porque será que tanto venta em dia de Finados? desde que eu me conheço por gente que o ar sopra louco e forte nesse feriado. aqui em casa é um horror, porque as persianas ficam batendo, e isso me irrita. será que os mortos resolvem chorar ao mesmo tempo, e por isso produzem uma brisa transtornada? ou é uma mensagem da natureza, nos alertando sobre a fragilidade da vida? hein?
–– fernanda, tu já vistes Finados sem vento?
–– ih. nunca. é sempre desse jeito.
–– tu vai no cemitério ver tua mãe?
–– não. fica tudo cheio demais hoje. e é bobagem. prefiro ir no aniversário dela, daqui a quinze dias. é mais tranqüilo, e, de qualquer modo, ela não vai sair de lá. ela espera.
–– eita, que piadinha sem graça.
–– ai, deixa de ser sensível. saco.
até hoje nunca perdi ninguém. não cheguei a conhecer meus avós, tenho poucos parentes e meu pais continuam firmes e fortes. por sorte nunca houve desgraça com amigo ou qualquer assim. não sei como vou reagir quando alguém próximo morrer, será que eu vou ficar chocado, será que eu vou chorar, será que não vou sentir nada? hoje os cemitérios estão cheios de pessoas lamentando copiosamente, vestindo preto e enchendo os túmulos de flores. depois voltam pra casa pensando naqueles que foram e quando será a sua hora. e então requentam pedaços do churrasco de meio-dia para o jantar e vão dormir com a sensação de que não aproveitam a vida como deveriam.
–– fernanda, tu achas que aproveita a vida?
–– que papo é esse, agora.
–– responde, pô. tu não pensa que, sei lá, daqui a pouco pode ficar velha e morrer sem ter feito tudo o que tinha vontade de fazer?
–– vem cá. tu tá afim de me largar, é isso. acha que tá jogando a vida fora ficando comigo. tá pensando que devia ficar solteiro, vadiando pela noite. crisezinha. é?
–– quê? fernanda, deixa de ser boba. é uma pergunta simples.
–– esse teu papo tá muito estranho. não tô entendendo nada e não tô gostando!
o que será que acontece quando a gente morre? será que apaga tudo, fica escuro? ou ficamos flutuando, olhando o próprio enterro, esperando chegar a hora de São Pedro passar a régua e fazer as contas? ou, pior - será que tudo termina e a gente não existe mais em lugar ou jeito algum, simplesmente acaba? isso parece muito injusto. tanto tempo pagando o consórcio do carro e de uma hora pra outra, puf. tudo desaparece. compra o carrinho pra poder levar a gatinha pra passear e então puf de novo. acho que é por isso que as religiões atraem tanta gente. paraíso e reencarnação são coisas boas pra ser pensar quando se está morto.
–– fernanda, tu acreditas em reencarnação?
–– ah, vai pro diabo que te carregue!
–– porra, mas como tu tá sem paciência! não quer conversar comigo porquê? prefere ler o jornal a conviver comigo! tudo o que eu falo te incomoda, a gente briga toda hora sem motivo, hoje tu nem gostou do meu empadão, a economia desse jeito, tanta guerra no mundo e eu aqui, pensando sobre a vida e a morte, e...
–– amor, olha pra mim. isso. dá a mão. pronto. olha só, lembra que amanhã eu termino o tratamento? pois é. o funguinho já tá indo embora e amanhã a gente já pode transar de novo. só mais hoje, tá? não fica assim. é o último dia, prometo. me dá um beijo.
não agüento mais esse maldito vento batendo nas persianas.




Nunca avia reparado.
Pois aqui no Rio o clima esqueceu completamente que era dia de finados. E eu toda esperançosa, pensando "ah, dia de finados sempre chove!". Pff. Calor insuportável, viu.
Btw, adoro seus textos. =)
A-do-rei!!!
Beijos
en el dia de los muertos, o clássico carioca é chuva, mas esse ano a danada chegou na véspera. dia 02, calor do inferno de Dante.