empilhados na categoria (?) equívocos

a essa altura, a maioria dos leitores do berê já está sabendo da polêmica envolvendo o blog da Petrobras.


caso não, segue uma pergunta inocente, como introdução, à vestibular:

1. Dado que Jornal de Grande Circulação envia perguntas para Grande Empresa com o intuito de realizar uma reportagem, assinale a alternativa que se apresenta mais correta.

a) Grande Empresa pode divulgar essas perguntas da forma e no tempo que quiser.
b) Grande Empresa pode divulgar essas perguntas -- e mesmo as respostas -- da forma e no tempo que quiser.
c) Grande Empresa só pode divulgar as perguntas após a publicação da peça jornalística.
d) Grandes Corporações de Qualquer Espécie devem ser combatidas.
e) O jornalismo morreu.


~.~


1: a Petrobras criou um blog, e nele divulgou perguntas que lhe foram enviadas por jornalistas do Estadão, O Globo e Folha de SP antes da veiculação das notícias. (letra B)
2: a atitude provocou imensa repúdia destes veículos, da Associação Nacional de Jornais, da ABRAJI e de muitos profissionais do jornalismo. (letra C)
3: a grande maioria das opiniões "leigas" discorda frontalmente dos queixosos, e recebe a iniciativa positivamente -- julgando que quanto mais informação houver, melhor aparelhados estamos. (também tem os que não tão nem aí pra isso, mas vibraram por revanchismo contra a "imprensa-golpista-de-direita-que-é-vista-como-governista-pela-oposição" etc. mas não precisamos desse viés.)


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pergunto por e-mail ao amigo Brigatti, jornalista, o que ele pensa sobre o episódio.


Estamos diante de um fato inédito. O comum é jornalista vazar informação que conseguiu com alguma fonte. Agora, fonte vazar informação que concedeu a jornalista é algo totalmente novo. Eu diria até surreal.


A Petrobrás, via blog Fatos e Dados, afirma que as informações que passou para os jornalistas do O Globo e Folha de S. Paulo são públicas. Tá certo. Só que os caras tiveram que formular as perguntas certas para obter o que queriam, e isso é mérito deles. O que blog fez ao publicar as respostas enviadas para os repórteres, foi tão somente prejudicar a matéria deles entregando o que estavam fazendo para a concorrência.

É como na história do Ali Babá e os Quarenta Ladrões. Só tinha acesso à caverna onde estava guardados os tesouros quem soubesse a palavra mágica. E os caras d'O Globo e Folha tinham essa palavra mágica. Tinham o know how, a manha, a expertise de extrair a informações que lhes era mais útil. O tesouro, então, é deles. Não se pode, depois que os caras conseguiram, tornar pública sem mais nem menos a palavra mágica!

O que vejo, portanto, é pura e simples sacanagem. Alguém que queria que a matéria deles fizesse água. E conseguiu, pelo visto.


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outro amigo, Sergio Leo, escreveu assim em seu blog:


(...) Fazer essa divulgação antes que a matéria seja publicada é trair o pacto de confiança que levou o repórter a revelar, antecipadamente, as informações que tinha, ao acusado, e só a ele.


Se o jornalista sabe que tem uma apuração importante, e que a revelação de suas informações ao denunciado fará com que ele vaze esses dados antes mesmo que o jornal possa publicá-los, na tentativa de esvaziá-los, de reduzir o impacto do furo, ele vai relutar em fazer essa checagem. Apurar com o acusado passa a ser o mesmo que divulgar a matéria antes que ela possa ser feita. Abrir a pauta para todo mundo.

É o que a Petrobras parece estar pretendendo. Mostra aos jornalistas que toda tentativa de checar uma informação exclusiva com a emrpesa converterá essa informação imediatamente em comoditty informativa, dado comum, coletiva de imprensa. Pergunta-se, como sempre se fez, sob compromisso de sigilo, à assesoria de imprensa, e lá se vai o furo.


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checar furo com assessoria de imprensa? sempre achei que jornalismo investigativo ou reportagem recheada, bem-feita, dependesse mais do insight do jornalista e de conversas ao pé do ouvido do que informações solicitadas via assessoria -- que, a rigor, deveria dar a mesma informação pra todo mundo. ainda mais em caso de empresa pública.

mas isso é só o meu achismo.


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a nota da ANJ não ajuda muito -- se nada -- no debate.


