Novos Eldorados

As sombras dos galhos da árvore tremulam sobre meu livro. Adoro o cheiro que levanta da grama recém-cortada. Seu verde cintila tanto sob o sol que parece produzir barulho, minúsculos estalos da fibra crepitando com a luz. São poucos os dias de temperatura amena, e é preciso aproveitá-los em cada minuto. Outono é meio-termo entre suor e o gelo. Respiro com paixão a todo instante; sinto-me novo com todo esse ar fresco nos pulmões, refrigerando minha carcaça. As folhas, claro, caem a todo momento em meu colo, em meu corpo, no meio das páginas. Engulo o silêncio com meus ouvidos e o aprisiono dentro de mim, estocando-o para o inverno que será passado em locais fechados, cheios de falatório, ar viciado e cores mortas. Se pudesse, passaria o resto da vida assim, repetindo momentos como esse. Boa leitura e serenidade; só me falta um cálice de vinho, que não busco para não precisar encontrar com Letícia. Ela possui a incrível capacidade de arranjar tarefas maçantes e cotidianas para me aporrinhar, o tempo todo. Jardel, tem que levar o lixo pra fora. Jardel, tem que trocar a lâmpada do sótão. Tem que arrumar a antena da tevê no telhado. Tem que levar os filmes na videolocadora, tem que comprar pão porque a Rosi e a Déia vêm lanchar com a gente. Tem que passar um verniz nessa cristaleira. Odeio meu nome, quando vem da sua boca. Já fui Jardel, vem cá que eu vou te fazer uma massagem, ou Jardel, vem tomar um conhaque comigo que já acendi a lareira, e até Jardel, vem me fez gozar como louca mais uma vez. E hoje sou Jardel, tem que passar óleo nos trilhos das cortinas. De “Jardel vem” para “Jardel tem que”. Por isso não vou entrar na cozinha. Estou morrendo de sede, mas me recuso a sair debaixo dessa árvore. A qualquer momento isso vai terminar. O sol vai se pôr, ou o alarme de um carro vai disparar, ou Letícia vai notar que eu não passei o rodo no boxe do banheiro depois de tomar banho hoje cedo, deixando a água empoçada, e então vai gritar da janela que não é minha empregada pra ficar limpando porcalhadas. Mas me adianto, me enervo, preciso respirar, ah, mais ar fresco dentro de mim, é um dia lindo de outono que se vai. Sabe-se lá que temperatura teremos amanhã. No noticiário disseram que deve chover. Deus, é melhor eu arranjar algo pra fazer na cidade, se isso acontecer. Me escondo num café afastado para terminar de ler esse livro, como alguma coisa rápida e depois vou direto para a universidade. Ler em casa é impossível, com a Letícia me aborrecendo. Droga, a porta da varanda bateu. Lá vem ela com alguma bobagem. Ela sempre corre atrás de mim se estou quieto por muito tempo.

–– Jardel, fiz suco de ameixa, quer um pouco?
–– Não, obrigado, querida. Estou sem sede.
–– Hmpf. Tá bom. Depois não reclama se ficar meia hora no banheiro se contorcendo.

Incrível sua perícia em ir do candidamente amável ao escatologicamente desagradável em apenas duas frases. Ela dá as costas e volta para dentro de casa. Viro-me em sua direção para mostrar-lhe dedo médio, mas o sol alaranjado incide diagonalmente sobre seus cabelos e sinto uma súbita onda de ternura me invadir. Ainda a amo, mas o que me deprime é que poderia amá-la muito mais. Sei que tenho caldeirões de paixão borbulhante dentro de mim, querendo escoar, querendo cobri-la de beijos e carícias, mas não consigo dar vazão a nada disso. Encolho-me e resfrio. Sugo mais ar fresco.

–– E Jardel, tem que trocar a resistência do chuveiro, porque hoje eu não vou tomar banho frio!

