empilhados na categoria (?) mini-ensaios

Aranhas de Marte

A informática é a mais perfeita significação da Modernidade: sendo um instrumental propício à instauração e disseminação da Ordem de maneira linear e em larga escala, e com a benesse de utilizar-se de processos matemáticos, logo exatos - embora esta exatidão encontre-se apenas em seu cerne isolado, em seu estado puro e de pré-aplicação -, ela infiltrou-se pouco a pouco para redefinir processos e a própria significação do trabalho.

Mas como tudo que está inserido e é utilizado na Modernidade, o dique da informática apresenta rachaduras, por onde o caos escorre e mancha a terra de azul. Se a ambivalência de toda Ordem Moderna (e de tudo que se insere nela, ou por ela é assimilado) é depender do Caos para ter uma razão de ser, os computadores e sua "lógica" não haveriam de ser diferentes.

Se é preciso realizar tarefas complexas, que se crie um programa. Se é preciso interligar pessoas, que nasça o e-mail. Se é preciso disseminar informação, que venha a internet. Se é preciso encontrar dados, que surjam os mecanismos de busca. Se é preciso de um espaço democrático de expressão, que faça-se o blog.

Do outro lado da represa, surge magicamente uma piscina inflável de mil litros, cheia até a boca, e as crianças preparam-se para pular dentro dela e refrescar-se. Tantos fabricantes diferentes produzindo componentes e periféricos de PCs resultam em incompatibilidade, ou pior, a rejeição latente, que só se manifesta na tela de erro fatal quando clicamos em "Salvar Documento". O aparelho começa a comportar-se mal por causa de código malicioso; e então, ao sistema operacional e ao processador de texto, soma-se o antivírus. A conexão que liga o homem ao mundo é invadida por hackers que roubam arquivos, senhas de banco, destroem sites.

Hoje antivírus, firewall, bloqueador de spam, anti-adware e spyware não são mais exceções no mundo da informática; fazem parte do pacote. É como tomar um analgésico antes de levantar da cama - e não tem quem faça isso? - para não sucumbir a uma corrente de ar enviesada. O Caos, que é desprovido de valor moral - ou seja, não é bom nem mau (a não ser quando analisado pelos que esforçam-se em perpetuar essa Ordem ideológica como se fosse a única maneira de lidar com o mundo, e para eles realmente é) - surge com sua face mais maligna e vingativa.

Não raro, tais eventos são associados a temas místicos, superstição, desígnio determinístico, punição divina... Como pareceu ironia demais para ser natural o que nos ocorreu ontem. Nós, condôminos da Verbeat, festejávamos um ano de operações, e até brinquei, no e-mail enviado:

Portanto, saúde! Passamos um ano sem perder os nossos dados, aleluia! Sem nenhum processo, aleluia! Sem fama ou dividendos, também, mas quem se importa com isso quando sempre se pode ter Paris? Mesmo que seja uma foto da Paris Hilton como papel de parede no computador.

E viva o Maurício de Nassau!!!

Abraços,

El_Tang

ATENÇÃO: Os robôs de comment spam estão sendo desviados para Hokkaido enquanto comemoramos. Temos quatro minutos e meio! Vamos lá!
Cerca de uma hora depois, éramos invadidos por um comment spam flooding, uma avalanche de spam em nossas caixas de comentários. Foi só baixar a guarda.

Vocês já devem ter passado por algum desses - uma mensagem cheia de links para sites de sexo, cassinos online, lojas de remédios. Eles não esperam que o leitor clique ali e vá usar seus serviços; o que eles procuram é aumentar seu PageRank no Google, e assim aparecer no topo das procuras. Os spam robots entram nas caixas de comentário e deixam seu rastro imundo. Fosse apenas estética ou poluição visual, já incomodaria o suficiente, mas os malditos ocupam espaço no banco de dados.

Ou, pior que isso. Eles escolhem um alvo e o inundam com milhares de comentários, por alguns minutos seguidos, causando uma sobrecarga nesse banco de dados. Resultado: meu blog e o do Gejfin simplesmente faleceram, ontem de tardezinha - embora o ataque tenha sido, ao que parece, ao blog da Olivia. Mas eles podem ter passado por aqui também durante o ataque; é difícil saber, já que logo eles estavam reduzidos a escombros.