Numa canhestra tentativa de intimidar jornais e jornalistas, a empresa criou um blog no qual divulga as perguntas enviadas à sua assessoria de imprensa pelos jornalistas antes mesmo de publicadas as matérias às quais se referem, numa inaceitável quebra da confidencialidade que deve orientar a relação entre jornalistas e suas fontes.


perdão, ANJ. mas eu nunca ouvi falar que fonte tem obrigação de confidencialidade com o jornalista. só o contrário -- que a inviolabilidade do sigilo da fonte é um dos pilares da imprensa livre. pelo jeito, não estou errado; Pedro Doria (que teme que a atitude da Petrobras possa acarretar no enfraquecimento do papel do jornalismo na democracia) abre assim seu post sobre o assunto:


Antes de tudo: não, não existe sigilo de pergunta. A Petrobras, ou qualquer empresa, tem o direito de tornar públicas todas as perguntas que recebe de repórteres. Não é nem ilegal, nem antiético.


então quebrou-se um "acordo de cavalheiros?"

copio Leandro Demori:


(...) Jornalistas, aliás, quando acham que o furo vale a pena, fritam a fonte no George Foreman Grill - não deveriam se espantar, portanto, quando a brasa pega fogo do outro lado.


Isso se aplica também na parte sobre "entregar os furos ou informações exclusivas" obtidas pelos jornalistas ao divulgar as perguntas. Pode ser uma tremenda implosão no relacionamento, mas continua sendo do jogo. Além do mais, me espanto em saber que tem gente por aí entregando "furo" em perguntas via e-mail.


e nessa mesma linha, o ponto de vista de Alex Castro é definitivo:


Sérgio Leo lamenta que a atitude da Petrobras pode quebrar uma certa relação de confiança ou um acordo tácito, que ela tem com a imprensa. Ele usa a palavra "compromisso".


Oras, pois é justamente isso que estou celebrando.

Como representante do público-(e)leitor, não confio nem na mídia e muito menos na assessoria de imprensa de qualquer empresa. Igualmente, não acho que um tem que confiar no outro. Pelo contrário, para a sociedade, é melhor que não confiem e tenhamos acesso ao discurso de ambos.

A Petrobras não tem nada que confiar na imprensa. A imprensa não tem nada que confiar na Petrobras. Não devem haver acordos tácitos ou relações sigilosas entre a mídia e a Petrobras. As relações entre eles devem ser públicas e transparentes.

Daí a celebração.

E, não, eu não acho que a imprensa é toda canalha, ou que ela tem que acabar, ou que a Petrobras é santa, etc, nada disso. Eu apenas quero poder ouvir todo mundo. Antes, eu só ouvia a imprensa. Agora, eu também ouço a Petrobras. Antes, pra saber da Petrobras, eu precisava ler a Folha ou o Globo. Hoje, posso ir direto à Petrobras.

Daí a celebração.


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o blog da Petrobras lida com informação e com a imprensa. publica correções ao veiculado na grande mídia -- inclusive as cartas que envia pedindo reparação. não significa verdade, mas ao menos é a versão da fonte por completo, sem edição. é um blog corporativo, instrumento usado por um Setor de Comunicação, e não se espere que seja desabonador ou "isento". nada disso, no entanto, diminui a responsabilidade e o compromisso que uma empresa tem ao divulgar seus dados -- seja "sob sigilo até publicado" ou abertamente.

mas "chapa-branca" ou não, a verdade é que a maior estatal brasileira encontrou não uma nova ferramenta, mas uma nova forma de lidar com a informação. não é "fazer um blog", mas adotar a linguagem e a agilidade deste canal não-mediado para comunicar-se com seus públicos -- dar uma atenção que a blogosfera pode (e parece disposta a) absorver, e posicionar-se institucionalmente frente à imprensa.

nesse caminho, rompeu um tabu. entendeu que era seu direito publicar toda e qualquer informação -- incluindo os questionamentos dos jornalistas. com a justificativa de que aumenta a transparência e o arsenal do público para realizar uma leitura crítica das notícias. teve como motivação a tese do Brigatti, tem como fim o panorama descrito pelo Sergio? tem razão os jornalistas de sentirem-se prejudicados, para além do orgulho próprio, neste evento?

