
O namoro do Google com a TV não é novidade, mas hoje marcaram a data do casório. Durante a I/O, conferência de desenvolvedores, nesta quinta, 20/5, o mundo foi convidado para a festa, com o anúncio dos padrinhos. Sony, Intel e Logitech darão os seus presentes ainda neste ano, não em uma igreja, mas nas lojas Best Buy.
Passada a brincadeira, vamos aos fatos. Não é de hoje que a TV tornou-se uma moldura dinâmica nas nossas salas. Desde os anos 80, cada um coloca o quadro que quer na hora que quer - seja um videogame, um VHS ou TV a cabo -, e nos últimos tempos isso ficou pior ainda, com a profusão de seriados e filmes baixados da tal Internet. Com Playstations e outros aparelhos conectados, hoje é possível viver sem ver TV aberta, mas com muito mais vídeo presente na sua vida - e com uma programação de qualidade melhor.
O que o Google fez hoje foi dizer que está nessa dança e vai jogar a força da web dentro da sala. Se são necessárias adaptações e gadgets para as conexões, agora teremos aparelhos com esse intercâmbio mais natural e fácil. YouTube e Flickr já estão em outros aparelhos - basta ir até o shopping ver os modelos da Samsung -, mas a estrutura "gúglica" move esta forma diferente de ver TV.
Menos TV e mais vídeo na TV
TV como TV e ligar o que outros querem que você veja já não faz mais tanto efeito. Como reportado pela The Economist no começo do mês, o espaço está cada vez mais valorizado, mas o que é jogado ali dentro não vem necessariamente mais das antenas ou canais pagos pelo cabo.
Voltando à brincadeira de antes, o vestido do Google está inspirado em estilistas como Miro, Joost e Boxee, sobretudo o BoxeeBox, que já pensaram nessas ocasiões antes, mas de forma alternativa. Hoje este estilo foi tirado das galerias undergrounds e ateliers e levado para os grandes magazines. Só para ficar nestes três exemplos, todos já utilizavam vídeos colocados na web e refinados com base nas preferências do usuário para oferecer as melhores programações. Lá por 2007, o Joost já buscava uma grade de opções (não mais programação) inteligente e com diversas opções de chat e informações na tela.
Ok, isso era computador, não TV. Apple TV e BoxeeBox, pro exemplo, levaram seus caminhos informáticos para a TV. Tio Steve Jobs aposta, e bate o pé, na referência do iTunes como o curador e controlador do conteúdo, mesma coisa feita pela turma do Boxee. No ano passado, ouvi o Avner Ronen, CEO da Boxee, falar e o espírito deles era bem jovem, aquela coisa de "vamos fazer uma estrutura que agrega tudo e colocar na TV". Vale lembrar que isso no território americano, com IPs liberados para ver Hulu e outros sites com conteúdo oficial.
TV tem de ser fácil para o público
Além disso, não é preciso nenhuma mágica para ligar o YouTube e a web em uma TV de tubo, basta ligar um Wii. O console tem uma versão do Opera integrada ao sistema e desde 2007 era possível navegar na web sentado no sofá usando um Wiimote como mouse, bem mais confortável do que navegar com um controle normal. Controles remotos não servem como mouse. Com a parceria da Logitech no projeto do Google, fica a pulga atrás da orelha não só pela futura interface, mas também por como vamos manejar isso. Não apertamos mais botões, provocamos reações, como mostrado pela Nintendo e mirado pelo Project Natal e Playstation Move.
Essa festa toda vai ser um pouco confusa. Ao passo que as TVs estão cada vez mais finas e bonitas, a quantidade de serviços e opções aumenta. TV sempre foi um meio que fisgou o público pela facilidade de instalar e assistir, o que complica um pouco hoje. Que fique bem claro, a Google TV é uma TV Digital feita de bits, mas não tem nada a ver com a TV Digital que está por aí (ok, para alguns apenas). Uma trabalha com vídeo publicado na Internet, o outro caminho explora material enviado pela antena com outros protocolos. E não ouse pensar que a TV Digital oficial terá vídeos sob demanda e uma interatividade interessante, pelo menos no horizonte próximo.
O vídeo pela web caminha muito bem obrigado por caminhos oficiais hoje. O Hulu só perde pro YouTube em acessos nos EUA e coloca sob demanda vídeo oficial bem encodado e sob demanda, sem precisar apelar para a pirataria. Essa tática é realizada por outras emissoras e até mesmo no Brasil observamos isso, com as séries colocadas no TerraTV. Só falta compreender como cobrar bem por isso.
