Este texto andou circulando pela internet há um tempo atrás, próximo ao Dia Internacional da Mulher. Chegou aos meus olhos pelas mãos da Fer. Lembro-me daquele dia como se fosse hoje. Ela mandou o e-mail e telefonou logo em seguida, enchendo ânforas com suas lágrimas, emocionada com as belas palavras de Neruda. "É tão lindo! O que será que o motivou a escrever isso? Sabe, são tantas perguntas que eu gostaria de fazer pra ele! Why, Lord, why? Eu preciso ir atrás desse história", sobejou. "E vou. Não vou ter descanso enquanto não descobrir o que há por trás dessa mensagem, essa mensagem de vida, sabe. Não quer me ajudar?" Eu não tinha muita escolha - era pesquisar o poema ou, oh, voltar ao trabalho. Lançamo-nos com afinco à árdua tarefa de desencavar o passado daqueles versos, e depois de quase dois dias de poeira, viagens pela América do Sul e Europa, escavações, exames de DNA e um xis calabresa com cebola da Zefa, finalizamos o nosso paper - uma obra viva de 670 páginas, com índex, links, versão em RSS e o diabo, espinafrando poema e poeta desde suas relações com a astrologia pré-socrática até o incidente com desacelerador de partículas.
Quando rumamos à editora, um dilema: os originais recusaram-se a andar de ônibus. Discutimos durante algum tempo, até que o texto propôs ir de táxi e esperar por nós na porta do prédio. Aceitamos, mas o pior aconteceu. Ele não estava lá quando chegamos. Sumiu. Puf. E assim permaneceu, desaparecido por séculos, até que ontem ele bateu na minha porta, meio sujo de sangue, retalhado e amarelado. Suas últimas palavras foram "tá tudo errado", e então exauriu-se num belo e gordo ponto final. Sem saber o que lhe ocorreu, e sem poder reparar as páginas perdidas, publicamos aqui os excertos da análise inicial do poema, em homenagem aos caracteres daquele livro.
Tiagón e Fer
O POEMA
Mulheres, por Pablo NerudaElas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.Elas brigam por aquilo que acreditam.
Elas levantam-se para injustiça.
Elas não levam "não" como resposta quando
acreditam que existe melhor solução.Elas andam sem novos sapatos para
suas crianças poder tê-los.
Elas vão ao médico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.Elas choram quando suas crianças adoecem
e se alegram quando suas crianças ganham prêmios.
Elas ficam contentes quando ouvem sobre
um aniversário ou um novo casamento.
A ANÁLISE
Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.
Aqui, Neruda chama claramente as mulheres de malucas. Do ponto de vista do autor, uma mulher não é capaz de transmitir uma mensagem clara a respeito do que esteja sentindo - o que o levaria a afirmar, durante sua estada em Reno, em 1956, que "Não é que os homens não entendam as mulheres; apenas é preciso ressignificar toda a lingüística para que elas encaixem-se num padrão aceito pelo restante da sociedade". Infelizmente, Neruda estava errado na maior parte desse verso. Se as mulheres sorrissem quando querem gritar e cantassem quando querem chorar, o índice de divórcios cairia para aproximadamente um terço. As separações restantes teriam causa nas mulheres que gargarejam quando querem comprar um sapato novo e nas que fazem um transplante de córnea quando perdem o ônibus.
Elas brigam por aquilo que acreditam.
Elas levantam-se para injustiça.
Elas não levam "não" como resposta quando
acreditam que existe melhor solução.
Depois de criticar com a sanidade mental das portadoras do duplo X, neste verso Neruda tacha-as de apolíticas, alienadas e calculistas. De sua relação "casual" com o comunismo, ele aproveita para alfinetar as mulheres, trocando a causa das revolucionárias por o que quer que signifique "aquilo" - categoria onde encaixam-se penteados de cabelo com o uso de musse em spray, porta-batons com GPS e malhas de ginástica em cores berrantes. Do mesmo ponto de vista, mulheres sentadas em um auditório concordam com tudo, calcadas em seu dito "senso" de justiça - mesmo que Alexandre Frota esteja encarnando Otelo, ou que o Bolshoi seja substituído pela nova coleção de alta costura em toalhas de papel de Chiffon. Por fim, ao afirmar que elas "não levam 'não'" (sic/hic) como resposta quando acreditam existir melhor solução, ele, afora os problemas de sintaxe, realiza um ataque claro a categoria das advogadas e todas aquelas por elas protegidas - separações em litígio, inventários de herança, testes de DNA em rede nacional de tevê, danos morais por ser chamada de "gorda", etc.
Elas andam sem novos sapatos para suas crianças poder tê-los.
Elas vão ao médico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.
Neruda, visivelmente bêbado, começa a misturar os temas numa histeria incontrolada. Perrito, que fazia pequenos serviços para o poeta à época em que esta obra foi escrita, lembra de ter visto Neruda trajando tamancas holandesas e berrando o nome de sua mãe, enquanto abria todos os guarda-chuvas da casa. O grande P.P. Cosworth, que dedicou toda a década de 60 a encontrar algum nexo no texto, relata uma passagem curiosa da infância de Neruda, que pode ter motivado a primeira frase: durante a Grande Fome de Nachos de 1941, sua mãe forçou-o a usar suas sapatilhas recém-compradas, para que pudessem receber decentemente a visita do Inspetor e, assim, garantir o suprimento anual de gingko biloba e sementes de sassafrás. Mas Cosworth não foi capaz de decifrar o axioma "ir ao médico com uma amiga assustada". Sua tese de erro de caligrafia - e de que, na verdade, o texto correto seria "Elas vão ao Coliseu numa biga prateada" - não sustentou-se depois de 1966, quando foram encontradas evidências de que Neruda, na verdade, era republicano. Cosworth, esgotado, largou a crítica literária e foi trabalhar com motores.
