Ontem, a vida passou por mim.
Não a reconheci da primeira vez, quando surgiu como um cachorro arisco e de olhar caído. Nem da segunda, em que desceu do céu e parou ao meu lado no banco da praça, na forma de uma estranha ave negra. Só fui me dar conta no momento em que ela apareceu no corpo daquela garota. Linda como sempre, minha paixão da juventude, os olhos enormes e os lábios grossos. O caminhar de sorriso. Tão bela como foi há cinqüenta anos atrás. Na verdade, exatamente igual, sem ter alterada uma célula de sua constituição, as moléculas perfeitamente arranjadas como na fotografia que mantenho no recôndito da mente. Só aí percebi o encontro impossível que me era proposto.
Ela sentou-se com as pernas em lótus, no gramado à minha frente. Meneou a cabeça, sorriu com os olhos, sorriu com os lábios. Não disse palavra. Tampouco falei qualquer coisa. Fiquei perdido, tentando entender o que acontecia. Olhei para os lados e o mundo parecia absolutamente normal, com os outros velhos a jogar damas ou alimentar os pássaros, algumas crianças brincando silenciosamente e o pároco lendo a Bíblia no sol da manhã. Meu peito encheu-se de calor, ruborizei; senti a garganta engasgar e a respiração me faltou. Olhei para o céu, vi as nuvens graciosas a desfiar-se lentamente, o céu azul como espelho refletindo as pupilas de Deus. Tornei a visão para a garota, que moveu os dedos e fez uma carícia em meu rosto, embora sem que houvesse toque de carne. Pobre coração, palpitava como quando guri, louco para sair pela boca e ir encontrar-se ao peito dela, flamando desesperado pela falta que ela nos fez. Linda como um anjo. Tão distante que a fazia próxima da minha tristeza de outrora. Ah, tempos de glória, de pegá-la nos braços e beijá-la apertado, de pousar minha testa sobre sua fronte e ousar sonhar com aquilo que nós chamávamos tolamente de "futuro". Sentia, aos poucos, meus músculos murcharem, cansados, como se tivessem desistido finalmente. Negando-se a assistir esta última flor aberta.
Ainda sorrindo, ela levantou-se do chão e estendeu-me a palma aberta. Com o olhar mais terno que já recebi em toda minha caminhada por este mundo. Então compreendi.
-- Por que mandaram a ti?
-- Vem, vem. Me dá a mão.
-- Me abraça?
-- Melhor não... tua mãe já ficou enciumada o bastante.
Com sua aura macia, ela levou de mim todo o resto que havia deixado para trás quando me abandonou, há cinqüenta anos. E que eu já lhe havia entregue, mais de uma vez.





Lindolindolindo.:'o)
Cruiz!
da série 'once upon a time, and again'
*suspiro*
Apenas enxugo uma lágrima que me desobedece e cai.
Lin ... arrrrrghh ... não ... nãaaoooo ... não posso dizzzeeeer ... ahhhhh ... LINDO !
Saco, escapou.