é o de menos. se a iniciativa da Petrobras mostrar-se firme a longo prazo, e popularizar-se, o que temos é um momento de quebra de paradigma. não o da possibilidade da prévia divulgação de perguntas -- esse eu nem sabia que existia; mas o da reordenação de pesos entre fonte e jornalista no processo informacional. "transparência" é uma palavra que já foi castigada pelos cínicos, mas é exatamente disso que se trata. e é nessa direção que precisamos ir.

a novidade vai exigir dos jornalistas (mais) uma adaptação de conduta; mas se a finalidade da imprensa é levar informação, o bom jornalista seguirá encontrarando caminhos para fazer bem seu trabalho. sinceramente me parece muito barulho por nada, mas respeito; ao que parece caiu um mito. e sem sobreaviso, sentiram-se enganados, é justo que estejam com o orgulho ferido. mas, no plano da prática, que adaptem-se.


apesar do sarcasmo e do exagero, mais ou menos como testemunha Jones Rossi, da Nova Corja:


Então, aproveitando este espírito de transparência suprema, comemoro a nova era estabelecida pela assessoria da Petrobras, que jamais teve a intenção de acossar jornalistas e estragar a apuração prévia. Afinal, se você é jornalista, trabalha sério e consegue informações exclusivas, por que não torná-las públicas via blog da Petrobras, para toda a concorrência ver? Esse negócio de sigilo é tão pré-twitter, tão pré-iPhone apps. Vamos evoluir, gente.


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vale ressalva: a publicação das perguntas no blog da Petrobras não significa o "fim da imprensa manipuladora". nem o uso da notícia com fins políticos. não é panacéia para o mal da desinformação, assim como não vai causar a implosão do jornalismo como o conhecemos.

é só uma nova jogada.


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para que não se enquadre em "jornalistas" apenas contendores, temos os exemplos de Luis Nassif e Luis Carlos Azenha, que louvaram a atitude. o primeiro comemora o "fim da era das perguntas em off", e Azenha vai mais além, elencando 10 respostas para a pergunta "Por que os jornais investem contra o blog da Petrobras?" A primeira delas é "Porque perdem o "monopólio da informação" e, com isso, autoridade sobre o público".


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não há em nenhum dos eventos diminuição alguma ao Jornalismo. se a Petrobras usa um canal "informal" para veicular o que lhe interessa, tanto mais precisaremos de boa apuração jornalística para confrontar e cruzar dados. se essa apuração vai dar-se em um processo totalmente transparente no lado da fonte, não me parece que o público -- que afinal de contas é o único que interessa nessa história -- saia perdendo em qualquer aspecto.


MAIS INFORMAÇÃO = BOM;
qualquer tentativa de controle da informação = fracasso instantâneo ou iminente.


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¹ saiba mais:
Petrobras Fatos e Dados
O blog da Petrobras e o desespero da mídia, Biscoito Fino e a Massa
Por que jornalistas experientes fingem não ver que a Petrobras age errado?, Sitio do Sergio Leo
A Petrobras e a Imprensa Golpista, Pedro Doria
Petrobras acossa jornalistas por causa de CPI, Nova Corja
A Petrobras Entendeu a Internet, Liberal Libertário Libertino
Agora o blog da Petrobras, Leandro Demori
Para jornalistas, no dos outros é refresco - Marcelo Träsel
Petrobras entra na blogosfera e enfrenta oposição de grandes jornais, Observatório da Imprensa
O Globo se supera e diz que perguntas são propriedade do jornalista, Túlio Vianna
Blog da Petrobrás: crítica à mídia ou manobra política tática?, Jorge Rocha
A Luz do Sol, Leandro Fortes
O blog da Petrobras, Claudio Abramo


~.~


update, 10/06:

o blog da Petrobras anunciou uma alteração em sua prática de publicar as perguntas antes da reportagem:


Perguntas dos jornalistas e respectivas respostas da Companhia continuarão a ser publicadas no blog e, a partir de hoje, por volta das 0:00h do dia da publicação da matéria, data que normalmente é informada pelo jornalista.


ainda não vi reações, além de uns poucos tweets; a maioria deles lamentando a mudança. @mvsmotta diz que foi vitória da grande mídia, por exemplo. particularmente não vejo grande mudança; acho que o ponto é justamente publicar antes. nesse caso, acordar um horário é uma concessão, mas com qual efeito prático? o importante é publicar antecipadamente. e ainda mais importante, o jornalista agora sabe que vai ter suas perguntas divulgadas. isso é o que deixa todos mais atentos e com melhor equilíbrio.