Se hoje vocês lêem isso, é graças ao backup do nosso provedor, e a manutenção do Gejfin.

Mas nós somos húngaros e não desistimos nunca. Nesse momento, já contra-ataquei com acessórios no sistema - novos plugins do Movable Type para bloquear os maledettos. (Blacklist, NoFollow e MT-Close2, para os interessados.) Olho para o painel de controle e vejo, deliciado, quantos spams já foram bloqueados - em três horas, 60. E vem mais por aí. Estamos pedindo instruções do provedor pra instalar o Scode, que é aquele numerozinho que valida o comentário - do jeito que tem no Nelson, não aquele horror ininteligível dos blogs do Uol. É chato, mas mais chato é ficar sem blog.

Que não se culpe o Caos: a busca moderna da Ordem criou tanto a tecnologia do computador quanto a dos robôs de spam. Tanto as boas respostas do Oráculo quanto os métodos de modificar sua lógica.

Enfim. Pelo menos esses cobertores novos são antialérgicos. Func.

Para onde vamos?

Saiu nos EUA uma pesquisa fresquinha sobre a blogosfera naquele país. E diz:

.: Em novembro de 2004, 7% dos usuários de internet têm um blog - o que representa mais de 8 milhões de pessoas. É um crescimento que acelerou no ano passado: em junho/02, eram 3%; em fevereiro/04, 5%
.: Das pessoas que acessam a internet, 27% lêem blogs. Esse percentual era de 17% em fevereiro passado
.: 5% usam agregadores RSS ou XML para receber as atualizações
.: Por outro lado, apenas 38% dos entrevistados sabe o que é um "blog". O resto afirmou não ter certeza ou mesmo não fazer idéia do que a palavra significa
.: Perfil dos blogueiros americanos: homens (57%) jovens (48% tem até 30 anos), com diploma universitário (39%).

"The State of Blogging". Pew Internet & American Life Project. Janeiro/2005.

O crescimento não é apenas aritmético, mas também de relevância. Nos EUA - onde já entenderam que blog não é literatura, inferno - as eleições presidenciais mostraram uma crescente força de descentralização da mídia. Os blogs foram largamente usados como ferramenta de campanha, cobertura e propaganda nas eleições, sendo considerados essenciais para a formação da opinião pública pelos principais comitês de campanha - inclusive dando belos furos na imprensa. Na mesma pesquisa citada acima, um em cada dez leitores afirmou ler regularmente blogs que fazem/fizeram cobertura política, como o instapundit ou o Daily Kos - que tem mais de 250 mil acessos diários. (A título de curiosidade: os que votaram em Kerry levaram pequena vantagem sobre os republicanos.)

Velocidade interessa: dos furacões que arrasaram a Flórida até as primeiras fotos de caixões carregando soldados americanos voltando mortos do Iraque, foram os blogs que mostraram primeiro. Mas não só esse aspecto é importante. O tom pessoal, calor humano, solidariedade escarrada ao invés da máscara do distanciamento da imprensa - tudo isso fez dos blogs personagens centrais na tragédia do tsunami. Listas de desaparecidos, fotos e relatos pessoais, vídeos amadores, campanhas de arrecadação; poucas horas depois do horror, os moblogs - 'mo' de mobile, páginas atualizadas por celular/PDAs, com fotos - já "cobriam" (devo usar essas aspas?) a situação; e, logo depois, os blogs convencionais. (Há um apanhado de endereços e relatos aqui.) Veículos internacionais e nacionais - como a BBC Brasil e a Folha Online - usaram em seus sites dados obtidos nos blogs.

Tanto falatório e repercussão está colocando o blog no dicionário. Para o Merriam-Webster, "blog" foi a Palavra do Ano em 2004. E os blogueiros, reconhecidos como hard players na nova sociedade: a ABC News elegeu os bloggers como Pessoa do Ano em 2004.

Segundo a rede de comunicações, a cada dia são criados em torno de 10 mil blogs ao redor do mundo. Isso significa um novo blog a cada 7 segundos e meio. (Por outro lado, há estatísticas mostrando que um pequeno percentual disso dura mais de um mês.)