E se eu arranjasse uma amante? Pode não ser um expediente muito limpo, mas pelo menos faria justiça a mim mesmo. De que adianta ter fogo, ao lado de uma mulher como essa? Acho que me sentiria melhor, mais leve. Quem sabe até não seria um marido mais paciencioso se conseguisse relaxar? Se não estivesse sempre tão tenso? Ora, recém entrei nos quarenta, os cabelos estão firmes no lugar e, colocando a camisa para dentro das calças, até que não fico barrigudo. Mas onde eu arranjaria uma garota? Veja só, comecei pensando em amante e agora já quero que seja jovem. Quem sabe na universidade? A Suzana, aquela gracinha da secretaria, sempre fica me elogiando quando uso aquele perfume que a Letícia mandou trazer de Rivera. Eu poderia prestar mais atenção nos seus sinais, talvez ela realmente esteja interessada numa aventura com um professor quarentão e cheiroso. Sexo: isso vive acontecendo no departamento. O Saulo, por exemplo; se for mulher e passou com nota dez, pode desconfiar que não foi por causa de estudo. E ele nem se esforça, as meninas é que correm atrás dele. Outra providência é arranjar uma noite para minhas escapadas. Que tal terça? Sim, é um bom dia pra tentar uma investida. Eu sei que a secretaria fecha mais cedo. Não tenho aula nesse dia; melhor ainda. Dou uma desculpa qualquer pra minha querida e dedicada esposa, como... marcar uma aula no laboratório, por exemplo, e apareço por lá. Hm, preciso me lembrar de comprar camisinha. E passar bastante perfume. Será que a Letícia vai desconfiar se eu sair de casa assim? Melhor levar comigo e passar antes de descer do carro. E se ela der falta do frasco? Droga, vou comprar um outro vidro dessa merda e esconder dentro do estofo do assento. Agora, como é que eu vou abordar a Suzana? Onde é que fica a ponte entre o “Boa noite” e o “Que tal dividir uma garrafa de vinho naquele motel ali na rua de cima”? Não sei o que esses jovens fazem para arranjar sexo, hoje em dia. Já não sabia no tempo em que eu era jovem e estava na graduação! Havia os reflexos da euforia flower power, a liberação feminina, o anticoncepcional, o rock and roll, o LSD, todo mundo transava com todo mundo e eu preferia ficar sentado no gramado em frente ao saguão do prédio lendo um livro, porque isso era me ocupar com algo que eu realmente entendia. Que merda. Não mudou muito a minha vida desde lá. Se Letícia não tivesse tropeçado na minha mochila e, caída no chão, comentado “Nossa, adoro Roland Barthes, que legal, posso ver esse seu livro?”, provavelmente eu nunca teria feito sexo até hoje. Nunca fui bom com mulheres. Ah, se eu puder fazer a Suzana tropeçar em mim! Já sei: quando ela for para a fotocopiadora, vou esticar meu pé e ploft, ver ela desabar no chão. Aí eu pulo em cima dela, a possuo enquanto ela junta os papéis e volto pra casa, satisfeito e aliviado. Ao chegar, ainda dou um tapinha na bunda da Letícia, tentando esconder o riso escroque. Melhor, vou passar numa loja de conveniência e trazer flores para casa! Isso, flores, e uma caixa de bombons. Ah, a ironia de todas as coisas! Vou entrar pela porta, radiante, e lhe entregar os presentes dizendo “Para você, minha rainha!” Saco, o Paiva tá se aproximando da cerca, e o sol já está quase desaparecendo. Por favor, não aporrinhe, me deixe em paz com meus planos, obrigado?

–– E aí, Jardel! Eu e uns primos vamos fazer um futebolzinho depois de amanhã! Tem um lugar ainda, não quer jogar com a gente?

Eu sou um imbecil. Com essa bandeira toda, a Letícia vai descobrir na hora que eu andei aprontando.

–– Não, obrigado, vizinho. Terça eu já tenho compromisso. Fica para a próxima.

