Nunca me preocupei com insetos. Na casa em que eu morava com a mãe - aquela desnaturada que me deixou pra ir morar na serra, nem mosquito tinha. Às vezes, uma ou outra mariposa, um besouro inofensivo apareciam, sem muita certeza, meio amedrontados. Acho que o fato de que eu possuía um iguana de estimação ajudava no controle de pragas. Só que agora, morando num apêzinho de três peças e três janelas, já não posso me dar ao luxo de dividir meu espaço físico com outro ser vivo. Ainda mais se ele tiver escamas.
Mas mesmo sem o iguana (que subiu a serra com a mãe), nunca pensei em comprar inseticida. Não há nada que meu chinelo não possa matar, eu tinha certeza. E como o destino adora pregar peças naqueles que tem certeza de qualquer coisa, semana passada fui atacado por um pterodáctilo. A noite era absurdamente abafada, e alguns pingos de chuva caíam sem muita certeza. Exatamente por causa do calor a janela estava escancarada. Assistia pacatamente o Linha Direta quando percebi, na visão periférica, que um demônio voava rapidamente na direção do meu rosto. Puro ato reflexo, levantei da poltrona e procurei o intruso, esperando encontrar um morcego, um pombo ou algo desse porte. Errei no bicho, acertei no tamanho: era uma barata voadora gigantesca. Um monstro mutante, fortalecido pela poluição humana, fruto de bilhões de anos evoluindo nos esgotos fétidos, e seu tamanho era bem maior do que meu dedo médio - e eu não tô brincando, gente. Isso aqui é coisa séria. Não se trata de medo não; enfrento qualquer coisa que esteja na mesma superfície que eu. Mas é que insetos voadores são um ponto fraco. Minha artilharia antiaérea é muito deficiente. E aquele godzilla suburbano não ia ser detido por humildes havaianas de dois centímetros de espessura. O que fazer?
Fechei as portas do quarto e da cozinha para limitar seu espaço de fuga e empunhei o chinelo, tentando ganhar tempo para desenvolver um método. Aí lembrei que o antigo morador do meu apartamento havia deixado de herança - talvez como aviso - um frasco de spray mata-baratas. Se aquilo funcionasse, eu teria uma chance. Atravessei a sala (quatro passos) com bravura e, na cozinha, peguei o veneno no armário debaixo da pia. Li as instruções rapidamente - evacuar o local da aplicação, não encostar na pele, não respirar o produto, não reutilizar a lata, não beber, responsável técnico Dr. Fukioke Shiranoto, perigo, perigo - e voltei confiante, chinela na mão esquerda, spray na direita. E agora, cadê a maldita? Nem sinal do predador. Dava batidinhas nos móveis para ver se ela aparecia, e, ao encostar nos quadros (que ainda estavam no chão), surgiu caminhando devagar, ameaçadoramente. Recuei cautelosamente alguns passos e assumi posição de ataque, jogando os ombros para trás, agachando e esticando o braço direito. O inimigo continuou caminhando na minha direção, por cima de algumas almofadas. Lembrei que não havia verificado a validade do produto - e se estivesse vencido? Bem, poderia usar o frasco para bater no monstro. Mas não era suficientemente pesado, e a barata não tinha jeito de quem ia morrer fácil. E se ela revidasse? Também considerei a hipótese de esquecer aquela palhaçada toda e agarrar a barata e esmagá-la com a mão e matá-la e destruí-la, com quem você pensa que está lidando maldito ser invertebrado escória da natureza eu vou acabar com a tua raça grrrr tu vai morrer! Morrer! Só que isso significaria uma vida inteira sem coçar os olhos ou comer uma fatia de pizza com a mão outra vez. Chamei por São Mariano, tranquei a respiração e pressionei o botão do veneno. O bicho voou para cima de mim, mas fiz a finta e girei o corpo bem a tempo. Ela bateu na parede uma, duas vezes, e caiu no chão. Tentou dar alguns passos e virou de costas. Repetiu esse processo duas vezes. A torcida foi ao delírio. Ação em segundos, onde a tecnologia moderna vai parar? Permaneci estático, observando seus estertores mortais. Pensei num golpe de misericórdia, aquela chinelada fatal, cinematográfica, para ser repetida de diversos ângulos em slow motion estilo John Woo, mas também imaginei a quantidade monumental de gosma branca que uma barata daquele peso deveria soltar no carpete. Preferi esperar que ela parasse de se mexer. Ela virou de costas uma última vez, e ficou balançando suas patas asquerosas. Um generosíssimo jato de veneno adicional fê-la congelar finalmente. O homem, mais uma vez, vence a batalha contra os seres do submundo - e eu peguei um dos grandões, cara, não era pouca coisa não! Com medo de retaliações e comandos de busca do inimigo, fechei as janelas. Acabei com uma intoxicação por causa do veneno.
Hoje tenho uma coleção completa de spray anti-pragas. Eles ficam espalhados pela casa, sempre à mão para o caso de emergências. As garotas reclamam que é feio. Mas sentem-se mais seguras.
Vai ver é por isso que as mulheres acabam casando.
esse conto foi selecionado no projeto Habitasul Feira do Livro daquele ano.
com o passar do tempo, perdi a capacidade de cronar, assim simplesmente.




Eu jogaria fora os frascos... Tem maneiras menos venenosas de matar insetos. Eu tambem tenho fobia de barata, mas sempre me virei sozinha atirando objetos, sapatos, dando vassouradas... Mas hoje sou feliz porque em Sacramento nao tem baratas. Nunca vi nenhuma aqui, embora em cidades vizinhas eu ja' tenha encontrado.
1.adorei o texto.
2.odeio baratas.
3.detesto homens-ripongagem-deixa-é-so-uma-baratinha-qual-é-problema?
hhahaha, que texto muito bom. várias sensações aqui, inclusive aquele peculiar arrepio na nuca que me acomete qdo encontro-me com as baratas e leio descrições incrivelmente bem feitas sobre as danadinhas... brr, um bicho desse tamanho voando pro seu lado: é mais do que motivo suficiente pra vc 1-se casar; 2-nunca sair da casa dos pais. :)
bjo bjo
ahã. uma vez eu também matei uma barata. foi bem assim.