E mesmo quem está de fora não deixa de ser afetado; com milhões de blogueiros adicionando milhões de permalinks todos os dias, que impacto isso tem no oráculo - o Google - e outros mecanismos de busca? Ora, cada vez que fazemos uma pesquisa, é maior a probabilidade de acabar buscando a informação em fontes não-oficiais, não-tradicionais - os blogs. Como aponta Simon Waldman, diretor de publicações digitais do The Guardian:

"Não sei se isso é bom ou ruim; mas é verdade, e é terrivelmente significante. Porém o mais importante de tudo é a criação de um ponto de vista coletivo e emergente sobre o mundo, através das ações individuais dos blogueiros."

de Blogs: powerful people or people power?. Grifo meu.

(Quer um exemplo da interferência dos blogs no Google? Googlebomb (artigo, wiki, watchlist) - a primeira manifestação de terrorismo ao mecanismo de busca. Rapidamente: se um número suficiente de pessoas lincar este post com o texto "Receitas do Bob Esponja", o Bereteando vai aparecer como primeiro na lista de resultados por essa procura - mesmo que eu nunca tenha tocado nesse assunto.)

Passada a euforia (os blogs vão acabar com a imprensa! com o jornalismo tradicional! com os livros! com a escrita! blargh!) e a posterior depressão (blog é lixo! é diarinho! é retardo! bluergh!), chegou o momento de encará-los com distância e propriedade. Como o suporte que são. Como uma - talvez a mais - pessoal, flexível e veloz mídia de publicação, servindo a quaisquer propósitos com longo alcance. Mas também com responsabilidade, porque, citando Gejfinbein,

"Blogs serão, ou são, o repositório histórico e pessoal do Pensamento Presente da Humanidade."

Eu acho que é por aí.

Fuck the Broadway!

ou as exceções à minha regra de odiar musicais

Música é arte. Cinema é arte. Trilhas sonoras de filmes são arte. Às vezes. Macaulay Culkin

O primeiro musical que eu me lembro de ter visto foi O Mágico de Oz, o original de 1939, na tevê. Ia tudo mais ou menos bem, até que eles resolvem cantar.

TIAGO
Mãe, por que eles tão cantando?
MÃE
Porque é um musical, filho.
TIAGO
Por que, mãe?
MÃE
É o tipo do filme. É feito assim, tem musiquinhas no meio.
TIAGO
Mas o filme pára pra eles cantarem e dançarem essa música ridícula?
MÃE
Pode trocar de canal.
TIAGO
Por que, mãe? Por que que eles tão cantando? Por quê?
MÃE(histérica)
Desliga essa merda!

Eu detesto musicais.

Vejam o Rei Leão, por exemplo. Um desenho bacana, cheio de apuro visual. Quando a gente começa a curtir a trama, pumba: lá vem o javali e a corça (tem uma corça no Rei Leão? Deve ter) com uma canção. Aí o mundo pára e todos cantam.

Agora, se isso já é ruim o suficiente num desenho animado para crianças, o que dizer de um filme para adultos? Ou ainda, uma peça de teatro? Quem vai pra NY com uns bons trocados no bolso, chega arrotando:

"Ah, eu vi Cats e O Fantasma da Ópera na Broadway!"

Well buddy, eu respondo gritando, YOU FUCKING DUMB ASS. Que tal usar todo o seu dinheiro para forrar um prato de croissants de presunto e queijo, ehn? Porque uma peça de teatro onde todos páram para cantar é algo ridículo. Que diabos! É verdade que as artes cênicas não precisam necessariamente emular a realidade, mas, por favor, não faça nada a um ponto constrangedor como arranjar uma chuva de sapos e então colocar todos os personagens cantando ao mesmo tempo em diferentes locações! O que era aquilo em Magnolia? É de desligar a tevê e ir tomar uma banho gelado pra não quebrar tudo!

Ah, a Noviça Rebelde. A Noviça Rebelde é um cancro. Pior que um musical é um musical para leigos. Soube que as crianças daquele filme se tornaram adultos tão agressivos e incontroláveis que tiveram de ir se tratar num spa em Chernobyl.

