há véus que tremulam verdes e lilases durante a noite. movidos por uma brisa suave, mas gelada como a ponta do nariz de um chihuahua. um vento marítimo carregado de pequenas partículas de sal marinho e suor de marinheiros, peixe recém descamado e madeira eternamente úmida. os véus oscilam para dentro e para fora, lambendo o pó dos móveis e trazendo para dentro do ambiente uma estranha presença de capitães de esquadra mortos já há bastante tempo, desfeitos de carne e pele em erosão contínua e misturados à maresia. havia nos véus milhares de microorganismos de alma netúnica preenchendo os espaços e os vazios e o ar pesado daquela praia.
em pequenos momentos da manhã nascente, a luz do sol torna-se azul. e da varanda, não se vê separação entre céu e mar, num horizonte monocromático sufocante. sobre o oceano azul-tranqüilo da madrugada recém desfeita e o céu atomicamente colorido da mesma forma, o sol crispa com chamas azuis as estrelas que desaparecem em direção ao futuro. não há futuro. mas há estrelas. e véus. e um copo de suco de laranja onde flutuam mínimos cristais de mel de eucalipto. e um cigarro. e cabelos negros perdidos pelo chão. e vespas rindo. elas são as primeiras a sair dos cantos da casa, tontas, buscando alguma coisa nas árvores do pátio, pequenos pontos pretos no azul da varanda, emaranhando-se por vezes nos véus e ali permanecendo presas. de tempos em tempos, os véus são recolhidos para a lavanderia, e então restos de vespas e marinheiros são derrotados por sabão em pó e amaciante.
e quando o sol se cansa de castigar pescadores e bodegueiros e cães pulguentos e pássaros lerdos, desaparece em poucos minutos, num pôr-do-sol veloz e acanhado. no verão, são esses os momentos em que o ar fica possuído de um amarelo-queimado estúpido que chamusca as múltiplas arestas dos ladrilhos coloridos. então tudo brilha demais, transformando a casa num farol a sinalizar o fim do dia. e há o retorno dos barcos para a praia, e as vespas voltam para as frestas, e os pássaros recolhem-se preguiçosamente para seus ninhos. já os bodegueiros riem e comemoram as luzes com gritos entusiasmados, saudando o regresso da noite, ligando em seus pequenos aparelhos de som portáteis música alegre em fitas cassete e preparando o gelo e as batidas. os cães ficam eufóricos, pulam em seus calcanhares e são escorraçados. mais tarde, quando todos estiverem bêbados, serão chamados para participar, ou mesmo consolar os desesperados.
ao último uivo desse cão cansado, alguém acende um incenso na sala aberta. a música agressiva cessa e é substituída por longínquos grunhidos, roncos, cricrilares, estalos e, como de praxe nas madrugadas dos sábados, gemidos. as vespas ouvem o ruído surdo e amanteigado da cortiça sendo perfurada, e os capitães de armada mortos invejam a garrafa de vinho derramando-se generosa em notas repletas de harmônicas num cálice de cristal fino como hóstia. os véus tornam-se lilases de rioja. o ar assume um tom acre, então ácido, então adocicado, então framboesa, então amora, então tesão. há como pano de fundo um ruído branco constante provocado pela maré extremamente coordenada, que faz diversas pequenas ondas quebrarem em intervalos mínimos de tempo umas das outras, espalhadas como uma rede de satélites pelo oceano. e um cigarro. e cabelos negros eternamente úmidos, carregados de pequenas partículas de suor de marinheiros mortos. e uma lâmina.
ela desliza até a sacada. os véus lambem-lhe marrom-dourado as pernas. a noite não permite interrupções e segue sibilando, terminando seu curso. a atmosfera marinha enche seus pulmões e ela a inspira, a assimila. alimenta-se de brisa suave e gelada. seus pêlos se arrepiam, e então os mamilos. o vinho lhe bebe. então um barco passa, ao longe, luz fraca, difícil dizer se é verdadeiro ou uma ilusão. um desejo projetado. nesse cinema a céu aberto, o barco está vazio. ela sabe que está. não há futuro. mas há estrelas. e marinheiros. e o seu capitão. e uma lâmina. e expectativa pelo momento certo. porque o capitão há de voltar. a brisa lhe preenche e dá esperanças. é uma noite escura e cerrada como a barba do seu capitão. e ele vai voltar.
o capitão ocupa quase todas as lembranças que ela tem do outro mundo. não costuma pensar muito na mãe, porque se culpa. e os irmãos e a irmã e os amigos afinal não importam. eram vespas a zunir que era louca, que estava desvairada, que era marrom e cinza e doente. mas o capitão valeu cada instante. vale. o capitão, ela ria comparando-o com os pescadores frágeis como seus caniços, era um homem inteiro. íntegro, honesto, culto, lindo, valente. meu pai, ela balbucia em voz baixa, o olho tremendo um pouco, brigando contra o choro, fazendo careta, prendendo respiração, ficando lilás e verde e um cigarro. e uma lâmina rindo. para o dia em que o capitão voltar. porque ele vai voltar. ele prometeu. textualmente, enquanto o enfermeiro a carregava na cadeira de rodas, ela meio sedada, os pescadores a entreolhar desconfiados, os bodegueiros cochichando e preparando frituras, as vespas desconfortáveis da casa recém aberta, uma tarde esquisita, de um sol amêndoa, mesquinho, incompleto, ele gritou, isabel, eu vou voltar, uma noite eu vou voltar. e ela lembra disso numa memória obnubilada como clara em neve, e ela chora de raiva.
