): Jo sé lo que se pasa, merrmão. (caminhando em direção à platéia) No início era o verbo. E verbo é essa coisa 'ação', assim, infinitivo, fazer, correr, pegar, acaba dando fome. Aí veio a costela. E então o cupim, a maminha e o entrecô. Mas o Criador não estava satisfeito, porque a carne muito próxima do osso ficava dura, seca.
Krokus: Era difícil encontrar bons assadores na Antigüidade?
Zerjen: Oh, certamente. Mas como o Criador estava estressado, faminto e já tinha cansado de comer nuggets de anjo, encontrou rapidamente outra solução. (pausa, olhando para o céu) Ele criou a gordura.
Natasha: Ooooh!
Zerjen: E a deixou tostando voltada para o fogo, coberta por sal, até que ficasse aquela casquinha crocante. E viu que era bom e pediu uma caipirinha, também. E assim passou quarenta dias e quarenta noites se fartando naquele banquete primordial, e houve rônco e ranger de dentes, porque o Criador tinha um problema de bruxismo e apagou sem usar seu protetor noturno. Por favor, em roda, crianças.
Silvano agarra os pés de Natasha, que agarra os pés de Krokus, que, num impulso, dá uma meia-lua com o corpo para trás e segura os pés de Silvano. O círculo começa a rodar pelo palco. Zerjen estica a perna e interrompe a evolução do trio, que tomba girando como uma moedinha.
Zerjen (continuando): E durante aquele sono, toda a gordura que o Criador ingeriu calcificou, ganhou alma e separou-se de seu hospedeiro. De modo que, quando o Criador finalmente acordou, sentiu um cheirinho gostoso vindo da cozinha, junto de um barulho semelhante ao frigir.
Natasha (salivando): Hmmm... bacon?
Zerjen (assombrado): Não... (ouve-se um RAIO caindo) ...Bahcon!
Do céu, cai uma enorme GOTA DE GORDURA, bem no centro da roda formada pelas personagens.
Silvano: Ara!
Krokus: Argh!
Natasha: Aaaaah!
Pela direita, entra correndo em pungente desespero SONJA, que escorrega na gordura e cai de bunda no chão
Sonja: A gente tudo sifu! A gente tudo sifu! A gente tudo... (caindo) Yawaaaargh!
Silvano: Agora nóis só percisa de uma grelha bem grande.
Sonja: Cale a boca, estrupício! (parando de cair) Que diabos... Zerjen?
Zerjen: Aê irrmãzinha!
Os dois se abraçam efusivamente, estampando marcas de gordura um no outro
Sonja: Se você está aqui, é porque o problema é mesmo grande.
Zerjen: É isso. Finalmente começou.
Natasha: E vai acabar logo, eu sei. Mas eu ainda não entendi que cazzo tá acontecendo?
Todos olham para o céu, que parece cada vez mais próximo da terra; a camada de gordura amarela baixa velozmente.
Zerjen: Cê não percebe não, ô garota? Não tá vendo não? Fodeu! Já era! Olha pro mundo! As pessoas estão destruindo o planeta, desequilibrando o universo! Tá tudo perdido!
Natasha: Mas, como? Como, mamãe, como?
Sonja: Não, não come, e esse é o problema. Os culpados são muitos. Você, por exemplo, Natasha. Desde aquele granito mal passado em 1999, você não tem mais comido a sua gordura. (em direção à platéia) Agora, passa os dias como um roedor selvagem, mascando acelga e cenouras... (irrompe em lágrimas) Weyeyaaaah!
Natasha: Mas o meu corpinho!...
Zerjen: É tudo sobre você, não é? Egoísta! Vocês viraram suas costas à gordura. As pessoas estão desconectadas das energias e substâncias que mantêm a ordem no Caos. Ao invés da chuleta, o peito de frango. Ao invés da lingüicinha frita, o tremoço. Torresminho, então, é impedido até pela Defesa Civil!
Krokus: Você quer dizer que toda essa gordura...
Zerjen (sombrio): Cê já parou pra pensar pra onde vão os triglicerídios, quando morrem?
Eles olham para a platéia, estarrecidos
Todos: Ooooh!
Zerjen: Malditos comedores de margarina!
Sonja: Bahcon está furioso conosco.
Silvano: Esse conversê tá me deixando co'u'a fôme...
Natasha: Tem barra de cereal na minha pochete, ali no... (tensa) ahem, digo, hm, tem... barra de mocotó...
Zerjen: Pecadora! Messalina!
Natasha: Não! Aaaah!
Sonja: Sua idiota! Quer matar a todos?
Krokus: Agora entendo. (com um estranho brilho nos olhos) Natasha precisa de uma purificação.
Zerjen: Zim!
Natasha: Aaaah!
