empilhados na categoria (?) substratos
car enfin je suis philosophe; il ne me convient pas de me dédire."
Voltaire, Candide, ou l'Optimisme
se tudo que pode haver
há em seu melhor
se o que dói está vivo
se em tudo há virtude
ainda que sem alívio
se o que resta é expirar
se em breve se ajeita,
se é no andor da carruagem
se basta --
escolher esquinas
e contemplação
se há traçado
então não é solidão, é só o vento sul
então não é tristeza, é só uma inverdade mal mastigada
não é melancolia, é que essa roupa não fica bem
saudade?
soluço, música que gruda na cabeça
se determinado
então nem é existência
remete a pilha de polaroids
nem é poesia -- parece mais escrita na areia
não passa de simulacro
então deve ser cinema
se aprisionado em destino
os momentos de onirismo,
que fiquem
calcificados como anéis
nos nós
dos dedos
mas se há dúvida, duvida
se nisso tudo
interferir
vontade
melhor com alarde
até desespero
se palpitação liquefaz certeza
viver no pior dos mundos
-- tempo em tempo --
é melhor que morar na mediandade
e aguardar
da morte um exagero
Sei lá... Mas hoje acordei com o coração doendo.
Ontem eu estava bem... sorri até umas cinco vezes. Ajudei aquela senhora, na rua, desmanchei um velho arranjo de flores de cima da mesa - já estava velho e não coloria mais como quando foi posto ali, corri na beira do Rio, cumprimentei passarinhos e até me distraí, feito bobo, com aquela menina da bicicleta. Daí hoje, acordei com o coração doendo.
Fui no banheiro me olhar no espelho, ou olhar o que estaria lá para ser visto. Parecia estar tudo em ordem. A pele estava boa, os olhos irradiavam algum brilho - mais fraco, é verdade, do que outras vezes, mas havia, eu vi. Cabelos pouco arrepiados, poucos fios rebeldes, perdidos. Até de uma beleza tão incomum que dispensava retoques mais elaborados. Barba por fazer, mas nunca isso me preocupou em nada. Ah... que nojo... mas, sim, a urina estava boa, clara, sem cheiro. Mas o coração, doendo.
Que lindo dia que fazia. Abrindo a janela, fechei por instantes as pálpebras e pude sentir o calorzinho entrando, os raios de sol mapeando-me o rosto. Ficaria ali horas, não fosse começar a esquentar muito. Abri lentamente os olhos para que as coisas que via surgissem bem devagar. E, suspirando, gostei, só não sorria. Como se não bastassem as coisas, o mundo, a vida. Faltava. O que não tenho certeza. Era para estar tudo bem. O coração batia, mas doía.
Mesa deslumbrante. Simples. Uma paisagem sob toda aquela fartura. Frutas fresquinhas, doces de dar inveja. Geléias, pães quentinhos. Sabores disto e daquilo. Cheirinho do café passado na hora. Fácil de se perder em tantas delícias, deliciosamente irresistíveis. Pena ter acontecido isso: tanto cucas, maçãs, pêras, queijos ou leite viajaram minha boca sem produzir qualquer gosto. Mas desconfiava a razão, que era simples. Desgostoso estava aquele que doía hoje, meu coração.
Nenhum compromisso, nenhum telefonema, nenhum problema. Entreguei-me às conseqüências de um dia com retrato de descanso. Estiquei a rede, com cuidado, e esparramei-me lentamente com uma atenção rara a cada movimento do corpo, ajeitando-se. A perna que a gente mexe só um pouquinho para lá, enquanto o braço vem só um tantinho para cá, e o pescoço eu torço pouquíssimos graus para a esquerda. Então vem aquela preguiça... e um espreguiçar único, que volta quase posicionado dando passagem para chegar logo aquela posição que nunca sabemos qual é, percebendo-se somente na fuga inconsciente daquele sorriso bobo. Ali, o ponto. Que causa muitas vezes um sono torto, maravilhoso. Mas ao invés de sonhos, essa foi a pior hora, porque fui eu meu próprio coração doendo.
