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levei Virginia Berlim pra passear de avião e ela me acompanhou nos dias que se seguiram. li a contragosto, quase; primeiro a aeromoça, que me obrigou a desligar o mp3 player e me impediu de usar a trilha sonora que acompanha o livro. segundo, que acabou em meia-hora e eu fiquei sem nada pra ler. e eu não queria reler porque eu já tinha resistido a ficar triste na primeira leitura.
Virginia foi assistir comigo Death Proof, o último do Tarantino. o filme, só pra variar, é muito foda. tem quem não tenha achado tudo isso, que Tarantino sempre se espera mais e é um filme meio simples, lindo e tal mas meio simples, que até o Kill Bill era mais elaborado. mais ou menos Sexo Anal versus Virginia Berlim, os dois últimos do Biajoni. o primeiro era "a obra"; o posterior, uma experiência. a do Tarantino foi decepada ao meio pelos Weinstein, e a do Biajoni já entrega no título. experiências de autores e personagens; de tramas simples mas realizadas com o traço característico de cada um. que não se fique esperando revoluções a todo instante; ambos têm crédito pra inventar e se esmerar dentro de um universo restrito.
depois, assisti com Virginia um do Gondry, Science of Sleep. ambos achamos que o personagem principal do filme tem tudo a ver com o do livro do Biajoni. jovens mordendo os 30, com uma incapacidade gigantesca de comunicação, uma dor que não é de carência de amor - mas de compreensão do próprio sentido. a película do francês tem o ritmo próprio desse cinema, e também o clima de Virginia Berlim. o tempo assume andamentos diversos e as cenas nunca tem o mesmo padrão. os personagens são pesados de tanta angústia. e é um cara qualquer por aí, ninguém especial, alguém que bebe cerveja com a gente de vez em quando, que fica escrevendo blog, lendo livro e fazendo resenha comparando com coisas ao redor e afins.
na saída da sessão dupla, levei Virginia pra beber num boteco do lado do cinema. conversei um pouco com ela e fui franco. disse que tinha achado o livro... vazio demais. que não havia linguagem suficiente pra engordar as narrativas cerebrais, que o texto acabava ficando com tantas pontas soltas e o tédio do personagem exalando em excesso. mas, ao mesmo tempo, precisei reconhecer que, de certa forma, linguagem pra engordar narrativa é o que eu faço, e vejo mais a verdade ao redor num texto do Biajoni do que nas sandices que escrevo. talvez por isso tenha (quase) ficado triste; não só a vida é assim, cartesiana até no caos, como nem se preenche de palavras pra tentar um simulacro de sentido? a experiência de Virginia é cortante nos espaços que deixa. ela sorri e provavelmente eu a veja mais bonita do que realmente é, porque eu teria notado antes do que o protagonista do livro.
de volta pra casa, na estante, percebi que Virginia faz um belo contraste ao lado de Sexo Anal; são um livro feminino e um masculino, em trama, tempo e tratamento. ambos têm momentos marcantes e singulares. mas, lado a lado, Virginia Berlim não é um livro tão belo quando Sexo Anal é instigante, nem tão introspectivo quanto Sexo Anal é debochado. Biajoni não se supera, mas supera a questão; é como se tivesse parado de contar histórias e resolvesse conversar - usando inclusive os espaços abertos como pontuação. Virginia dá de ombros. sabe que nasceu experiência. e eu acho que ela estava grávida.
só a linguagem pára o tempo.
só a linguagem pára o tempo.
Ora, todo mundo que já falou sobre o livro do Biajoni fez trocadilho. Deixa eu fazer também.
Confesso que eu tenho uma relação de amor e ódio com o blogueiro popstar da Verbeat. Conheci-o nas caixas de comentários alheias; depois, acompanhei um levante da blogosfera anexa exigir-lhe que tivesse um blog; e logo depois, notei-o rondando nosso terreno, e quando ainda tramava o bote com o Gejfin e o Milton, ele mesmo chegou e perguntou se não tinha um cafofo disponível. Acolhemo-lo (?) com um "ok, garoto" de ar blasé, mas exultávamos, oh, o mais pedido, o mais borbulhante, o cara legal, na Verbeat!
Depois, quando ele deu o bolo em nossa passagem por São Paulo, fim do ano passado, eu fiquei meio cabreiro. Puxa! O cara vai pra tudo quanto é lado encontrar comparsas de letras (pra depois fazer relatos magníficos no blog), e na minha vez não aparece? Ciúme, claro.
Além disso, todo mundo já tinha lido Sexo Anal, o livro não-editado mais famoso e resenhado da praça - menos eu. Até pro Gejfin ele já tinha mandado! Mais ciuminho. Ah, quem quer ler essa droga? Grandes coisas. Afinal, eu já sou beta-reader da Olivia, que é muito mais legal do que aquele BERBO mala.
Mas aí dia desses ele respondeu um comentário meu, onde dizia pra ele ler André Sant'Anna. (Ah - leiam André Sant'anna. Estou devorando "O Paraíso é Bem Bacana", que ganhei da Anne de dia dos namorados. Tô achando um pouco mais do que genial.) Acho que dessa vez provoquei ciúmes, e ele me mandou o livro anexado. Pronto. Ao receber Sexo Anal de Biajoni, senti-me inserido outra vez, de volta à turma. E antes que eu faça mais um trocadilho que pode render piadinhas que terminem com "rá, rá, rá" nos comentários, chega dessa introdução (buf) cretina e desimportante.
"Sexo Anal - Uma novela marrom" vem gerando buzz na internet já há algum tempo por disseminar-se viroticamente, ter seu mérito reconhecido e, ao mesmo tempo, não encontrar uma editora para publicá-lo. Até aí, nada que já não tenha acontecido (em menor escala); chama a atenção o fato de que continua gerando burburinho (a edição que recebi é de março/2005) - provou não ser fogo de palha. O motivo?