Natasha tenta fugir, mas é impedida por Silvano e Krokus, que a seguram pelos braços. Zerjen tira de sua maleta 007 uma FRITADEIRA portátil e prepara rapidamente um PASTEL DE CALABRESA COM MAIONESE
Zerjen: Abra a boca, infiel!
Sonja: Vamos, fia. Aproveita enquanto tá quentinho. Eh, heheheh.
Krokus: Isso... quentinho e pingando banha! Muhahahahah!
Natasha tenta resistir, mas é forçada a comer o pastel. Sua cara fica toda lustrosa, mas, após um instante de nojo, ela sorri e relaxa. Os homens a soltam
Natasha: Nossa, como tava bom isso. Me sinto tão...
Zerjen: ...Completa.
Sonja: ...Em paz.
Natasha: ...Engraxada! (eufórica) Porra! Se eu soubesse disso antes! Tanto dinheiro gasto com aquela droga daquele psicanalista!
Zerjen: Hm, junguiano?
Natasha: Nada! Macrobiótico!
Silvano: E o que a zente vai fazê agora?
Krokus: Sim. Como podemos reequilibrar Bahcon?
Sonja (pensativa, para a platéia): Se ainda me lembro das Escrituras, será preciso sacrificar um herói para alimentar a divindade e aplacar sua ira.
Zerjen: Você está certa. Como escrito no Cardápio VI, na passagem em que Bahcon entra em guerra com Zhoyo, "Aquele-Que-É-Feito-de-Soja", seu nêmesis. Mas, infelizmente, não existem mais heróis. Tentei contatar o último dos Escolhidos, os que conservam a taxa de colesterol acima de 750 - mas foi em vão. No penúltimo episódio, Matt Groening inscreveu Homer nos Vigilantes do Peso. E hoje, ele já está bem mais saudável.
Natasha: Mèrde! Está tudo perdido!
Sonja: Wraaaaah... Bahcon precisa ser saciado, ou vai cobrir o mundo com sua adiposidade!
Silvano: Finalmente começô.
Krokus: Todo está bajando.
De cima, subitamente desce ENTREGADOR BRENDEN, à Mary Poppins, carregando um cesto de piqueniques.
Zerjen: Pelas barbas do zim selvagem!
Entregador Brenden: Vai sacudir, vai abalar!
Natasha: Aaaah! Mamãe!
Silvano (para a platéia): Pessoal da grua dev'tá co's braço tudo em carne viva.
Sonja: Brenden? É você, Brenden?
Entregador Brenden: Certo. Nunca consegui recuperar meu corpo, então continuo usando esse entregador do Bob's como avatar.
Krokus: Que diabos é isso agora?
Zerjen tirando um cajado da maleta 007 e batendo na cabeça de Krokus): Calado, verme. Brenden é a protetora das Escrituras.
Entregador Brenden: Ó, galera. Trouxe novidades pra vocês.
Brenden tira de seu cesto de piqueniques alguns CARDÁPIOS, que distribui entre todos
Krokus: Oh, um cardápio novinho!
Natasha: Ti lindo! Ti meigo!
Sonja: É, mas... sem nenhuma novidade. Os pratos são os mesmos. Pfff.
Brenden: Então, o que isso diz a você?
Zerjen: ...Claro! Como eu não pensei nisso antes?
Silvano: Nunca fiquei tão perdido nu'a dessas peça antes. Não tô entendeno lhufas.
Zerjen: Sim, eu entendi, Brenden! Bahcon está enfarado! A saída é oferecer-lhe um novo petisco!
Brenden: Que satisfaça Bahcon e o satisfaça, para que ele possa emanar suas energias e seu cheirinho para toda humanidade outra vez.
Natasha: Mas e que lanchinho seria esse?
De cima, subitamente dá um rasante PTERODÁCTILO, roubando o queixo de Natasha, que irrompe num chôro convulsivo. Mas ao tentar ranger os dentes, Zerjen joga um MORDEDOR de látex em sua boca, deixando-a ainda mais frustrada
Pterodáctilo: Graaaaaack!
Brenden: Bem gordinho o bicho, hein?
Sonja: Menina, descobri uma ração ótima. Sabor coraçãozinho empanado com molho de dendê. Olha como deixa as placas da pele dele brilhando!
Zerjen: Você acha que Pterodáctilo...?
Natasha (sem queixo): 'Ão! 'Ããão!
Brenden: Bem, vale a tentativa, não vale? Bahcon não deve comer isso há alguns zilhões de anos.
Silvano: Ocêis vão fritá o bicho?
Krokus: Bem, isso vai depender dele, também.
Sonja se afasta do grupo, Pterodáctilo pela asa. Os dois conversam de perto, observados pelos outros. Sonja assume ar maternal e emite alguns GUINCHOS. Pterodáctilo olha para o céu, voa um pouco, volta. Ambos ficam em silêncio durante alguns momentos, e então Pterodáctilo esfrega sua cabeça pontiaguda no peito de Sonja
Sonja (solene): Brenden... precisaremos de muito ovo e farinha de rosca.
