Teatro do Concreto Armado Apresenta
Justiça Sangrenta
Tragédia histórica em um ato
A ação se passa no portão da cidade de Messina.
THOM, o galês de Iansã, e KROKUS, o polonês imberbe, conversam animadamente. A PLEBE RUDE aproxima-se em direção à floresta, com foices na mão para colher vegetais.
Thom: Buona sera.
Krokus: Tem um tempestade de merda se aproximanda. There's a shitstorm a'comin.
Thom: Sim, com efeito. Bolo de laranja?
Krokus: Gravetos e folhas. Flores. Avohai.
Thom: Precisamos sair daqui. Que lugarzinho chinelo.
Plebe Rude: (cantando) As águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar...
Krokus: Saca!
Thom: Saca saca!
Krokus coloca o indicador na parte de dentro da bochecha e o puxa veloz e energicamente para fora da boca, produzindo um ruído como "plop!".
Thom: Aí, maneiro!
Pela estrada vem O FLAUTISTA DE HAMELIN, seguido por uma pequena quantidade de camundongos em péssimo estado.
O Flautista: Estou vindo de, ahm, Hamelin, expulsando os ratos que acossavam aquele feudo. Mas me encontro cansado e pobre. Gostaria de pedir uma contribuição espontânea. Para um café. Quem sabe um pãozinho recheado com favas. Mmmm.
Plebe Rude: Se manca, cara!
O Flautista: (exasperado) Aé? Aaaaéééé?
Krokus: Quac! Watch out!
O Flautista: (imitando um cangaceiro) Pois eu vô soltá esses bicho tudo nocêis!
Thom: Noooo!
Plebe Rude: Mas... as nossas crianças!
Krokus: Dê-le seu money.
Plebe Rude: Tudo bem. Rufs. Pegue esses pilas.
O Flautista: Também me falta o dinheiro da passagem. Vim visitar um parente mas não o encontrei. Não tenho dinheiro para o ônibus de volta.
Thom: Isso é tudo que tenho.
Krokus: Mas não tem nada na tua mão.
Thom: Pra vós verdes.
Krokus: Aqui tem alguns sestércios. Mas dourados.
O Flautista: Gostaria também que vissem essa receita médica. Sofro de gota e lumbago, é um milagre que consiga me locomover. Preciso de remédios caros e não tenho como comprá-los. Também tenho irmão doente em casa. Qualquer trocadinho é bem recebido.
Plebe Rude: A-a-a-eo, a-a-a-eo!
Voando, entra PTERODÁCTILO. Ele, num rasante, rouba a flauta.
Pterodáctilo: Ffffrwaaaaah!
Sai Pterodáctilo
O Flautista: Mas o quê?!
Thom: Já era, mai bróder.
Krokus: Os ratos!
O Flautista: Fica frio. Tá na boa. Isso aí é claque.
Plebe Rude: Mas ah! Tentastes nos enganar! Pois iremos lhe esganar!
Thom: Vil! Torpe!
Krokus: Bobo! Chato! Feio!
Plebe Rude: Uh, esfola!
O Flautista: Pô, pega leve. Tô no maior perrengue. Aquelas cem peças de ouro que eu consegui pelo servicinho não duraram muito tempo.
Galopando um Corcel II, entra NATASHA.
Natasha: Enfim! Mamãe tinha razão!
O Flautista: Oh, não!
A moça desce do Corcel e agarra o pescoço do músico.
Natasha: Peguei-te, cavaquinho!
Plebe Rude: Tu sifu!
O Flautista: Ack! Gack!
Camundongos: Yes! Quiiii!
Natasha: Então pensou que poderia deixar aquele criaredo lá em casa e sair voando as tranças?
Thom: Crianças?
Natasha: Éééé. Esse corno deixou todas as crianças de Hamelin comigo.
Krokus: Então ele não praticou um infanticídio, da maneira que a História conta?
O Flautista: Hhhhhhh! HHHH!
Natasha: Isso aqui é um borra-botas. Deu um monte de balas pra piazada e levou elas tudo pra minha cabana em Biafra.
Thom: Mas então tudo não passa de uma lenda? E os escritores são farsantes?
Entram os IRMÃOS GRIMM, vestindo plumas de ganso.
Alexander Grimm: Nåø! Cømø se åtrevem?
Johnny Grimm: Falåciå!
Malcom Grimm: Åchåque!
Tião Grimm: Cåscåta!
Plebe Rude: Decepa! Esfola! Escalpela!
Justin Grimm: Nøn! É culpå dø båstårdø! Nøs nåo såbíåmøs que nå verdåde... Wrååå!