Não vou dizer que Biajoni reinventa a prosa rápida em seu livro, porque não sei o que é prosa rápida e nem sei se ela precisa ser reinventada. Mas ele faz algo nessa linha. Quando leio um "novo autor", prefiro que ele se distancie da linguagem cansada do romance convencional; espero que me traga algo novo, diferente em sua narrativa, em sua forma. (André Sant'Anna, eu falava.) Biajoni faz isso - não pelos viéses mirabolantes da invencionice, mas pelo trote simples e preciso. Ao invés de criar quebra-cabeças, desconstrói; simplifica, enxuga. A linguagem ganha leveza e com isso, velocidade. E como tem sexo, violência e bons personagens, prende o leitor com facilidade. Ou seja: expliquei porque esse é daqueles livros que se lê numa tacada só. Sem pirotecnias, sem lenga-lenga, como uma corrida de 100 metros rasos. Sem barreira.
Numa cidade do interior de São Paulo, Virgínia, loira e gostosa e repórter de um jornal sensacionalista, depara-se com dois desafios: a reportagem sobre um crime brutal, e a singular disputa por seu talento. No caso, o cu. Nesse momento, o resenhista pára e pensa: é assim que se destrói um livro! Essa sinopse, somada ao título e a temática exposta logo antes, faz a obra soar como uma tosqueira porno-anárquica adolescente-febrilesca safana. Não é. Sexo Anal tem sexo, violência, merda e cu, e é um livro cativante porque o autor soube estabelecer uma relação bastante primária, porém enterrada no mangue moral: existem pessoas, e existe o que elas fazem no mundo. Sexo Anal, evidentemente, tem sexo anal - mas o tabu fica por conta do leitor. O autor não quer provar nada, nem chocar ninguém, nem mostrar que é "avançadinho". Sexo Anal jamais será um livro sobre sexo anal - não enquanto ato. Mas não espere metáforas. Os personagens não as conhecem. O autor talvez conheça, mas não tem o desejo de revelá-las. Fica por conta do leitor. Se quiser. Se não quiser, tudo bem, que divirta-se. Sexo Anal é divertido antes de tudo; literatura pulp, que deveria servir para nos lembrar de que ler também pode ser tão divertido quanto assistir a um filme ou uma peça - e ler este livro de uma vez só (e vai fácil) tem mais ou menos a mesma duração.
A história é coesa, não surpreende, tem seus clichês; mas acima de tudo, está viva. A trama literalmente desenrola-se, resolve-se ou não; é relevante, existe, e segue autônoma - fazendo lembrar a proverbial árvore da Verdade jornalística, que todos os dias tomba na floresta. Já os personagens surgem como destaque. Virgínia, seu namorado, seu proctologista, o colega de redação, o chefe, a amiga, o colega do namorado - criaturas bem definidas, bem desenhadas, unas em si, conectadas por laços cotidianos como os nossos, se a gente prestasse atenção. E é aí onde eu queria chegar. Sexo Anal é um livro sobre as pessoas. Por pior que essa frase seja, ainda são as pessoas que nos interessam, como voyeurs e/ou como espelhos de nós mesmos. Sexo Anal é um folhetim desse início de século e deveria ser publicado em partes num jornal de grande circulação. Sexo Anal, de Luiz Biajoni, é A Moreninha do século XXI.
E agora vocês me dão licença que eu vou imprimir o livro, botar embaixo do braço e ir procurar a Bruna Surfistinha. E em posse de um prefácio escrito por ela, vou esfregar a obra na cara de algum editor "inteligente".
As sombras dos galhos da árvore tremulam sobre meu livro. Adoro o cheiro que levanta da grama recém-cortada. Seu verde cintila tanto sob o sol que parece produzir barulho, minúsculos estalos da fibra crepitando com a luz. São poucos os dias de temperatura amena, e é preciso aproveitá-los em cada minuto. Outono é meio-termo entre suor e o gelo. Respiro com paixão a todo instante; sinto-me novo com todo esse ar fresco nos pulmões, refrigerando minha carcaça. As folhas, claro, caem a todo momento em meu colo, em meu corpo, no meio das páginas. Engulo o silêncio com meus ouvidos e o aprisiono dentro de mim, estocando-o para o inverno que será passado em locais fechados, cheios de falatório, ar viciado e cores mortas. Se pudesse, passaria o resto da vida assim, repetindo momentos como esse. Boa leitura e serenidade; só me falta um cálice de vinho, que não busco para não precisar encontrar com Letícia. Ela possui a incrível capacidade de arranjar tarefas maçantes e cotidianas para me aporrinhar, o tempo todo. Jardel, tem que levar o lixo pra fora. Jardel, tem que trocar a lâmpada do sótão. Tem que arrumar a antena da tevê no telhado. Tem que levar os filmes na videolocadora, tem que comprar pão porque a Rosi e a Déia vêm lanchar com a gente. Tem que passar um verniz nessa cristaleira. Odeio meu nome, quando vem da sua boca. Já fui Jardel, vem cá que eu vou te fazer uma massagem, ou Jardel, vem tomar um conhaque comigo que já acendi a lareira, e até Jardel, vem me fez gozar como louca mais uma vez. E hoje sou Jardel, tem que passar óleo nos trilhos das cortinas. De “Jardel vem” para “Jardel tem que”. Por isso não vou entrar na cozinha. Estou morrendo de sede, mas me recuso a sair debaixo dessa árvore. A qualquer momento isso vai terminar. O sol vai se pôr, ou o alarme de um carro vai disparar, ou Letícia vai notar que eu não passei o rodo no boxe do banheiro depois de tomar banho hoje cedo, deixando a água empoçada, e então vai gritar da janela que não é minha empregada pra ficar limpando porcalhadas. Mas me adianto, me enervo, preciso respirar, ah, mais ar fresco dentro de mim, é um dia lindo de outono que se vai. Sabe-se lá que temperatura teremos amanhã. No noticiário disseram que deve chover. Deus, é melhor eu arranjar algo pra fazer na cidade, se isso acontecer. Me escondo num café afastado para terminar de ler esse livro, como alguma coisa rápida e depois vou direto para a universidade. Ler em casa é impossível, com a Letícia me aborrecendo. Droga, a porta da varanda bateu. Lá vem ela com alguma bobagem. Ela sempre corre atrás de mim se estou quieto por muito tempo.
