empilhados na categoria (?) literatura

é uma história de amor



há véus que tremulam verdes e lilases durante a noite. movidos por uma brisa suave, mas gelada como a ponta do nariz de um chihuahua. um vento marítimo carregado de pequenas partículas de sal marinho e suor de marinheiros, peixe recém descamado e madeira eternamente úmida. os véus oscilam para dentro e para fora, lambendo o pó dos móveis e trazendo para dentro do ambiente uma estranha presença de capitães de esquadra mortos já há bastante tempo, desfeitos de carne e pele em erosão contínua e misturados à maresia. havia nos véus milhares de microorganismos de alma netúnica preenchendo os espaços e os vazios e o ar pesado daquela praia.

em pequenos momentos da manhã nascente, a luz do sol torna-se azul. e da varanda, não se vê separação entre céu e mar, num horizonte monocromático sufocante. sobre o oceano azul-tranqüilo da madrugada recém desfeita e o céu atomicamente colorido da mesma forma, o sol crispa com chamas azuis as estrelas que desaparecem em direção ao futuro. não há futuro. mas há estrelas. e véus. e um copo de suco de laranja onde flutuam mínimos cristais de mel de eucalipto. e um cigarro. e cabelos negros perdidos pelo chão. e vespas rindo. elas são as primeiras a sair dos cantos da casa, tontas, buscando alguma coisa nas árvores do pátio, pequenos pontos pretos no azul da varanda, emaranhando-se por vezes nos véus e ali permanecendo presas. de tempos em tempos, os véus são recolhidos para a lavanderia, e então restos de vespas e marinheiros são derrotados por sabão em pó e amaciante.

e quando o sol se cansa de castigar pescadores e bodegueiros e cães pulguentos e pássaros lerdos, desaparece em poucos minutos, num pôr-do-sol veloz e acanhado. no verão, são esses os momentos em que o ar fica possuído de um amarelo-queimado estúpido que chamusca as múltiplas arestas dos ladrilhos coloridos. então tudo brilha demais, transformando a casa num farol a sinalizar o fim do dia. e há o retorno dos barcos para a praia, e as vespas voltam para as frestas, e os pássaros recolhem-se preguiçosamente para seus ninhos. já os bodegueiros riem e comemoram as luzes com gritos entusiasmados, saudando o regresso da noite, ligando em seus pequenos aparelhos de som portáteis música alegre em fitas cassete e preparando o gelo e as batidas. os cães ficam eufóricos, pulam em seus calcanhares e são escorraçados. mais tarde, quando todos estiverem bêbados, serão chamados para participar, ou mesmo consolar os desesperados.

ao último uivo desse cão cansado, alguém acende um incenso na sala aberta. a música agressiva cessa e é substituída por longínquos grunhidos, roncos, cricrilares, estalos e, como de praxe nas madrugadas dos sábados, gemidos. as vespas ouvem o ruído surdo e amanteigado da cortiça sendo perfurada, e os capitães de armada mortos invejam a garrafa de vinho derramando-se generosa em notas repletas de harmônicas num cálice de cristal fino como hóstia. os véus tornam-se lilases de rioja. o ar assume um tom acre, então ácido, então adocicado, então framboesa, então amora, então tesão. há como pano de fundo um ruído branco constante provocado pela maré extremamente coordenada, que faz diversas pequenas ondas quebrarem em intervalos mínimos de tempo umas das outras, espalhadas como uma rede de satélites pelo oceano. e um cigarro. e cabelos negros eternamente úmidos, carregados de pequenas partículas de suor de marinheiros mortos. e uma lâmina.

ela desliza até a sacada. os véus lambem-lhe marrom-dourado as pernas. a noite não permite interrupções e segue sibilando, terminando seu curso. a atmosfera marinha enche seus pulmões e ela a inspira, a assimila. alimenta-se de brisa suave e gelada. seus pêlos se arrepiam, e então os mamilos. o vinho lhe bebe. então um barco passa, ao longe, luz fraca, difícil dizer se é verdadeiro ou uma ilusão. um desejo projetado. nesse cinema a céu aberto, o barco está vazio. ela sabe que está. não há futuro. mas há estrelas. e marinheiros. e o seu capitão. e uma lâmina. e expectativa pelo momento certo. porque o capitão há de voltar. a brisa lhe preenche e dá esperanças. é uma noite escura e cerrada como a barba do seu capitão. e ele vai voltar.

