não leio Veja, mas me caiu em mãos.
poderia falar da matéria de capa, sobre o livro de FHC ('o mais esperado do ano') mais entrevista. mas destaco Lya Luft, em sua coluna, falando sobre a recente ação da Via Campesina nos arredores de Porto Alegre - onde um grande grupo de mulheres destruiu laboratórios e estufas da Aracruz Celulose.
(...) Uma das malfeitoras proclamou em alto e bom som: 'No começo deu um medinho, mas, quando a gente começou a destruir tudo, foi muito lindo!' Os nazistas também acharam lindo queimar em fogueiras livros de Thomas Mann, Herman Hesse e centenas de outros grandes escritores e intelectuais, nos tempos de Hitler. Achamaram lindo estourar cabecinhas de bebês nos muros, espirrando miolos em cima das mães. Foi lindo ver e ouvir a agonia de milhares de pessoas inocentes nas câmeras de gás e depois aspirar o cheiro dos corpos queimados nos fornos crematórios. Os traficantes devem achar lindo matar lentamente os viciados, e diretamente os policiais ou cidadãos pacíficos, incluindo crianças.
Cuidado: se as autoridades deixarem impunes esses crimes recorrentes nas cidades e no campo - como tanta coisa grave por aqui é absolvida ou considerada normal -, em breve nossas casas, nossas escolas, hospitais, creches e fábricas serão invadidos e arrasados.
Lya Luft, 'Para onde estamos indo', revista Veja, 22/03/06
Lya - que sempre foi identificada com as questões sociais da mulher, ou me engano? - começa a crônica pedindo prisão para todos os envolvidos no assunto e segue comparando aquelas mulheres a nazistas. Lya Luft, a intelectual, pede cuidado e chama a atenção para o porvir, à melhor moda Regina Duarte afirmando que "sente medo". Lya Luft toca o terror no leitor porque Stédile, líder do MST e agregados, está solto, assim como as duas mil mulheres que prepetraram a ação criminosa.
Eu não acho que destruir material de pesquisa tecnólogica solucione qualquer coisa. Eu acho que Stédile é um equivocado. Eu acho que a impunidade é um grave problema brasileiro. E eu acho que chamar duas mil camponesas de nazistas que explodem crânios de bebês é uma estupidez, uma idiotice, uma asneira. Lya Luft não hesita antes de dar seu veredito, mas não pára um instante para pensar nessas mulheres, na condição em que elas se encontram, no que leva um ser humano que tira seu trabalho da terra a tornar-se invasor, depredador, vândalo - e achar isso bacana por estar indo à desforra, à vingança.
Lembro quando, em 2000, atearam fogo num relógio da Globo que contava os dias para os 500 anos do Brasil, aqui em Porto Alegre. Só faltaram pedir a forca para o radical. Ninguém se preocupa em pensar na atitude em si. E isso não significa deixar passar, ser conivente. Mas eu espero mais de alguém que escreve uma coluna na maior revista de circulação nacional. Um pouco de visão humana. Ela nem se dá ao trabalho de falar sobre as cientistas que perderam quinze anos de pesquisa durante a ação da Via Campesina. Ela está só preocupada em demonizar.
Lya Luft não se dá ao trabalho de pensar nessas pessoas ou seus motivos, ou mais, no fenômeno social que isso representa: a ascensão da barbárie, uma das saídas e cenários possíveis para o pós-neo-liberalismo. Ela julga e pede prisão, sob pena de que essas mulheres invadam nossas creches. Ainda bem que é prisão, o que ela pede. Senão eu ia pensar que ela também é nazista.