Peguei um livro, de poesias. Fraquinhas, mas bonitinhas. Velha receita para se ficar feliz, de bem com a vida. Li uma, li duas, dez e todas as 28. Devia ter então esquecido o sal, porque o coração, nada, insistiu em doer de novo.
Caminhava já sozinho de mim, equilibrando-me, beirando uma pequena tristeza. Se tudo está tão lindo, perfeito, por que meu coração dói? Será castigo, será de pena? Será de amor, será de quê? A noite vinha chegando e uma sensação esquisita veio juntinho a ela. Como se nada tivesse sentido, pelo menos até eu encontrar de uma vez de onde vinha essa dor estranha que enchia meu coração. Até lembrava, até pensava, mas nada satisfazia, e enquanto isso nem percebia, mas o coração ainda mais doía. E o tempo foi passando. Pouco a pouco já era muito. Minutos iam correndo, embora pra mim tudo acontecesse em um ritmo muito lento.
Começou a me dar uma angústia, um desespero, um medo. O dia estava acabando, fora inteiro, comum e perfeito, mas eu via preto e branco. Sentia-me preso. O coração seguia doendo e eu não entendendo. Era como se simplesmente, eu estivesse morrendo. Horrível um fim assim, com sensação de que todas as coisas no mundo tivessem um triste fim. Nem mesmo o coração, que é causa dessa grande dor, desse grande "fui", desse distante "adeus". Não deu pra segurar as lágrimas. Era como uma última opção. Pelo menos queria acabar triste, mas sentindo pingar um choro, que escorresse o rosto, perdesse-se por entre meus dedos, no tremor das minhas mãos, e ainda acabasse no chão. Na lona, perdida a luta, desisti, entreguei-me e caí. Desfiz-me por inteiro então. E ali fiquei. Ah Meu Deus como doía tanto, meu pobre coração.
(...)
Adormeci não sei quanto tempo depois. Despertei neste exato momento. Surpreso em saber que estou vivo, pelo menos acho que sim, pois penso, vejo, escuto. Mas estranho é o que sinto. Como se estivesse mesmo morto. Coloco até a cabeça próximo ao peito, mas nada. Foi mesmo embora. E o que vai ser de mim hoje, agora? Acordando todos os dias sem saber do meu coração, se nunca mais o sentir doendo.
teve um tempo em que ermão escrevia, e pra mim era duplo aproveitamento: não só da amizade e do bereteio, também como naquele livro que a gente lê e se enxerga, naquela música que chega de um jeito diferente.
hoje ermão escreve com outras tintas. ainda assim, converso com ele, mesmo de longe, num texto antigo como fotos amareladas. porque me ajuda a ver onde estou. e me faz acreditar que há beleza em tudo que sentimos.
era mais ou menos
três por quatro
dezoito vezes dois
nbp versus eu-você
amortização de quinze por cento
dois pra lá dois pra cá
torneio citadino de resta um
era mais ou menos
eh amiga 'dá-me dos'
centésimo de ano-luz
oitenta ção vinte ver sessenta aqui cem vergonha
era mais ou menos tipo minuteira de cozinha
calendário de folhinha
previsão do tempo cinco graus
noves fora
era tipo zero à esquerda
era três tigres tristes
era meia soquete
eram seis pras nove
taxa de glicose
quinta-colunas na ativa
e se olhasse mais de perto
eram nigelmansels na segunda fila a trezentos por hora
gessingers contando velocímetro só pra ver até quando a paciência agüenta
eram os dezoito do forte de copacabana
era uma nova primeira-dama
doze trabalhos de Hércules
Jesus aos trinta e três
dois a um
final de primeiro tempo
partida válida pelas quartas-de-final
era seis da tarde
sexta-feira-treze do sete de dois mil e dezenove
rua quinze de novembro número vinte e sete
um dois-quartos com suíte
e era como se fosse triângulo amoroso
entre quatro paredes
dois ponto-e-vírgulas
trepando de quatro
era mais ou menos
mais do mesmo
um mais um, ordinal cardinal
tudo regular
tudo por eu e noventa e nove
promoção no preço por quilo
era ingresso mais consumação
em noite de dose dupla
ou era seis seis seis, o número da besta
ou era qualquer outro número besta
era tudo pela geometria
raiz quadrada de n
mas depois mudou.
