a neve

vi seu corpo deslizando para a piscina. ela estava de costas e usava a escadinha -- como fazem os civilizados, os técnicos, os objetivos e os religiosos. pode-se dizer muito sobre a personalidade de uma pessoa pela maneira como ela entra na água. existem os esportistas, que dão pontas atléticas saltando como uma flecha perfeita, suando autoconfiança -- ou a necessidade de demonstrá-la, como um adolescente cheio de testosterona. há aquele tchibum dos infantis, ansiosos e transgressores -- do arremessar-se contra a água como um asteróide rasgando a Terra, ou pior, agitando-se como um gato jogado pra cima que desce esperneando. tímidos, afetados e gente blasé em geral prefere sentar-se na borda e molhar as pernas antes de escorregar para o lado, temendo ser visto. os que jamais entram na piscina também são um grupo -- pseudointelectuais de direita, obsessivos por higiene, frustrados, traumatizados. Dixie entra de costas, usando a escadinha com propriedade -- sem a hesitação do encontro da água fria com o corpo e sem apontar qualquer movimento na estrutura de alumínio, constantemente frouxa. eu a observo como fotogramas num projetor oito milímetros, vendo seus pedaços desaparecerem num azul que o sol faz gelatinoso. as pernas são bonitas, ainda brancas (é setembro). a coxa começa bem e acaba juntando-se a grandes culotes. a bunda, porém, é exagerada e tem celulites. não se diria que é gorda, tampouco; pela cintura dou cinco, talvez seis anos de balé na infância. a linha divisória do biquini, um fino cordão verde amarrado em laço, cede lugar à bela planície de suas costas, lisinhas e sem machucados ou acne, ombros largos de time de vôlei no colégio e natação à tarde; ela entra na piscina de costas e os degraus parecem não terminar jamais, e pouco posso observar de sua nuca porque logo os cabelos loiros tornam-se macarrão amolecido na panela, abrindo-se numa coroa dourada e então suavemente puxados para baixo por uma Dixie já submersa, que desaparece da minha linha de visão para as profundezas d'água.


-- Sabe, eu acho que a gente podia fazer outra viagem nessas tuas férias.
-- Arrã.
-- Sei lá. Ver lugares novos. Treinar outras línguas.
-- Eu não conheço outras línguas. Mal falo inglês.
-- Ou uma viagem de esportes. Snowboarding. Surfe.
-- Arrã.
-- Arrã o quê?
-- Depois a gente conversa sobre isso. Vou pegar uma bebida. Tu quer?
-- Pô!


contorno a piscina andando reto e firme, sem olhar para os lados. acho nojentas essas velhas que ficam grelhando em espreguiçadeiras de metal como bifes amassados pelo chapista antes de virarem sanduíche. elas nem tem mais melanina. mal tem carne entre as rugas; é nojento. mas insistem em impregnar o ambiente, sempre em grupos múltiplos de três, com seus chapéus horríveis de laços coloridos, óculos antigos que poderiam emular moda retrô mas indisfarçavelmente são quinquilharias, drinques terríveis (gin e suco de pêssego, Steinhager e tônica de abacaxi) com rodelões de fruta de plástico e canudinho com guarda-chuva. são delas os poodles e schnauzers e lhasa-o-cacete e pinchers e todas essas raças de pseudo-cachorros ridículos que ficam no canil do clube, latindo como se pudessem ordenar ao servente que abra a porta -- e por pouco não podem, porque essas bruxas fazem questão de humilhar o pobre trabalhador se o pêlo de seus filhinhos ficar sujo de terra ou do mijo de algum companheiro. peço uma tequila, duas cervejas e um "pô" ao garçom e no balcão viro-me no timing perfeito de uma Dixie emergindo, seu nariz incrível buscando o ar. Dixie tem um nariz incrível. ele é pouco mais que um triângulo, pouco menos que arrebitado, nada menos que perfeitamente ajustado num rosto também incrível. duas esmeraldas sob as pálpebras, lábios expressivos e convidativos, bochechas corretas, covinha no queixo, sorriso estelar. incrivel e não me canso. acendo um cigarro e posiciono a cabeça como que olhasse para o nada; na proteção dos óculos escuros, assumo a posição de voyeur. na verdade, odeio quando fumam no clube. tanta gente num ambiente saudável, atletas, crianças na área ao lado, é ridículo fumar num lugar desses. mas aqui eu não me sinto natural, e quando um fumante não está natural acende um cigarro pra ficar mais perto de casa. além disso, as velhas fazem cara feia com a fumaça, e se as incomoda, eu gosto. elas atacam com seu infindável arsenal de argumentos saudáveis, e eu respondo que estão apenas trocando um câncer por outro. essa é a discussão de praxe e estabeleceu-se uma birra mútua, alimentada regularmente. certa vez, quando usei minha resposta pronta para a pergunta pronta, uma delas tremeu o beiço de choro e tirou o chapéu, mostrando a cabeça branca, nua, cruzada por veias clarinhas, de sangue rosa e fino, sem qualquer cabelo. permaneci estático durante vários ciclos de constrangimento, tentando encontrar uma reação digna que jamais poderia surgir, segurando o desejo de pular na piscina (o que teria feito, se não fosse uma pessoa que não entra na água) quando todas desandaram a gargalhar da minha cara. a velha careca ria mais alto que todas e apontava para mim, então moveu o dedo para o meio das pernas e esganiçou um "aqui também, ó". eu não sei que tipo de vitamina dão pra essa gente. tivesse assistido, Dixie me daria uma risota e eu fingiria raiva, apesar da hipnose que seu sorriso causaria em mim; meus olhos ficam fixos no desenho da boca e no ângulo que os lábios formam quando tensionados, e eu a imagino como uma garota num shopping procurando a etiqueta de preço da alma que já não possuo.