Antes anúncios, hoje apps
Aqui talvez resida um dos interesses dos noivos na noiva. O Google sabe como poucos como colocar anúncios e faturar com isso na web, vice modelo do AdSense tradicional e o transposto para o YouTube, e pode apresentar soluções diferenciadas para jogar conteúdo pego de qualquer canto da web com algum link para uma propaganda com conteúdo relacionado. Mesmo que isso demore a chegar por estas terras, é interessante ver como o modelo clássico de propaganda na TV e a adaptação feita por empresas como a SpotRunner pode ser refinada. Seria o sonho de consumo de muitos publicitários, segmentar os patrocinadores não mais por canais, mas por conteúdo e sem depender das tabelas de horário.
Outro predicado é a possibilidade de colocar aplicativos na TV. Se as iniciativas da Apple, por exemplo, são mais regradas e dependem de alguns caminhos previamente determinados, o tom open source do Android na base abre a dança para os mais diversos desenvolvedores. Jogos de trivia baseados nos últimos programas vistos ou uma caixa de bookmarks do que você quer comprar depois, para ficar em dois exemplos simples e criados agora, abrem caminho para uma produção mundial sem as rígidas regras que impedem, por exemplo, que os formatos de TV Digital espalhados pelo mundo conversem. Isso é visto também na variedade de caminhos da web. Ao "unificar" uma rota para isso, o Google usa a sua relação com os desenvolvedores para melhorar o modo como olhamos TV. The wisdom of the crowds, agora na sua tela.
Essa sabedoria do público também pode orientar a programação vista. É o velho modelo Google, quanto mais alguém chega até um caminho, mais ele aparece. Talvez a interface apresente alguma facilidade com as devidas correções para evitar Google Bombings em versão TV. Esse é um risco para um acesso mais aberto, o oposto do realizado pelos caminhos da Apple.
Só faltaram os produtores de conteúdo
É interessante notar que hoje empresas de tecnologia mostraram interesse no aparelho, mas CNN, Disney ou Comcast não estavam naquele palco. Criadores tradicionais, como Rupert Murdoch, estão sorrindo para a Apple pois as regras do iPad, por exemplo, garantem caminhos sem pirataria e com cobrança pelo conteúdo. Ou o Google usa da força da audiência contra esse time ou vai precisar seduzir bem essas empresas. Vale lembrar que o próprio YouTube é alvo de constantes processos, como a Viacom (a.k.a. MTV) e oferecer vantagens para entrar nessa dança pode estar nos planos de Eric Schmidt.
É engraçado ver a Sony, empresa que deixou o iPad matar o Walkman, buscar uma tática parecida com a dos seus concorrentes para sobreviver. A força da sua produção (seriados, filmes, musicais) pode ser utilizada para chamar a atenção do público em geral. A empresa sabe que o público não vai aceitar um device só porque ele é moderno e bonito, precisa valer a pena. Os fracassos da empresa custaram caro no passado e o atual CEO sabe disso, como mostrado pela Wired.
O Brasil poderia ter feito isso antes
Outra atração é ver Chrome e companhia colocando compras e e-mail, por exemplo, na tela da TV. O T-Commerce já foi até mencionado pelo empreendedor Raj na novela caminho das índias, mas ainda tem muito o que sair do projeto para a realidade. Já ler e-mails na tela grande é uma facilidade que os desenvolvedores brasileiros trabalhavam desde 2003, mas foi sepultada quando o primeiro padrão de TV Digital do Brasil foi morto para dar vida ao casal SBTVD + Ginga utilizado hoje.
Eterno enquanto dure ou 15 minutos de fama?
Moral da história, é tudo muito bonito e interessante, mas nada de novo. As ligações do PC com a TV já existem, os criadores de conteúdo sabem disso (Lost prova isso) e toda essa integração Google tem de ser fácil para o manejo do público. Não basta só ter uma coleção de atrações, mas ser tranquila de usar e sem apertar em um botão achando que vai ver o filme Spider-Man para vir um vídeo trancado e pixelizado do desenho clássico dos anos 60. A apresentação de hoje fala nas maravilhas novas, mas não mata a transmissão tradicional, convive com ela.
A TV do Google precisa aparecer para o público, mais do que para os produtores de conteúdo, como uma opção fácil em um mercado que já é bagunçado por opções de TV móvel, em alta resolução e 3D. Eles já fizeram isso com a web, resta ver se conseguem em outro território. Essa resposta começará a aparecer em setembro, mês previsto para a venda dos primeiros aparelhos.
Pra ir além
Já que falei demais, deixo três dicas de leituras relacionadas. Todo esse fenômeno foi cantado por Nicholas Negroponte há 15 anos atrás no Vida Digital. Muitos riram dele, mas aos poucos ele mostra que realmente estava certo. A questão da web engolindo serviços e mídias ao passo que aumenta a largura de banda já foi desenhada pelo George Gilder no Telecosmo. E a minha tese de doutorado já falava, em 2008, no vídeo online como alternativa para a TV Digital. Assuntos que os alunos já ouviram os professores de online falando em sala de aula.
Apresentação oficial da Google TV






