está pipocando no twitter - inclusive brazuca - um link para matéria da eyeweekly sobre a tal da quarterlife crisis, ou "crise dos 25". que é descrita assim, tradução livre:
Indecisão implacável, isolamento, confusão; ansiedade com trabalho, relacionamentos e futuro. São sentimentos relatados por pessoas com idade entre 25 e 35, geralmente urbanas, de classe média e boa educação - que deveriam ser capazes de lucrar com sua juventude, liberdade sem precedentes e individualismo desenfreado. Mas eles não conseguem tomar qualquer decisão porque não sabem o que querem, e não sabem o que querem porque não sabem quem são, e não sabem quem são porque podem ser qualquer coisa que desejem. leia mais (em inglês)
o termo quarterlife crisis foi cunhado em 2001 por Alexandra Robbins e Abby Wilner, em livro homônimo. Uma tradução chegaria ao Brasil em 2004, pela Sextante - inclusive recebendo alguma repercussão, como uma reportagem na IstoÉ. hoje, ao ver o assunto sendo redescoberto via redes sociais, tive a mesma sensação que tive naquela época:
PERIGO. se o tema chega a ficar realmente popular, será consumido como mais uma doença "bonitinha", bacana, cute, "olha como isso me justifica e tem tudo a ver com meu horóscopo" - - - justificativa fácil pré-cozida pela mídia e usada e descartada como se fosse motivo de orgulho. um "defeito legal de ter" - na visão de gente provavelmente muito fútil. (o que não diminui o problema.)
da mesma forma como banalizou-se a bipolaridade e o TDAH/DDA, e palavras como TOC e anorexia foram incorporadas ao vocabulário rotineiro; não é apenas a vulgarização mas também a glamourização de doenças psicológicas. num estado de sociedade onde a busca por diferenciação parece patologizar-se, a incorporação de uma doença "da moda" parece dar (uma evidentemente falsa) profundidade ao indivíduo. coloca-se algo muito sério na prateleira do supermercado - onde inclusive profissionais preguiçosos (pra dizer o mínimo) de psicologia/psicanálise/psiquiatria compram - e, pior de todos os males, dissemina (e se apoia na) desinformação.
quem conhece alguém que realmente sofre dos transtornos listados acima sabe que, nem por um instante, é algo para se desejar.
quarterlife crisis, o livro, foi escrito por uma jornalista e uma psicóloga. com aparições substanciais na mídia dos EUA (sim, Oprah), parece ter chegado ao seu objetivo: quarterlife crisis, o negócio. com continuações oficiais da série, palestras motivacionais (US$ 3,600), o kit completo.
era inevitável que acontecesse, talvez; mas há de se lamentar, principalmente, dois fatos:
1. a clara intenção de marquetizar uma angústia. é simplesmente triste. pra citar um exemplo oposto, Douglas Coupland, que também criou um rótulo geracional (inclusive "prevendo" inúmeras características) no romance Generation X (1991), sempre recusou a pecha (e a grana) de guru ou autoridade no tema. talvez por ser escritor/observador, ou simplesmente princípios. (ainda que outros tenham lhe "tomado" o nome e feito dinheiro mesmo assim; isso também era inevitável.)
2. que se invista na produção/capitalização de uma angústia quando há um diagnóstico claro e bem posicionado sobre o tema - e ele provém da sociologia. é fácil reconhecer o "enlatado crise dos 25" já na sinopse de Mal-Estar da Pós-Modernidade (1998), grifo meu:
Neste livro, Zygmunt Bauman faz uma vigorosa reflexão sobre as ansiedades modernas, estabelecendo nexos diretos com o famoso O mal-estar da civilização, de Freud. Para o sociólogo, a marca da pós-modernidade é a própria "vontade de liberdade", princípio que se opõe diretamente à segurança projetada em torno de uma vida social estável, ou da ordem, como pensou Freud. (...) Enquanto outros teóricos do pós-modernismo assinalam a fragmentação da cultura e do sujeito contemporâneos, Bauman lida com a universalização do medo ou das perdas derivadas da troca da ordem pela busca da liberdade. Jorge Zahar Ed.
se a Crise dos 25 caracteriza um conjunto identificável de sintomas repetidos em larga escala para ser classificado como uma psicopatologia, eu não sei dizer; mas até por aí, as autoras da "síndrome" também não. o que posso afirmar é que os efeitos existem e podem ser verificados - tanto num grupo de amigos quanto nas estatísticas daqueles. porém não como um surto de histeria coletiva - e sim por uma gama de mudanças sociais que colocam o conceito de modernidade (e seus indivíduos) em xeque, e pelo descompasso que se cria entre expectativa (deslocada atemporal/geracionalmente) e probabilidade, possibilidade e desejo.