mesmo que um título do Estadão -- "Petrobras recua e blog só vai publicar o que sair na imprensa" -- cometa uma distorção grosseira. usar o verbo "recuar" ao invés dos mais IMPARCIAIS (a/c depto. de marketing) "ajusta" ou "altera" só lhe serve como pachorra; já dizer que a Petrobras vai "divulgar apenas o que sai nos jornais" é simplesmente inverdade. e má redação, uma vez que a frase, literalmente, transforma o blog num redundante espelho do próprio jornal. o G1, por exemplo, se saiu muito melhor.

já que estamos nas minúcias, "0:00h" não existe, blog da petrobras. só 0h.


e me parece que chegamos num ponto muito específico, em que podemos ficar discutindo "então quando a Petrobras vai divulgar perguntas de uma matéria que não saiu", ou quando um jornal reclamar que a estatal "vazou (sic) de novo" se a reportagem não for veiculada na data prevista, "e que garantias temos de que vá cumprir o que agora diz" etc. e tudo isso é bobagem. continua valendo o susto, a iniciativa de somar informação e, até, proteger o próprio jornalismo de si mesmo.

você tem dinossauros nos seios

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afinal, o que é arte?
no mínimo, dois dedos de colarinho e um pires de tremoço.

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O sol se põe ao meio-dia.


Gerry - 15/05/2003

grama, pasto

Pênalti. Era pênalti e todo mundo viu. Chegou avançando pela meia, tabelou com o lateral pela esquerda, passou um zagueiro na chaleira e ia passar pelo segundo quando o primeiro, esticando a perna na queda, calçou o atacante por trás. Pênalti claro, de concurso. Quem sofreu pede pra bater. A honra da estocada.

–– Tá maluco, seu juiz?
–– Mais respeito, moleque!
–– Passa pra cá a bola, doutor, que...
–– Deixa, deixa, negão. Deixa que eu bato.

O técnico faz que sim com o polegar. Vai ser seu primeiro gol no clássico estadual. Já imagina o orgulho do pai, a festa que vai ser São Vendelino, a cidadezinha de onde saiu há dois anos atrás. Guri, recém dezenove e já escrevendo o nome na história. A comemoração tá pronta: vai correr em frente à sua torcida, gritar o maior número de palavrões possíveis, e então colocar o dedo na frente dos beiços pra mandar o resto do estádio calar a boca.

–– Eu comi a tua mulher.
–– O quê que é?

Goleiro que é do ramo sempre incomoda o cobrador. Vai lá, tira a bola da posição, diz o canto em que vai pular. Irrita, desconcentra. Esse daí recém saiu do sub-20, mas já é manhoso feito castelhano. Se pega um artilheiro veterano, nem ouvidos; guarda a bola na gaveta e dá tapinha nas costas do inimigo durante a vibração do gol. Mas jogador verde entra na onda, responde, xinga.

–– Ontem de noite. Mas já foram muitas vezes. A gente namorou há um tempo atrás, não sabia?
–– Cala a boca, ô merda!
–– E é gostosa, hein? Aquela bundinha...

Juiz limpando a grande área, vai apitar. O goleiro se afasta, fazendo gestos obscenos com os dedos. Gritos da pequena torcida visitante em meio ao apupo ensurdecedor dos torcedores do time da casa. A grua da TV se move, procurando a posição perfeita para registrar o lance.

–– Chifrudo! Boi corneta!
–– Desgraçado!

Quase não tomou distância – coisa de quatro ou cinco passos. E então desferiu uma bomba, um foguete de perna direita, batido de bico, bem no centro da bola. Ela pegou pouca altura e velozmente chegou ao fundo da meta, viajando em trajetória retilínea. A bucha. Três centenas de torcedores atrás do gol fazendo mais barulho do que o resto do estádio lotado.

–– Mas que merda.
–– Gol, fiadasputa!

Aí resolveu mudar a comemoração já imaginada, e acertou um soco na boca do adversário. Antes que os outros jogadores entrassem na briga e criassem um tumulto generalizado, ainda conseguiu dar dois chutes ali onde dói mais. Foi expulso depois de sete minutos, quando a polícia controlou a situação, e saiu do estádio direto para a delegacia. Prestou depoimento, foi liberado. Não demorou a chegar em casa.

