de uma vez por todas: a internet

o professor Jeff Jarvis é uma dessas figuras proeminentes do pensamento sobre a internet, em sua convergência com a mídia; foi através do BuzzMachine que fiz o primeiro contato (lúcido) com jornalismo participativo, UGC (conteúdo gerado pelo usuário) e cidadania através dos blogs. além disso, muitas de suas análises sobre mídia e blogs serviram, e servem, naquele momento "ah, eu não estou tão sozinho/maluco/doente por ter esta e aquela visão".

donde que o post de hoje do BuzzMachine - transcrição de sua coluna no Guardian - tem tantas verdades que já deveriam ser verdadeiras, e que posicionam o debate de uma maneira a "evoluir pra frente", perdonando pleonasmo, que o transcrevo em português, à guisa de jurisprudência, ou não-me-torra, ou o que valha.


De uma vez por todas

"Não falha nunca. Vou estar conversando com um grupo sobre as incríveis oportunidades da era da internet e inevitavelmente alguém vai gritar:"sim, mas há imprecisões na internet". E: "lá não existem padrões". Ou: "a maior parte das pessoas só fica assistindo lixo". Aí a conversa empaca. Pra mim é uma derrota pessoal, não manter a atenção de todos focada no futuro. De uma hora para outra, estamos girando no presente ou escapando ao passado, perdendo a chance de explorar (nos dois sentidos da palavra) nossa nova realidade. De uma vez por todas, eu gostaria de responder à estes medos e reclamações. Eles não irão embora. Mas ao menos eu posso, como o primeiro-ministro fez no interrogatório¹, mandar a honorável massa de ranzinzas para as respostas que dou aqui.


Há lixo na internet. Verdade. Há lixo em todos os lugares (até em prateleiras de livraria). O erro é achar que a internet deveria ser embalada e perfeita, como a mídia. Não é mídia. O blogueiro Doc Searls, co-autor do Manifesto Cluetrain, diz que a web é um lugar onde nós falamos e fazemos conexões. Em sua Declaração de Independência do Ciberespaço de 1996, John Perry Barlow chamou-a de "o novo lar da mente". A internet é vida. A vida é bagunçada. Acostume-se.

A maioria das pessoas assiste lixo. Verdade. Mas "a maioria" é uma medida que só faz sentido na economia da mídia de massa, que já ruiu. Em nosso novo mercado de nichos, podemos procurar e dar apoio ao que nos interessa. Sim, todos nós assistimos ao vídeo do Jeremias² (pra não falar no Big Brother). Mas nós assistimos também a momentos de gênio, só possíveis por causa da internet. Por que se concentrar nas porcarias quando o brilhantismo está a um clique?

Qualquer um pode dizer o que quiser na internet. Verdade. Com a graça de Deus. Essa cacofonia que você ouve é a democracia, e o mercado livre de idéias.

Há imprecisões na internet. Verdade. Mas a internet nos permite corrigir os erros - porque nada está terminado jamais, aqui. Com um link ou um comentário, nós também corrigimos os outros. E com o Google, podemos verificar informações em muitas fontes num instante. Eu diria que a internet nos deu maior respeito e acesso aos fatos, e fez de nós uma sociedade muito mais precisa.

A Wikipedia tem erros. Verdade. Assim como os jornais. Ambos são melhores em fazer correções do que livros e enciclopédias. A Wikipedia, como a web, permitiu uma coleção sem precedentes de conhecimento, paixão, criação e colaboração.

Nós precisamos de um "selo de qualidade" para o conteúdo da internet. Falso. A última coisa de que precisamos é de um sistema de certificação. Pois quem teria a autoridade para fazê-lo? Quem empunha este escudo na China, no Irã ou na Arábia Saudita? A web não é "tamanho único". Nem o conhecimento.

Blogueiros não são jornalistas. Verdadeiro e falso. Pesquisa do Pew Internet & American Life diz que apenas um terço dos blogueiros considera jornalismo o que faz. Mas hoje qualquer testemunha pode realizar um ato de jornalismo, dando-nos mais olhos na sociedade - o que os jornalistas deveriam celebrar.

As pessoas são rudes na internet. Verdade. Elas são rudes na vida real - mas talvez mais online, graças ao anonimato. Mas nos todos sabemos quem são os idiotas. A resposta inteligente é ignorar os estúpidos.

A internet não tem ética. Verdade. Não possui maior conjunto de valores do que um fio de telefone, um carro ou uma faca. Nós, que a usamos, trazemos a ética e as leis sob as quais já vivemos.


Agora que tiramos isso do caminho, vamos, por favor, voltar à metade cheia do copo e examinar as muitas oportunidades que a internet apresenta a partir destes desafios. Quando você não enxergar nada além de lixo, crie qualidade. Onde a qualidade for difícil de encontrar, seja o curador, dando seu próprio selo de qualidade com um link. Quando ler imprecisões e mal-entendidos, adicione fatos, correções, contexto e jornalismo. Se alguém na internet entendeu algo errado, as eduque. Quando ouvir o ruído das pessoas falando online, ouça. Sei que surjo como um triunfalista da internet. Alguém tem de sê-lo. Alguém precisa opor o opositor."


você pode ler o original seguindo este link - e, se puder, acompanhar algumas bons respostas que por lá estão. a caixa de comentários aqui está aberta, como sempre, para expandir. à vontade.


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¹chiste político local
²o exemplo foi modificado para o cenário brasileiro. a referência original é para silly cat videos.

5 comentários

em suma (mas não que seja somente em suma) trata-se da mídia, seu conteúdo é conseqüência de sua abertura, que é seu diferencial: nivelação de possibilidades, o que permite que o pós-modernismo seja realmente pós-moderno, como já vem sendo, aliás (não de cima para baixo, mas de um para o outro). este tipo de texto é bom para estabelecer algumas coisas, corroborar outras, ficar batento o prego já pregado até ficar bem firme - não sei que tipo de expressão é essa, mas vá lá. pois em verdade já é um caminho sem volta. enfim, chovi no molhado e para completar conclui o que os dois parágrafos introdutórios disseram, mas tudo para "bater no prego já pregado", porque para mim isso tudo é muito simples, é muito tudo isso aí, e eu acho hoje excelente ter nascido hoje em dia.

Aplausos para ambos! Isso é edificante!

Se a educação linear fosse possível no mundo online, esse post do Jeff Jarvis já poderia figurar como currículo básico pra quem quer aprender, entender e discutir essa mídia - seja em termos filosóficos ou business. Essa "alfabetização" é muito necessária, ainda, em 2008.

Renato K.

Perfeito, perfeito. EU não diria melhor (pode classificar este último comentário na tab "Lixo da internet" :-) ).

Flavio Prada

Faz mais de uma semana que voce é meu guru. Pelo jeito vai ser ainda por muito.

na escuta


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