A Plebe Rude faz picadinho do quinteto. Entra o BASTARDO, com um uniforme de bombeiro.
Graham Greene: Eu tava dando consultoria, mas esses suecos não entendem nada. São uns existencialistas burros.
Thom: Sem falar no sotaque horrendo.
O Flautista: (assumindo uma coloração azul) K-kk-kkk...
Natasha: Tá. Eu solto o teu pescoço. Mas tu vai direto tirar aquelas crianças da minha casa e devolver pra cidade!
Thom: Mas Hamelin foi destruída pelos eslavos!
Natasha: Quem falou em Hamelin? Ele que solte em um vilarejo qualquer. Tô nem aí, tô nem aí.
Krokus: Pede meu dinheiro de volta.
O Flautista: Cof, cof.
Natasha: Pega teu rumo. Vai!
Sai Flautista
Thom: Então o Flautista, na verdade, não é um assassino.
Krokus: Que fracassado! Além disso, quem toca flauta, nos dias de hoje?
Natasha: Mamãe diz que ele é baitola.
Graham Greene: Båitøla, na pronuncia nórdica correta. Se me permitem, gostaria de discorrer alguns instantes sobre...
Plebe Rude: Arrã!
Camundongos: Quiiii!
A Plebe Rude transforme Greene num instrumento de sopro, com foles.
Plebe Rude: Agora vai! Taran, taran, taran, taran!
Sai Plebe Rude, marchando e cantando floresta adentro. Os camundongos os seguem.
Thom: É praticamente uma charanga.
Krokus: Alea jacta est.
Natasha: Cala a boca.
Sai Natasha, em seu Corcel.
Krokus: Preciso de folhas de olmo. Adeus.
Sai Krokus
Thom: Vou aproveitar enquanto aqueles camponeses estão na floresta e tacar fogo na cidade. Whe, eheheh.
Sai Thom
CAI O PANO




LINDO! BELO! EMOCIONANTE! ENTERNECEDOR! A intervenção do Pterodátilo foi genial, na medida em que esse animal ante-diluviano sintetiza o conceito da negação sublimada, enfeixando referências veladas extremamente bem costuradas à escola alemã de pensamento desconexo e à apologética ontognosiológica armena. Em suma, maneiro.
Sabe o que é o mais engraçado? Se essa peça fosse dirigida pelo Gerald Thomas e tivesse Raul Cortes no papel do flautista, Denise Stocklos no papel de Natasha e Juca de Oliveira no papel de Krokus, ia ter um monte de gente levando a história muito a sério, fazendo paralelos com "Esperando Godot", dizendo que você é o novo Beckett e tal, e regozijando-se pelo renascimento do Teatro brasileiro.
Quanto ao post anterior, fiquei emocionado. De maneira sutil e com um lirismo ímpar, você despiu a literatura brasileira e fez uma crítica mordaz à pseudo-intelligentsia brasileira, sob uma ótica sócio-epistemológica, representada na figura e obra de Jorge Amado. Matei a charada quando li a frase "ela sorri até gargalhar e dentro da sua boca coloco um pássaro". É evidente a sua menção à música de Luis Caldas e paráfrase ao verso "Tieta, tieta... Na boca de Tieta morri como um passarinho". Só foi preciso montar o resto do quebra-cabeça simbólico e voilà! É como eu sempre digo, Se houvesse mais Tiagóns, não haveria espaço para tantos Paulos Coelhos. Abs
Gênio!
Oi amigo! Estava passando,resolvi parar e te dar um oi! Bjokas :-*
eu não sei se bato palmas para a peça ou para o comentário do hélio... na dúvida, louvo aos dois: um pela ousadia e talento, o outro pela análise perspicaz e precisa...
é verdade, ander. o comentário do Hélio obnubilou a minha peça. o crítico foi maior que o criador. eu me orgulho, etc. :)
Comentários a parte vamos arrumar um tablado e um elenco!
A quem não gosta do enredo, a Plebe Rude responde: não é nossa culpa/nascemos já com uma versão!
Mas, agora me ocorre: a quem o enredo desgostaria? Se alguém há (e há, porque a Kelly Key há), não merece sequer o rude repúdio da plebe.
Bom, cara. Muito bom! Mas não sei, fiquei com a impressão de já ter visto algo assim antes... teria sido no Globo Rural?
o Quiiiiii dos camundongos é tudo! Não mais q a entrada flúor e cintilante dos irmãos Grimm c/ suas plumas! Muito Bom!
Ah! o ptedodacteo tem algo a ver com John-Ann ??