–– Jardel, fiz suco de ameixa, quer um pouco?
–– Não, obrigado, querida. Estou sem sede.
–– Hmpf. Tá bom. Depois não reclama se ficar meia hora no banheiro se contorcendo.
Incrível sua perícia em ir do candidamente amável ao escatologicamente desagradável em apenas duas frases. Ela dá as costas e volta para dentro de casa. Viro-me em sua direção para mostrar-lhe dedo médio, mas o sol alaranjado incide diagonalmente sobre seus cabelos e sinto uma súbita onda de ternura me invadir. Ainda a amo, mas o que me deprime é que poderia amá-la muito mais. Sei que tenho caldeirões de paixão borbulhante dentro de mim, querendo escoar, querendo cobri-la de beijos e carícias, mas não consigo dar vazão a nada disso. Encolho-me e resfrio. Sugo mais ar fresco.
–– E Jardel, tem que trocar a resistência do chuveiro, porque hoje eu não vou tomar banho frio!
E se eu arranjasse uma amante? Pode não ser um expediente muito limpo, mas pelo menos faria justiça a mim mesmo. De que adianta ter fogo, ao lado de uma mulher como essa? Acho que me sentiria melhor, mais leve. Quem sabe até não seria um marido mais paciencioso se conseguisse relaxar? Se não estivesse sempre tão tenso? Ora, recém entrei nos quarenta, os cabelos estão firmes no lugar e, colocando a camisa para dentro das calças, até que não fico barrigudo. Mas onde eu arranjaria uma garota? Veja só, comecei pensando em amante e agora já quero que seja jovem. Quem sabe na universidade? A Suzana, aquela gracinha da secretaria, sempre fica me elogiando quando uso aquele perfume que a Letícia mandou trazer de Rivera. Eu poderia prestar mais atenção nos seus sinais, talvez ela realmente esteja interessada numa aventura com um professor quarentão e cheiroso. Sexo: isso vive acontecendo no departamento. O Saulo, por exemplo; se for mulher e passou com nota dez, pode desconfiar que não foi por causa de estudo. E ele nem se esforça, as meninas é que correm atrás dele. Outra providência é arranjar uma noite para minhas escapadas. Que tal terça? Sim, é um bom dia pra tentar uma investida. Eu sei que a secretaria fecha mais cedo. Não tenho aula nesse dia; melhor ainda. Dou uma desculpa qualquer pra minha querida e dedicada esposa, como... marcar uma aula no laboratório, por exemplo, e apareço por lá. Hm, preciso me lembrar de comprar camisinha. E passar bastante perfume. Será que a Letícia vai desconfiar se eu sair de casa assim? Melhor levar comigo e passar antes de descer do carro. E se ela der falta do frasco? Droga, vou comprar um outro vidro dessa merda e esconder dentro do estofo do assento. Agora, como é que eu vou abordar a Suzana? Onde é que fica a ponte entre o “Boa noite” e o “Que tal dividir uma garrafa de vinho naquele motel ali na rua de cima”? Não sei o que esses jovens fazem para arranjar sexo, hoje em dia. Já não sabia no tempo em que eu era jovem e estava na graduação! Havia os reflexos da euforia flower power, a liberação feminina, o anticoncepcional, o rock and roll, o LSD, todo mundo transava com todo mundo e eu preferia ficar sentado no gramado em frente ao saguão do prédio lendo um livro, porque isso era me ocupar com algo que eu realmente entendia. Que merda. Não mudou muito a minha vida desde lá. Se Letícia não tivesse tropeçado na minha mochila e, caída no chão, comentado “Nossa, adoro Roland Barthes, que legal, posso ver esse seu livro?”, provavelmente eu nunca teria feito sexo até hoje. Nunca fui bom com mulheres. Ah, se eu puder fazer a Suzana tropeçar em mim! Já sei: quando ela for para a fotocopiadora, vou esticar meu pé e ploft, ver ela desabar no chão. Aí eu pulo em cima dela, a possuo enquanto ela junta os papéis e volto pra casa, satisfeito e aliviado. Ao chegar, ainda dou um tapinha na bunda da Letícia, tentando esconder o riso escroque. Melhor, vou passar numa loja de conveniência e trazer flores para casa! Isso, flores, e uma caixa de bombons. Ah, a ironia de todas as coisas! Vou entrar pela porta, radiante, e lhe entregar os presentes dizendo “Para você, minha rainha!” Saco, o Paiva tá se aproximando da cerca, e o sol já está quase desaparecendo. Por favor, não aporrinhe, me deixe em paz com meus planos, obrigado?
–– E aí, Jardel! Eu e uns primos vamos fazer um futebolzinho depois de amanhã! Tem um lugar ainda, não quer jogar com a gente?
Eu sou um imbecil. Com essa bandeira toda, a Letícia vai descobrir na hora que eu andei aprontando.
–– Não, obrigado, vizinho. Terça eu já tenho compromisso. Fica para a próxima.
