Num aquecimento à Semana Farroupilha, trago-vos este causo gauchesco, compilado por Apparicio Silva Rillo - trovador, poeta, músico e folclorista portoalegrense - na majestosa série Rapa de Tacho, que devorava quando piá, junto com a Coleção Vagalume.
É do empirismo da medicina campeira do Rio Grande que o dejeto do cão, após bem seco e haver tomado uma coloração branquicenta, é porrete para um série de doenças, especialmente do pulmão e vias respiratórias. Dão-lhe o nome de Jasmim de Cachorro e deve ser ingerido sob a forma de chá.
A um correntino mui gabola que se apeou numa derrubada de mato nas costas do Uruguai, na estância dos Aranha, em Itaqui, a propósito dessa medicação - em que não acreditava - lhe fizeram de uma feita uma presepada de deixar memória.
Serápio Coluna, se chamava de o "Allá". Gabava-se de não temer a nada e a ninguém, com uma exceção: picada de cobra. A tanto ia seu temor pelas "casaco-overo" que usava um colar de dentes de alho atado acima do tornozelo. "Para espantar las culebras", explicava aos curiosos.
Seus parceiros de derrubada resolveram pregar-lhe uma peça. Havia um deles abatido num macegão uma cruzeira de metro e pico, quando voltava do serviço para a bóia, pouco antes do meio dia. Reuniu os companheiros, lembrou-lhes do medo de Serápio e o plano foi concertado em dois tempos. Era verão e após o almoço - arroz com torretes de charque - foram todos sestear. Pouco demorou para o Serápio grudar num sono cerrado, "o mesmo que um sapo morto estirado aos arreios", como na figura bem apanhada pelo poeta Aureliano de Figueiredo Pinto num de seus poemas.
Um dos mateiros preparou uma fisga de duas pontas na extremidade de uma taquara; um segundo trouxe a cruzeira abatida e a colocou próximo dos pés do correntino; dois ou três mais armaram-se de porretes.
O que empunhava a taquara preparada aproximou-se do tornozelo de Serápio. Golpeou seca e rapidamente, enquanto dois deles, aos gritos de Cuidado! e Olha a cobra!, baixavam os porretes na cruzeira já morta.
Serápio, acordado pela fisgada e pelos gritos, levou alguns segundos para inteirar-se do que sucedia. Arregalou os olhos quando deu com a cruzeira sendo golpeada, quando levou a mão ao tornozelo e verificou que lhe fluía o sangue de dois orifícios paralelos.
-- Por la sangue de Diós, me picó la culebra! Y una cruzera, virgem mia! Estoy perdido, envenenao de todo!
-- Calma, Serápio, calma no mais que pra tudo há remédio neste mundo. Maneca, me alcança um tento de couro que vou fazer um torniquete abaixo do joelho, pro veneno não subir pro peito.
O mais velho deles, fazendo cara de preocupado, procurava acalmar o companheiro.
-- Não te afoba, Serápio velho. Enquanto o torniquete segura o veneno desta medonheza a gente prepara um chá de "jasmim de cachorro". Já curei pelo menos três com este remédio velho de guerra.
Maneca deu de mão num torrete de merda seca, ajeitou a cambona com água junto aos tições, deu uma ventada nas brasas e as labaredas subiram.
Serápio suava frio, sentado numa tora de alecrim abatido.
- Juro por mi santa madre que no creo que este té de mierda que ustedes usam vá a curarme. Pero...
- Não tem pero e nem tempero, ou tu toma este chá ou começa a rezar por teus pecados...
Serápio, apavorado, concordou com a medicação. Não tirava os mirantes da cambona lambida pelas labaredas. Pouco demorou para suplicar, gemidamente:
- Como se tarda el preparo del té. Apurate com la medicación, amigo. Por su madrezita, apurate, Maneca.
- Nada de afobação, Serápio. "Jasmim de cachorro", pra fazer efeito, tem que curtir meia hora em água fervendo.
Serápio saltou da tora onde sentava.
- Media hora, dicés? Media hora? Com media hora más el veneno me toma todo. Y adiós, Serápio...
Os companheiros balançavam a cabeça, com fingidos ares de preocupação. Um minuto mais e o correntino não resistiu:
- Creo de todo mi corazón que me cura el té de perro. De todo mi corazón, los digo. Pero media hora es mucho tiempo, mucho tiempo!
E arrematou, no auge da angústia:
- Maneca, mi hermano, mi hermanito: dame no más um pedazo de mierda de perro que la voy mascando...




Que Malvados!...
A dificuldade pra compreender os regionalismos só se compara a quando escuto aquela música do Gaúcho da Fronteira que depois o Engenheiros regravou, a Herdeiros da Pampa Pobre.
Engraçado é que nós de São Paulo estamos tão acostumados com o modo carioca e nordestino de falar que acho que pra nós o jeito mais exótico e diferente é mesmo o do povo do sul. Que tem um acento muito próprio.
Ai Tiago, tive que parar de ler no primeiro parágrafo porque acabei de almoçar! Voltarei mais tarde, parece bem engraçado.
Bem lembrado, Tchê! abs
Hoje, escrevo sobre cinema ainda influenciado pelo ódio ao ler AQUELE BLOG ESPECIALIZADO... e outros. Não citei nomes, é claro; afinal, aquela "sumidade" parece ser tão famosa! Taí, em minha opinião, tu vês cinema melhor do que ele! Sem dúvida. Discuto com qquer um e ganho a discussão fácil.
Gozado, este filme passou na Net esta semana. Fiz de tudo para revê-lo e não consegui. Antes, avisei o Moacy. Fiz um comemtário lá segunda-feira.
Atenção: o Moacy, do Balaio Vermelho, está fazendo uma série de posts analisando Godard. (Suspiro) Há vida inteligente por aí.
Uma Mulher é uma Mulher (novo suspiro), que filme! Anna Karina (suspiro).
P.S.- Dou eco ao pasmo da Leila. Por que tua surpresa sobre os 44 anos de idade do filme? Não há nada mais natural.
Rapaz, mas que comédia!!! Haahaahaa.
O melhor é que estive em PoA há umas duas semanas e pude conferir o sotaque todo próprio do povo... E tenho que dizer algo: ouvir as prendas falando assim é muito bom, hahaha.
Agora quanto ao conto em sim... Muito bom... Haahaahaa, me dá um pedaço para ir mascando, hahahaha!!!
T+
Hola soy de nicaragua esta interesante todo lo que existe en esta direccion.