o capitão ocupa quase todas as lembranças que ela tem do outro mundo. não costuma pensar muito na mãe, porque se culpa. e os irmãos e a irmã e os amigos afinal não importam. eram vespas a zunir que era louca, que estava desvairada, que era marrom e cinza e doente. mas o capitão valeu cada instante. vale. o capitão, ela ria comparando-o com os pescadores frágeis como seus caniços, era um homem inteiro. íntegro, honesto, culto, lindo, valente. meu pai, ela balbucia em voz baixa, o olho tremendo um pouco, brigando contra o choro, fazendo careta, prendendo respiração, ficando lilás e verde e um cigarro. e uma lâmina rindo. para o dia em que o capitão voltar. porque ele vai voltar. ele prometeu. textualmente, enquanto o enfermeiro a carregava na cadeira de rodas, ela meio sedada, os pescadores a entreolhar desconfiados, os bodegueiros cochichando e preparando frituras, as vespas desconfortáveis da casa recém aberta, uma tarde esquisita, de um sol amêndoa, mesquinho, incompleto, ele gritou, isabel, eu vou voltar, uma noite eu vou voltar. e ela lembra disso numa memória obnubilada como clara em neve, e ela chora de raiva.

e hoje, como todas as noites, ela inspira a brisa forçadamente, preenchendo-se do cheiro da alma de marinheiros mortos, procurando pelo cheiro da alma do seu capitão. ela sabe, que se ele morrer, ela vai saber. ela vai sentir o seu cheiro. ela teme que o capitão morra antes de voltar para buscá-la. isso não pode acontecer, isso estragaria tudo. e enquanto não o descobre no meio de grumetes apunhalados, pescadores desastrados, piratas azarados e policiais suicidas, ela espera. ela sabe que ele está vivo e voltando. voltando para buscá-la, para ela, para seu amor, sua filha, para encontrá-la sentada na varanda, nua, de mamilos excitados, rubra de vinho, e com a garganta aberta de fora a fora por um bisturi. porque ela quer que o capitão a encontre recém morta, fresca como o peixe que os pescadores vendem por um preço aviltante aos comerciantes da região. o capitão merece essa honraria. não é pelo telegrama de um pescador que saberá do tentador cadáver dela.

o breu luta bravamente contra o dia que força obstinado. há um galo que canta, e os véus tornam-se película turquesa-transparente. os pescadores fazem pequenos ruídos sortidos e o moleque do armazém entra assobiando e deixa na porta dos fundos as sacolas com frutas, vinho, cigarros, água, pão, azeitonas, salame e presunto, porque hoje é domingo. e o dia nasce naquele azul insuportável. e seu corpo relaxa, e ela sente sede, e um suco de laranja adoçado com mel de eucalipto. e um cigarro. não foi nessa noite, outra vez. ainda não foi nessa noite que eu fiz minha verdadeira loucura, ela ri, a boca tremendo um pouco, os cabelos da franja batendo-lhe nos olhos. o capitão acreditou quando todos disseram que ela estava louca. ela sabe que um dia ele vai ver a verdade. o amor verdadeiro que os une e insistem em desbotar. e então ele vai voltar, arrependido, para buscá-la. já até deve estar nesse longo caminho, ela tremula. ele vai me dizer que eu não sou louca e que eu posso voltar pra casa, isabel sonha, mas eu não vou ouvir porque é nesse dia em que vou estar morta, porque eu te odeio, e os véus se agitam pálidos e cremosos de manhã recém parida. e os barcos voltam para o mar, e os peixes são outra vez cinza-brilhante de escamas solares, e ela sobe as escadas deixando um rastro de cabelos negros, pegadas de pés suados, a lâmina repousando sobre o aparador essa noite também.


durante mais essa manhã, a casa dorme.