se eu lhe entregasse, quanto tempo demoraria para que a revendesse num brechó? Dixie jamais me amou. mas apesar do prazer que exerce usando sua atração sobre mim, nutre um afeto verdadeiro, que seria amigável se não estivesse sempre anestesiado pelo flerte que empregamos exaustivamente. eu chego muito perto, mas não consigo tocá-la. é escorregadia, mesmo fora da piscina. e rola para dentro do abrigo subterrâneo sempre um décimo de segundo antes que o tornado possa atingi-la. é uma grande jogadora, e arrisca alto permitindo que eu me mantenha próximo, à beira do íntimo; e é essa a minha aposta. ela vai envolver-se comigo sem perceber. eu a tocarei pela perda, pelo hiato, como um sentido que embota ou um membro que perde a função. se não posso beijá-la agora, decidi semear-me. bebi a tequila em um gole, uma cerveja em cinco e pus-me de volta, com a outra lata e uma caipirinha de morango nas mãos. quando passo, uma das velhas comenta que o moço está com sede hoje, por certo nervoso, e eu dou um boa-tarde-vovós-e-titias querendo chutar suas pernas crivadas de varizes.


-- Agh! Tá doce! Tu não pediu com adoçante?!
-- Alcança meu livro.
-- Pô!
-- "Pô" é com açúcar.
-- Olha aqui, eu acho que a gente precisa conversar.
-- Mais?!?


eu sempre gostei de armar ciladas pra mim mesmo, mas um casamento foi a maior delas. eu sabia que um dia cansaria de me envolver com garotas como Dixie, garotas que eu não sei como lidar e muito menos como vencer. e que me casaria com quem fosse mais adequada. mesmo naquele tempo eu também sabia que iria me arrepender. mas precisava pôr a capacidade de domar minha natureza à prova, eu precisava tentar viver como um idiota, e isso me desgastou tanto que hoje me sinto bastante morto. já Dixie tem tanta vida que parece um ecossistema. ela me deixa tonto com sua energia. em certos dias ela parece um desenho animado. personalidade de cartoon numa garota de anime, só que loirinha. e seus textos são como nos quadrinhos: curtos. nos e-mails e mensagens de celular que trocamos quase todo dia escrevo banalidades, digressões, piadinhas, egotrips e teorias que são rebatidas com observações enxutas, velozes e repletas de sagacidade. isso conta muito: Dixie me excita intelectualmente. ela tem o rosto perfeito, por certo, mas seria pouco se não houvesse algo muito bom para compensar os peitos pequenos. e assim eu fico nos dias e nas noites delirando nos lábios e nos cabelos de Dixie e então já não quero apenas beijá-la -- eu quero tudo, eu quero dominá-la, quero que ela se sinta insegura longe de mim, eu quero que ela me reconheça como aquele que dá as ordens e balance o rabo quando eu chegar. não importa o esforço que eu faça, o raso do fato é que eu quero dobrá-la; mesmo eu empolando pra achar a vida interessante, ah o instinto. e algum revanchismo. Dixie me irrita porque sorri de alto pra baixo e brilha o olho e não pode ser cooptada; ao mesmo tempo, desperta o desejo pelo desafio da conquista. o prêmio é a glória de ver aquele sorriso estelar devotado ao vencedor. céus, eu tão patético, romantizando inaptidão e dando conta disso num pensamento que começa com céus. criando condições para que ela mantenha o ego fartamente alimentado. ela não quer minha poesia, ela quer é dar um mergulho.


-- Olha pra mim.
-- Para.
-- Tira os óculos.
-- Agora não é hora nem lugar pra ter esse papo.
-- O que é que tá acontecendo contigo?
-- Tu não me deixa em paz!
-- Me fala! Fala comigo agora!
-- É? É isso o que tu quer? Pois tá vendo aquela garota ali, ó, tá vendo a loirinha na piscina? Eu tô apaixonado por ela, é... isso. É isso.


dias de sol quente assim sempre me deixam meio nervoso. eu adoro o sol, mas não quando ele se torna grande demais, opressor, cegando no reflexo da água, queimando várias camadas da pele. o sol é benfazejo rebatendo no verde, na grama, observado da sombra. Minha mãe é que gosta dessa luz desértica. ela diz que precisa de muita vitamina D, ou E, ou X, nunca sei, pra manter os ossos fortes. não sei se isso faz sentido, mas pouco importa. não sei o que mamãe pensaria de Dixie. ela se incomodaria com aquele ar rebelde, mas também posso vê-las juntas na cozinha, trocando receitas ou sementes de flores. Mamãe nunca se deu bem com Laura porque a julga sem personalidade, uma sonsa, o que de fato é; mas gosta de sua doçura. Dixie também é doce. ela não se permite mais do o excesso, a parte que não consegue represar, mas é doce. e libertar essa ternura também é parte do prêmio. beijá-la fará com que a tensão se dissipe e as mentes relaxem e a paixão cresça. e eu brote. e ela se entregue a mim, dócil e picante. céus.