e hoje, como todas as noites, ela inspira a brisa forçadamente, preenchendo-se do cheiro da alma de marinheiros mortos, procurando pelo cheiro da alma do seu capitão. ela sabe, que se ele morrer, ela vai saber. ela vai sentir o seu cheiro. ela teme que o capitão morra antes de voltar para buscá-la. isso não pode acontecer, isso estragaria tudo. e enquanto não o descobre no meio de grumetes apunhalados, pescadores desastrados, piratas azarados e policiais suicidas, ela espera. ela sabe que ele está vivo e voltando. voltando para buscá-la, para ela, para seu amor, sua filha, para encontrá-la sentada na varanda, nua, de mamilos excitados, rubra de vinho, e com a garganta aberta de fora a fora por um bisturi. porque ela quer que o capitão a encontre recém morta, fresca como o peixe que os pescadores vendem por um preço aviltante aos comerciantes da região. o capitão merece essa honraria. não é pelo telegrama de um pescador que saberá do tentador cadáver dela.
o breu luta bravamente contra o dia que força obstinado. há um galo que canta, e os véus tornam-se película turquesa-transparente. os pescadores fazem pequenos ruídos sortidos e o moleque do armazém entra assobiando e deixa na porta dos fundos as sacolas com frutas, vinho, cigarros, água, pão, azeitonas, salame e presunto, porque hoje é domingo. e o dia nasce naquele azul insuportável. e seu corpo relaxa, e ela sente sede, e um suco de laranja adoçado com mel de eucalipto. e um cigarro. não foi nessa noite, outra vez. ainda não foi nessa noite que eu fiz minha verdadeira loucura, ela ri, a boca tremendo um pouco, os cabelos da franja batendo-lhe nos olhos. o capitão acreditou quando todos disseram que ela estava louca. ela sabe que um dia ele vai ver a verdade. o amor verdadeiro que os une e insistem em desbotar. e então ele vai voltar, arrependido, para buscá-la. já até deve estar nesse longo caminho, ela tremula. ele vai me dizer que eu não sou louca e que eu posso voltar pra casa, isabel sonha, mas eu não vou ouvir porque é nesse dia em que vou estar morta, porque eu te odeio, e os véus se agitam pálidos e cremosos de manhã recém parida. e os barcos voltam para o mar, e os peixes são outra vez cinza-brilhante de escamas solares, e ela sobe as escadas deixando um rastro de cabelos negros, pegadas de pés suados, a lâmina repousando sobre o aparador essa noite também.
durante mais essa manhã, a casa dorme.
enquanto isso os bodegueiros, as vespas e a lâmina riem. isabel acredita que as vespas sabem de seu plano, porque micropartículas energéticas dos seus pensamentos ficam grudados nos véus e são absorvidos por aquelas que ali se emaranham, transmitindo as informações pouco antes de morrer para outras vespas que tentam auxiliá-las na fuga das tramas. além disso, isabel está certa de que elas enxergam tudo o que faz com o enfermeiro, nas tardes de segunda-feira, exceto as chuvosas, como forma de pagamento para que fique longe dela e da casa; esse era o trato. para um pasmado filho de pescador com curso técnico mas nenhuma ambição, trepar dá na mesma do que manter uma maluca sob forte regime de medicamentos, se o cheque continuar chegando. já os bodegueiros riem porque aprenderam a rir de tudo que lhes acontece, como uma maneira de suportar a existência limitada. assim, tornam-se poltrões em dois tempos, crescem-lhe as barrigas de cerveja e maledicência, mas covardes que são, chutam apenas cachorros. e a lâmina ri porque é uma lâmina. é mais; se fosse, já bastaria, mas é uma lâmina com uma missão. preparada para manchar de sangue rioja os véus verdes e lilases de uma noite escura e cerrada, como numa maldição que acaba engrandecendo o hospedeiro por causa da grandeza de sua maldade, orgulhosa de um ato destrutivo pela dimensão que acarreta ao seu portador, causando-lhe uma culpa que consome e preenche como a dor de uma falsa satisfação.
o sol logo briga outra vez com a intensidade inversa da lua. os peixes escondem-se no fundo do mar e os pescadores mergulham atrás deles, entupindo seus ouvidos com água salgada de marinheiros erodidos. as luzes da casa gritam histéricas e os cães latem para os espectros. algumas oliveiras brotam. vespas atacam uma laranja. as cores não descansam. há estrelas. o tempo parece lento.
intervenção de outubro de 2005 para Syrene, de Coccarelli. super special extra bonus track easter egg: vá ate este site, clique em "galeria", escolha a década de 90 e utilize as coordenadas 3, 4 para ver a tela que inspirou o texto.
em tempo: Jojo é incrível já na genética.




eu SABIA que eu conhecia esse texto!!!
MARAVILHOSOS! VOCÊ E O TEXTO!