les ondes silencieuses

e foi novamente acossado por uma insatisfação grudenta, pegajosa, tanto enfaro, tanto limo, resmungou em silêncio e serviu um copo de uísque. sentou na borda da cama pra beber e teve uma vontade idiota de chorar. e chorou mesmo, porque seria muito mais estúpido ficar tremendo beicinho. chorou com raiva, secou a bebida, e saiu bufando pela porta.

taís não moveu um cílio. fumava, devagar, esperando por algo diferente. era a quarta vez seguida em que ele tinha uma crise depois do sexo. na terceira ela já começou a dar pra outro cara, porque era prática e não queria se deixar crescer em gente atormentada.

vestiu-se sem pressa, para dar distância a pedro. as botas estavam embaixo da cama; no resgate ela espirrou e ficou com o nariz trancado. o apartamento estava abafado e sentia sede. pensou em suco de laranja. coçou o nariz em frente ao espelho e ajeitou o cabelo. estava triste. estava com um olhar triste. não gostava disso. gostava de pedro.

ele a esperava sentado na calçada e ela pensou em suco de laranja com vodca. abaixou-se e abraçou-o por trás, colando o rosto no dele sobre seu ombro. ficaram assim por instantes. a madrugada só tinha o barulho da lua. levantaram-se, deram as mãos, taís sorrindo, pedro taciturno. abraçou-a, mudo. taís enfiou os dedos em seu cabelo e fechou os olhos.

ela de braços cruzados sobre a bolsa enquanto caminhavam, pedro com os braços soltos, jaqueta de couro pesando nos ombros. as palavras lhe soterravam a cabeça baixa e amontoavam-se no peito, apertando como uma morsa. a garganta forrada de concreto. taís queria que ele dissipasse. mas sabia o que ele sentia, também sentia, procurava não dar atenção. o confronto, ah, sempre invencível. nas frestas entre os prédios altos à volta, estrelas. ao menos estavam ao ar livre. o orvalho deixava a noite leve.

–– tu não precisa me amar.
–– eu quero te amar.

porque todas as palavras já haviam sido ditas, e isso muito antes deles não dizerem nada. e então só o que restava eram as sensações que acabavam por confundir-se. também pela falta da definição que as palavras trazem. pedro vinha de pescoço retesado, tanta coisa sem sentido atravessada pra sair, sem sopro, como dizer tudo. o que não se sabe classificar. caminhavam na mesma passada, as pernas lado a lado, como sincronizadas. a respiração dela mais alta que a dele, difícil. a noite grande demais de repente e um silêncio que dói tanto quanto qualquer frase. ela de olhos marejados, arrastando as sandálias, diminuindo o passo. abraçam-se como se a osmose pudesse desfragmentar a angústia.

voltam pra casa. deitam-se de janelas abertas. faces unidas em silêncio, taís com o queixo apoiado no ombro de pedro, conectando bochecha. cultivando aquele quadrado sensível de toque como fosse a única esperança de conquistar a compreensão. sem movimento. sem mente. sem interferências. apenas concentrados na sinceridade imaculada do calor daquele pedaço de pele.

3 Comments

a angústia de sermos dois...
q nunca eu sei se é dissipada, ou agravada pelas palavras.
em geral, prefiro o silêncio, mas ele tb sabe ser 'pisoteante'...
rien a faire.

(obrigada pela informação tabaco&cia em poa.)
bisou!

na escuta


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Esta página contém um post de tiagón publicado em novembro 23, 2007 12:24 AM.

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