para casemiro de abreu, que nunca foi à balada
Olhando profundamente dentro daqueles olhos eu tive a sensação de brisas aquecidas soprando forte na orla de alguma praia do Mediterrâneo. Eu observei seus movimentos e senti a agitação das placas tectônicas sob o manto terrestre e suas conseqüências estrondosas na pele do planeta. Ela poderia sorrir e talvez eu visse os trigais que inclinam-se diante dos ventos clementes da primavera, refletindo o douro crocante da luz do sol. Criatura benéfica a toda natureza. Estandarte vívido da poesia do existir. Recriação da perfeição emoldurada em formas artísticas, opressiva Vênus cujos encantos destróem civilizações e constróem tantas outras. Diante dela me jorram as palavras, mas meus movimentos paralisam. Ela dança e me hipnotiza vulgarmente, os cabelos alisados à força impecavelmente acariciando os ombros desnudos, e meus olhos balançam nas órbitas. Órbitas que giram mais rápido diante de seus movimentos estelares. Desequilíbrio cósmico em meus sentidos. Olho nas profundezas de seu mar agitado novamente, e outra vez sou correspondido. Tem que ser agora. Hei de ter a adrenalina e a bravura suficientes para atravessar o cânion que nos distancia. Prendo a respiração, fixo meus olhos nos dela outra vez mais, dou um passo, esbarro num jovem de calças coloridas, outro passo, espero o garçom passar por mim, mais um passo, e ainda mais outro. Ela está mais próxima, e paradoxalmente mais distante. Não há recuo possível. O mundo gira e eu paro.
-- Oi.
-- Oi.
-- Posso perguntar o teu nome?
-- Não.
-- Ah, não faz assim. Eu sou o Fábio. Eu sou legal.
-- Tchau, Fábio.
Desilusão. A música subitamente transforma-se num samba chorado. Tenho impulso de quebrar o meu copo na maçã daquele rosto perfeito, mas apenas me afasto, em contrição que deve ter-me absolvido de uns bons anos de pecado. Tanta poesia e tanta ternura, tanto ardor e tanto esplendor, tantas possibilidades renegadas em três frases e um olhar indiferente. Ah, inutilidade dos sentimentos. Qual destino estava errado? O meu ou o dela? Ou o de seu pai ou da minha mãe, ou da amiga dela que me observa com escárnio e risotas tolas no canto da boca mal protegida pela mão? Cigarro entre os dedos, vossas gargalhadas, meu nocaute ao soar da campainha. Eu era a paixão que aquele coração embotado nunca conheceu, e agora eu sou um cisco soprado para fora de seus olhos.
Sementes vitais jogadas em solo infértil. O espermatozóide que não fecunda o óvulo. As crateras lunares e seus coelhos amordaçados. As mazelas da sociedade, a guerra no Oriente, a fome na África. Minha fome de amor. Meus restos reciclados. Meu lixo orgânico. Garrafas vazias, o copo cheio novamente, o coquetel de uísque, soda, drambuie, rancor e descompasso. Nuvens de gafanhoto, ferrugem, o braço partido da Vênus, o inverno sórdido onde nada brota senão a morte. Asteróides errantes em rota de colisão com meu planeta cada vez mais afastado do Sol.
E então acontece de novo. Quem era esta criatura que passou luzidia sob meus olhos? Jesus, Maria e José, as mais belas estátuas de Buda, o mar esplêndido aberto pelo profeta! De onde surgiu este desvairado fulgor divino, encarnado neste plano terreno na forma de uma loirinha gracinha de um metro e sessenta? Ah! Estrelas apocalípticas! Ah! Fenomenologia dos metais nobres! Ah! Melodias esvoaçantes em notas dissonantes de órgãos celestiais! Preciso ir atrás dela! Meu coração palpita tanto que mas consigo respirar! Espera-me! Estou indo! És o meu microdestino!
~.~
foi esquete poetikaos. 2002. escrevi, a pincel atômico numa folha, as três frases da garota e pedi auxílio da platéia (umas três ou quatro bravas mesas). moça bonita bem à frente topou a brincadeira. mas o diálogo saiu um pouco diferente.
-- Oi.
-- Oi.
-- Posso perguntar o teu nome?
-- Sim!
-- (cof)
-- Er - não!
(risos)
valeu a noite.