enquanto isso os bodegueiros, as vespas e a lâmina riem. isabel acredita que as vespas sabem de seu plano, porque micropartículas energéticas dos seus pensamentos ficam grudados nos véus e são absorvidos por aquelas que ali se emaranham, transmitindo as informações pouco antes de morrer para outras vespas que tentam auxiliá-las na fuga das tramas. além disso, isabel está certa de que elas enxergam tudo o que faz com o enfermeiro, nas tardes de segunda-feira, exceto as chuvosas, como forma de pagamento para que fique longe dela e da casa; esse era o trato. para um pasmado filho de pescador com curso técnico mas nenhuma ambição, trepar dá na mesma do que manter uma maluca sob forte regime de medicamentos, se o cheque continuar chegando. já os bodegueiros riem porque aprenderam a rir de tudo que lhes acontece, como uma maneira de suportar a existência limitada. assim, tornam-se poltrões em dois tempos, crescem-lhe as barrigas de cerveja e maledicência, mas covardes que são, chutam apenas cachorros. e a lâmina ri porque é uma lâmina. é mais; se fosse, já bastaria, mas é uma lâmina com uma missão. preparada para manchar de sangue rioja os véus verdes e lilases de uma noite escura e cerrada, como numa maldição que acaba engrandecendo o hospedeiro por causa da grandeza de sua maldade, orgulhosa de um ato destrutivo pela dimensão que acarreta ao seu portador, causando-lhe uma culpa que consome e preenche como a dor de uma falsa satisfação.

o sol logo briga outra vez com a intensidade inversa da lua. os peixes escondem-se no fundo do mar e os pescadores mergulham atrás deles, entupindo seus ouvidos com água salgada de marinheiros erodidos. as luzes da casa gritam histéricas e os cães latem para os espectros. algumas oliveiras brotam. vespas atacam uma laranja. as cores não descansam. há estrelas. o tempo parece lento.






~.~


intervenção de outubro de 2005 para Syrene, de Coccarelli. super special extra bonus track easter egg: vá ate este site, clique em "galeria", escolha a década de 90 e utilize as coordenadas 3, 4 para ver a tela que inspirou o texto.

em tempo: Jojo é incrível já na genética.

levei Virginia Berlim pra passear de avião e ela me acompanhou nos dias que se seguiram. li a contragosto, quase; primeiro a aeromoça, que me obrigou a desligar o mp3 player e me impediu de usar a trilha sonora que acompanha o livro. segundo, que acabou em meia-hora e eu fiquei sem nada pra ler. e eu não queria reler porque eu já tinha resistido a ficar triste na primeira leitura.

Virginia foi assistir comigo Death Proof, o último do Tarantino. o filme, só pra variar, é muito foda. tem quem não tenha achado tudo isso, que Tarantino sempre se espera mais e é um filme meio simples, lindo e tal mas meio simples, que até o Kill Bill era mais elaborado. mais ou menos Sexo Anal versus Virginia Berlim, os dois últimos do Biajoni. o primeiro era "a obra"; o posterior, uma experiência. a do Tarantino foi decepada ao meio pelos Weinstein, e a do Biajoni já entrega no título. experiências de autores e personagens; de tramas simples mas realizadas com o traço característico de cada um. que não se fique esperando revoluções a todo instante; ambos têm crédito pra inventar e se esmerar dentro de um universo restrito.

depois, assisti com Virginia um do Gondry, Science of Sleep. ambos achamos que o personagem principal do filme tem tudo a ver com o do livro do Biajoni. jovens mordendo os 30, com uma incapacidade gigantesca de comunicação, uma dor que não é de carência de amor - mas de compreensão do próprio sentido. a película do francês tem o ritmo próprio desse cinema, e também o clima de Virginia Berlim. o tempo assume andamentos diversos e as cenas nunca tem o mesmo padrão. os personagens são pesados de tanta angústia. e é um cara qualquer por aí, ninguém especial, alguém que bebe cerveja com a gente de vez em quando, que fica escrevendo blog, lendo livro e fazendo resenha comparando com coisas ao redor e afins.