Amarrem as mãos de Bob Fosse! Esquartejem Baz Luhrmann! Calem Chorus Line! Prendam Cláudia Raia numa masmorra! Grease é cafona e Olivia Newton-John tem um cabelo péssimo. A Pequena Loja dos Horrores é um bom filme demolido por canções inoportunas e sem graça. Fred Astaire? Ginger Rogers? Gene Kelly? Dean Martin? Deixe-os para a História - desde que ela fale bem baixinho. Musicais: filmes mal produzidos, repetitivos, sem identificação com o público. E remakes, sempre remakes! Por exemplo, o "oh! super-filme-que-tudo!" Chicago: é baseado no musical que estreou na Broadway em 1975; antes, houve uma versão para o cinema em 1942 com Ginger Rogers; e esse era uma versão de um filme mudo de 1927, que já era remake de uma peça de 1926. Êêêê! Que beleza! Não se cria um musical desde anos 30!

(E eu só não queimo os Embalos de Sábado a Noite porque a trilha é dos Bee Gees - e pô, Bee Gees é tão kitsch que tem que respeitar.)

Por outro lado, eu não sou radical o suficiente pra não tentar. (Ou como naquela HQ em que o Peninha (o primo do Pato Donald, não o cantor) é demitido d'A Patada, vai trabalhar na "Maccão" e desenvolve uma campanha publicitária de estrondoso sucesso para uma nova torta de quiabo, com o slogan "Não comi e não gostei!")

E tem três musicais que são muito, muito bons:

(...como eu comecei esse post na sexta, esqueci de um deles. Não deve ser tão bom assim.)

Bueno. O segundo é Dancer in the Dark, de Lars von Trier - porque a) é um excelente filme e b) quem canta é a Björk, o que muda tudo de figura. É um dramalhão da pior espécie, mas um belo filme. E a voz da Björk justifica tudo, ainda que eu até hoje não consiga escutar I´ve Seen it All sem que os olhos embacem.

E o primeirão é Everyone Says I Love You (1996), de Woody Allen. (Claro.) Filmado em NY, Veneza e Paris, consegue a proeza de mostrar que Julia Roberts, Edward Norton e Alan Alda não nasceram com as cordas vocais no lugar certo. E eu adoro a música tema, principalmente no final, quando a Goldie Hawn canta:

I'm through with love
I'll never fall again.
Said adieu to love
Don't ever call again.
For I must have you or no one
And so I'm through with love.

I've locked my heart
I'll keep my feelings there.
I've stocked my heart
with icy, frigid air.
And I mean to fall for no one
Because I'm through with love.

Why did you lead me to think you could care?
You didn't need me 'cause you had your share
Of friends around you to hound you and swear
With deep emotion and devotion to you.

Goodbye to spring and all it meant to me
It could never bring the thing that used to be.
For I must have you or no one
And so I'm through with love.

(Depois de anos à procura, achei a letra num estranho site russo .)

esily.jpg

Todos Dizem Eu Te Amo é um típico Allen (como quase todos são). O diretor já havia demonstrado interesse pelo tema em A Rosa Púrpura do Cairo, Tiros na Broadway e também com o coro grego de Poderosa Afrodite para cantar When you're Smiling no encerramento daquele filme. Além de tudo, tem sacadas geniais, como a intervenção de um rapper na música-tema:

I'm tired of love
Tired of all you muthafuckas

(Há pouco mais de um ano, eu encontrei esse filme em VHS para vender no Carrefour. A 7 pilas. Eufórico, corri até o caixa e comprei-o rápido, antes que ele desaparecesse no ar. Naquela noite, mostrando para Juliet minha nova aquisição, ela comentou: "Ah, que pena que só tinha dublado!"
Congelei.
Olhei para a caixinha.
Uma elipse vermelha inclinada, com a sentença, em letras vazadas: dublado.
Abri a tampa na parte traseira, senti a fita magnética entre os dedos e sim, puxei com força. Se tem uma coisa que NÃO VAI acontecer é eu ter um filme dublado em casa. Ainda mais um musical do Woody Allen!)