–– Quanto que terminou o jogo?
–– Seis a um. Aquele goleiro reserva do time deles tem os braços curtos.
–– Bem feito.
–– Dá pra explicar porque tu fez aquilo?
–– Não te mete. Coisa de homem.
–– Homem burro, isso sim. Vai dar suspensão, multa do clube!
–– Isabel, vou largar o futebol.
–– Como assim?
–– Largar. Vamos voltar pro interior. Vou aprender a fazer vinho com teu pai.
–– Mas e o futebol, animal?
–– Chega. Tenho uns trocados pra comprar uma terrinha, fiz meu gol no clássico. Acabou.
–– Tu tá completamente-
–– Faz as malas. De madrugada a gente pega a estrada e volta pra fazenda.

No outro dia só se falava, nas rodas da cidade, sobre a goleada massacrante e a fuga do jovem talento, que abandonou o clube e está incomunicável. O vice de futebol avisa que vai rescindir o contrato se o jogador não aparecer em vinte e quatro horas, e que negociações já estão sendo feitas para contratar uma peça de reposição.

No hospital, o goleiro encontra dificuldades para urinar. A dor é muito forte, e ainda tem toda a vergonha pela surra que tomou. Mas se consola, pensando que tem toda uma carreira pela sua frente.


15 fev 2004

pura bucha

o primeiro resultado numa pesquisa google por "sorvete" -

é uma página com o nome de SOVETE.

9h26

trabalho lomba acima. porto chove-me alegre. e eu de pés molhados. tênis furado. gotas.

15°C. chuva fraca. sensação de 15°C. vento: norte, a 3 km/h. ponto de orvalho: 13°C. umidade: 88%.

"é como naquela história da cigarra e do povo, a cigarra passava o verão todo trabalhando, enquanto o povo se divertia. Quando chegou o inverno, a cigarra morreu, o povo comeu toda a comida dela e ainda venceram uma corrida de carro." - Fry, de Futurama

~ p r o é m i o ~

Daniel: Isso é ridículo. Tudo isso.
Roberto: Func! Porra! Func!
Mariana (aproximando-se): Olha, moço, não vejo necessidade alguma para violência. Eu tenho as respostas, mas não consigo responder amarrada assim. (miando) Se você me soltar, podemos conversar com mais calma. Posso vestir algo mais confortável e...
Tiagón: Fica na tua, ô espertinha. Vocês precisam cooperar comigo ou não sairão daqui! Agora todo mundo fica quieto! Quem pergunta aqui sou eu!
Daniel (ajoelhando): Má, eu te amo! Eu ti amu!
Roberto: Eu só queria um danoninho.
Tiagón: Olha aqui. Eu cheguei no meio da história e não estou entendendo direito o que acontece.
Roberto: Dá uns tiro num danonito. Eh, eheheheh. Func.
Daniel: Esse aí tá travadaço.
Mariana (gemendo): Ai... dói todo meu corpitcho... tiuô, me soltaaaa...
Tiagón: Droga. Preciso ter as respostas, e rápido! Eles já estão se transformando em meus personagens, e então nada fará sentido! Tu, ô bocaberta! Me diz: o que é que tá acontecendo nessa história?
Daniel: Eu sou um palermão. Ela é a malvada que partiu meu coração. Ele é o machão violentão.
Mariana: Eu sou a gostosa. Os outros são os outros. E isso é tudo. Tu-do! Olha, que tudo? Sou ou não sou tudo?
Roberto: Eu tive um sonho, vou te contar: eu me atirava no oitavo func.
Tiagón: Concentrem-se!
Daniel: Ahem. Eu ia casar com a Má, mas ela me largou pelo cretino aí do lado, me fez traficar droga e tentou me matar.
Mariana: Eu apenas me deixei levar pela promessa de uma vida excitante e cheia de dinheiro.
Roberto (voltando da onda): E eu vô passá fogo nocêis tudo! Zuzo! (espumando) Gargh-
Tiagón: Hm. Tá. Acho que dá pra seguir assim.
Roberto (azul): Engraçado... que vontade louca de cair no chão e estertorar.
Tiagón: E aí, professor? Que te parece?
Ideber Avelar (saindo de um monolito): É. Esse Roberto aí, com tanta farinha, não come mais ninguém.
Tiagón: Obrigado. Pterodáctilo, leva Daniel e Mariana de volta para o carro. E Roberto... tira bem o pó dele e pode fazer um lanchinho.
Pterodáctilo: Graaaaaaak! Feito!
Tiagón: Eu disse pra limpar o pó, hein?! Hmpf!


