"No fim de ano todo mundo começa a falar: "Feliz Natal, feliz ano novo!". Mas, ser feliz, como? O sujeito passou o ano todo quebrando a cara, reclamando da mulher, batendo nos filhos, lutando contra o desemprego, sendo humilhado pelos patrões, e aí chega o fim do ano e todo mundo diz: "Seja feliz!". E aí o sujeito tem de estampar um sorriso alvar no rosto, uma baba simpática, um olhar vazado de luz bondosa, faz uma arvorezinha de Natal com bolotas coloridas, mata um peru magro e pensa: "Sou feliz! O ano que vem, vai melhorar!".
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Felicidade muda com a época. Antigamente, a felicidade era uma missão, a conquista de algo maior que nos coroasse de louros, a felicidade demandava o "sacrifício", a luta por cima de obstáculos. Felicidade se construía - por sabedoria ou esforço criávamos condições de paz e alegria em nossas vidas.
Hoje, felicidade é ser desejado. Felicidade é ser consumido, é entrar num circuito comercial de sorrisos e festas e virar um objeto de consumo. Hoje, confundimos nosso destino com o destino das coisas... Uma salsicha é feliz? Os peitos de silicone são felizes?
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Hoje, a felicidade está na relação direta com a capacidade de não ver, de negar, de "forcluir", como dizem os lacanianos. Felicidade é uma lista de negativas. Não ter câncer, não ler jornal, não olhar os meninos miseráveis no sinal, não ver cadáveres na TV, não ter coração. O mundo esta tão sujo e terrível que a felicidade é se transformar num clone de si mesmo, num andróide sem sentimentos, sem esperança, sem futuro, só vivendo um presente longo, como uma rave sem fim."
Arnaldo Jabor. "A Felicidade é a Empada do Bigode". O Globo, 16/12/2003
Pra mim, existem muitas perguntas. Porque ser feliz? Porque correr atrás da felicidade? Qual felicidade?
Não vejam nisso um niilismo sedante ou pseudo-depressão ou resquícios parasitóides da onda gótica que atravessamos todos nos anos 80. É claro que eu quero ser feliz. Mas será que eu preciso ser feliz 24 horas por dia? Será que eu tenho que respirar cada minuto em nome da busca da felicidade? Não dá só pra ler um livro ou comer uma fatia de pizza?
É aí que eu achei brilhante o Jabor, gênio e idiota dependendo da fase da lua. Máquinas de lavar são felizes? Roupas Hugo Boss são felizes? CDs do Rick e Renner são felizes? Peitos de silicone são felizes? (Bem, eu ficaria feliz se passasse uma noite agarrado a um par deles.)
Felicidade é uma lista de negativas. Checklist com itens pontuados de O que não me falta, sob escala de escores
0-30: lixo.
31-60: miserável.
61-90: naquelas.
91-120: bem.
120+: mentiroso.
QUEM DIABOS DISSE que a gente tem de viver o tempo todo atrás de uma FELICIDADE oh oh oh que não foi definida em dicionário algum com a mínima precisão?
Eu só quero é me manter vivo
E comprar um porsche com todos os opcionais - inclusive as loiras.
E se vocês são leitores assíduos, sabem como eu vou terminar esse post:
Felizes são os peixes.