(Eu sei que eu podia ter tentado vender pra locadora de vídeo da esquina. Mas uma mistura de vinho e frustração acabaram com minha capacidade de raciocinar naquele momento.)

Allen e Trier, sim, são bons; talvez até não mereçam a pecha de "musical". Porque não tem aquela aura de ingenuidade dos anos 20 que todos parecem querer recriar e que é simplesmente péssimo, datado e forçado.

Ou, quem sabe, seja eu, mesmo. Talvez não consiga agüentar nada que não tenha sarcasmo e ironia por mais do que 10 minutos. Mas me sinto ludibriado quando vejo musicais! Não cantem, pelo amor! Voltem à ação! Que droga de mundo é esse?

(Como diz Allen no filme: I should go to Paris and jump off of the Eiffel Tower. If I took the Concorde, I could be dead three hours earlier.)

Outro Sabor

Outro sabor
ensaio para monografia

Uma discussão acalorada no post de ontem do Gejfin (bota permalinks, mané!) me levou a seguir falando sobre. Afinal de contas, houve deslize ético na nova campanha da Brahma?

A história todo mundo conhece. Uma proposta irrecusável - alguns falam em 600 mil reais, outros 3 milhões, e a Cervejaria Schincariol insinua esse mesmo valor, só que em dólares - tirou Zeca Pagodinho da cervejaria de Itu e o levou para a multinacional AmBev. Que feio, Zeca! Virando a casaca! (Você pode ver o filme no site da Brahma, e até baixar a música!)

Tio(s) Patinhas
Hoje em dia três segmentos movimentam o mercado publicitário: telefonia, varejo de automóveis e, como já há muitos anos, cerveja. Qualquer porcentinho conquistado a mais é comemorado como medalha em olimpíada. Será que Davi tá fazendo "cosquinha" no Golias? Verdade é que sim, a AmBev sentiu o cutuco. A Schin cresceu espetacularmente com o seu relançamento e ameaça forte a Brahma. O share de janeiro deste ano os coloca muito próximos, e a Antarctica já era:

Ranking das cervejas - janeiro/2004
Skol - 31,4%
Brahma - 18,2%
Nova Schin - 12,6%
Antarctica - 9,5%
Kaiser - 8,9%
Bavaria - 2,8%

E, ainda assim, o ranking aferido pela Nielsen mostra queda nas vendas da Schin - em dezembro, sua participação era de 15,2%. Beeeem mais do que os 8% que exibia antes do relançamento. É uma escalada monumental, que ajudou a afundar a Kaiser e desbancou a Antarctica, marca escolhida inicialmente para frear a Nova Schin - mas que foi ultrapassada rapidamente.

Quer a historinha?
Desde o malfadado "Experimenta!", a Schincariol cresceu seu faturamento em R$ 500 milhões - 50% a mais do que antes. Bateu a meta prevista para 3 anos em três meses. O impacto fez com que a AmBev cortasse em até 25% seus preços.

Logo, a reação ao sucesso da Schin era esperada. Por isso o Antônio Fagundes mostra uma Brahma no institucional recente da AmBev, e não uma Skol. (Aliás, porque é que ninguém falou de ética antes? Pra quem não lembra, Fagundes era o garoto-propaganda da Primus, marca premium da Schin.) Como um todo, a comunicação da Brahma é equivocada; não segue uma linha facilmente reconhecível de criação ou direção de arte, troca de lugar a todo momento e raramente cativa. Lembram de alguns filmes anteriores? Com o mote "Refresca até pensamento", de um tudo já foi feito, desde a maldita tartaruga que dirigia o caminhão (e induziu um japa à morte, na Copa) até o imenso sol que dizia "caraca", passando pela lesma do Leindecker sendo abastecido de cerveja num posto de gasolina destruído e a Daniela Mercury cantando "legal que a Brahma rola" (sic) enquanto recebia uma pomba-gira. (O último filme bacana foi o de João Gilberto pedindo "a número um", em mil novecentos e pré-história. (Ironia do destino, essa campanha foi criada por ninguém menos do que Eduardo Fischer, atual presidente da Fischer America - e diretor de criação da campanha da Nova Schin.))

