setor de documentação

eu sempre tive ganas de colecionar a vida. geralmente prosaico, como um ingresso de show ou uma borrachinha de cabelo, ou um papel com o embrião daquela poesia que ficou horrível, ou as agendas repletas de detalhes das paixões adolescentes. e a planilha onde anotava os filmes que alugava na locadora próxima e a listagem de todas as músicas contidas em três centenas de fitas cassete e até recortes de jornal e santinhos da eleição de 89, a do Collor - era tão importante! do que era meu e do que me cercava: uma memorabilia de riqueza pessoal. um caleidoscópio estéreo, de mosaicos na parte de dentro e por fora também.

hoje eu não consigo mais fazer isso. quando abro o armário e vejo a caixa de recuerdos, repleta dos meus cacos, só posso lembrar de um eu que ali está e já não é mais. por exemplo: anos e anos de cartas e poesias daquele amor antigo não fazem qualquer sentido. porque não fui eu quem as recebeu; foi ele. o eu que pertence a aquele passado.

isso não diminui a importância dos objetos e seus eventos, apesar. não se entenda isso como escárnio, hipocrisia, negação; em seu espaço-tempo, eles significam a própria existência. guardei-te porque naquele instante tu simbolizavas um momento em que eu me senti mais vivo do que jamais antes.

mas se eu sou o que absorvo e processo, e se não pude apreender o suficiente para trazê-lo comigo e invocá-lo no momento necessário, dou de ombros. não sei se de fato notei ou se apenas hoje posso imaginar e cultivo uma falsa memória: eu, trocando a catarse por um souvenir que fica lindo na estante da sala do córtex cerebral. eu como um turista que não pára de tirar fotos e só aproveita a viagem na volta pra casa.

talvez eu esteja sendo cínico demais comigo mesmo. talvez eu tenha abdicado de uma teoria evolucionista para escolher uma nova renascença a cada instante;

é verdade que eu nunca me dei muito bem com o calendário e o relógio, e a cada dia que passa suporto cada vez menos esses dogmas temporais - passado, presente, futuro.

um pode me chamar de volúvel, mas eu prefiro reafirmar um desejo a cada oportunidade a ficar lendo verdades no manual que construímos com nossas neuroses. eu quero agoras.

fragmentos da memória; fósseis e âmbar e escavações: ainda tenho muitos desses objetos. de alguns eu consegui me desprender - como os textos xerocados para a faculdade -, mas ainda conservo bastante coisa. não guardar, ok; jogar fora é algo absolutamente diferente.

mas a cada vez que mexo naquela caixa, separo mais alguma coisa que pode ir para o lixo. até o dia em que tudo o que for importante vai caber dentro da minha carteira.

então eu toco fogo em tudo, e começo tudo de novo.

8 Comments

Putz...

Eu faço exatamente isso.

Vizinhos meus já chegaram a ligar pra minha casa pq disseram sentir cheiro de queimado e me ouvir chorar e praguejar. Já me tomaram por satanista macabra, mas prefiro deixar todo mundo na dúvida.

É um ritual xamânico-grabrielístico de exorcismo que pratico regularmente.

Faz um bem danado. E funciona.

Bom, eu ainda não queimei nada. Mas é mto verdade essa coisa de cada hora q mexe ter uma coisa q pode ser jogada fora.
Lindo texto.

Tema bonito e, para mim, muito triste.

Como me mudei várias vezes nos últimos anos, deixei muitas recordações jogadas por aí, uma em cada lugar. Ao ser habilmente furtado pela Suélen (ou Pâmela, não lembro), deixei muita coisa lá. Curiosamente, elas às vezes acabam retornando incompletas ou diferentes por outras mãos. Muitas vezes sonho e me acordo pensando nisto ou naquilo. É horrível. Não é uma necessidade de recuperar papéis ou pequenos objetos, é a comprovação de uma parte de minha vida que foi destruída mesmo, de um futuro não acontecido.

Minha idade e perspectiva são muito diversas das tuas e nestas pequenas coisinhas estão escondidos alguns fantasmas que me atacam na Hora do Lobo (entre às 5 e 7 da manhã, talvez à mesma hora em que Chris Wilton reviu Nola Rice).

Um dia escrevo sobre isto e me mato depois.

Trilha sonora: "Um fio de cabelo no meu paletó"

Eu jogo fora.

Eu não sou o que sou agora. O que sou é tudo o que já passou. Apesar de estar no presente, dizer "sou" é falar do meu passado. O futuro nunca existiu, existe ou existirá. Quanto ao agora, é algo móvel, mas do qual não cabe dizer-se: "o agora é o que é". O agora se faz de desejos líquidos, fluidos. Tente pegar um líquido com as mãos e comprove que o desejo não se deixa agarrar.

Não temos apoio (ver o balé de Pina Bausch, no início do filme Fale com Ela), isso já sabemos. Por isso as coleções de passados parecem meio bobinhas, meio infantis. Não dá pra se apoiar naquilo, nem em nada. Como viver sem apoio?

Acabei de mudar de casa e para isso encarei a caixa-memória com um misto de receio e curiosidade. O que estaria ali? Pouca coisa fez vibrar cordas antigas aqui dentro, muita, muita coisa foi pro lixo. Realmente, era uma outra pessoa aquela ali. Mas eu simpatizo terrivelmente com ela.

Viva

Também para mim é um tema forte e pertinente.

Na adolescência tinha mania de guardar tudo. Com o tempo fui conseguindo me desfazer de algumas cartas e objetos, mas ainda conservo minha coleção de mais de 2000 caixas de fósforos.

Achei linda a maneira como você dividiu sua caixa de recuerdos conosco. Se aquele "eu" que estava ali já não é mais, parabéns! Pra frente é que se anda! Nós somos um conjunto formado por todos os itens que já passaram pelas caixas, independentemente de ainda estarem lá ou não.

Assim: não jogo nada fora. Tenho PÂNICO de ficar velha "alzheimerenta" e não lembrar que um dia fui ao mercado da esquina comprar açúcar de baunilha pra minha avó fazer um bolo que só ela sabia fazer. E isso, eu tinha 9 anos. Tá, posso ver a tal nota, aos 90, e não lembrar do que se trata, mas é uma prova ou um caminho. E os dois.

na escuta


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Esta página contém um post de tiagón publicado em fevereiro 20, 2006 1:11 PM.

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