e/ou como diz Bauman, numa entrevista para a Tempo Social, grifos meus:
Maurice Blanchot disse certa vez, em palavras que ficaram famosas, que as respostas são a má sorte das perguntas. De fato, cada resposta implica fechamento, fim da estrada, fim da conversa. Também sugere nitidez, harmonia, elegância; enfim, qualidades que o mundo narrado não possui. Tenta forçar o mundo numa camisa-de -- força na qual ele definitivamente não cabe. Corta as opções, a multidão de sentidos e possibilidades que a condição humana implica a cada momento. Promete falsamente uma solução simples para uma busca provocada e impelida pela complexidade. Também mente, pois declara que as contradições e as incompatibilidades que provocam as questões são fantasmas -- efeitos de erros lingüísticos ou lógicos, em vez de qualidades endêmicas e irremovíveis da condição humana.
Creio que a experiência humana é mais rica do que qualquer uma de suas interpretações, pois nenhuma delas, por mais genial e "compreensiva" que seja, poderia exauri-la. Aqueles que embarcam numa vida de conversação com a experiência humana deveriam abandonar todos os sonhos de um fim tranqüilo de viagem. Essa viagem não tem um final feliz -- toda a felicidade se encontra na própria jornada.
(...)Diferentemente da sociedade moderna anterior, que chamo de "modernidade sólida", que também tratava sempre de desmontar a realidade herdada, a de agora não o faz com uma perspectiva de longa duração, com a intenção de torná-la melhor e novamente sólida. Tudo está agora sendo permanentemente desmontado mas sem perspectiva de alguma permanência. Tudo é temporário. É por isso que sugeri a metáfora da "liquidez" para caracterizar o estado da sociedade moderna: como os líquidos, ela caracteriza-se pela incapacidade de manter a forma. Nossas instituições, quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades "auto-evidentes". Sem dúvida a vida moderna foi desde o início "desenraizadora", "derretia os sólidos e profanava os sagrados", como os jovens Marx e Engels notaram. Mas enquanto no passado isso era feito para ser novamente "re-enraizado", agora todas as coisas -- empregos, relacionamentos, know-hows etc. -- tendem a permanecer em fluxo, voláteis, desreguladas, flexíveis. A nossa é uma era, portanto, que se caracteriza não tanto por quebrar as rotinas e subverter as tradições, mas por evitar que padrões de conduta se congelem em rotinas e tradições.
Como um exemplo dessa perspectiva, li outro dia que um famoso arquiteto de Los Angeles estava se propondo a construir casas que permanecessem lindas "para sempre". Ao ser perguntado o que queria dizer com isso, ele teria respondido: até daqui a vinte anos! (...) Virtualmente todos os aspectos da vida humana são afetados quando se vive a cada momento sem que a perspectiva de longo prazo tenha mais sentido.
Jean-Paul Sartre aconselhou seus discípulos em todo o mundo a ter um projeto de vida, a decidir o que queriam ser e, a partir daí, implementar esse programa consistentemente, passo a passo, hora a hora. Ora, ter uma identidade fixa, como Sartre aconselhava, é hoje, nesse mundo fluido, uma decisão de certo modo suicida.
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descompasso; o temor de um caminho sem trilhos. uma angústia que pode crescer a um ponto patológico. não um produto. até porque, se experimentada a termo, não encontra solução ou saída ou resposta fácil. em ensaio na Cronópios, Nete Benevides aponta muito bem, grifo meu:
Do mesmo modo que na Idade Média observamos o "estilo teológico" e durante a modernidade verificamos o "estilo econômico", na pós-modernidade vem sendo elaborado o "estilo estético" e uma nova ordem se esboça. É a partir dessa ordem que se deve buscar, conforme Nietzsche, "a profundidade na superfície das coisas". Para isso, é necessário olhar novamente para as coisas e, nesse novo olhar buscar uma identificação (que é um conceito mais "móvel" que a identidade) com as várias culturas e "tribos", apreendendo e apreciando cada coisa a partir da nossa coerência interna e não a partir de um julgamento exterior que dita o que ela deve ser, como se fosse possível estabelecer a supremacia de um código, principalmente, quando compreendemos que a idéia central da trajetória do "aprender a viver" possui a mesma dimensão filosófica de se "aprender a morrer" - angústia maior do homem.