Pra mim, tudo isso é bem pior do que terem comprado o Zeca Pagodinho. Um retardado feioso dizendo "Expeguimenta" é pior. Nizan acertou o timing deste contrataque - volta das férias, início do ano, meses após o relançamento da Schin (set/03)... É tempo suficiente para trocar de gosto por uma cerveja. Zeca está sendo visto como traíra? Ora, é apenas um músico que encheu a burra de dinheiro com essa história. Dinheirista, mercenário? Se a Schin oferecesse o dobro, ele ficaria? Diz-se que não, que se Zeca tivesse levado a proposta para a Schin, eles teriam coberto, mas que o pagodeiro estaria cansado de beber Brahma escondido. Mas me diga você se não trairia a Schincariol por tutu algum nesse mundo. É cerveja, quem se importa?

Se o Ronaldo jogasse uma copa pela Argentina, não seria antiético, por mais fdp que fosse. Ora bolas. Depois a publicidade é que é hipócrita.

Round N
O embate entre as duas marcas já começou pesado. Foram de baixo nível os teasers que precederam o lançamento da Nova Schin. Pra quem não lembra, a tartaruga (ex) símbolo da Brahma foi ridicularizada, bem como uma velhinha no papel de uma modelo de comercial de cerveja de outrora. Hoje, Fischer ironicamente diz sentir-se lisonejado por suas idéias e garotos-propaganda terem sido roubadas. Chora um comportamento ralé por parte da concorrente África, agência da Brahma e encabeçada pelo mitológico Nizan Guanaes. "Ele rasgou todos os códigos de ética em nosso negócio. Passou recibo e usou a nossa idéia. Já o Zeca, nunca vi um artista com contrato vigente fazer uma barbaridade dessas. Ele terá de se explicar para toda a classe artística", disse Fischer. Nizan rebateu: "A reação da população é a melhor possível. Eu esperava essa repercussão. A cerveja é polêmica. A cerveja é gregária. É em torno da qual você se reúne com os amigos para discutir sobre futebol e política. É evidente que não íamos fazer um movimento desse e supor que não haveria controvérsia". Nizan, painho, coronézinho - cê foi sujo e rasteiro como dizem? A meu ver, foi uma grande resposta. Não de mestre, não genial. Mas uma boa resposta, à altura dos avanços crescentes da Schin.

Nada consta
A representação apresentada no Conar - órgão que auto-regulamenta a propaganda no Brasil - não deu em nada. "Considero o texto da publicidade (letra da música), bem como seus visuais, a princípio, protegido pelo artigo 32 do Código por se enquadrar nos limites estabelecidos da propaganda comparativa", informou o relator do processo. Fischer voltou-se contra a entidade: "É fato que um episódio dessa magnitude não deveria mesmo estar previsto no código de ética, mas como o Conar pôde considerar que não houve dolo à concorrência em cima de uma infração ética tão flagrante como essa? (...) Se o código (do Conar) não consegue impedir eventos como esses, então nós publicitários precisamos rediscuti-lo".

A briga não deve parar por aí. Zeca Pagodinho deverá ser processado por perdas e danos e rompimento de contrato (que iria até setembro). A Ambev também será processada por aliciamento. Além disso, a Schin deve atacar por outros motivos, esses mais sérios, como questionar os eventuais prejuízos à concorrência com a fusão com a belga Interbrew. Entre as alegações estão a concentração de poder junto a fornecedores em comum, acesso a crédito mais barato e condições especiais com fornecedores estrangeiros, sob o risco de a Ambev deflagrar uma guerra de preço no setor que não poderia ser acompanhada pela concorrência.

Não é de hoje
A AmBev já bateu - muito - na Schincariol. Todo o relançamento foi povoado de boatos de espionagem industrial, e fitas chegaram a sumir das ilhas de edição. Um episódio menos ilícito ocorreu no final do ano passado, com um filme do isotônico Marathon. A assinatura dizia: "Nesse Ano Novo, experimenta uma vida mais saudável". A locução fazia menção a "apelos comerciais para você experimentar isso ou aquilo". O Conar, acionado pela Schin, suspendeu a veiculação do filme. Em sua defesa, a AmBev disse que "outorgar a titularidade da expressão 'experimenta' é um sacrilégio contra a publicidade mundial". O comercial saiu do ar, mas o argumento valeu; de tão marcado que ficou o bordão, o Conar decidiu que ele não deveria ser usado em 2004 - por isso você viu o filme em que os sons lembram a palavra, e que o slogan virou "Essa é a nova".