Brenden: Num instante, milady.
Zerjen: Eu estendo a toalha.
Ainda em silêncio, todos começam a preparar o sacrifício. Uma toalha xadrez azul e branca é estendida no chão. Natasha e Brenden batem os ovos, Silvano prepara duas TINAS, Krokus enche uma delas com farinha. Zerjen tira um chope de sua maleta 007 e bebe escondido. Os preparativos são terminados. As despedidas tomam lugar
Sonja: É hora, querido.
Natasha: Você roubou tantas coisas de mim esse tempo todo... até mesmo meu corassão.
Krokus: Valeu, cumpadi.
Natasha: Mas devolve meu queixo? Eu ainda vou precisar dele.
Silvano: Nóis ficô muito orrado de tê conhecido ocê.
Krokus: "Orrado"?
Silvano: Orrado, óia. De ôrra. Num é uma côsa muito boa lá nas banda de Sumpaulo? (sorrindo) Eu fiquei orrado.
Sonja: Você nos orgulhou esse tempo todo, e continuará sendo lembrado como um de nós. Da família.
Zerjen: Eu não te conheço. Sai fora. Mas boa sorte. Falei?
Sonja: Yeyawaaaaaaargh!
Pterodáctilo: Craaaaaaaaaaah!
O animal levanta VÔO e dá sucessivos rasantes no ovo batido e na farinha, até apresentar uma boa camada de cobertura. Ele voa para fora de cena e retorna com uma mochila no bico, que solta em meio aos personagens
Pterodáctilo: Graaaack... Graaaaaaack!
Ele grita e voa em direção à imensidão adiposa, sumindo por entre a gordura, sua voz ficando cada vez mais distante. Então, o SILÊNCIO. Os personagens se entreolham e voltam a fitar o céu
Natasha: Será que funça?
Entregador Brenden tira de sua cesta um imenso X-TUDO, depositando-o sobre a toalha. Todos sentam-se ao redor dele e dão as mãos
Zerjen: ...Oremos.
Zerjen entoa um CÂNTICO antigo, de lamento, até que todo mundo começa a olhar feio e ele cala a boca. O x-tudo é partido, distribuído e mastigado lentamente. Um raio de LUZ DO SOL, tímido, ilumina a refeição. As camadas de gordura começam a se DISSIPAR no céu
Zerjen: Formô!
Sonja: Yeyayayayayaaaaaaagh!
Natasha: Ti lindo! Ti emossão!
Silvano: Também quero avoar! Eu também vô! Me leva!
Em instantes, o céu está azul e claro, alguns pássaros cantam, todos respiram o ar fresco avidamente. Natasha abre a mochila de Pterodáctilo
Natasha: Meu queixo! Puxa, meus caninos também! Finalmente! Oh! Céus, e de quem será esse ombro? E olha quanta figurinha!
Zerjen: Caraca! Essa do Zubizarreta era a que faltava pra eu completar o álbum da copa de 86!
Sonja: Tudo voltou a ser como era antes.
Silvano: Minha malha tá suja.
Krokus: Me sinto um pouco deprimido. Quem sabe um ovo frito...
Brenden: Bem, acho que está tudo bem. Minha presença não é mais necessária.
Zerjen: Obrigado, Brenden. Não sei o que seria da humanidade sem você.
Brenden: Eu até que gostaria de ver Bahcon derramando-se sobre um maldito spa, mas as pessoas... elas não sabem o que fazem.
Entregador Brenden pega sua cestinha e LEVITA para fora do palco, sobrevoando a platéia e aspergindo flocos de bacon no povo
Silvano: Vô vortá pra minha masmorra. Não entendi nada, mas tá todo mun'o rindo, então eu vou me embora dess' lugar. Cença.
Krokus: Espere, eu vou com você. Estou precisando de uma hemodiálise.
Os dois SAEM
Sonja: Zerjen...
Natasha: Você vai ficar conosco dessa vez?
Zerjen: Não, eu preciso ir. A congregação precisa de mim lá em Stonehenge. Estamos terminando de instalar o fogareiro gigante por entre o círculo de pedras.
Sonja: Uau!
Zerjen: É! Vai ser a maior fritadeira do planeta!
Sonja: Você sabe que pode contar comigo, se precisar de alguma coisa.
Natasha: Adeus, Zerjen!
Zerjen: Já era!
Zerjen sai por uma sombra no fundo do palco
Natasha e Sonja se abraçam
Natasha: Será que Pterodáctilo morreu, mamãe?
Sonja: Se você desejar bem forte...
Natasha: ...ele volta?
Sonja: Não, abobada. Se você desejar bem forte é melhor usar suas fraldas. Depois daquele pastel...!
As duas RIEM
CAI O PANO