A informática é a mais perfeita significação da Modernidade: sendo um instrumental propício à instauração e disseminação da Ordem de maneira linear e em larga escala, e com a benesse de utilizar-se de processos matemáticos, logo exatos - embora esta exatidão encontre-se apenas em seu cerne isolado, em seu estado puro e de pré-aplicação -, ela infiltrou-se pouco a pouco para redefinir processos e a própria significação do trabalho.
Mas como tudo que está inserido e é utilizado na Modernidade, o dique da informática apresenta rachaduras, por onde o caos escorre e mancha a terra de azul. Se a ambivalência de toda Ordem Moderna (e de tudo que se insere nela, ou por ela é assimilado) é depender do Caos para ter uma razão de ser, os computadores e sua "lógica" não haveriam de ser diferentes.
Se é preciso realizar tarefas complexas, que se crie um programa. Se é preciso interligar pessoas, que nasça o e-mail. Se é preciso disseminar informação, que venha a internet. Se é preciso encontrar dados, que surjam os mecanismos de busca. Se é preciso de um espaço democrático de expressão, que faça-se o blog.
Do outro lado da represa, surge magicamente uma piscina inflável de mil litros, cheia até a boca, e as crianças preparam-se para pular dentro dela e refrescar-se. Tantos fabricantes diferentes produzindo componentes e periféricos de PCs resultam em incompatibilidade, ou pior, a rejeição latente, que só se manifesta na tela de erro fatal quando clicamos em "Salvar Documento". O aparelho começa a comportar-se mal por causa de código malicioso; e então, ao sistema operacional e ao processador de texto, soma-se o antivírus. A conexão que liga o homem ao mundo é invadida por hackers que roubam arquivos, senhas de banco, destroem sites.
Hoje antivírus, firewall, bloqueador de spam, anti-adware e spyware não são mais exceções no mundo da informática; fazem parte do pacote. É como tomar um analgésico antes de levantar da cama - e não tem quem faça isso? - para não sucumbir a uma corrente de ar enviesada. O Caos, que é desprovido de valor moral - ou seja, não é bom nem mau (a não ser quando analisado pelos que esforçam-se em perpetuar essa Ordem ideológica como se fosse a única maneira de lidar com o mundo, e para eles realmente é) - surge com sua face mais maligna e vingativa.
Não raro, tais eventos são associados a temas místicos, superstição, desígnio determinístico, punição divina... Como pareceu ironia demais para ser natural o que nos ocorreu ontem. Nós, condôminos da Verbeat, festejávamos um ano de operações, e até brinquei, no e-mail enviado:
Portanto, saúde! Passamos um ano sem perder os nossos dados, aleluia! Sem nenhum processo, aleluia! Sem fama ou dividendos, também, mas quem se importa com isso quando sempre se pode ter Paris? Mesmo que seja uma foto da Paris Hilton como papel de parede no computador.
E viva o Maurício de Nassau!!!
Abraços,
El_Tang
ATENÇÃO: Os robôs de comment spam estão sendo desviados para Hokkaido enquanto comemoramos. Temos quatro minutos e meio! Vamos lá!
Cerca de uma hora depois, éramos invadidos por um comment spam flooding, uma avalanche de spam em nossas caixas de comentários. Foi só baixar a guarda.
Vocês já devem ter passado por algum desses - uma mensagem cheia de links para sites de sexo, cassinos online, lojas de remédios. Eles não esperam que o leitor clique ali e vá usar seus serviços; o que eles procuram é aumentar seu PageRank no Google, e assim aparecer no topo das procuras. Os spam robots entram nas caixas de comentário e deixam seu rastro imundo. Fosse apenas estética ou poluição visual, já incomodaria o suficiente, mas os malditos ocupam espaço no banco de dados.
Ou, pior que isso. Eles escolhem um alvo e o inundam com milhares de comentários, por alguns minutos seguidos, causando uma sobrecarga nesse banco de dados. Resultado: meu blog e o do Gejfin simplesmente faleceram, ontem de tardezinha - embora o ataque tenha sido, ao que parece, ao blog da Olivia. Mas eles podem ter passado por aqui também durante o ataque; é difícil saber, já que logo eles estavam reduzidos a escombros.
Se hoje vocês lêem isso, é graças ao backup do nosso provedor, e a manutenção do Gejfin.
Mas nós somos húngaros e não desistimos nunca. Nesse momento, já contra-ataquei com acessórios no sistema - novos plugins do Movable Type para bloquear os maledettos. (Blacklist, NoFollow e MT-Close2, para os interessados.) Olho para o painel de controle e vejo, deliciado, quantos spams já foram bloqueados - em três horas, 60. E vem mais por aí. Estamos pedindo instruções do provedor pra instalar o Scode, que é aquele numerozinho que valida o comentário - do jeito que tem no Nelson, não aquele horror ininteligível dos blogs do Uol. É chato, mas mais chato é ficar sem blog.
Que não se culpe o Caos: a busca moderna da Ordem criou tanto a tecnologia do computador quanto a dos robôs de spam. Tanto as boas respostas do Oráculo quanto os métodos de modificar sua lógica.
Enfim. Pelo menos esses cobertores novos são antialérgicos. Func.