desde que me conheço por gente tive o mesmo guarda-roupa. já demolido e tomado de cupins, foi abandonado hoje, com a chegada de um novo[-usado hi-quality real wood 3 de 5 portas toca-fita c/ entrada pra ipod] herdado de Tatjana. fiquei olhando pra relíquia na calçada um instante, antes do carroceiro começar a carregar. todas as roupas que vesti estiveram guardadas ali.
FILHO da puta.
sempre odiei aquele guarda-roupa cretino minúsculo com um maleiro de portas cadentes e chaves desnecessárias que giravam em falso só abrindo por loteria. cabideiro e três prateleiras. uma vida de bagunça em três prateleiras. uma pra meias e coecas, outra pras camisetas e a de baixo pro resto. não sei como é que eu e a minha irmã dividíamos aquele troço na infânça.
vai-te sem nostalgia.
camarada do comércio informal de frete & montagem - gurizão - ficou fascinado com um dos quadros da sala. "mí-lês dá-vis". ele passava e não conseguia não olhar pra figuraça do negão, tocando trompete. dei um dos meus cds pra ele. uma coletânea do Miles em cd-r. [ahm. a maioria dos meus cds de jazz são cd-r's. do mestre só tenho o Kind of Blue e o Bitches Brew.]
agora eu tenho tanta gaveta que eu posso ter DUAS gavetas de meias e DUAS de kwecas. eu posso plantar torresmo hidropônico em uma e criar minissauros noutra. eu podia até descer no lixo e buscar as 50 fitas cassete que toquei fora - junto com uma carcaça de 486 [desktop] e uma pilha de apostilas do senac e três dúzias de vip e playboy que jaziam na última e persistente caixa que nunca foi aberta nestes anos todos desde que usada pra transportar tralhas quando la famiglia se desfez e eu vim para o cafofossauro do petrópolis. eu podia encher gavetas com elas. eram 50 porque outras 400 eu já tinha passado adiante, ou eliminado, nessa mudança. ficaram meia dúzia de raridades. nas 50 do lixo, só raridades também, mas de quase seis anos atrás, num tempo onde nem tudo se encontrava na internet. eu desenhava os logos das bandas nas caixinhas, com listagem das músicas, nome do disco e ano.
tem momentos em que eu sinto falta do barulho do toca-fitas, falei disso há um tempo atrás. mas a verdade é que, se falta o lúdico, mp3tags e last.fm são um conjunto bem mais prático. e neurótico.
tive que mexer na disposição dos móveis do quarto. tudo estranho. agora vejo o mural nas minhas costas, pelo espelho do guarda-roupas. espetáculo esse guarda-roupas.
meu apartamento parece um brique. vou botar plaquinhas "todos os objetos deste local estão à venda".
eu gosto dele assim. esse clima zona autônoma temporária. eu devia pichar alguma coisa nas paredes.
o que não significa que eu não o encheria de móveis como O Narrador de Clube da Luta se tivesse grana pra isso.
eu preciso comprar uma cadeira decente, porque essa tá demolindo com as minhas costas.
se eu começar a ficar reflexivo demais porque vou fazer 30 daqui a duas semanas e meia, me agridam.
vem que vem galopando pra cima da gente. ou com a gente.
começo ocupadíssimo de ano. uma ocupação melhor que a outra.
o que, evidentemente, é estranho.
e alvissareiro.
e o de vocês? como vem sendo?
acho que vou passar minhas férias em Agudo.

ou, a foto de seis milhões de bereteios. melhor foto.
e chove. como chovia em setembro de 2004.


















