~ c a p . X I X : C O N T R A - A T A Q U E ~

-- Mariana, o que aconteceu?

Daniel olha para a estrada deserta. A inundação parece ter baixado num piscar de olhos. Mariana também está confusa; não lembra quando pararam o carro, quando desceram dele ou o motivo de estar completamente nua - os gloriosos mamilos arrepiados com a brisa fresca. Ela ouve em sua cabeça uma voz dizendo-lhe para tocar-se, sentir o corpo delicioso, entregar-se ao prazer - mas a voz é interrompida quando, em outro plano, a esposa de Milton Ribeiro aparece no quarto e ele é obrigado a desligar o computador.

-- Daniel! O Roberto...!

Ambos olham para dentro do carro: lá está o corpo de Roberto, atirado sobre o volante. Mariana entra e puxa a cabeça do morto para trás, revelando um grande rastro de espuma branca, logo abaixo de dois olhos injetados de horror.

-- Uma hora isso ia acontecer.
-- Roberto... não... não...
-- Não chora, amorzinho.
-- No fundo, ele era apenas...

Não chegou ao fim da frase: tombou ao chão, golpeada com a porta do Karmann-Ghia na cabeça ao sair do veículo. Daniel sorri. A metade superior de Azhad, levado pela Ex-Virgem Feiosa num 'canguru' como aqueles de bebê, ainda segura a porta, satisfeito.

-- Me ajuda aqui, Feiosa. Vamos jogar ela no carro.
-- Zeca... Pegar Zeca! Feiosa! Pegar Zeca!
-- Calma, pequeno príncipe. Já vamos cuidar disso, fofinho.
-- Demorar muito tempo! Ficar sem ar escondido atrás de banco de carro minúsculo!
-- Ainda bem que sua metade de baixo preferiu a Broadway do que continuar contigo, senão não ia caber. Venham, fiquem na frente. Vamos embora. Feiosa?
-- Ele não quer ir.
-- Mas o quê?
-- ...Porco!
-- Porra, Azhad! Dá um tempo!
-- ...Poooooorcooooo!
-- Tá, larga a granada. Toma aqui um lombinho. Isso. Feiosa, vai dando de comer pra ele. Mas entrem no carro, pelo amor.

Na viagem até Montreal, Daniel dirige apressadamente, mas sem medo. Não que tenha ficado corajoso; está simplesmente cansado. Nos últimos dias foi agredido, baleado, chifrado, conversou com fantasma, e agora é aliado de um paquistanês pela metade. Não bastasse isso, leva no carro a esposa feiosa do árabe, um defunto e a ex-futura-mãe-de-seus-filhos, amarrada e amordaçada. A pressa que faz seu pé acelerar não é a do medo, mas a da impaciência. Sobretudo consigo mesmo; sabia que, não fosse burro, jamais teria se metido numa enrascada dessas. Burro, mas não culpado: Daniel só quer ir para casa. É um inocente perdido numa confusão, como costuma acontecer com os heróis - e com os idiotas que se metem com gente sem caráter. Ele não sabia se era um ou outro. Talvez fosse os dois. Sentiu saudades do pai. Quis ligar para o velho Julhão, mas não era uma boa idéia. A bateria do celular estava fraca e ele precisaria do telefone quando chegasse a seu destino. Desligou-o para poupar energia.

* * * * *

-- Oi, Maíra! Func! É o Roberto! Func!
-- Quem tá falando? Roberto? Que voz é essa?
-- Func! Eu preciso do func do Zeca! Do telefone!
-- Como assim? Tu tem o telef-
-- Eu perdiiiii! Guh! Func! Eu berdi o telefone! Me dá! Tem que ser agora! Fanc!
-- Roberto, você está tão estran... É, tá tudo bem mesmo. Anota aí: 2498...

* * * * *

-- Oi, Zeca! Func! É o Roberto! Func!
-- Mentiiiira, seu filho da puta.
-- Quê? Deixa de ser imbecil, eu juro que...
-- Aaaaah, te peguei! Rá rá rá! Bobalhão! Pô, tava te esperando ligar. E aí, acabaram com o paquistanês?
-- Oh, sim, func, claro. Acabemo com ele.
-- Ótimo.
-- Olha só... func. Tô precisando de mais func. Posso pegar aí?
-- Porra, vacilão. Tu é muito mancada. Trouxe o nariz do árabe pra mim?
-- Bã.
-- Tá. Então pode vir. Tô na fundição toda a tarde. Chega aí.
-- Pode deixar, idiota.
-- Que foi que você disse?
-- Tô a func! A caminho!

