A votação proposta pelo Biscoito Fino, numa campanha de alta adesão da blogosfera, quer escolher os 10 melhores discos da música brasileira. Eu, como blogueiro e publicitário - logo, duplamente palpiteiro -, não podia ficar de fora.
O critério é excelente: deve-se indicar os 10 melhores, não os mais importantes; portanto, que se deixe a crítica aprofundada (?) de lado por um instante (¿¿¿) e que se faça valer a sensibilidade de todos! Até por isso, minha lista é bem diferente das que andei bispando por aí - nada de Caetano, Chico, Milton ou Lupi; João, Tom, Vinícius e afins. Esse rol é bem mais rasteiro e contemporâneo - à exceção de um deles -, mas, enfim, de acordo com o que "melhor" significa para mim nesse momento.
Bereteando, como não poderia deixar de ser, manda todo mundo fazer sua listinha também - vale votar por comentário lá no Biscoito ou fazer post assim como eu, só não esqueçam de levantar a bandeira, pro Idelber poder computar os votos. Diz que até prêmio tem - um cd a ser sorteado entre os participantes!
Sem mais, e sem capinhas porque me preguiço, mas todos lincados pra ouvir no Cliquemusic, ei-los:
Mutantes - A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado
Pô, Mutantes é o que há. Melhor dizendo - era o que havia, e naquela época havia muito pouco quase nada como eles! Misturando rock, psicodelia, teclados progressivos e humor a quantidades industriais de LSD, o trio fez uma das mais brilhantes e originais obras musicais do brasiu - quiçá del mondo. Em 1970! Minhas preferidas: Preciso urgentemente Encontrar um Amigo (de Roberto e Erasmo), Ave Lúcifer e a épica Meu Refrigerador Não Funciona.
Mundo Livre S/A - Carnaval na Obra
Já vi vários votos pro Mundo Livre - a maioria pro Samba Esquema Noise... Ao longo do tempo ouvi várias críticas a esse disco, dando-o como longo, elíptico e confuso. Nope! Ele é coeso, insubmisso, subjetivo, passional e muito bem composto. Prefiro as faixas menos festivas - Meu Quinto Elemento ou aaaah, adoro Quarta Parede -, mas o balanço de Negócio do Brasil e Quem tem Bit tem Tudo fazem deles genuínos filhotes do sambalanço. Certo que deve ser o disco brasileiro que eu mais ouvi em todos os tempos.
Chico Science & Nação Zumbi - Afrociberdelia
A primeira vez que eu ouvi Chico Science foi num programa Radar. Eu estava no estúdio com o meu colégio, e passaram o clipe de A Cidade. E eu odiei aquilo do começo ao fim - a música, a cara das pessoas, o nome, tudo! Anos depois eu reecontrei o som da banda, e ouvi de outro jeito. É muita poesia, muito folclore, muito batuque, é um som rico e que não permite ao ouvinte a impassibilidade em momento algum. E um disco que tenha Mangue Town merece estar na lista.
Replicantes - Ao Vivo
Os Repli são os a essência do punk gaúcho - um bando de malucos fodidos, se ralando pra ligar aquela podreira de equipamento nas tomadas do Bar João. Um som sujo e seminal, que se confunde com a própria história da cidade - a lembrar do selo Vórtex e do festival Rock Ubirici. Da podridão da trupe de Wander Wildner e Carlos Gerbase saíram pérolas do punk nacional como Festa Punk, Nicotina, Sandina e, claro, Surfista Calhorda. Não tem no Cliquemusic pra ouvir, mas aqui dá pra baixar umas musiquinhas, incluindo Sandina.
Sepultura - Arise
O Sepultura consegue unir estabilidade e criatividade - o tempo passa e eles ousam, mas não perdem o fio condutor de sua trajetória de sucesso. Esse Arise, de 1991, foi meu primeiro contato com o trash metal - em vinil, prensado às pressas para o Hollywood Rock -, e culminou numa união irrevogável que me é cara todos os dias. É um álbum curto e impiedoso, veloz e earcrusher. Pra ouvir inteiro, no talo, e terminar revigorado.
Dj Patife - Cool Steps
Pô, meio nada a ver botar drum n bass aqui no meio, né? Nada! Patife comanda! Foi com esse disco que eu comecei a levar a sério aquilo que chamaam "música eletrônica" e eu achava que era tudo a mesma porra de house e eurodance. O disco é todo jazzy, cheio de grooves e repleto de batidas dançantes, mas não menos inquietante na construção da bateria. Pra quem não sabe, é nesse disco que surgiram as tão tocadas versões de Só Tinha de Ser com Você e Sambassim, jogando Fernanda Porto nas alturas. Mas além disso, tem João Parahyba (Jam Session), a bela voz de Rosi Aragão em Esfera e a irresistívelmente up Supergrass. Para iniciados ou iniciantes.