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você se identificou com a quarterlife crisis? só não siga nem deixe que sigam um hype falso, a expandir essa tendência nefasta de consumir doenças como produtos (da confusão de identidade). reflita, avalie sua autocobrança, procure mais informações. se a angústia estiver muito grande, às vezes conversar com um profissional é a saída, ou pode tranquilizar. às vezes se aprende com cascudo e peitaço, também. e se vale um recado direto de Bauman, ele diz: (agradecendo outra vez a Maria Pallares-Burke pela entrevista)
Qual seria sua mensagem para os jovens de hoje?
Gostaria que tentassem, apesar de tudo (e talvez esteja aí o elemento de nostalgia que você notou), apesar de todas as tendências em contrário e de todas as pressões de fora, reter na consciência e na memória o valor da durabilidade, da constância, do compromisso. Eles não podem mais contar, como a antiga geração, com a natureza permanente do mundo lá fora, com a durabilidade das instituições que tinham antes toda a probabilidade de sobreviver aos indivíduos. Isso não é mais possível e, na verdade, a vida humana individual, apesar de ser muito curta, abominavelmente curta, é a única entidade da sociedade de agora que tem sua longevidade aumentada. Sim, somente a vida humana individual vê crescer sua durabilidade, enquanto a vida de todas as outras entidades sociais que a rodeiam -- instituições, idéias, movimentos políticos -- é cada vez mais curta. Assim, o único sentido duradouro, o único significado que tem chance de deixar traços, rastros no mundo, de acrescentar algo ao mundo exterior, deve ser fruto de seu próprio esforço e trabalho. Os jovens podem contar unicamente com eles próprios e só haverá em suas vidas o sentido e a relevância que forem capazes de lhes dar. Sei que essa é uma tarefa muito difícil... mas é a única coisa que posso lhes dizer.
~.~
• sobre "doenças da moda": Doni também levantou essa bola no twitter há um tempo atrás e ficou devendo um post, para o qual está novamente convocado.
• trivia: um dos projetos primeiros e engavetados da verbeat é um manifesto líquido - que apresente a modernidade líquida e proponha um olhar mais sensível como contraparte de seus defeitos. mas principalmente trazendo à luz conceitos que abrem a possibilidade de uma melhor compreensão e aceitação de si mesmo na (e da) sociedade. contra a confusão causada pelo mal-estar da pós-modernidade, informação.
• este post é dedicado, porque vale como um de nossos valiosos bate-papos, aos camaradas rënmero e aldurin.




\o/
tenho que te dizer que foi muito bom ler o teu texto. Não que eu esteja em crise (eu tive essa aí aos 18..rs), mas estava pensando em como falar algo sobre essa febre de ontem no twitter, sem ser curta e grosseira. =)
A dica da Aless foi valiosa. Confesso q fui um dos agitadores do twitter sobre a fatídica "Quarterlife Crisis" pq tive uma identificação instantânea com a sintomatização leiga do artigo.
Ainda assim, sinto que mesmo nesses tempos líquidos (pra cont. citando Bauman), as angústias permanecem tão constantes e indissolúveis quanto qualquer forma sólida (c é q isso foi claro)
Me parece que a liquidez é apenas uma tentativa de imaterialidade, em vez de a imaterialidade em si (dá pra ser imaterial em si?).
Bauman diz que a escolha de Sartre é suicida, mas nossa cidade sequer chegou a entender a liberdade para ter a liberdade de ser metamorfa. Desse modo, se as angústias permanecem, o que serão elas nessas mesmas pessoas passados outros 25 anos? Líquida definitivamente não será.
Entendeu? Ai.
(Tenho devorado Sartre e acho que estou morrendo, hahaha!)
como quando usam a Filosofia para diminuir os males da modernidade. como a mesma muleta que é a Psicologia feita nas coxas.
a quantidade de aluno que é diagnostica como TDAH/DDA assusta. justificam-se comportamentos 'discutíveis', baseando a argumentação nisso. não é o caso de dizer o fatídico 'na minha época', mas hoje é a falta de condições de pais e escola de se encontrarem nessa modernidade que quebra paradigmas e certeza como se quebram vidros ante uma pedrada. os pais não sabem, porque não entendem, e a criança, que se perde, perde uma ou duas horas semanais contanto o que deveria contar aos pais, pra um psicólogo que pensando na compra do mês, diagnostica um TDAH sem muito compromisso, ali pela terceira sessão.
administram-se alguns remédios. o menino vira um zumbi e pronto, todos felizes.
se ele baba, a gente finge que não vê.