Elas choram quando suas crianças adoecem e se alegram quando suas crianças ganham prêmios.
Elas ficam contentes quando ouvem sobre
um aniversário ou um novo casamento.
A chave do poema de Neruda está, na verdade, escondida na última estrofe ("Elas choram quando suas crianças adoecem"). Conforme vimos no início ("Elas choram quando estão felizes"), o choro por suas crianças adoecidas representa a felicidade reencontrada pelas mulheres na esperança de que talvez não haja mais a exigência sufocante por sapatos novos, cada vez mais freqüente por parte da prole (terceira estrofe, "Elas andam sem novos sapatos para suas crianças poder tê-los"), e de que talvez seja possível voltar a desfilar com seus Manolo Blahniks sem precisar carregar crianças remelentas à tira-colo.
Se as mães realmente amassem seus filhos adoecidos, segundo a lógica do poeta ("Elas cantam quando querem chorar"), suas doenças seriam recebidas com canções, variando entre as baladas de Gilbert Bécaud e o funk de Claudinho e Buchecha, dependendo da gravidade da enfermidade. Neruda sutilmente constrói em sua última estrofe seu manifesto: mulheres não estão preparadas para a maternidade, a não ser que possam dar à luz a mutantes que já nasçam com o pé adaptado a um par de sapatos (idéia retomada anos mais tarde por Mauricio de Souza e sua Turma da Mônica), o que demonstra o egoísmo e a cupidez do gênero.
A crise nervosa de Pablo interrompeu a conclusão desta obra por seis anos. Pressionado pela Hallmark, que havia encomendado o trabalho para um cartão comemorativo - e pago adiantado -, ele respira fundo, retoma a pena e escreve sobre a tristeza e o sorriso da mulher enquanto mãe, a mãe enquanto fofoqueira, e até sobre as mulheres que fofocam quando querem coçar um ponto cego nas costas. Já a última frase foi escrita, em segredo, pelo ordenança Perrito. Neruda teria lhe dito: "Petiz, traga-me queijo, sirva-me mais uma taça de vinho e escreva a última frase dessa droga". Grafólogos afirmaram, em 1979, que originalmente o texto trazia "o sudário" ao invés de "um aniversário"; a confusão seria causada por uma mancha da saliva de Perrito, que babou enquanto escrevia, e foi corrigida na gráfica. A Hallmark, que já acreditava ter tomado um cambão do poeta, recebeu-o com alegria e alívio. Mas acabou cortando a última frase, considerada agressiva demais para a época:
"Elas mexem nos cabelos quando querem amar, mas depois de casadas só cozinham sopa de ervilhas."




nós somos o máximo!
tiago, edita!!!! edita!!! objetiva!! aprende a usar aquelas coisinhas simpáticas (...)
ninguém goza de tanto ócio como tu que acaba aproveitando pra escrever. pensa nas pessoas q entre uma lauda e outra sobre assaltos a transportadoras de carga páram, respiram e querem algo pra deixar a mente fugir e relaxar quanto ao deadline.
uf. obrigado!!
Vou surpreender o mundo dos blogs ao dizer que não gosto de Neruda. Surpreendo mais ainda ao declarar que, se este poema for de Neruda, eu sou o Tinga. E devo ser morto pelas quadrilhas defensoras do glicosado poeta chileno ao declarar que adoraria que tais versos fossem dele. (Afinal, nossas teses têm de vencer, vencer!)
A análise é muito arguta. Mas há controvérsias. Aquela parte sobre o emprego da metonímia, por exemplo.
Babado é o seguinte: listar 10 coisas que você TEM que fazer antes de bater as botas. Preciso da tua resposta impreterivelmente até o dia em que você puder mandar. Entendeu? Prazo fatal. Mas se for pra logo, melhor, agradeço um pouco. Ou muito. Outra coisa: como fazer para ver os posts de meu blogue que já não aparecem na página inicial?
Aaaaaiiiiiii! Depois de passar o dia encaixotando pratos, copos, tigelas, bacias e um monte de coisa que eu não sei pra que serve, não mereço Neruda, né! E ainda faltam as roupas, bolsas, sapatos, livros ...
Das duas uma: ou és um gênio, ou não trabalhas. Se és um gênio, escreves isso em uma hora; se não trabalhas, o que fazes nas outras 23 horas? (a Fer incluída). abs
Hahaha, ótimo, ót... quantos guarda-chuvas ele tinha?
concordo com o tinga... ops, quer dizer, o milton, a respeito da autoria do poema... independente disto, fiquei imagino o bloom lendo tua crítica... qual seria a reação do velho, é um mistério...
Duvido que seja do Neruda, mas eu intitularia esse poema com o sugestivo nome:
"Poema torto sobre a mulher que foi casada tempo demais com o cara errado"
Esse eh legal!
oi fala