Fernanda Porto - Fernanda Porto
Pois é, daí eu me pilhei de ver quem era essa tal de Fernanda Porto, que canta pracas, e achei esse disco de estréia. A história todo mundo já deve ter visto por aí - é música de formação, tocou com vários mestres durante dez anos e fez o "circuito bares" no Rio de Janeiro até sentir-se segura para esse disco homônimo, onde ela compôs tudo e toca quase tudo. Íntimo, pessoal, leve, melancólico, alegre; Fernanda Porto é uma maquininha de fazer bem-feito, com esmero, tudo que toque. De bossa nova pianinho (Jeito Novo) a maracatu (Baque Virado), ou poetizando sem pressa (Vilarejo Íntimo), é um álbum generoso para quem escuta com carinho.
Graforréia Xilarmônica - Coisa de Louco II
É o tipo de som que permeia minha geração - toque em qualquer rodinha na Redenção Amigo Punk, Nunca Diga (a que o Pato Fu relançou, com as bênçãos) ou Empregada (depois sucesso na voz de Wander Wildner) e não tem quem não saia cantando em sorrisos. Entre esse Coisa de Louco II (o I foi uma demo em k7) e o sucessor Chapinhas de Ouro, a diferença é o número de músicas; é tudo aquele pop jovem-guardista bem-humorado e grudento, baseado nas letras e harmonias honestas de Frank Jorge e de Marcelo Birck. É um disco que roda fácil, que diverte, desestressa e é tri bom de cantar junto - eu, como qualquer rodinha da Redenção, sei todas de cabeça. Na verdade, eu devo saber todas (quase 30) músicas da Graforréia de cabeça. É inconsciente coletivo.
Marcelo Birck - Marcelo Birck
Eu provavelmente sou uma das poucas pessoas que gostam desse disco, mas também, eu sou uma das poucas pessoas que conhecem esse disco. Ah, provavelmente isso não é motivo suficiente. Birck, ex-Graforréia, era o que colocava as distorções e as atonalidades nas gravações daquela banda - e diz-se, por isso brigou com Frank Jorge, que preferia o som mais pop, redondo. (Verdade ou não, os caminhos tomados nos projetos solo são exatamente esses.) Esse disco, lançado independente em 2001, foi todo gravado por Birck, com algumas participações especiais; em cima de surf rock sessentista foi mixado, re-mixado e re-fuçado em casa, com direito a colagens eletrônicas, barulhetes esquizóides gerados por um Amiga dinossáurico, reversões de velocidade, sobreposições de vocal, enfim - toda sorte de experimentalismos. (Na primeira vez que ouvi o CD, achei que a faixa estava com problema.) É de difícil digestão, mas altamente recompensador. Destaque para Biquinis em Versos (parceria com outro fusível queimado gaúcho, Plato Dvorak), Surf Atonal e Sei que Vou Chorar. Em tempo: tem uma matéria/entrevista que eu fiz com ele pra Mood, aqui. Bem ruinzinha, é verdade, mas tem.
Duofel - Atenciosamente
Luiz Bueno e Fernando Melo já fizeram coisa pra caramba - arranjaram Escrito nas Estrelas (da Tetê), excursionaram com Hermeto, tocaram no Free Jazz. São mais de 20 anos de carreira e... quem conhece? Numa agência onde fiz estágio em 1999, ouvi esse disco pela manhã; à tarde, estava comprando a bolachinha. Os arranjos são difíceis de descrever com palavras, principalmente nas músicas mais harmoniosas, como Azul da Cor da Manteiga (aaah, eu adoro esse título) ou na levada suingada de É pra Jards, uma ref(v)erência clara ao Macalé. Jazz instrumental de cordas e brasilidade, traduzindo toda a riqueza da música sem ser carambólico. Violões, baixo, um pandeirinho aqui ou ali - e o talento faz a obra prima.
...Vamos lá! Façam as suas também! :)




Pô, cara. Postamos juntos sobre o mesmo assunto.
Fantástica lista, Tiagón, a mais original até agora junto com a do Zema! Só pérolas. Amei o fato de que há dois discos do mangue beat. Acho que contando voto para a legenda o Chico Science com certeza emplaca _Lama_ ou _Afrociberdelia_ no top 10. Amo Replicantes, vi-os em Porto Alegre uma vez, num inferninho, um galpão, que pena que não me lembre o nome, era talvez na Cidade Baixa, talvez no Bonfim. Sensacional que você lembrou dos meus conterrâneos do Sepultura (eles estão no meu top 15). Amei a presença de DJ Patife. Obrigado por brincar, vou colocar já já o link ao seu post. Abraço,
Tiago. Me diz como é tu fazes para dimunuir a letra - como fizeste no comentário ao Marcelo Birck. Tentei usar o mesmo código do blogger na citação que fiz de Ingmar Bergman e a coisa ficou incontrolável.
Não sei se tua lista é tão espetacular quanto os comentários. Me deixaste com vontade de ouvir tudo, excetuando-se os conhecidos (de mim) Arise e Replicantes ao Vivo.
Abraço.
Birck é o pai de todos. esse disco, e o do Aristoteles de ananias são de chorar pelado!