Alimentação para Homens Solteiros, nível básico
Se você se importa com a primeira ou a segunda parte deste manual, jogue dois dados. Some o valor ao seu fator de habilidade. Se o resultado for 12 ou mais, pegue outra fatia de pizza. Se for menos, você foi atingido pelo inimigo. Diminua cinco pontos do seu nível de energia e siga até a página 213.
O Solteiro-Padrão empreendedor: Cozinhando sua própria pizza e fazendo amigos
Não é porque você é um preguiçoso podre que não pode ter um dia entediado, pra então deixar os pensamentos vagarem e ter a estúpida idéia de mostrar praquela pretê que você não é apenas esse abobado que transparece; você também é sensível. Porque as mulheres fazem algum tipo de relação ancestral entre comida e sensibilidade, e aí partir daí distribuem novos conceitos. Se você cozinha, você é legal; se você cozinha e estraga tudo porque é estabanado, você é bonitinho. Se não cozinha nem um ovo, é um troglô tosco. E se não cozinha mas é rico, é um um troglô tosco incrível, vem delícia! (Mas não é esse o caso. Se você fosse rico, mandaria servir pizza num iate, com champanhe.)
Desse jeito tudo vai mal, e talvez a única maneira de levá-la para a cama seja preparar algo que a faça desmaiar, como calabresa, cebola e pimenta malagueta viva, ou alho com anchova e chantilly. Ou um porre de Steinheger. Mas mantenha-se calmo e focado. Essa menina vale a pena. Você vai cozinhar pra ela, colocar um Chet Baker na vitrola, servir um argentinozinho tinto canalha e, na linguagem interdita dos relacionamentos, mostrar que você é um merda, mas se esforça por ela, e pode até mudar – desde que vocês façam sexo esta noite. Talvez seja ela quem vai botar ordem na sua vida. Talvez ela lhe dê dicas sobre livros e museus. Talvez ela cuide das suas roupas e passe pomada nas suas micoses. E se você for bom mesmo, talvez ela até lave aquela imundície toda que você está prestes a fazer na cozinha. Talvez ela vá embora no outro dia e você não tenha nenhuma vontade de falar com ela outra vez, e nessa hora é sempre bom ter um pedaço de pizza sobrando, pra comer frio com cerveja e as saudades de algo que foi bom mas era vento, ventania. Ou uma vodca, que horas são mesmo?
Em primeiro lugar, compre a massa pronta. Não, você não vai fazer a massa. Não, você não consegue. Para os homens, fazer uma massa de pizza requer uma revelação mística, e vem como um fato da natureza, como ser pai, ou comprar um Jaguar; não é para meros comuns. Então compre a droga da massa de pizza pré-pronta. E não há nada para se preocupar: pizza é um agregador social, não comida de chef. Pizza é rés-do-chão. Você prefere comer uma dondoca refinada cheia de bota-aqui não-bota-isso combinê combinê ou uma gordurenta, com a mão, se lambuzando e grudando? Certo, talvez não tenha sido uma boa metáfora. Enfim. Se você estiver realmente investindo na garota, pode encomendar a massa pronta de alguma pizzaria próxima da sua casa. Mas é melhor não contar isso pra ela. Nem pros seus amigos. Pode pegar mal.
Coloque a massa de pizza sobre a assadeira. Coloque, não jogue, lance ou arremesse. Discos de pizza são estranhamente atrativos como frisbees, eu sei, mas procure se concentrar. Não poupe nesse momento; forre com papel alumínio triplo. Abra cuidadosamente a lata de polpa de tomate – não aquelas bobagens temperadas, só tomate mesmo – não, você não vai fazer um molho denso que apura em quatro horas seis dúzias de tomates pelados em caldo de tutano aromatizado com louro, compre o maldito genérico pronto na lata que tá jóia – e espalhe-o sobre a massa de maneira homogênea. Isso significa que não é pra deixar um mar de molho no meio e umas ilhas secas no canto pra fazer um efeitinho. E nem coloque demais, senão vira sopa.
Na parte mais importante e divertida, montar a cobertura, é preciso respirar fundo e combinar corretamente os acepipes. Conter sua criatividade pode ser essencial; deixe a tevê ligada na novela, com o volume alto. Eu sei que salame italiano com yakisoba de ontem parece uma ótima combinação, mas lembre-se: mulheres costumam ter paladar. Também na hora de comprar os ingredientes, não esqueça de que é uma pizza para uma garota, e não para você e a habitual matilha de amigos. Uma boa dica para não perder o foco entre as gôndolas é memorizar a ‘regra dos 60’: você descarta qualquer coisa que contenha mais de 60% de gordura, 60% de pimenta, 60% de glicose ou 60% de soja (por princípios). Pra não precisar fazer contas, pense nos coringas, como o atum (que tem a vantagem de vir pronto, é só descascar a lata; e peixe faz bem pra cabeça. Use isso contra ela caso necessário), a calabresa (um clássico), e a mussarela – com um tomate em cima, pra contrabalançar. Compre bastante orégano; isso faz você ficar mais confiante e parecer sério. Cozinheiros sempre têm muito orégano. Disponha os ingredientes escolhidos sobre o molho, distruibuindo por igual. Se você estiver se arriscando a fazer mais de um sabor, cuidado com a linha divisória imaginária entre eles; relacionamentos já terminaram na antiga Ligúria por causa de lombinhos invadindo vôngoles, e até hoje servir uma pizza desequilibrada é considerado mau presságio. Espalhe orégano até cobrir tudo. Cubra outra vez.