na saída da sessão dupla, levei Virginia pra beber num boteco do lado do cinema. conversei um pouco com ela e fui franco. disse que tinha achado o livro... vazio demais. que não havia linguagem suficiente pra engordar as narrativas cerebrais, que o texto acabava ficando com tantas pontas soltas e o tédio do personagem exalando em excesso. mas, ao mesmo tempo, precisei reconhecer que, de certa forma, linguagem pra engordar narrativa é o que eu faço, e vejo mais a verdade ao redor num texto do Biajoni do que nas sandices que escrevo. talvez por isso tenha (quase) ficado triste; não só a vida é assim, cartesiana até no caos, como nem se preenche de palavras pra tentar um simulacro de sentido? a experiência de Virginia é cortante nos espaços que deixa. ela sorri e provavelmente eu a veja mais bonita do que realmente é, porque eu teria notado antes do que o protagonista do livro.

de volta pra casa, na estante, percebi que Virginia faz um belo contraste ao lado de Sexo Anal; são um livro feminino e um masculino, em trama, tempo e tratamento. ambos têm momentos marcantes e singulares. mas, lado a lado, Virginia Berlim não é um livro tão belo quando Sexo Anal é instigante, nem tão introspectivo quanto Sexo Anal é debochado. Biajoni não se supera, mas supera a questão; é como se tivesse parado de contar histórias e resolvesse conversar - usando inclusive os espaços abertos como pontuação. Virginia dá de ombros. sabe que nasceu experiência. e eu acho que ela estava grávida.

só a linguagem pára o tempo.
só a linguagem pára o tempo.

Você precisa de Sexo Anal

Ora, todo mundo que já falou sobre o livro do Biajoni fez trocadilho. Deixa eu fazer também.

Confesso que eu tenho uma relação de amor e ódio com o blogueiro popstar da Verbeat. Conheci-o nas caixas de comentários alheias; depois, acompanhei um levante da blogosfera anexa exigir-lhe que tivesse um blog; e logo depois, notei-o rondando nosso terreno, e quando ainda tramava o bote com o Gejfin e o Milton, ele mesmo chegou e perguntou se não tinha um cafofo disponível. Acolhemo-lo (?) com um "ok, garoto" de ar blasé, mas exultávamos, oh, o mais pedido, o mais borbulhante, o cara legal, na Verbeat!

Depois, quando ele deu o bolo em nossa passagem por São Paulo, fim do ano passado, eu fiquei meio cabreiro. Puxa! O cara vai pra tudo quanto é lado encontrar comparsas de letras (pra depois fazer relatos magníficos no blog), e na minha vez não aparece? Ciúme, claro.

Além disso, todo mundo já tinha lido Sexo Anal, o livro não-editado mais famoso e resenhado da praça - menos eu. Até pro Gejfin ele já tinha mandado! Mais ciuminho. Ah, quem quer ler essa droga? Grandes coisas. Afinal, eu já sou beta-reader da Olivia, que é muito mais legal do que aquele BERBO mala.

Mas aí dia desses ele respondeu um comentário meu, onde dizia pra ele ler André Sant'Anna. (Ah - leiam André Sant'anna. Estou devorando "O Paraíso é Bem Bacana", que ganhei da Anne de dia dos namorados. Tô achando um pouco mais do que genial.) Acho que dessa vez provoquei ciúmes, e ele me mandou o livro anexado. Pronto. Ao receber Sexo Anal de Biajoni, senti-me inserido outra vez, de volta à turma. E antes que eu faça mais um trocadilho que pode render piadinhas que terminem com "rá, rá, rá" nos comentários, chega dessa introdução (buf) cretina e desimportante.


"Sexo Anal - Uma novela marrom" vem gerando buzz na internet já há algum tempo por disseminar-se viroticamente, ter seu mérito reconhecido e, ao mesmo tempo, não encontrar uma editora para publicá-lo. Até aí, nada que já não tenha acontecido (em menor escala); chama a atenção o fato de que continua gerando burburinho (a edição que recebi é de março/2005) - provou não ser fogo de palha. O motivo?