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mas vou escrever mais sobre isso.
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em nota relacionada: grande post. ;D
Nossa. Que texto bom, Tiagón (é normal se sentir boba com a rima?Vou ter que usar "legal" pra sempre, aqui)
Acho que é isso, está impecável a análise que vc fez. São várias as coisas que me preocupam em torno da moda dos discursos psi. Além de tudo o que vc mencionou, eles instauram a vitimação como chave de conhecimento de si e do outro. Todo mundo é vítima das circunstâncias, das exigências e padronizações, dos traumas. Na sequência, esses discursos formatam um tipo de consumidor que associa identidade com intimidade, e procura fazer de sua casa uma espécie de desdobramento de sua existência. Todo aquele papo groselha de procura pelo verdadeiro eu, de ser autêntico e fiel à própria personalidade, tudo isso acaba contribuindo mais e mais pra alienação e despolitização.
Enfim, dá pra falar um monte em cima desse post. Vc já conhece essa tirinha do Calvin? Genial:
http://4.bp.blogspot.com/_58s67sLzjaQ/ScLAcfMG2kI/AAAAAAAAAPE/UkSNsvoFoNM/s1600-h/livro+de+autoajuda+do+calvin.jpg
abç.
Olá, Tiagon. Tudo bem? Sou a Cecília e trabalho na Edelman, agência de comunicação da Jorge Zahar Editor. Bem interessante o seu post. Agradecemos por linkar a entrevista que o Bauman deu recentemente à editora. Em um dos livros mais recentes dele, A Arte da Vida (http://www.zahar.com.br/catalogo_detalhe.asp?id=1266), ele discute o que temos que fazer hoje pra alcançar a felicidade (antes ou depois dos 25). Enriquecer, juntar bens, comprar? Estará indo por água abaixo a essência de que a 'felicidade está nas pequenas coisas'? Ou o conceito de felicidade é que está sendo transformado?
Fica aí a reflexão.
Abraços
tudo isso que você falou me deixa extremamente tensa. serei psicóloga no final do ano e a pressão que a academia faz para que "rotulemos" é muito forte. é fácil ceder, até porque quando um paciente te procura ele está tão desesperado que só o fato de você nomear o que ele "tem" já é um alívio.
além desses profissionais de qualidade duvidosa, ainda temos a internet aí pra disseminar falsos diagnósticos, rotular ainda mais as doenças e os sofrimentos. a merda é que ninguém quer sofrer. colocar a culpa numa depressão ou num TOC é absurdamente mais fácil. só que o ser humano é muito mais do que um diagnóstico, é muito mais do que a fração de um sintoma, ele é um ser completo com uma angústia que nunca cessa. e aceitar isso é dificil pra caraleo.
parabéns pelo blog, fico muito feliz de ver pessoas lendo bauman. ;)
Outro rótulo para uma série de características comuns de uma geração. Pelo menos algumas pessoas se sentem orgulhosas por terem sido da geração "Flower power".
Eu vejo que a modernidade está permitindo que os misântropos e reclusos interajam mais entre si (e com isso Darwin está rolando na tumba). A tecnologia permite que as pessoas compartilhem seus vazios pessoais como grandes qualidades da personalidade. Os heróis mais queridos e imitados são os mais apáticos e indiferentes anti-heróis e nossas opiniões pessoais são vistas como ofensas por quem não tem maturidade emocional suficiente para iniciar uma argumentação.
Os jornais impressos ou não minguam em comparação a serviços como o Twitter pois toda a informação que importa orbita em volta dos nossos interesses. "Quem dá a mínima às crianças massacradas no Sri Lanka? Elas não vão comprar minha entrada no show do Radiohead." ou "Quem se importa com o Vietnan? Eu nunca irei pra lá!"
Até uma característica dessa bovinidade é a mobilização à bandeiras fúteis ou completamente desproporcionais e sem reflexão teórica. Repúdios e manisfestações hoje são virtuais demais; textos escritos no calor das emoções em blogs ou no máximo um encontro de pós-adolescentes de calças curtas, mochilas e camisetas espirituosas em algum local oportuno dos centros urbanos.
É basicamente, uma geração de "filhos de pais frouxos" que tiveram tudo à mão enquanto cresciam numa bolha fechada e protegida do resto do mundo, sem obstáculos reais, sem desafios edificantes, apenas entretenimento e alienação.