* * * * *

O plano era tão simples que não parecia plano. Deixar Azhad fazer seu serviço. Com Zeca fora da jogada, Mariana estaria livre para recomeçar sua vida. Se ao lado dele, já não sabia. Daniel ainda a amava, mas não poderia confiar no coração dela outra vez. Talvez pudesse confiar em seus magníficos peitos. Talvez. Talvez pudesse confiar agora, agorinha mesmo, ela toda nua, amarrada no banco de trás da Cherokee, amordaçada, olhar ora assustado, ora raivoso, ora sedutor. Hoje, não sabia o que esperar de Mariana. Qual delas era a verdadeira? Talvez todas fossem. Talvez ela devesse morrer com Roberto e Zeca. Talvez. Talvez. Mas qualquer coisa era melhor do que ficar ao lado daquele paquistanês bizarro, fazendo malabarismos com granadas enquanto espera o sinal para entrar na antiga fundição usada como matadouro e quartel-general de Zeca, o escroque-mor.

~.~

Porto do Desespero é uma novela bloguística coletiva, criação da Ana Lucia. Os capítulos anteriores:
I : A Carne
II: Historia de violência
III: O noivado
IV: A Encruzilhada
V: A Malvada
VI: Os Paquistaneses
VII: A Virgem celestial
VIII: As contas
IX: A Notícia
X: O Flashback
XI: O Fantasma
XII: O Cheiro
XIII: O Fantasma explicativo
XIV: Até parece ministro
XV: O Detetive
XVI: A Banheira
XVI : Os vôos
XVIII: Mais Vôos
Parece que a regra previa a duração de vinte capítulos - o que deixa nosso próximo autor com a responsabilidade do fecho. Ou não? Será que a novela segue? Bueno, já não é mais comigo. Agora é tudo com o Marcão!

ignomínias

anotaçãos compiladas desde 1985 para aquele projeto de substituir a folhinha do Coração de Jesus


• porque a verdade é que a busca incessante pela Verdade não passa de uma desculpa para todas aquelas mentiras espalhadas pelo caminho.

• é só olhar em volta: a benevolência do ser humano é uma virtude em extinção, a não ser que você seja um cachorro de madame. nesse caso, a melhor coisa a fazer é ganir sôfrego para a dona e mijar no pé da cozinheira pobre.

• aliás, a única coisa que diferencia um schnauzer da alta sociedade e um líder de governo sul-americano é que este tem inveja do bigode do primeiro.

• a astronomia, inclusive, se parece bastante com a situação política atual. aquela gente só pode ser de outro planeta. e você já viu os ternos que eles usam? marrom, cara! com gravata vermelha!

• sobreviver é a arte de viver com pouco, aprendi observando os movimentos sociais. quando fui demitido decidi aderir a essa proposta minimalista, e desde que passei a cortar os supérfluos da lista de supermercado, tenho comprado pilhas e pilhas de papel A4.

• aquilo que não me mata... me deixa extremamente cansado.

• pelo rádio, ouvi na voz do Papa: o mundo tem fome. e seguindo o que Helmenheinz definiu nos anos 50 como “mundo”, olha, pode me incluir nessa galera aí.

• talvez seja fato que o sexo prescinde do amor e essa relação possa seguir assim indefinidamente, mas um simples raciocínio cartesiano desmonta seu caráter cínico, ora, pres’tenção: o amor nasce onde há a paixão. a paixão surge de onde há o desejo. o desejo cresce com a atração. e a atração tá rolando agora! então, será que dá pra tirar logo a calcinha?

• não sei se Freud, de fato, era um cocainômano. mas concordo inteiramente com a suspeita de que ele afagava pães no supermercado em impulsos lascivos. e algo me diz que Jung era daqueles tipos que tem prazer em roubar canetas.

• será que há uma vida após a morte? e se houver, será que ela é bonita, é bonita e é bonita?

• todos os dias, ao sair de casa, sinto uma necessidade premente de retornar às minhas raízes no interior do Estado. com alguma sorte, conseguirei vender aquela plantação de mandioca em Marau por um bom dinheiro, e assim poderei comprar sapatos maiores.