-- Foi por causa dela que tu te separou da Laura?
-- Me deixa em paz, mãe.


e nesse momento terei atingido o então e o se. quando tiver o domínio, só restarão lembranças da Dixie por quem me apaixonei. verei suas esmeraldas tornarem-se kriptonita. eu serei o que lhe falta; e quando ela disser que não pode mais imaginar a vida sem mim, eu já não estarei mais lá. vou arrancar-me dela por ter perdido o maior motivo de amá-la: o do desafio, o da conquista, e com uma tristeza abissal verei as piores lágrimas jorrarem de seus olhos e eu me sentirei como um estuprador de criancinhas. porque eu sou um idiota de qualquer maneira. viciado pelo fascínio. no momento em que eu beijar Dixie, teremos um orgasmo de três semanas, se tanto -- e então começará o apocalipse silencioso. o broto que se revela parasita e carnívoro quando não pode mais ser extirpado sem dano ou cicatriz. evidente que Dixie pode ser a exceção, a falha no sistema falho, a garota que se encaixa em mim; e por isso não posso desperdiçar a tentativa, ou recuar pelo que temo que possa fazer a ela. porque meu mecanismo é tão bom que cada parte do jogo é real; tudo o que sinto é sincero. desejo, embora preveja. eu cortaria uma pata do poodle de mamãe por dez minutos de boca colada com Dixie, mas na verdade eu mutilaria aquele cachorro maldito por muito menos. se não fosse incapaz de machucá-lo.


-- Ela não tem um rosto incrível, Irma?
-- Oh, sim, é uma garota linda. Sempre toma sol aqui.
-- Quem?
-- É por isso que o moço está nervoso hoje.
-- E com sede.
-- Mas se está apaixonado, já vi tudo.
-- Para de rogar praga pro teu filho, Norma.
-- Quem?
-- Pô, cala a boca, mãe. E pelo amor de Deus, põe o chapéu que essa tua careca é muito feia! Filho, onde tu vais?


eu saio de cena e Dixie sai da água, pela escadinha. sorri para mim e faz o sinal universal de "cerveja mais tarde"; polegar esquerdo apontado pra boca, indicador da outra mão girando em círculo. é o desenho animado mais lindo que eu já vi. o ponto de equilíbrio entre Final Fantasy e Scooby-Doo. só que loirinha. com um rosto incrível.


~.~


-- É que eu não tenho certeza se é isso que eu quero.
-- Pra quê certeza? Que diferença faz?
-- Não é bem assim. Não é fechar o olho e meter a cara.
-- Claro que é. Se não for assim, nada acontece.
-- De qualquer jeito, eu dependo da bolsa. Se eu ganhar, eu decido.
-- Eu vou contigo pra Europa.
-- Eu não quero que tu venha comigo.
-- Não entendo.


não entendo, porque não posso entender. mulheres. Dixie mexe nos cabelos enrolando-os na ponta dos dedos, olhando de soslaio para mim. próxima. eu sei o que significa esse olhar. eu inseguro mas sei o que significa esse olhar. aproximo-me rapidamente e a beijo, sentindo suas mãos segurando meu pescoço. me puxando forte. me segurando. pelo pescoço. em dois minutos, ela está nua. em seis, está gozando. em seis minutos. em seis minutos eu me sinto vazio. demoro a gozar por uma convenção, e então me deixo ir embora. tu trocas a eternidade por um gozo, Dixie, e eu te beijo lascivo, e decepcionado.







mai/07

cena final deletada


2 comentários

Muito bom. Não concordei em nada com as teses do primeiro parágrafo. Me atiro por ser friorento, me atiro para não me torturar muito tempo. Mas foi muito bom seguir até o fim. Não adianta, as mulheres irresistíveis, aquelas pelas quais a gente acha que daria a vida, são inatingíveis; se não fossem, talvez deixassem de ser irresistíveis.

E como é bonito literariamente.

e eu [que já era fã] completamente derreti.
é que nunca foi tão literário e real ao mesmo tempo.

"vou arrancar-me dela por ter perdido o maior motivo de amá-la: o do desafio, o da conquista, e com uma tristeza abissal verei as piores lágrimas jorrarem de seus olhos e eu me sentirei como um estuprador de criancinhas. porque eu sou um idiota de qualquer maneira. viciado pelo fascínio."

a vida.

na escuta


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