Pênalti. Era pênalti e todo mundo viu. Chegou avançando pela meia, tabelou com o lateral pela esquerda, passou um zagueiro na chaleira e ia passar pelo segundo quando o primeiro, esticando a perna na queda, calçou o atacante por trás. Pênalti claro, de concurso. Quem sofreu pede pra bater. A honra da estocada.
–– Tá maluco, seu juiz?
–– Mais respeito, moleque!
–– Passa pra cá a bola, doutor, que...
–– Deixa, deixa, negão. Deixa que eu bato.
O técnico faz que sim com o polegar. Vai ser seu primeiro gol no clássico estadual. Já imagina o orgulho do pai, a festa que vai ser São Vendelino, a cidadezinha de onde saiu há dois anos atrás. Guri, recém dezenove e já escrevendo o nome na história. A comemoração tá pronta: vai correr em frente à sua torcida, gritar o maior número de palavrões possíveis, e então colocar o dedo na frente dos beiços pra mandar o resto do estádio calar a boca.
–– Eu comi a tua mulher.
–– O quê que é?
Goleiro que é do ramo sempre incomoda o cobrador. Vai lá, tira a bola da posição, diz o canto em que vai pular. Irrita, desconcentra. Esse daí recém saiu do sub-20, mas já é manhoso feito castelhano. Se pega um artilheiro veterano, nem ouvidos; guarda a bola na gaveta e dá tapinha nas costas do inimigo durante a vibração do gol. Mas jogador verde entra na onda, responde, xinga.
–– Ontem de noite. Mas já foram muitas vezes. A gente namorou há um tempo atrás, não sabia?
–– Cala a boca, ô merda!
–– E é gostosa, hein? Aquela bundinha...
Juiz limpando a grande área, vai apitar. O goleiro se afasta, fazendo gestos obscenos com os dedos. Gritos da pequena torcida visitante em meio ao apupo ensurdecedor dos torcedores do time da casa. A grua da TV se move, procurando a posição perfeita para registrar o lance.
–– Chifrudo! Boi corneta!
–– Desgraçado!
Quase não tomou distância – coisa de quatro ou cinco passos. E então desferiu uma bomba, um foguete de perna direita, batido de bico, bem no centro da bola. Ela pegou pouca altura e velozmente chegou ao fundo da meta, viajando em trajetória retilínea. A bucha. Três centenas de torcedores atrás do gol fazendo mais barulho do que o resto do estádio lotado.
–– Mas que merda.
–– Gol, fiadasputa!
Aí resolveu mudar a comemoração já imaginada, e acertou um soco na boca do adversário. Antes que os outros jogadores entrassem na briga e criassem um tumulto generalizado, ainda conseguiu dar dois chutes ali onde dói mais. Foi expulso depois de sete minutos, quando a polícia controlou a situação, e saiu do estádio direto para a delegacia. Prestou depoimento, foi liberado. Não demorou a chegar em casa.
–– Quanto que terminou o jogo?
–– Seis a um. Aquele goleiro reserva do time deles tem os braços curtos.
–– Bem feito.
–– Dá pra explicar porque tu fez aquilo?
–– Não te mete. Coisa de homem.
–– Homem burro, isso sim. Vai dar suspensão, multa do clube!
–– Isabel, vou largar o futebol.
–– Como assim?
–– Largar. Vamos voltar pro interior. Vou aprender a fazer vinho com teu pai.
–– Mas e o futebol, animal?
–– Chega. Tenho uns trocados pra comprar uma terrinha, fiz meu gol no clássico. Acabou.
–– Tu tá completamente-
–– Faz as malas. De madrugada a gente pega a estrada e volta pra fazenda.
No outro dia só se falava, nas rodas da cidade, sobre a goleada massacrante e a fuga do jovem talento, que abandonou o clube e está incomunicável. O vice de futebol avisa que vai rescindir o contrato se o jogador não aparecer em vinte e quatro horas, e que negociações já estão sendo feitas para contratar uma peça de reposição.
No hospital, o goleiro encontra dificuldades para urinar. A dor é muito forte, e ainda tem toda a vergonha pela surra que tomou. Mas se consola, pensando que tem toda uma carreira pela sua frente.




Genial! Alegrou minha madrugada, seu gremista. Sabe, a literatura brasileira quase não tem nada interessante sobre futebol. Você devia juntar contos como esse e fazer um livrinho. Os fãs dessa "paixão irracional" (né, Biajoni?) agradecem. Abração, cumpadi.
Rapaaaz, tu deveria ser botafoguense!
(é, é elogio!)
Belo texto, camarada!
Me lembrou o zagueiro/centroavanteMATADOR Darzone jogando/nocauteando pelo Santo Ângelo!!
hehehhehe
Abraço
Maravilhoso, muito bom mesmo!