Não vou dizer que Biajoni reinventa a prosa rápida em seu livro, porque não sei o que é prosa rápida e nem sei se ela precisa ser reinventada. Mas ele faz algo nessa linha. Quando leio um "novo autor", prefiro que ele se distancie da linguagem cansada do romance convencional; espero que me traga algo novo, diferente em sua narrativa, em sua forma. (André Sant'Anna, eu falava.) Biajoni faz isso - não pelos viéses mirabolantes da invencionice, mas pelo trote simples e preciso. Ao invés de criar quebra-cabeças, desconstrói; simplifica, enxuga. A linguagem ganha leveza e com isso, velocidade. E como tem sexo, violência e bons personagens, prende o leitor com facilidade. Ou seja: expliquei porque esse é daqueles livros que se lê numa tacada só. Sem pirotecnias, sem lenga-lenga, como uma corrida de 100 metros rasos. Sem barreira.

Numa cidade do interior de São Paulo, Virgínia, loira e gostosa e repórter de um jornal sensacionalista, depara-se com dois desafios: a reportagem sobre um crime brutal, e a singular disputa por seu talento. No caso, o cu. Nesse momento, o resenhista pára e pensa: é assim que se destrói um livro! Essa sinopse, somada ao título e a temática exposta logo antes, faz a obra soar como uma tosqueira porno-anárquica adolescente-febrilesca safana. Não é. Sexo Anal tem sexo, violência, merda e cu, e é um livro cativante porque o autor soube estabelecer uma relação bastante primária, porém enterrada no mangue moral: existem pessoas, e existe o que elas fazem no mundo. Sexo Anal, evidentemente, tem sexo anal - mas o tabu fica por conta do leitor. O autor não quer provar nada, nem chocar ninguém, nem mostrar que é "avançadinho". Sexo Anal jamais será um livro sobre sexo anal - não enquanto ato. Mas não espere metáforas. Os personagens não as conhecem. O autor talvez conheça, mas não tem o desejo de revelá-las. Fica por conta do leitor. Se quiser. Se não quiser, tudo bem, que divirta-se. Sexo Anal é divertido antes de tudo; literatura pulp, que deveria servir para nos lembrar de que ler também pode ser tão divertido quanto assistir a um filme ou uma peça - e ler este livro de uma vez só (e vai fácil) tem mais ou menos a mesma duração.

A história é coesa, não surpreende, tem seus clichês; mas acima de tudo, está viva. A trama literalmente desenrola-se, resolve-se ou não; é relevante, existe, e segue autônoma - fazendo lembrar a proverbial árvore da Verdade jornalística, que todos os dias tomba na floresta. Já os personagens surgem como destaque. Virgínia, seu namorado, seu proctologista, o colega de redação, o chefe, a amiga, o colega do namorado - criaturas bem definidas, bem desenhadas, unas em si, conectadas por laços cotidianos como os nossos, se a gente prestasse atenção. E é aí onde eu queria chegar. Sexo Anal é um livro sobre as pessoas. Por pior que essa frase seja, ainda são as pessoas que nos interessam, como voyeurs e/ou como espelhos de nós mesmos. Sexo Anal é um folhetim desse início de século e deveria ser publicado em partes num jornal de grande circulação. Sexo Anal, de Luiz Biajoni, é A Moreninha do século XXI.

E agora vocês me dão licença que eu vou imprimir o livro, botar embaixo do braço e ir procurar a Bruna Surfistinha. E em posse de um prefácio escrito por ela, vou esfregar a obra na cara de algum editor "inteligente".