O pulo do gato é deixar a pizza pré-pronta. Você assa doze minutos e desliga o forno. Mas isso é segredo. A garota chega, o cheirinho da pizza no ar, vocês bebem um pouco, jogam papo mole, mais trago, musiquinha criando clima, baixa a luz, vinhozinho pegando, ela mexe no cabelo etc. E então, se necessário, bem mais tarde, vocês comem a pizza. Ela está pronta para ser servida corretamente: fria, amanhecida. Porque afinal você quer conquistá-la, mas não é um impostor. E nesse instante ela está realmente compartilhando algo com você, uma verdadeira intimidade: a legítima pizza pós-coito, comida a dois, encostado no balcão ou sentado na pia da cozinha, entre conversa e risadas e cerveja, e guarda a vodca, que a moça é de família. (A não ser que ela tenha tatuagem. Sirva duas.) Porque pizza é um agregador social. E principalmente quando o social usa uma calcinha daquele tamanho.
Num outro final possível, você pode fracassar miseravelmente porque o combo “vinho + jazz” não faz efeito na moça, que está com fome, e acende a luz que essa penumbra me irrita! Com um humor desses, servir a sua pizza tosca seria brincar demais com a sorte. Diga-lhe que está só esperando assar, e em quinze minutinhos estará pronta. Ligue o forno a todo vapor e vá distraí-la – com um cd do Jota Quest ou algo brilhante, como um anel de rubi herdado do vovô ou um bagre – até que a pizza se transforme num pneu velho. Você vai passar da categoria bonitinho para que estúpido ou até mesmo fracasso completo, mas tem a chance de se redimir chamando uma pizza da sua forno-a-lenha favorita. Ela vai miar que quer de Brócolis com Catupiry e vai sorrir pra você e arregalar os olhos como um gato de mangá; é preciso ser firme e astuto e trocar o sabor na hora de fazer o pedido. Ligue do quarto. Em 45 minutos chega. É tempo mais que o suficiente pra você tentar outras investidas sobre a moça, ou até mesmo – paciência – tentar engatar uma conversa. E da mesma forma, é tempo suficiente para que ela vá embora e lhe deixe sozinho com a pizza. Quando ela chegar, não tire da caixa; jogue dentro do que sobrou do forno, pra comer no outro dia, durante a ressaca. Beba meia garrafa de Drury’s e vá encontrar os guris no Ossip. Amigos, cerveja e risadas. E a pizza de lá é ótima, inclusive.




"Porque as mulheres fazem algum tipo de relação ancestral entre comida e sensibilidade." E os grandes endo-marqueteiros se aproveitam dessa nossa fraqueza...
Pizza!
Voce acha que eu devia fazer um post com a minha técnica de mumificação de pizzas?
Ou um post sobre como ler o blog do Tiagon direto no site sem seus olhos saltarem das orbitas por causa da letra -2pts - para leigos.
(Estou me aproveitando da sua fama para fazer sucesso.
"É, isso, eu sempre fui muito amiga do Tiago, desde pequenininha, fui eu quem ensinou ele a atravessar a rua - isso, eu tinha 6 anos e ele tinha 13")
Esperei terminar a trilogia pra comentar: Como eu sofro com essa pizza de brocolis com catupiry!
(Ainda bem que pra essas horas inventaram a pizza broto, que separa o casal, mas mantém minha calabresa "limpa")
Desde o início, eu tinha certeza que tu ias falar nisso.
E tem mais, porra... eu faço a massa sim. Confesso que tenho um certo cuidado, pois no mísero beijinho, tu enche o cabelo dela de farinha. Não dá pra assoviar e chupar cana ao mesmo tempo, né! Em compensação, tô pronto pra casar. ;P
eu tenho tatuagens. três. e se tu vier me servir vodca eu t dou uma voadora à la chuck norris.
Essa série sobre Pizza está ótima. Até me animou a fazer pizza (inclusive a massa) lá em casa!
Na hora de fazer, com certeza, vou consultar o Bereteando pra garantir que está saindo tudo bem!
Tô achando que essa série vai acabar em pizza...
Diga-se de passagem, pizza amanhecida e requentada na chapa é uma DILIÇA!
Bem-vindo ao Wasabi, cara. ;-) Abraço.
Deu? chega? Podemos falar de ovo frito, agora? É mais fácil... pode ser que saia um post menor...
Toda essa história me lembrou do velho Catinflas, ah, sim, isso é que era ponta esquerda.
muito bom!
mas não vem com essa se a moça é tão miseravelmente de mau gosto q vinho + jazz + penumbra não funcionem, isso o impedirá de cumprir com o q realmente está na pauta dessa sua empreitada culinária... ora...
ou vc é dos raríssimos exemplares q têm paladar, para mulheres???