É melhor eu me controlar e chegar em casa com a mesma cara de sempre. Vou usar “Boa noite, querida, meu dia foi terrível, estou podre de cansado, já comi na rua”. E quando ela vier com seu “Jardel tem que”, eu vou... mandar ela calar a boca! Rá! Que ótimo! Minha testosterona ainda vai estar esguichando pelas veias; vai ser fácil, fácil. “Letícia, cala essa boca!” Quero só ver a cara que ela vai fazer. Então vou subir pro quarto e deixar minhas roupas espalhadas por todo o lado. E se ela reagir? Aí eu vou ter que rosnar mais alto, “Eu já disse que é pra calar a porra dessa boca!”, quer mais?, “E ai de ti se eu ouvir mais um pio!” Se ela parecer amedrontada, vou com o dedo em riste. Aliás, quer saber? Sou bem capaz de chegar em casa querendo mais sexo, é, minha adrenalina vai estar a galope! “Sobe já pro quarto e tira a roupa enquanto eu tomo um banho!” Ah, hahaha! Ela não vai entender nada. Eu vou mostrar pra ela quem manda na casa. Eu vou trepar com ela como se nunca tivesse trepado na vida. Vou acabar com a raça dela, vou fazer com raiva, com força, desafogando todos os “Jardel tem que” ouvidos e engolidos até hoje! Esse é o plano, conquistar o meu respeito com base na diferença entre os sexos! “Tá vendo isso aqui no meio das minhas pernas, mulher? Pois eu tenho, e você não tem! Por isso, de hoje em diante, vale a lógica: EU digo o que TEM e o que NÃO TEM que ser feito! Algum problema com isso, querida? Hein?” É tão simples! Uma boa e dominadora trepada, de quatro, com as mãos dela apoiadas na janela, e eu vou reestabelecer a ordem na minha vida. Quer ver se a Letícia não vai me respeitar outra vez, depois disso. Quem sabe, ela não volta a ser carinhosa e fogosa como era no começo? Ora, eu recém entrei nos quarenta, estou em boa forma, meus cabelos estão todos aqui ainda! É isso aí: eu vou fazer essa mulher se apaixonar por mim outra vez. Eu vou ser um novo homem, um novo homem voraz, forte e insaciável. Aposto que ela vai mudar de “Jardel tem que” para “Jardel, será que você pode, por favor, meu amorzinho?”
–– Jardel, já tá escuro, tu não vai entrar?
–– Sobe já pro quarto.
–– Quê?
–– Sobe já pro quarto e tira essa roupa enquanto eu tomo um banho.
–– Quê? Que roupa? Banho? Mas a resistência do chuveiro...
–– Tu não ouviu o que eu disse, Letícia? Vamos!
–– Ahm, tá, mas tu esqueceu teu livro debaixo da...
–– Deixa a porra do livro e sobe de uma vez!
Nos seus olhos, surpresa, confusão e insegurança. A insegurança que Letícia tinha quando começamos a nos apaixonar. Ouço seus tamancos subindo a escada. Antes de entrar em casa, aproveito o ar que ainda sopra fresco nesse início de noite e inspiro fundo, muito fundo, até que não haja qualquer espaço vago nos meus pulmões.
pré-venda-do-livro-novo-da-Fal

O release começa assim:
Para Millor Fernandes, Edson Aran é “bom” e “pode continuar”.
Nem li o resto.
~.~
Camaradas blogueiros,dia 28 lanço, em SP, "O Imbecilismo - e outros textos de humor". Vai ser na Livraria da Vila (Fradique Coutinho, 915, Vl. Madalena), em São Paulo. Se alguém estiver passando por perto e quiser aparecer, será uma honra. O livro também já está em todas más casas do ramo. Avisem os inimigos.
- Aran
edições k apresenta:
manual do fantasma amador
de marcelo benvenutti
lançamento em porto alegre
no dia 2 de agosto, terça-feira, a partir das 19h
na palavraria (vasco da gama, 165, quase esquina com a fernandes vieira)
o livro é sensacional!
você não pode deixar de ler!
o autor pirou de vez!
por apenas 15 reais você terá uma
obra-prima da literatura universal
apareça por lá e confira!
PARVO
Ò Inferno?... Eramá...
Hiu! Hiu! Barca do cornudo.
Pêro Vinagre, beiçudo,
rachador d'Alverca, huhá!
Sapateiro da Candosa!
Antrecosto de carrapato!
Hiu! Hiu! Caga no sapato,
filho da grande aleivosa!
Tua mulher é tinhosa
e há-de parir um sapo
chantado no guardanapo!
Neto de cagarrinhosa!
Furta cebolas! Hiu! Hiu!
Excomungado nas erguejas!
Burrela, cornudo sejas!
Toma o pão que te caiu!
A mulher que te fugiu
per'a Ilha da Madeira!
Cornudo atá mangueira,
toma o pão que te caiu!
~.~
Gil Vicente é muito foda.
Recado do Caco Belmonte:
Casa Verde traz Marcelino Freire a Porto Alegre para oficina de contos
Estão abertas as inscrições para a oficina "Narrativas breves (e outras nem tanto)", com o escritor Marcelino Freire, idealizador e organizador do livro "Os cem menores contos brasileiros do século".
Os encontros serão no espaço STB Brasas (Rua Anita Garibaldi, 1515, Bela Vista), nos dias 4 e 5 de julho (segunda e terça-feira), das 14h às 17h.
Atenção: as vagas são limitadas, e as inscrições ficam abertas somente até 30 de junho (quinta-feira). Maiores informações pelos telefones 9121 7707 e 3227 8223 ou por e-mail (casaverde@casaverde.art.br). Inscrições a R$ 50,00.
-- Não e não. Não acredito. Tá de trova.
-- Te fresqueia, Oliveira. Te digo que vi, foi na minha frente!
-- Sim! Te faz de louco! Aquilo não mata nem mosquito, que dirá...
-- Pergunta pro Fagundes! Pergunta! Pergunta pras outras cinco mil almas que tavam junto comigo naquela hora!
-- Que Fagundes, que nada. O diabo até míope é.