Sem xurumelas!
Não vejo sujeira em nada disso. Não houve plágio ou apropriação de idéias; apenas o garoto-propaganda é o mesmo. Ele ter virado as costas para a Schin e declarado sua preferência por outra marca é antiético? Não creio. Com ele, foi feito apenas o anúncio de lançamento. Se ele tivesse tido uma exposição massiva de longo prazo, que associasse produto e personagem instrinsecamente, seria outra questão; aí, Brahma e Pagodinho seriam rejeitados pela consumidor, que não veria autenticidade no comportamento de ambos. Mas ele só provou a cerveja e fez sinal de positivo. Pra mim isso não é o suficiente para julgar a propaganda antiética.

Enquanto isso, a Skol, cuja comunicação vem da F/Nazca, ri sozinha, e aposta no humor para vender cerveja - com uma comunicação consistente e variada, seja em publicidade, ponto de venda e eventos.

Confortavelmente assistindo ao circo, vos digo
E com experiência própria: melhor que fazer propaganda, é criticá-la :)

Vem aí: BBB4

E lá vamos nós outra vez, com a quarta edição do Big Bróder Brasil.
Quão ruim isso pode ser? Quão divertido?
Quanto tempo da nossa pauta de conversas sociais isso tomará?
Quem ainda agüenta o Bial usando gírias como "sinistro" ou a famigerada "espiadinha básica"?

ENQUETE sísmica
Assuntos preferidos em elevador
1. Clima
2. Futebol
3. Programação televisiva

COMO sempre
Com o fracasso de todos os seus outros reality shows - notadamente O Jogo, que foi uma bomba tão grande que por pouco não foi editada pra sair do ar mais rápido - a Globo e o Boninho apostam todas as fichas da requentada programação de verão nesse BBB.
O sistema de jogo será o mesmo. O programa terá 12 semanas de duração, com 14 participantes:
: os 10 já divulgados, selecionados entre mais de 70 mil fitas
: 2 que saem de uma votação hoje à noite
: 2 que vêm da promoção Quero Ser um Big Bróder, a revistinha. O sorteio será ao vivo, ambos entram na casa dia 15 e acrescentam uma partícula de caos no jogo.
(Gostaria que o primeiro fosse um açougueiro psicopata sergipano, e o outro, uma dançarina cuiabense de peep-show de 1m92 de altura.)

CAIPIRAS largam na frente
BBB1: Kléber Bambam, o vencedor, é um carioca com cara e jeito de caipira, que trabalha na Turma do Didi fazendo um carioca com cara e jeito de caipira. BBB2: o vencedor foi Rodrigo, o caubói caipira (que gastou o prêmio em cavalos e fazendas). BBB3: mais uma vez o vencedor é caipira: Dhomini, um chato, arrogante, sortudo e participante de uma seita picareta - mas, acima de tudo, um caipira.

COISAS bizarras
> O kit de alimentação básica da casa é composto de arroz, feijão e goiabada.
> Cada participante tem uma cota semanal de sabão de côco.
> Os participantes têm que ir ao confessionário pelo menos uma vez por dia. Lá, eles conversam com um psicólogo e com a direção do programa.
> São 40 câmeras e 60 microfones.
> Não há relógios na casa.

POR CIMA, é mais ou menos isso
O publicitário mineiro Eduardo, é o principal concorrente a caipira da edição, notadamente no critério geográfico. Temos também Rogério, o jardineiro de cemitério - que deve trazer fait divers absurdos à platéia. Buba, dono de boteco, chega evocando Maria Luísa Mendonça e deve ser o único a fazer auto-sexo na casa; Antonella, a nave-mãe, já foi previamente escolhida musa (a modelo argentina até já saiu na Playboy) e diz que quer rosetar. A única nordestina é a enfermeira Géris (sic), e com seus 30 anos é uma das mais velhas da casa. O tiozão (31) é o gaúcho Marcelo, conhecido como Dourado (uia!) e ora descrito como professor de educação física, ora como modelo, ora como lutador de jiu-jitsu, e usa um moicano estúpido.
O resto não se cria.

