dezembro tem festa de fim de ano, tem amigo secreto, saem as listas dos melhores etc. a quem aula há já é finaleira, os feriadões ali esperando sob muita saliva, planos para férias em avançadas tratativas. a terra gira e a temperatura resolve passar dos trinta como se estivesse ali o tempo todo, só com preguiça de aparecer, e já que me mexi vou fritar como jamais fritei antes -- causando o indefectível "esse verão promete". papai noel já esganando desde outubro, wohoho maligno num comercial de tevê. dezembro é um mês que se conta em regressiva, até chegar nos últimos dez segundos restantes e experimentar uma onda coletiva de suspensão da descrença. dezembro chega caindo fora. é o ápice do "só mais um dia" de dois gumes. dezembro é um lugar que desperta urgências.
na adolescência, eu achava que aos 30 eu estaria pronto. "pronto" significava inteiramente constituído, tranqüilo, sábio o suficiente, estabelecido. sólido. com o passar dos vintes descontraí, o assunto virou galhofa; o mito foi sendo desmanchado. não sem muito frio na barriga (ou uma gastrite psicossomática). melhor dizendo: reciclado, reduzido para a melhor casa decimal que o humanamente próximo me pôde conceber. se hoje tenho Bauman e me insiro líquido, se penso que fiz um trabalho razoável até aqui (na benesse da distância, a possibilidade de se fazer um pouco de História) -- percebo que fechei um ciclo que havia estabelecido. contrato na grelha mais funda do poço do autoinferno das próprias crenças. donde só nos chegam as labaredas.
de certa forma, todo este ano foi um imenso dezembro. e em certos momentos, é o fim de dezembro de 1993, que foi a última vez em que senti de forma tão presente a cristalização de uma identidade. além de agora.
para aprender a observar o tempo, é preciso saber conhecer as táticas certas. senão fica só borrão.
o primeiro e mais básico é o princípio da inversão de percepção da velocidade. quando parecer que ele está passando muito devagar, é porque está engolindo você muito rápido; e quando a sensação for de rapidez, é porque ele está emanando devagarinho pelo seu corpo. se a velocidade correta não for respeitada, a observação do tempo terá resultados distorcidos ou claramente amarrotados.
outra dica que não se pode enfatizar o suficiente são os pontos de referência. é preciso tê-los cultivados há bastante tempo, e também fazer boa leitura dos padrões comparativos. com boa dose de sensibilidade, é possível ter excelentes resultados do movimento do tempo mesmo em grupos pequenos. (observou-se em alguns casos que esta técnica pode tornar-se invasiva, e perto das referências fica impossível ignorar o tempo.)
não importa com que intensidade você perceba o tempo: cada partícula nunca é a mesma, e jamais se repete.
com prática, você pode pegar o tempo com a mão. mas saiba que se for olhar de novo, ele vai ter mudado.
olivia: o infinito só é possível enquanto possibilidade irrealizada
tiagón: o infinito só é possível quando o tempo pára
olivia: só a linguagem pode realizar o possível irrealizado
só a linguagem pára o tempo
tiagón: só a linguagem pára o tempo
só ficou faltando dizer que isso tudo é bom demais.
menos dezembro. êta mês murrinha!