-- Chê... tu tá me dando nos nervos. Se eu disse que vi, é porque vi!
-- Tão tá. Que seja. Digo mais nada.
-- Posso continuar com a história?
-- Pues deslancha...
-- Bueno. Aí o Carazinho matou no peito, aquela estufada, deixou cair na coxa e segurou no peito do pé. Nisso o zagueiro se agigantando, e o Carazinho, mui tranqüilo, levantou pra ele mesmo, numa vertical pra cima, e enveredou numa bicicleta que...
-- Aaaah! Mas era só o que me faltava...
-- Arre, fiadaputa!
Morrer, não morreu ninguém; até fizeram dupla na bocha, dia desses. Mas do bolicho não sobrou inteiro nem o balcão onde o Lau cortava o salame e servia a pinga.
~.~
Ontem, a vida passou por mim.
Não a reconheci da primeira vez, quando surgiu como um cachorro arisco e de olhar caído. Nem da segunda, em que desceu do céu e parou ao meu lado no banco da praça, na forma de uma estranha ave negra. Só fui me dar conta no momento em que ela apareceu no corpo daquela garota. Linda como sempre, minha paixão da juventude, os olhos enormes e os lábios grossos. O caminhar de sorriso. Tão bela como foi há cinqüenta anos atrás. Na verdade, exatamente igual, sem ter alterada uma célula de sua constituição, as moléculas perfeitamente arranjadas como na fotografia que mantenho no recôndito da mente. Só aí percebi o encontro impossível que me era proposto.
Ela sentou-se com as pernas em lótus, no gramado à minha frente. Meneou a cabeça, sorriu com os olhos, sorriu com os lábios. Não disse palavra. Tampouco falei qualquer coisa. Fiquei perdido, tentando entender o que acontecia. Olhei para os lados e o mundo parecia absolutamente normal, com os outros velhos a jogar damas ou alimentar os pássaros, algumas crianças brincando silenciosamente e o pároco lendo a Bíblia no sol da manhã. Meu peito encheu-se de calor, ruborizei; senti a garganta engasgar e a respiração me faltou. Olhei para o céu, vi as nuvens graciosas a desfiar-se lentamente, o céu azul como espelho refletindo as pupilas de Deus. Tornei a visão para a garota, que moveu os dedos e fez uma carícia em meu rosto, embora sem que houvesse toque de carne. Pobre coração, palpitava como quando guri, louco para sair pela boca e ir encontrar-se ao peito dela, flamando desesperado pela falta que ela nos fez. Linda como um anjo. Tão distante que a fazia próxima da minha tristeza de outrora. Ah, tempos de glória, de pegá-la nos braços e beijá-la apertado, de pousar minha testa sobre sua fronte e ousar sonhar com aquilo que nós chamávamos tolamente de "futuro". Sentia, aos poucos, meus músculos murcharem, cansados, como se tivessem desistido finalmente. Negando-se a assistir esta última flor aberta.
Ainda sorrindo, ela levantou-se do chão e estendeu-me a palma aberta. Com o olhar mais terno que já recebi em toda minha caminhada por este mundo. Então compreendi.
-- Por que mandaram a ti?
-- Vem, vem. Me dá a mão.
-- Me abraça?
-- Melhor não... tua mãe já ficou enciumada o bastante.
Com sua aura macia, ela levou de mim todo o resto que havia deixado para trás quando me abandonou, há cinqüenta anos. E que eu já lhe havia entregue, mais de uma vez.
eu comecei a me tornar uma pessoa diferente quando resolvi mudar de turma no colégio
porque sabe eu nunca consegui me sentir assim totalmente parte de um time,
e se é pra jogar que seja agora mas tem que ter fé de acreditar no grupo, na raça,
só que eu acabava sempre ficando por último no sorteio dos times e aí já me dava vontade de tirar a pele e ir cozinhar meu estômago na quadra de concreto que tinha demarcação pra vôlei e basquete
as gurias achavam nojento e pronto :
: lá estava eu soLItáRIO no sol esperando para ser aguado
até que resolvi que teria que ter aulas na sala do lado, até que não foi ruim, até que a professora teve que olhar pra mim e até que disse você não é daqui
e eu mais do que veloz roubei uma folha do caderno da Mariana e em dobradobradobraduras criei um incrível a v i ã o a jato e o decolei em direção a prôfe fazendo vuuuush! com a boca e então todos riram.
muitos anos depois é que eu resolvi entrar num curso de tricô mas percebi
que não tinha exatamente a melhor das habilidades com as mãos
mas eu gostava de ver as C O R E S se entrelaçando
sabe aquela coisa de vermelho daqui entrando no verde dali e o amarelo pingando nos cantos e azul! azul! azul amalgamando no marrom e no roxo
e a agulha branca que puxa daqui e empurra dali eu ficava fascinado
olhando minha avó com seus dedos na velocidade da luz da televisão com som alto
agulha branca que puxa assim passa por dentro come por fora faz o ponto e pronto :
: um b l u s ã o !
era pura magia e eu ficava olhando bem de perto os movimentos com os fios e os novelos aos pés dela desenrolando, desenrolando,
cada um num ritmo de balde de tinta
cardando o gaughin que a minha avó criava com suas varetas
então chegava o verão e ela ficava cinza.
já me chamaram de desajustado mas eu não ligo não
um dia consigo encontrar um travesseiro que seja anatômico e antialérgico e antimofo oferecendo excelente suporte para o pescoço e a coluna e pronto :
: convido aquela menina pra fazer um test-drive
e acabamos terminando como tudo que termina acaba na cama sorrindo.
eu quero ver até onde chega essa nova onda do que retoma a velha maneira de fazer um rock sujo direto e de garagem,
porque até lá eu espero ter comprado minha casinha na Morada do Vale.
depois que inventaram o emoticon, dois-pontos pra sempre serão dois-olhinhos.