FOR EXPORT
As novas provas e atrações provavelmente serão adaptadas do BBB norte-americano, também sucesso estrondoso no país dos reality shows - na televisão aberta americana estão no ar mais de 20, e na fechada, mais de 50 (incluindo um chamado My Big Fat Obnoxious Fiancée).

COMPRE e use a marca
Claro, o BBB é uma maquininha de fazer dinheiro. Os cotistas do programa são Minuano, Assolan, Fiat e Azaléia, e estima-se em R$ 8 milhões cada participação. Os produtos BBB, a serem (re)lançados muito em breve, incluem tênis, camisetas, óculos de sol, chinelos, moda praia, fitness, bonés, chapéus, moda íntima feminina, roupas de dormir, meias, perfumes e cosméticos.
0300 e SMS também devem ser grandes armas para aumentar o faturamento da emissora. Fala-se em um serviço em que será possível ouvir o microfone do jogador que se quiser; um jogo de perguntas e respostas sobre o programa, pelo celular ao invés de via site; e maior participação do público em decisões da casa.
Destas opções, Boninho, diretor do programa, confirma apenas a última. O Big Boss (ou Big God, dependendo da fonte) será o quadro em que as votações pelo telefone irão interferir em questões da casa, como temas de festas ou permissão para ver ou não programas de TV.

PRA variar
Já rolam boatos, como sempre, de que a Globo estaria selecionando candidatos de outra maneira que não os vídeos. A coluna Ooops!, da Folha Ilustrada, diz que Antonella (foto) foi convidada às pressas, pessoalmente por Boninho (que seria seu amigo pessoal), e não teria participado da seleção. A assessoria de imprensa da moça nega tudo. Um professor de cursinho paulista também teria sido convidado pela Globo, mas recusou por causa de sua ética. (Claro. Nada tão confiável como um professor de cursinho.)
A coluna também publicou que o Buba (ah, ahahaha) deu uma festa, no seu bar, final de dezembro, pra comemorar sua ida ao BBB. Detalhe é que divulgar essa informação o desclassificaria. A Globo diz que ele fez por conta e risco, "chutando" que havia sido selecionado, e que o confinamento foi logo após a comunicação da escolha. A Gazeta do Povo, de Curitiba, noticiou em dezembro a escolha de Buba, e hoje republicou a nota.

ERA sério
My Big Fat Obnoxious Fiancée é o novo reality show da Fox americana. O enredo: moça precisa enganar sua família inteira, fingindo que irá se casar com um rapaz em 3 dias. Se caminhar até o altar, ela ganha 1 milhão de dólares.
Mas se você entendeu o nome do programa, já da pra imaginar a sacanagem. O noivo é "grande, gordo e irritante". E o detalhe é que a família do cara é toda formada por atores, que entram pra avacalhar a história.
Entretenimento de altíssimo nível.

MÁQUINA de pontos
Na terceira edição, o recorde de audiência foi de 47 pontos da Globo contra 13 do SBT.
E no cabo, é ainda melhor. No ranking das 150 exibições de maior audiência da TV fechada em 2003, o BBB, que passa no Multishow, ocupa 57 das 60 primeiras posições, inclusive os 19 primeiros lugares.


Mas toda essa ladainha é porque eu queria perguntar se isso é mesmo...

REALITY?
Pessoas de verdade entram na televisão. Elas
a) transformam em personagens, ou
b) continuam sendo pessoas de verdade.
Afinal de contas, a construção ficcional passa a ser realidade, ou a realidade vira ficção?



Este arquivo

Esta página é um arquivo de posts recentes da categoria mini-ensaios.

metástases é a categoria anterior.

ministra invade é a próxima categoria.

Posts fresquinhos na página principal - ou mexa nos arquivos pra ver outros posts.

v e r b e a t  b l o g s

impop

microblog, twittered

foi pra conta

rss's selessionadoss

blog 'n' roll