–– You will never run mad, niece.
–– No, not till a hot january.
‘Much Ado About Nothing’, William Shakespeare
porque hoje cedo eu levantei da cama num pulo e fui olhar os carros: era verdade, o carnaval havia chegado e era nulo o movimento da cidade. nenhuma ocupação de asfalto aqui –– eu vi os pombos ciscando macumba sem preocupação alguma, e isso era na esquina da Ijuí. na calçada, ninguém. dava pra ir no armazém do Joaquim / pelado sem ser importunado por transeunte ou jornaleiro, e se estivesse aberto, dava até pra comprar umas Teem botar na maleta e brincar de pastelaria no deserto. feito goleiro catimbeiro em lance duvidoso de escanteio levantei a cabeça bati as luvas pedi tiro de meta e escutei da torcida o hino; pensei arrisco um passeio, vou pra Redenção e chimarreio, que o sol tá a pino mas lá a sombra é gorda. só que ao chegar, constatação: metade do gramado era dos punks, metade era do cachorredo que resolveu fazer um surubão coletivo suburbano catuaba uivo-metal calafrio: era a convenção anual das cadelas no cio e chegava ônibus da Região Metropolitana repleto de congressistas e o parque todo cheirava a sovaco e pêlo suado. decepcionado olhei pro meu relógio sem ponteiro, praguejei com minha cidade desapontado –– se fosse o Rio de Janeiro tinha bloco, banda, Posto 9 (Coqueirão) e Corcovado. e tudo no compasso do enredo, longe do samba chorado. entrei numa lojinha conveniente de posto de gasolina renitente ao feriado, comprei duas latinhas de Polar e a moça do caixa me olhou como quem convida, “me tira daqui que tal a destaque da avenida no teu apart”, desculpa querida mas eu não achei meu estandarte no lixo, ô mocréia pretensiosa. e dá meu troco por favor, que de miséria e de tristeza estamos na mesma fossa. ô vida falida, se pelo menos eu tivesse algum pila ia pra Santa, precisava nem ser Praia Brava / Itapirubá já era beleza. e agora cença que vou beber minhas bereja no meio-fio da Osvaldo Aranha, embaixo das palmeiras e com as pernas esticadas no corredor de ônibus. vazio sem virulência, resignado à beça; tá tudo jóia não te estressa, valeu por ter ligado, não pude ir – paciência, nos falamos em abril, Tiradentes tá chegando e o pessoal tá programando subir pra serra, provavelmente pra Canela, depois a gente avisa. a tele-amiga alivia, até sopra uma brisa, mas não impede a sensação antiga de que numa Terra paralela tem uma versão nossa que se diverte muito mais. a grama do vizinho é mais verde que meu teto solar. um dia poetikaos superlativo trocava agora por caipirinha, minha gatinha de biquíni e uma rede. mas era isso vam’bora êra êra que a pernada é longa e quem bebe tem sede, em casa tem campari e martini, tem sofá gelo e um livro sobre a vida secreta dos arbustos e até aquele vídeo em que ela faz dança do ventre. chego a ranger os dentes com a inércia, não agüento mais esses gatos caminhando pelo telhado se equilibrando na ponta das patas com miado agudo chamando a turma pra repartir um pardal capturado. e esse ventilador só joga vento morno na minha cara e a tevê liga sozinha a cada nova escola entrando na Sapucaí. e eu desligo toda vez porque é numa dessas que eu vou te ver na dispersão, perdendo o rumo com o corpo todo salgado um sorriso bobo os peitos empinados, um chester-pavão cheio de plumas coloridas rebolando em moto-contínuo e voltando pro início pra começar tudo de novo. e essa aranha fez uma teia tão linda da minha orelha até o ombro e eu decidi que não vou me mexer mais.
~.~
bereteando volta dia 6. bom carnaval pra todo mundo.




gostei desse texto, dei piruetas.
Eu tinha curiosidade de saber se você escreve esses textos assim como eu leio: de uma vomitada só, ou se vai tecendo aos poucos, como a aranha faz sua teia, de aparência frágil porém de grande eficiência e beleza ...
Bom carnaval!
Tsc...vc é um feio.
Não entendi o enredo
Desse samba amor
Já desfilei na passarela do teu
Coração
Gastei a subvenção
Do amor que você me entregou
Passei pro segundo grupo e com razão
Passei pro segundo grupo e com razão
Meu coração carnavalesco
Não foi mais que um adereço
Teve um dez em fantasia
Mas perdeu em harmonia
Sei que atravessei um mar
De alegorias
Desclassifiquei o amor de tantas alegrias
Agora sei
Desfilei sob aplausos da ilusão
E hoje tenho esse samba de amor, por comissão
Findo o carnaval
Nas cinzas pude perceber
Na apuração perdi você
Deixou alguma saudade lá no Rio de Janeiro, Tiago?
Antibiótico pra quê???
Ai, caramba! Minha sorte é ter uma assessora particular para assuntos bloguísticos, a Viva. Mais uma vez, ela me falou: vai lá. Lê o Tiagón.
Que coisa de texto...
E aí eu até pensei: uma aranha fez teia no meu corpo e eu uso isso como desculpa pra ficar parada. Mas nem espiar se a renda que a bichinha fez é bonita eu espio. Acho que vou dar uma olhada. Se for bonita eu fotografo e depois destruo, porque a gente tem que se mexer... (peguei aquele seu final lindo pra pensar na minha vida. ah, eu viajo lendo umas coisas...)
belíssimo meu caro!
cerveja no meio fio? td de bom. tenho q ir, minhas mãos estão sujas de terra...
bj!
Bom Carnaval, Tiagón. Em Lisboa chove copiosamente e faz um frio terrivel. Onde fica isso de Carnaval?
Aaaaaaah, o Rio de Janeiro
Aaaaaaah, o carnaval
Carnaval estranho em Lisboa...
Beijos
Maravilha, nada como o carnaval... ainda mais quando emendamos a semana toda.
Êta ócio criativo! Até breve! Beijus
Um show de texto. Gostei tanto do tom, da solidão da cidade, da teia linda que prende. Também fiquei pensando se vc escreve isso assim de um suspiro fundo e inteiro e sem voltar para remendar ou vai e volta tecendo cada palavra no lugar certo da rede.
O que importa é o impacto dele na gente.
Como um samba enredo que não tem fim, seu texto vai nos tomando pelo rítmo frenético de baticum de um coração disparado... ótimo!