Ei! Está terminando o prazo de inscrição do Concurso de Microcontos Mário Henrique Leiria - que descobri pelo selo no blog da amabilíssima Meg. Vale até 200 palavras - bem generoso, se comparado ao limite de 50 que o Marcelino usa - e cada autor pode enviar até três textos. Minha tentativa - além de dois dos 10 Minicontos Suicidas Decrescentes -, divido com vocês.
Sucedâneo
Pego um pedaço de chocolate e o ponho na boca. Meus dentes sentem impulso de mordê-lo, mas não permito que isso aconteça; viro e reviro-o entre meus dentes, pressiono o tablete contra o céu da boca, passo a língua voluptuosamente e deixo que a saliva quente faça-o derreter, inundando minhas mucosas e minha garganta de um sentimento doce. Ainda salivo, limpo o cantinho dos lábios agilmente com a ponta da língua, olho para os outros pedaços. Tem mais uns quatro, me espiando em meio ao papel aluminizado. Quero? Espero um pouco, tento não ter pressa. Pego outro nos dedos, olho para ele; ele derrete aos pouquinhos, imperceptivelmente, mas quando coloco-o entre os dentes, percebo a pequena poça de chocolate cremoso que formou-se nas extremidades do indicador e do polegar. Sorrio, furtiva. Engulo rapidamente o chocolate em minha boca, às dentadas, e lambo infantilmente as pontas amarronzadas de meus dedos. Tenho sede, mas temo que a água neutralize demais esse momento. Ainda espero pacientemente que o telefone toque. Você tem mais dois pedaços, seu bandido. É melhor se apressar, ou vai ser tarde demais quando você ligar. Estou quase saciada.
"Paul é um cretino, George é um imbecil, e Ringo bebe toda a minha cerveja", queixa-se John, sentado à minha frente num restaurante vagabundo de Londres. "Estou cansado desses chatos. Quero entrar no seu projeto."
É claro que fico lisonjeado com o interesse que John Lennon demonstra em meu humilde conjunto. Com ele, nosso sucesso seria tão gigantesco quanto instantâneo. Nada mais de shows em buracos fétidos, onde a platéia se resume ao barman, o segurança, três primas minhas e os oito mosquitos que insistem em me picar durante o show. Lennon conseguiria um contrato instantâneo para nós, todas as rádios tocariam nossas músicas sem parar, teríamos camarins e até groupies, meu Deus! Mas apesar de tudo isso, não sei se John se encaixa na proposta da banda.
"Você sabe tocar gaita, Johnny?"
Ele faz uma careta gozada e bebe outro gole de chá. "Eu sei tudo o que é preciso saber sobre gaitas e acordeões, cara. Posso cantar, tocar bandoneon e assoviar com o sovaco ao mesmo tempo, se for preciso. E tenho idéias ótimas para compor, também."
"Não é preciso se preocupar em compor", digo. "Você sabe, simplesmente traduzo as letras e os refaço os arranjos. O trabalho é todo de adaptação." Ele dá um tapa no ar, num sinal de tanto faz. "Ok, garoto. Vamos fazer uma audição com você no nosso próximo ensaio. Apareça lá na minha casa amanhã às nove."
No dia seguinte, John chega cinco minutos adiantado. O restante da banda afina seus instrumentos. Meu olhos brilham: Os Maragatos do Ié-Ié-Ié, o único grupo do mundo a tocar versões para as músicas dos Beatles em ritmo de vanerão, está prestes a contar com ninguém menos que o John Lennon original em sua formação. Aponto-lhe uma cadeira. Ele sorri, ajeita os óculos e coloca minha sanfona 32 baixos no colo. Estamos prontos. "Que tal Quero Pegar na Tua Mão, pra começar?" Traduzo para Lennon: "É nossa versão para 'I Wanna Hold Your Hand'". Ele acena com a cabeça, nós começamos, e ele nos segue. É incrível: ele desliza os dedos pelo instrumento como fosse o Gaúcho da Fronteira. No início tem dificuldade com o ritmo acelerado, mas nada que alguns ensaios não ajustem.
Duas semanas depois, o entrosamento do conjunto é perfeito. Lennon arruma algumas horas de estúdio para nós, e George Martin aparece para produzir nosso primeiro compacto: Ei Guria, versão para Hey Jude, com Oi-ga-lê, Oi-ga-lá - nada mais do que Ob-la-di, Ob-la-da transformada em chamamé - no lado B. Os jornais nos dão destaque na seção de cultura, as rádios tocam nossa música de dez em dez minutos, os discos vendem como água: o sucesso chegou! E Lennon mostra-se absolutamente entusiasmado. Fala em turnês mundiais, shows com acompanhamento de orquestra sinfônica - enfim, está feliz. Yoko pinta uma tela vanguardista para a capa do nosso álbum: um acordeão gigante, rasgado e recheado de farofa de ovo, com a banda sorrindo lá de dentro. Dias depois fomos procurados por uma empresária, Elizabeth Fagundes, propondo-nos um show para apresentar nosso trabalho à comunidade sul-brasileira que vive aqui em Londres. O cachê é excelente; topamos na hora.
Fomos levados ao local do show numa limusine, cortesia de Elizabeth. Lennon está com a boca nas orelhas; parece ter recuperado a paixão pela música. Na entrada do clube, uma multidão cerca nosso carro. Todos os tipos de pessoas: profissionais liberais de meia-idade, velhinhos simpáticos e bonachões, jovens com camisetas dos Rolling Stones e, meu Deus, groupies! Abano para as garotas, que gritam histéricas, segurando latas de cerveja em suas mãos - e, ao que parece, estão sem calcinha. Ah, a fama!