Novos Eldorados

As sombras dos galhos da árvore tremulam sobre meu livro. Adoro o cheiro que levanta da grama recém-cortada. Seu verde cintila tanto sob o sol que parece produzir barulho, minúsculos estalos da fibra crepitando com a luz. São poucos os dias de temperatura amena, e é preciso aproveitá-los em cada minuto. Outono é meio-termo entre suor e o gelo. Respiro com paixão a todo instante; sinto-me novo com todo esse ar fresco nos pulmões, refrigerando minha carcaça. As folhas, claro, caem a todo momento em meu colo, em meu corpo, no meio das páginas. Engulo o silêncio com meus ouvidos e o aprisiono dentro de mim, estocando-o para o inverno que será passado em locais fechados, cheios de falatório, ar viciado e cores mortas. Se pudesse, passaria o resto da vida assim, repetindo momentos como esse. Boa leitura e serenidade; só me falta um cálice de vinho, que não busco para não precisar encontrar com Letícia. Ela possui a incrível capacidade de arranjar tarefas maçantes e cotidianas para me aporrinhar, o tempo todo. Jardel, tem que levar o lixo pra fora. Jardel, tem que trocar a lâmpada do sótão. Tem que arrumar a antena da tevê no telhado. Tem que levar os filmes na videolocadora, tem que comprar pão porque a Rosi e a Déia vêm lanchar com a gente. Tem que passar um verniz nessa cristaleira. Odeio meu nome, quando vem da sua boca. Já fui Jardel, vem cá que eu vou te fazer uma massagem, ou Jardel, vem tomar um conhaque comigo que já acendi a lareira, e até Jardel, vem me fez gozar como louca mais uma vez. E hoje sou Jardel, tem que passar óleo nos trilhos das cortinas. De “Jardel vem” para “Jardel tem que”. Por isso não vou entrar na cozinha. Estou morrendo de sede, mas me recuso a sair debaixo dessa árvore. A qualquer momento isso vai terminar. O sol vai se pôr, ou o alarme de um carro vai disparar, ou Letícia vai notar que eu não passei o rodo no boxe do banheiro depois de tomar banho hoje cedo, deixando a água empoçada, e então vai gritar da janela que não é minha empregada pra ficar limpando porcalhadas. Mas me adianto, me enervo, preciso respirar, ah, mais ar fresco dentro de mim, é um dia lindo de outono que se vai. Sabe-se lá que temperatura teremos amanhã. No noticiário disseram que deve chover. Deus, é melhor eu arranjar algo pra fazer na cidade, se isso acontecer. Me escondo num café afastado para terminar de ler esse livro, como alguma coisa rápida e depois vou direto para a universidade. Ler em casa é impossível, com a Letícia me aborrecendo. Droga, a porta da varanda bateu. Lá vem ela com alguma bobagem. Ela sempre corre atrás de mim se estou quieto por muito tempo.

–– Jardel, fiz suco de ameixa, quer um pouco?
–– Não, obrigado, querida. Estou sem sede.
–– Hmpf. Tá bom. Depois não reclama se ficar meia hora no banheiro se contorcendo.

Incrível sua perícia em ir do candidamente amável ao escatologicamente desagradável em apenas duas frases. Ela dá as costas e volta para dentro de casa. Viro-me em sua direção para mostrar-lhe dedo médio, mas o sol alaranjado incide diagonalmente sobre seus cabelos e sinto uma súbita onda de ternura me invadir. Ainda a amo, mas o que me deprime é que poderia amá-la muito mais. Sei que tenho caldeirões de paixão borbulhante dentro de mim, querendo escoar, querendo cobri-la de beijos e carícias, mas não consigo dar vazão a nada disso. Encolho-me e resfrio. Sugo mais ar fresco.

–– E Jardel, tem que trocar a resistência do chuveiro, porque hoje eu não vou tomar banho frio!

