republicando um afano em afago

publicado em 7 de outubro de 2003, n/c.


palmas, muitas palmas.
afanado do spam zine


Buraco Negro

O que era mesmo que você tinha que fazer no banheiro?

Os olhos percorrem o armário escancarado atrás do espelho. Então você vê a caixinha de Tranxilene e lembra.

Engole o comprimido em seco.

O pior não é a perda de memória, você pensa. O pior é você não esquecer que está começando a esquecer as coisas. A consciência da perda é o que mais incomoda. Mas os médicos já desenganaram você: não tem jeito, esse tipo de doença degenerativa funciona assim. Chega um ponto em que a única lembrança será a de que você não tem mais lembranças. E você já está tão anestesiado pelos remédios que não consegue mais ficar triste com isso.

Mas o que era mesmo que você tinha que fazer no banheiro?

Você vê a caixinha de Tranxilene e lembra. Engole o comprimido em seco.

Fábio Fernandes


que trocava e-mail agora mesmo com o Fábio e o parabenizava pelo FRIGGIN' work desenvolvido no Post-Weird Thoughts. e ele com mais idéias e perguntando "posso" e se a casa (o reino?) normalmente aceita de braços abertos, respondi, ainda mais vindo de uma pessoa com o conhecimento que tem sobre ficção científica e derivados, e a generosidade de tanto e tão bem blogar - compartilhar o objeto de paixão, a gente sabemos como é isso.

aí parei no meio do texto, lembrando; pô, não é de agora que tu tem o meu respeito, bicho. conheci o Fábio pelo miniconto acima, que saiu no saudoso SpamZine capitaneado pelo Inagaki. não só é genial, como é o primeiro texto que me vem a cabeça quando o penso é "miniconto genial".

que se a literatura não anda junto contigo, bicho - aí é só letrinha passatempo.


felicidades da família verbeat blogs: ter suas referências escrevendo no mesmo quintal (feudo?) que você!


(e ler?
flutua.)

1 Comments

Se houve uma coisa que eu, criança impenitente, aprendi com meu avô foi a ter educação na casa dos outros. Mesmo quando ela se torna minha por uso e afinidade. Mas, Tiagón queridón, depois dessa, terei de encharcar pelo menos um dos aposentos com lágrimas dignas do clip de "No More Tears" (ok, a referência pode ser corny, meio chororô demais, mas enfim, como dizia Popeye, I yam who I yam! :-)

Recebo o teu abraço (e dos demais verbeaters) comovido, com outro abraço forte de urso (deste urso que agora pesa quase cem quilos) e me sinto em casa. Projetos não faltam, você sabe, e sabe também que disposição é comigo mesmo, e minha casa é meu santuário, e dos amigos também.

"que se a literatura não anda junto contigo, bicho - aí é só letrinha passatempo" - bicho, é uma das frases lítero-religiosas (porque pra mim literatura é religião, é credo, é um panteão) mais belas que já tive o prazer de ler. Quero ter essa honra de crer que a literatura também anda comigo, e não por uma paisagem pós-apocalíptica de quem destrói saturnianamente os próprios textos, mas por uma estrada bela, cheia de flores, bregas, sim, mas coloridas, muita cor, mehr licht, mais luz! e sempre estar junto com ela, e ser um nunca acabar. Muito obrigado pela oportunidade e pela porta aberta para eu passar com minha amada e montar a minha tenda.

na escuta


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