Nos camarins, vestimos nossa indumentária de palco. Estico uma sacola para Lennon; ele tira as roupas de dentro, e observa sem entender muito. "Que diabos é isso?", ele pergunta, apontando para a calça. "Isso é uma bombacha. A pilcha é o traje tradicional, Johnny Boy; precisamos estar a caráter frente ao público." E nesse instante o inesperado acontece. John joga as roupas no chão e começa a gritar, dizendo que se recusa a colocar roupa de palhaço para tocar. Insisto, digo que é a cultura de todo um povo, a expressão máxima do ver que complementa o ouvir e etc., mas ele é inflexível. Yoko chega, percebe o que está acontecendo e me amaldiçoa em japonês. Lennon diz que está fora da banda. O casal tira toda a roupa e sai do camarim, de mãos dadas. Os fotógrafos enlouquecem. Ainda chamo John mais uma vez, mas ele não se vira; segue sua caminhada para fora, levando consigo nosso futuro musical.
Ainda encontraria Lennon outra vez, em Nova Iorque, um ano antes de ele morrer naquele crime estúpido. Veio pedir para entrar em meu projeto na época - um show chamado Um Banquinho e Um Ramone, onde desfilávamos sucessos do punk rock em ritmo de bossa nova. Olhei Lennon fundo em seus olhos, sorri e disse que não, obrigado.
O quarto era escuro e a figura sentada sobre a cama não se movia. O silêncio pulsava com a cadência da sua respiração. Uma luz entrava fraca e esverdeada pela fresta de janela aberta e iluminava um retângulo na parede oposta. As mãos apoiadas na borda do colchão e os pés em simetria tocando o chão. Uma espécie de ruído chegava da rua; carros passando e prostitutas que conversavam com vozes esganiçadas.
Vejam se não é um belo começo. Depois melhora:
Ele não ouvia, imerso em seu mundo estático de sombras. Era o silêncio e o silêncio nascia dele, em ondas, inspirando e expirando.
Eu fiquei horas vendo o silêncio brotar como uma fumaça incolor, que só se nota por uma sombra na nesga de luz verde que entra pela fresta da janela. Um humano poder gerar silêncio? Isso é bereteio puro.
Um quarto sujo de um hotel pobre em um bairro esquecido, ele pensava, e pensava também em outros adjetivos que poderiam caber naquele lugar tão feio. E tomou todos aqueles adjetivos para si conforme os enumerava, e os adjetivos sentavam-se ao seu lado e o tomavam para si também. Decadente, abandonado e triste, e outros tantos adjetivos que quando muito juntos perdiam o significado e viravam seqüências idiotas de sons.
Passos no corredor. Fugiram os adjetivos e o silêncio se escondeu embaixo da cama. O homem levantou-se e fez ranger as molas do colchão, e o silêncio pulou pela janela.
Assim, nesse suspense, a Olivia pára tudo e me diz: é tudo contigo. É tudo comigo. Comigo. Esse cara, num lugar desses, não pode ser coisa boa. É ratazana. Fez merda, faz merda. Mas não é um idiota qualquer. É um idiota, mas se merece as belas elipses da linguagem da autora, é porque tem alguma relevância. Para os autores, pelo menos. Então, que receba uma história.
Aqui.
"Para fazer tudo o que eu quiser", disse a velha raposa.
"E o que é que tu tanto desejavas fazer, que te moveu a fugir da floresta?", perguntou o coelho.
"Ora... tudo! Tudo o que eu tivesse vontade e... me tornasse feliz!"
"Mas então, porque choras?"
"Porque já estive em todos os lugares. Já procurei nos ermos e nos claros - mas não pude jamais encontrar a Felicidade. Procurei-a nas gavetas de casa, mas mamãe disse-me que ela estava mais ao sul da floresta. Para lá fui; atravessei o caminho dos leões bravamente, e ao chegar, não a vi; me informaram que estava mais adiante, no leito do rio. Cruzei por fazendas e escapando dos homens e dos bois; mas, no rio, os peixes me disseram que ela havia partido rumo ao topo da montanha. Pois segui para a montanha, fugindo dos pumas no caminho e passando fome e sede; mas nada me impediria de chegar lá, porque eu acreditava que esse era o meu inegável destino. Eis que quando alcanço a parte mais alta da rocha, quase congelada de frio, nada havia. Mas não penses que me abalei. Os albatrozes que sobrevoavam o cume me disseram: ela foi em direção ao litoral. Minha confiança voltou a ser forte e iniciei uma nova jornada, que durou muitas e intermináveis luas; não deixei que nada atrapalhasse minha concentração, meu objetivo. E quando disseram-me, na praia, que a Felicidade havia sido vista na floresta, foi como se tivessem jogado pedras em minha cabeça. Voltei ao meu ponto de partida nesse exato instante, agora, que te encontro, caro coelho. Estou velha, cansada, fraca, com fome, indefesa e sozinha. E se aceitas ouvir o conselho que tenho, escuta: fiz incansavelmente o meu melhor durante toda minha vida para encontrar o mais digno dos sentimentos, girei todo o mundo à procura da Felicidade, e jamais senti seu cheiro."
Então o coelho deu de ombros, acertou sua cabeça com um pedaço de pau e sentou-se para devorar a velha raposa. E foi para sua toca dormir, feliz da vida, de barriga cheia.
-- Quente, hoje, não?
-- Nossa. O verão chegou mais cedo, esse ano.
-- Cada vez mais. Os pombinhos que devem ter sofrido!
-- É verdade! O Varnei suava feito mula dentro daquele fraque! Nossa!
-- E a Marli? Coitada! Sorte não ter escorrido a maquilagem!
-- Será que já dá pra ir pegar comida?
-- Ai, espera um pouco. A Rosicler e aquele nojento do marido dela...
-- Quê que tem?
-- Tão na fila. Ô gente desagradável. Vieram só pra pegar a boca livre.
