levei Virginia Berlim pra passear de avião e ela me acompanhou nos dias que se seguiram. li a contragosto, quase; primeiro a aeromoça, que me obrigou a desligar o mp3 player e me impediu de usar a trilha sonora que acompanha o livro. segundo, que acabou em meia-hora e eu fiquei sem nada pra ler. e eu não queria reler porque eu já tinha resistido a ficar triste na primeira leitura.
Virginia foi assistir comigo Death Proof, o último do Tarantino. o filme, só pra variar, é muito foda. tem quem não tenha achado tudo isso, que Tarantino sempre se espera mais e é um filme meio simples, lindo e tal mas meio simples, que até o Kill Bill era mais elaborado. mais ou menos Sexo Anal versus Virginia Berlim, os dois últimos do Biajoni. o primeiro era "a obra"; o posterior, uma experiência. a do Tarantino foi decepada ao meio pelos Weinstein, e a do Biajoni já entrega no título. experiências de autores e personagens; de tramas simples mas realizadas com o traço característico de cada um. que não se fique esperando revoluções a todo instante; ambos têm crédito pra inventar e se esmerar dentro de um universo restrito.
depois, assisti com Virginia um do Gondry, Science of Sleep. ambos achamos que o personagem principal do filme tem tudo a ver com o do livro do Biajoni. jovens mordendo os 30, com uma incapacidade gigantesca de comunicação, uma dor que não é de carência de amor - mas de compreensão do próprio sentido. a película do francês tem o ritmo próprio desse cinema, e também o clima de Virginia Berlim. o tempo assume andamentos diversos e as cenas nunca tem o mesmo padrão. os personagens são pesados de tanta angústia. e é um cara qualquer por aí, ninguém especial, alguém que bebe cerveja com a gente de vez em quando, que fica escrevendo blog, lendo livro e fazendo resenha comparando com coisas ao redor e afins.
na saída da sessão dupla, levei Virginia pra beber num boteco do lado do cinema. conversei um pouco com ela e fui franco. disse que tinha achado o livro... vazio demais. que não havia linguagem suficiente pra engordar as narrativas cerebrais, que o texto acabava ficando com tantas pontas soltas e o tédio do personagem exalando em excesso. mas, ao mesmo tempo, precisei reconhecer que, de certa forma, linguagem pra engordar narrativa é o que eu faço, e vejo mais a verdade ao redor num texto do Biajoni do que nas sandices que escrevo. talvez por isso tenha (quase) ficado triste; não só a vida é assim, cartesiana até no caos, como nem se preenche de palavras pra tentar um simulacro de sentido? a experiência de Virginia é cortante nos espaços que deixa. ela sorri e provavelmente eu a veja mais bonita do que realmente é, porque eu teria notado antes do que o protagonista do livro.
de volta pra casa, na estante, percebi que Virginia faz um belo contraste ao lado de Sexo Anal; são um livro feminino e um masculino, em trama, tempo e tratamento. ambos têm momentos marcantes e singulares. mas, lado a lado, Virginia Berlim não é um livro tão belo quando Sexo Anal é instigante, nem tão introspectivo quanto Sexo Anal é debochado. Biajoni não se supera, mas supera a questão; é como se tivesse parado de contar histórias e resolvesse conversar - usando inclusive os espaços abertos como pontuação. Virginia dá de ombros. sabe que nasceu experiência. e eu acho que ela estava grávida.




lindo.
:>)