Na semana passada, a Vanessa Nunes, repórter de tecnologia da Zero Hora, conversou comigo sobre o futuro da música e afins pra pauta dela. A matéria saiu interessante, mas o que era pra ser uma conversa rápida virou uma torrente de pensamentos. Escrevi pra ela pensando também em por aqui, então vou manter as perguntas dela.
a) Música virou uma commodity na internet. Por quê?
A fartura da música e consequente migração p. online fizeram essa transformação. Esse processo ainda não finalizou, tem gerações que não pagam e outras que ainda buscam o disco na loja mesmo. Uma das primeiras grandes "novidades" da web era o Real Player e seu som online, isso uns 13 anos atrás. Acontece que agora isso amadureceu e tá bem mais claro do que no tempo do Napster.
Acontece porque a música invadiu tanto a Internet, seja por vias legais ou ilegais, que as pessoas já sabem que vão encontrar uma música na rede. Nenhuma loja é tão farta quanto YouTube, Spotify, MySpace, Last.FMs, sites de MP3, file shares e afins, além das lojas oficiais de música e rádios online. Não ouvimos mais que um determinado disco é bom, os blogs de download já selecionam, comentam e te dão o link pra baixar direto do Rapidshare. Não tem mais fronteira pro dial, tem um mar de emissoras pequenas segmentadas e portais grandes como Live365 e a parte de Radio da America Online, só pra ficar em dois exemplos. Diante disso, os próprios artistas perceberam que também precisam entrar nessa onda, então ou usam aplicações próprias ou então entram na dança do MySpace, que oferece tudo e de graça.
Fecha o círculo com uma crescente tentativa de novas formas de distribuir música com uma propaganda ou uma mensagem junto. Isso começou lá no fim do século passado e cada vez mais outros tentam emplacar com isso. Ano passado o Peter Gabriel e turma da gravadora dele lançaram o We7, que permite que tu baixe ou ouça online determinados artistas e junto vem um pequeno comercial. Se tu quiser te livrar disso, paga, tentam replicar parte do modelo da rádio. Também é interessante o serviço da Nokia, o Comes With Music, que permite que tu pague uma taxa e baixe o que quiser pra dentro do celular.
E a TV já começa a pensar assim, basta ver o Hulu.com.
b) Por que as pessoas não querem pagar por mp3? Foi esse o recado da chiadeira que teve quando o last.fm disse que ia cobrar (a ponto de mudarem de ideia)?
Aí acho que as pessoas tão um pouco mal-acostumadas. Dada a abundância de fontes e serviços, qualquer tentativa de cobrar afasta as pessoas e elas migram pra outra fonte que ofereça de forma gratuita e/ou melhor. Ok, não tem o mapeamento de sons e sugestão que o Last.FM tem, mas basta digitar o nome da música no YouTube que tu encontras lá o que quer. Essa "corruptela" do próprio YouTube pra músicas é algo bem interessante.
O pessoal chiou porque o Last.FM é bem cômodo e sair dessa "rotina" pra ficar pulando no YouTube, por exemplo, muda o hábito. Quem passa um bom tempo do dia online ficou acostumado com isso, não precisa carregar mp3 ou discos pelo locais que se conecta, então o aviso de cobrança deixou todo mundo já em alerta. A ameaça de êxodo do serviço foi um "aviso" pra empresa, porque existem outras alternativas online e iriam perder parte do mercado que conquistaram. Pra grande maioria, pagar só vale a pena se for pra ganhar algo com isso, não continuar a usar o que já existe.
O costume de não pagar é um pouco geográfico também. Lá fora as pessoas tão um pouco mais dispostas a pagar pela música porque as ofertas são boas, como Amazon ou iTunes, e a qualidade é boa, fora que o CD é uma mídia que não teve queda de preço ao longo dos anos (um lançamento sempre foi cerca de 15 dólares). Tem CD pirata, tem, mas é bem menos que aqui. As alternativas digitais vieram com um preço menor e a chance de só comprar o que tu realmente queres.
Por aqui a situação infelizmente é outra. Dada a profusão de material pirata, basta andar na rua pra ver, isso já entrou na cultura do pessoal. As lojas online até existem, mas não tem o apelo da facilidade que outros sistemas oferecem, envolvem o uso de dados financeiros pessoais online pra valores pequenos (a pessoa pensa que não vale "arriscar" colocar o cartão na loja por tão pouco) e os caminhos ilegais da rede oferecem o disco do mesmo jeito e de graça. Enquanto isso, a compra online não agrega nenhuma vantagem e os catálogos ainda são reduzidos.
O próprio combate à pirataria é feito de uma maneira que trata o público como criminoso e mesmo quando tu compras um disco nem pode fazer mp3 dele pra ouvir em outro computador, basta lembrar do rolo do disco da Marisa Monte. Como os caminhos ilegais são mais livres, infelizmente, houve um certo adestramento pela pirataria.
c) Tu disseste que as pessoas estão dispostas a pagar por músicas em outros formatos, como para o videogame. Por quê? Pagam pela experiência diferenciada proporcionada?
Justo pelo que falei antes, as pessoas estão dispostas a pagar pra ir além da música simplesmente porque os caminhos pro som apenas tão bem mais fartos. Além do comprar pra ter todos na coleção como faz o fã, o que atrai p. compra são coisas como uma edição especial do disco com uma embalagem especial (uma peça física bacana, algo legal de ter na estante), um serviço que tu possa baixar a música ou ter ela já digital livre de DRM pronta pra tu arrastar pro celular ou iPod (liberdade pra transpor a música pra qualquer lugar que tu possa ouvir) ou um preço atrativo - basta reparar que cada vez mais os balaios de 14 reais tem discos interessantes e que meses antes tu pagou 30 reais.
Com essa crise dos modelos que a Internet provocou no universo fonográfico, o pessoal tenta achar outras formas de vender a música com outra coisa. Uma dessas tentativas foi o Guitar Hero, que já existia de uma forma diferente nos fliperamas japoneses, e que coloca não só a música mas a chance de tu te sentir uma estrela do rock sem sair de casa. Ele te vende uma experiência, um gostinho do que a vida real dá só depois de muitos anos de estrada pros músicos e que é o sonho de muito fã.
Nada bate tu pegar o violão e tocar o que quer do teu jeito, mas o Guitar Hero e o Rock Band criaram o cenário perfeito pra qualquer pessoa "tocar" sem precisar aprender música, só precisa acertar a sequência, como naqueles velhos métodos p. tocar música com instrumentos de brinquedo. O Guitar Hero já bateu um bilhão de doletas em geração de dinheiro e provou ser um mercado altamente rentável. Eu fico espantado com coisas como o que aconteceu semana passada, os Beatles anunciaram que vão remasterizar o catálogo e reforçaram que o Rock Band deles vai ser especial, mas ainda não definiram como vão vender música online. A experiência de tocar como um astro e seguro dentro de casa com os amigos ou online, assim como outras coisas que carregam um diferencial além da música, vende.
Este blog pede desculpas pela teia de aranha dos últimos meses. Retornamos com nosso ritmo normal.
Orientador,
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