-- Nunca aparecem, nossa! Aí no casório da sobrinha eles vêm, bem belos.
-- Cara de pau, né?
-- Nem te digo. Aqueles dois ali, também, ó. De bermudas. Jeito de penetra.
-- Penetra? Aqui, no bairro?
-- Ué, minha filha, penetra tem por tudo que é canto.
-- Achei que fosse só em festa chique. Ai, Jesus, que suador!
-- Isso que fizeram ao ar livre! Imagina se fosse no salão da Igreja, que nem a Dandara queria! Aqui na rua tá mais de trinta, lá dentro, então...
-- Deus me livre! Quarenta, cinqüenta graus! Eu ia ficar toda pipocando!
-- Vige, que nojo, nossa!
-- Ë, eu sofro, sim! Sai um monte de brotoeja no pescoço.
-- Ai, pára senão eu perco a fome! Ó, já foram! Aproveita, vâmo logo, agora esvaziou e o Tomé tá renovando o arroz à grega.
-- Tomara que ainda tenha comida! Nunca vi, que gente esfomeada!
-- Olha o prato da Rute! Nossa! Parece que não comeu a semana inteira só pra vir se empanturrar de estrogonofe!
-- E não? Essa aí, menina, só come assim quando é dos outros. Ela e o Almeida, nunca vi que gente cara de pau. Vai almoçar na casa deles, é uma miséria: um pedacinho de galeto, um arrozinho de ontem... Anda, passa na frente.
-- Porquê?
-- A Norma tá chegando. Se ela te vê, acabou nosso sossego!
-- Nossa! Nossa! Deixa eu passar, espera!
-- Vai, vai! Ih, acabou o gelo. Vamos ter que tomar refri quente.
-- Olha, com a fome que eu tô, nem me preocupo com a bebida! Hmm, a maionese tá vistosa!
-- É mesmo! Acho que botaram cenoura junto... Isso aqui é pepino em conserva?
-- Quer que eu te sirva? Tô com a colher na mão, já...
-- Ai, se tu não te importa...
Morreram todos. As duas falastronas, o Varnei e a Marli, a Rosicler e seu marido nojento, os penetras de bermudas, a Dandara, o Tomé, a Rute e o Almeida, a Norma e todos os outros 42 convidados. Salmonella. Acabou até saindo no jornal.
~.~
Fica mais legal se ouvir a música junto, pra fazer um jogo de luzes bacana.
É a faixa 2 desse cd aqui; clique e ouça online.
Yib-iab-bapapa-baba-bou-ba-bara
Baraba-bapa-na-nu-da-dee-da-lade-la
Estou sentado. No sofá da minha sala. Olhando para o nada. As pernas abertas, os antebraços apoiados nas coxas. As costas no sofá; não inclinadas para a frente, como fosse mover-me; mas jogado. Inerte. O cérebro ocupado demais em seu vácuo repleto de eletricidade. Dentes cerrados. Nos ouvidos, zumbido, enquanto ouço Ella Fitzgerald cantar Blue Skies.
Blue skies
Smiling at me
Nothing but blue skies
Do I see
Se os fatos simplesmente são, e porque são já foram, não posso evitar obcecar-me pelo instante em que o fio se rompe. O momento exato do abandono. Primeiro o quando em que ela decidiu deixar-me. E depois o quando em que ela colocou o plano em prática. O instante em que perpendiculares retomam sua sina de paralelas. Cabos soltos, sem tensão, sem energia. Como o varal que arrebentei ontem ao pendurar as roupas. A corda de náilon trançada que foi ficando puída no aro atarraxado à parede e de final de semana em final de semana teve um milímetro desgastado e assim com o passar do tempo fibra por fibra vai soltando e cortando até que resta apenas uma linha fina azul onde eu pendurei o lençol de malha também azul também puída pela última vez e então tudo ao chão e eu como que compreendendo a ironia da metáfora deixei tudo jogado no piso imundo. Se é pra romper-se, que seja sujo e derrotado; a lama se lava. Não há maneira honrada de levar-se um soco no rim.
Dab-dun-de-rum-de-roo-de-raw
Bee-dabadadu-dararoo-da-bee-doo
Fios negros. Há fios negros por todos os lados. Smiling at me. Querendo fundir-se ao carpete. No piso da cozinha. Caminho pela casa contando quantos vejo. São dezenas. No banheiro. Na pia. No ralo do chuveiro. Na cama. Nos travesseiros. São centenas. Nas minhas roupas jogadas pelo chão. No meu pescoço. Na meu abdômen. No meu peito. São milhares. Nas panelas, nas colheres e no saleiro. Entre as páginas do jornal não-lido de hoje. Nas frestas das janelas. Subindo pelas paredes, crescendo do teto, amalgamando-se às teias de aranha. Na minha boca e nos meus dentes. Fios negros encaracolados por dentro do meu corpo. Entre os dedos dos meus pés. Brigando por lugar com minhas sobrancelhas.
Num post-it amarelo que serviu como único veículo da despedida: "...de recordação, os meus cabelos espalhados pela casa".
Never saw the sun
Shinin' so bright
Never saw things
Goin' so right
Os cabelos dela. Espalhados pela casa. Ella canta alegre a partida. Ela deve estar sorrindo. Blue skies smiling at her. Deve ter ido embora feliz. Deixando-me aqui com a roupa suja e seus cabelos negros. Ella cantarola em escárnio. De-doo-dee-doo-de-roo-de-doo-de-daw. O destaque de capa do jornal não-lido de hoje que repousa inerme sobre a mesa comemora algo sobre o Dia da Mulher. Quão adequado. Um por um - recolho os fios numa caixa. Tão frágeis e tão firmes. Pinicando minhas mãos. Aquieto-me trançando-os. Coloco Blue Skies para tocar outra vez.
Blue days
All of them gone
Blue days, all them to come.
