Fica mais legal se ouvir a música junto, pra fazer um jogo de luzes bacana.
É a faixa 2 desse cd aqui; clique e ouça online.
Yib-iab-bapapa-baba-bou-ba-bara
Baraba-bapa-na-nu-da-dee-da-lade-la
Estou sentado. No sofá da minha sala. Olhando para o nada. As pernas abertas, os antebraços apoiados nas coxas. As costas no sofá; não inclinadas para a frente, como fosse mover-me; mas jogado. Inerte. O cérebro ocupado demais em seu vácuo repleto de eletricidade. Dentes cerrados. Nos ouvidos, zumbido, enquanto ouço Ella Fitzgerald cantar Blue Skies.
Blue skies
Smiling at me
Nothing but blue skies
Do I see
Se os fatos simplesmente são, e porque são já foram, não posso evitar obcecar-me pelo instante em que o fio se rompe. O momento exato do abandono. Primeiro o quando em que ela decidiu deixar-me. E depois o quando em que ela colocou o plano em prática. O instante em que perpendiculares retomam sua sina de paralelas. Cabos soltos, sem tensão, sem energia. Como o varal que arrebentei ontem ao pendurar as roupas. A corda de náilon trançada que foi ficando puída no aro atarraxado à parede e de final de semana em final de semana teve um milímetro desgastado e assim com o passar do tempo fibra por fibra vai soltando e cortando até que resta apenas uma linha fina azul onde eu pendurei o lençol de malha também azul também puída pela última vez e então tudo ao chão e eu como que compreendendo a ironia da metáfora deixei tudo jogado no piso imundo. Se é pra romper-se, que seja sujo e derrotado; a lama se lava. Não há maneira honrada de levar-se um soco no rim.
Dab-dun-de-rum-de-roo-de-raw
Bee-dabadadu-dararoo-da-bee-doo
Fios negros. Há fios negros por todos os lados. Smiling at me. Querendo fundir-se ao carpete. No piso da cozinha. Caminho pela casa contando quantos vejo. São dezenas. No banheiro. Na pia. No ralo do chuveiro. Na cama. Nos travesseiros. São centenas. Nas minhas roupas jogadas pelo chão. No meu pescoço. Na meu abdômen. No meu peito. São milhares. Nas panelas, nas colheres e no saleiro. Entre as páginas do jornal não-lido de hoje. Nas frestas das janelas. Subindo pelas paredes, crescendo do teto, amalgamando-se às teias de aranha. Na minha boca e nos meus dentes. Fios negros encaracolados por dentro do meu corpo. Entre os dedos dos meus pés. Brigando por lugar com minhas sobrancelhas.
Num post-it amarelo que serviu como único veículo da despedida: "...de recordação, os meus cabelos espalhados pela casa".
Never saw the sun
Shinin' so bright
Never saw things
Goin' so right
Os cabelos dela. Espalhados pela casa. Ella canta alegre a partida. Ela deve estar sorrindo. Blue skies smiling at her. Deve ter ido embora feliz. Deixando-me aqui com a roupa suja e seus cabelos negros. Ella cantarola em escárnio. De-doo-dee-doo-de-roo-de-doo-de-daw. O destaque de capa do jornal não-lido de hoje que repousa inerme sobre a mesa comemora algo sobre o Dia da Mulher. Quão adequado. Um por um - recolho os fios numa caixa. Tão frágeis e tão firmes. Pinicando minhas mãos. Aquieto-me trançando-os. Coloco Blue Skies para tocar outra vez.
Blue days
All of them gone
Blue days, all them to come.




...enquanto ella canta, eu vôo...
"Não há maneira honrada de levar-se um soco no rim". Quanta verdade numa única frase... Belíssimo texto. Triste. Mas belíssimo.
Grande post. Este vai para a antologia. Despeço-me tentando imitar o scat d´Ella. Que bom que não há microfone por perto...
"O instante em que perpendiculares retomam sua sina de paralelas."
ok q a ferida ainda ta aberta, mas ser paralelo é cruzar c milhares de perpendiculares... uns boring até a medula, outros sensacionais.
teu texto é muito bom!
ah, o filme. claro q vi, superbe!
~ ~ o ~ ~
Bauman um dia usou o termo "estranho". É que é...
Jesus, acende a luz.