É melhor eu me controlar e chegar em casa com a mesma cara de sempre. Vou usar “Boa noite, querida, meu dia foi terrível, estou podre de cansado, já comi na rua”. E quando ela vier com seu “Jardel tem que”, eu vou... mandar ela calar a boca! Rá! Que ótimo! Minha testosterona ainda vai estar esguichando pelas veias; vai ser fácil, fácil. “Letícia, cala essa boca!” Quero só ver a cara que ela vai fazer. Então vou subir pro quarto e deixar minhas roupas espalhadas por todo o lado. E se ela reagir? Aí eu vou ter que rosnar mais alto, “Eu já disse que é pra calar a porra dessa boca!”, quer mais?, “E ai de ti se eu ouvir mais um pio!” Se ela parecer amedrontada, vou com o dedo em riste. Aliás, quer saber? Sou bem capaz de chegar em casa querendo mais sexo, é, minha adrenalina vai estar a galope! “Sobe já pro quarto e tira a roupa enquanto eu tomo um banho!” Ah, hahaha! Ela não vai entender nada. Eu vou mostrar pra ela quem manda na casa. Eu vou trepar com ela como se nunca tivesse trepado na vida. Vou acabar com a raça dela, vou fazer com raiva, com força, desafogando todos os “Jardel tem que” ouvidos e engolidos até hoje! Esse é o plano, conquistar o meu respeito com base na diferença entre os sexos! “Tá vendo isso aqui no meio das minhas pernas, mulher? Pois eu tenho, e você não tem! Por isso, de hoje em diante, vale a lógica: EU digo o que TEM e o que NÃO TEM que ser feito! Algum problema com isso, querida? Hein?” É tão simples! Uma boa e dominadora trepada, de quatro, com as mãos dela apoiadas na janela, e eu vou reestabelecer a ordem na minha vida. Quer ver se a Letícia não vai me respeitar outra vez, depois disso. Quem sabe, ela não volta a ser carinhosa e fogosa como era no começo? Ora, eu recém entrei nos quarenta, estou em boa forma, meus cabelos estão todos aqui ainda! É isso aí: eu vou fazer essa mulher se apaixonar por mim outra vez. Eu vou ser um novo homem, um novo homem voraz, forte e insaciável. Aposto que ela vai mudar de “Jardel tem que” para “Jardel, será que você pode, por favor, meu amorzinho?”

–– Jardel, já tá escuro, tu não vai entrar?
–– Sobe já pro quarto.
–– Quê?
–– Sobe já pro quarto e tira essa roupa enquanto eu tomo um banho.
–– Quê? Que roupa? Banho? Mas a resistência do chuveiro...
–– Tu não ouviu o que eu disse, Letícia? Vamos!
–– Ahm, tá, mas tu esqueceu teu livro debaixo da...
–– Deixa a porra do livro e sobe de uma vez!

Nos seus olhos, surpresa, confusão e insegurança. A insegurança que Letícia tinha quando começamos a nos apaixonar. Ouço seus tamancos subindo a escada. Antes de entrar em casa, aproveito o ar que ainda sopra fresco nesse início de noite e inspiro fundo, muito fundo, até que não haja qualquer espaço vago nos meus pulmões.

7 Comments

Viva

Minha mente passeou por várias etapas...
Coitado do Jardel ~ Bem feito pro Jardel ~ Dá meu telefone pro Jardel ~ Jardel é um fêdêpê ~ Tô torcendo pro Jardel

É isso aí: Mulher chata e mal humorada é mal comida!

Grande Tiagón! Saudades de seus textos!

Este esta particularmente maravilhoso.

Beijocas

Ótimo texto :)
Saudade. Saudade.

fer

cara, eu gosto do jardel. mais: eu entendo o jardel. aliás, eu torço pro jardel.

(o personagem, não aquele ridículo q jogou no grêmio e depois casou com a karen matzembacher, q fique bem claro).

beijos, saudades!

Gosto da tua lavra mesmo quando ela foge ao estilo nonsense mucho loco. A construção é exata, bem dosada, verossímil e fluída, enfim, ótima literatura. Dica de casado para conferir ainda mais verossimilhança: troque "flores e bombons" por alguma coisa com cara de familiaridade íntima. Por exemplo: "umas gérberas e uma caixa de Lindt, que ela adora".

GO JARDEL!
Muito bón, Messer Casagrande.
Abs,

Ana Luiza

Muito bom, mas um pouco desatualizado.Sugiro que ele se chame Fernando, Fernandão pra galera....

na escuta


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Esta página contém um post de tiagón publicado em maio 18, 2006 11:07 AM.

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