E se eu arranjasse uma amante? Pode não ser um expediente muito limpo, mas pelo menos faria justiça a mim mesmo. De que adianta ter fogo, ao lado de uma mulher como essa? Acho que me sentiria melhor, mais leve. Quem sabe até não seria um marido mais paciencioso se conseguisse relaxar? Se não estivesse sempre tão tenso? Ora, recém entrei nos quarenta, os cabelos estão firmes no lugar e, colocando a camisa para dentro das calças, até que não fico barrigudo. Mas onde eu arranjaria uma garota? Veja só, comecei pensando em amante e agora já quero que seja jovem. Quem sabe na universidade? A Suzana, aquela gracinha da secretaria, sempre fica me elogiando quando uso aquele perfume que a Letícia mandou trazer de Rivera. Eu poderia prestar mais atenção nos seus sinais, talvez ela realmente esteja interessada numa aventura com um professor quarentão e cheiroso. Sexo: isso vive acontecendo no departamento. O Saulo, por exemplo; se for mulher e passou com nota dez, pode desconfiar que não foi por causa de estudo. E ele nem se esforça, as meninas é que correm atrás dele. Outra providência é arranjar uma noite para minhas escapadas. Que tal terça? Sim, é um bom dia pra tentar uma investida. Eu sei que a secretaria fecha mais cedo. Não tenho aula nesse dia; melhor ainda. Dou uma desculpa qualquer pra minha querida e dedicada esposa, como... marcar uma aula no laboratório, por exemplo, e apareço por lá. Hm, preciso me lembrar de comprar camisinha. E passar bastante perfume. Será que a Letícia vai desconfiar se eu sair de casa assim? Melhor levar comigo e passar antes de descer do carro. E se ela der falta do frasco? Droga, vou comprar um outro vidro dessa merda e esconder dentro do estofo do assento. Agora, como é que eu vou abordar a Suzana? Onde é que fica a ponte entre o “Boa noite” e o “Que tal dividir uma garrafa de vinho naquele motel ali na rua de cima”? Não sei o que esses jovens fazem para arranjar sexo, hoje em dia. Já não sabia no tempo em que eu era jovem e estava na graduação! Havia os reflexos da euforia flower power, a liberação feminina, o anticoncepcional, o rock and roll, o LSD, todo mundo transava com todo mundo e eu preferia ficar sentado no gramado em frente ao saguão do prédio lendo um livro, porque isso era me ocupar com algo que eu realmente entendia. Que merda. Não mudou muito a minha vida desde lá. Se Letícia não tivesse tropeçado na minha mochila e, caída no chão, comentado “Nossa, adoro Roland Barthes, que legal, posso ver esse seu livro?”, provavelmente eu nunca teria feito sexo até hoje. Nunca fui bom com mulheres. Ah, se eu puder fazer a Suzana tropeçar em mim! Já sei: quando ela for para a fotocopiadora, vou esticar meu pé e ploft, ver ela desabar no chão. Aí eu pulo em cima dela, a possuo enquanto ela junta os papéis e volto pra casa, satisfeito e aliviado. Ao chegar, ainda dou um tapinha na bunda da Letícia, tentando esconder o riso escroque. Melhor, vou passar numa loja de conveniência e trazer flores para casa! Isso, flores, e uma caixa de bombons. Ah, a ironia de todas as coisas! Vou entrar pela porta, radiante, e lhe entregar os presentes dizendo “Para você, minha rainha!” Saco, o Paiva tá se aproximando da cerca, e o sol já está quase desaparecendo. Por favor, não aporrinhe, me deixe em paz com meus planos, obrigado?

–– E aí, Jardel! Eu e uns primos vamos fazer um futebolzinho depois de amanhã! Tem um lugar ainda, não quer jogar com a gente?

Eu sou um imbecil. Com essa bandeira toda, a Letícia vai descobrir na hora que eu andei aprontando.

–– Não, obrigado, vizinho. Terça eu já tenho compromisso. Fica para a próxima.

É melhor eu me controlar e chegar em casa com a mesma cara de sempre. Vou usar “Boa noite, querida, meu dia foi terrível, estou podre de cansado, já comi na rua”. E quando ela vier com seu “Jardel tem que”, eu vou... mandar ela calar a boca! Rá! Que ótimo! Minha testosterona ainda vai estar esguichando pelas veias; vai ser fácil, fácil. “Letícia, cala essa boca!” Quero só ver a cara que ela vai fazer. Então vou subir pro quarto e deixar minhas roupas espalhadas por todo o lado. E se ela reagir? Aí eu vou ter que rosnar mais alto, “Eu já disse que é pra calar a porra dessa boca!”, quer mais?, “E ai de ti se eu ouvir mais um pio!” Se ela parecer amedrontada, vou com o dedo em riste. Aliás, quer saber? Sou bem capaz de chegar em casa querendo mais sexo, é, minha adrenalina vai estar a galope! “Sobe já pro quarto e tira a roupa enquanto eu tomo um banho!” Ah, hahaha! Ela não vai entender nada. Eu vou mostrar pra ela quem manda na casa. Eu vou trepar com ela como se nunca tivesse trepado na vida. Vou acabar com a raça dela, vou fazer com raiva, com força, desafogando todos os “Jardel tem que” ouvidos e engolidos até hoje! Esse é o plano, conquistar o meu respeito com base na diferença entre os sexos! “Tá vendo isso aqui no meio das minhas pernas, mulher? Pois eu tenho, e você não tem! Por isso, de hoje em diante, vale a lógica: EU digo o que TEM e o que NÃO TEM que ser feito! Algum problema com isso, querida? Hein?” É tão simples! Uma boa e dominadora trepada, de quatro, com as mãos dela apoiadas na janela, e eu vou reestabelecer a ordem na minha vida. Quer ver se a Letícia não vai me respeitar outra vez, depois disso. Quem sabe, ela não volta a ser carinhosa e fogosa como era no começo? Ora, eu recém entrei nos quarenta, estou em boa forma, meus cabelos estão todos aqui ainda! É isso aí: eu vou fazer essa mulher se apaixonar por mim outra vez. Eu vou ser um novo homem, um novo homem voraz, forte e insaciável. Aposto que ela vai mudar de “Jardel tem que” para “Jardel, será que você pode, por favor, meu amorzinho?”