• o segredo para bater pênalis é olhar bem fundo nos olhos do goleiro. se ele se apaixonar por você, talvez deixe a bola passar. no entanto, não é considerado de bom tom usar cílios postiços num jogo de futebol.

• no passado, repousam nossos feitos heróicos e atos de bravura. hoje, nos resta admitir as chances de dar três sem tirar são comparadas àquilo que Sartre eternizou como o ‘nada’.

• há uma grande diferença entre o que se vê e o que se nota, embora ultimamente eu prefira colocar os óculos pra qualquer coisa que não seja dormir.

• se é correto o aforismo beat dizendo que uma rosa é uma rosa é uma rosa, eu quero um desconto nessa dúzia aí, rapaz.

• o futuro, a Deus pertence? e eu, fico sem nenhum?

• a sabedoria popular ensina que jacaré, em rio que tem piranha, nada de costas. isso, no entanto, não impede que mergulhões zombeteiros se aproximem e lhe façam cócegas na barriga.

• nesta longa estrada da vida, é melhor eu parar pra tomar um cafezinho.

Degustando com Bereteando

Uma resenha haute-cuisine de supleménte gastronomique, eu acho

No programa de hoje: Donutz Perdigão.

Donutz é integrante da nova safra tecnorgânica de subprodutos de frango, que promete muitas novidades em termos de forma e consistência. No formato de uma prosaica rosquinha, o fabricante não pretende apenas mostrar uma nova apresentação do já tradicional acepipe, mas ousa querer lançar um estilo.

Apesar da proposta, começa fracassando no design. A rosquinha de frango da Perdigão é menos rosquinha e mais bolinho; o furo central é pequeno, e depois de assado acaba fechando-se em torno de si mesmo, evocando o mítico San Andrea num retorno à unidade da carne de onde veio. (Autofagia Cósmica e a Teoria das Espirais, de Darwin a Sanders: Para Compreender o Bife Rulê. J. San Andrea, Vermeat Press, 2001.) Um bolinho de dois dedos de altura; alto, pesado, imponente. Basta notar que cada embalagem traz 300 gr em seis unidades. E por isso, exige mais tempo na frigideira ou no forno (como testado): em nossa cozinha experimental, o produto levou 25 minutos para assar e dourar, em temperatura média-alta, ou o que o valha.

Durante a cocção, Donutz apresentou aroma identificado à média dos produtos similares e não provocou reação nos testes com insetos ou animais de pequeno porte.

Uma vez pronto, o empanado revelou-se com crocância e umidade bastante equilibrados, textura superior e bastante peso na língua. Foram identificados retrogostos de milho, couro e cânfora. Por ser uma peça compacta e firme, pede molhos mais densos, como o barbecue ou o tártaro. Donutz interage a contento com shoyo, mas não se sai tão bem quando servido em mostarda holandesa.

Dica do sommelier: Por ser um petisco habitualmente servido salgado e picante, lhe caem bem os tintos mais vigorosos mas não demasiadamente tânicos, como alguns cabernets chilenos ou mesmo o já popular tannat argentino. Tente beber tudo antes de comer.

Avaliação final: Donutz é bastante saboroso dentro de seu escopo, mas é mais caro (custa quase duas caixas da marca de nugget regular em promoção) e acaba não valendo a pena. NOTA: 3,8/5

adendum

no Programa Bereteando de Redução de Estereótipos. hoje, inspirado por ~O. :

banda de música, óculos de aro grosso e cabelos - para homens sem cabelo comprido

careca + banda = punk
careca + óculos de aro grosso = nerd
cabelo espetado + óculos de aro grosso = pop punk
franjinha + óculos de aro grosso = indie
óculos de aro grosso + punk = math rock
careca + math rock = post rock
franjinha + punk = boy band revoltada
careca + punk + óculos de aro grosso + boy band = briga feia

~.~

versão em miguxês para Ramones: Uma Risada Levou Minha Garota (kkk took my baby away).

~.~

drum roll.

sempre que eu vejo uma descrição pessoal, seja blogueiro ou no orkut, e tem a foto de alguém com mais de 40 anos, eu fico com a sensação de que é piada.

(mas eu acredito no dr. Claudio Costa. (que aliás é um grande blogueiro, é pai de uma das MineirasUai.))



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