–– Jardel, já tá escuro, tu não vai entrar?
–– Sobe já pro quarto.
–– Quê?
–– Sobe já pro quarto e tira essa roupa enquanto eu tomo um banho.
–– Quê? Que roupa? Banho? Mas a resistência do chuveiro...
–– Tu não ouviu o que eu disse, Letícia? Vamos!
–– Ahm, tá, mas tu esqueceu teu livro debaixo da...
–– Deixa a porra do livro e sobe de uma vez!

Nos seus olhos, surpresa, confusão e insegurança. A insegurança que Letícia tinha quando começamos a nos apaixonar. Ouço seus tamancos subindo a escada. Antes de entrar em casa, aproveito o ar que ainda sopra fresco nesse início de noite e inspiro fundo, muito fundo, até que não haja qualquer espaço vago nos meus pulmões.

pré-venda-do-livro-novo-da-Fal

pré-venda-do-livro-novo-da-Fal.jpg.pague.ajude.fomente.pô!

O release começa assim:

Para Millor Fernandes, Edson Aran é “bom” e “pode continuar”.

Nem li o resto.

~.~

Camaradas blogueiros,

dia 28 lanço, em SP, "O Imbecilismo - e outros textos de humor". Vai ser na Livraria da Vila (Fradique Coutinho, 915, Vl. Madalena), em São Paulo. Se alguém estiver passando por perto e quiser aparecer, será uma honra. O livro também já está em todas más casas do ramo. Avisem os inimigos.

- Aran

Benva!

edições k apresenta:

manual do fantasma amador
de marcelo benvenutti

lançamento em porto alegre
no dia 2 de agosto, terça-feira, a partir das 19h
na palavraria (vasco da gama, 165, quase esquina com a fernandes vieira)

o livro é sensacional!
você não pode deixar de ler!
o autor pirou de vez!

por apenas 15 reais você terá uma
obra-prima da literatura universal

apareça por lá e confira!

PARVO
Ò Inferno?... Eramá...
Hiu! Hiu! Barca do cornudo.
Pêro Vinagre, beiçudo,
rachador d'Alverca, huhá!
Sapateiro da Candosa!
Antrecosto de carrapato!
Hiu! Hiu! Caga no sapato,
filho da grande aleivosa!
Tua mulher é tinhosa
e há-de parir um sapo
chantado no guardanapo!
Neto de cagarrinhosa!

Furta cebolas! Hiu! Hiu!
Excomungado nas erguejas!
Burrela, cornudo sejas!
Toma o pão que te caiu!
A mulher que te fugiu
per'a Ilha da Madeira!
Cornudo atá mangueira,
toma o pão que te caiu!

~.~

Gil Vicente é muito foda.

Ó

Recado do Caco Belmonte:

Casa Verde traz Marcelino Freire a Porto Alegre para oficina de contos

Estão abertas as inscrições para a oficina "Narrativas breves (e outras nem tanto)", com o escritor Marcelino Freire, idealizador e organizador do livro "Os cem menores contos brasileiros do século".

Os encontros serão no espaço STB Brasas (Rua Anita Garibaldi, 1515, Bela Vista), nos dias 4 e 5 de julho (segunda e terça-feira), das 14h às 17h.

Atenção: as vagas são limitadas, e as inscrições ficam abertas somente até 30 de junho (quinta-feira). Maiores informações pelos telefones 9121 7707 e 3227 8223 ou por e-mail (casaverde@casaverde.art.br). Inscrições a R$ 50,00.



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