por obra da gentileza e atenção de tiagón chegou até mim, dia desses, as duas últimas partes que me faltavam no tripé do "Arranco": o livro "Histórias de península e praia grande/Arranco" (a sétima parte do projeto A r e a l), com os relatos das viagens de André Severo e Maria Helena Bernardes pelo litoral sul do Rio Grande do Sul, e o curta-metragem "Arranco", apresentado durante a VII Bienal do Mercosul. pra completar, a trilha sonora oficial do filme, o disco "Arranco", produzido pelo Tiago, que venho ouvindo insistentemente já há alguns meses, sobre o qual já falei aqui -- e que está disponível pra download no site do all your gardening needs.
o livro é um ensaio geográfico do começo ao fim.
se antes de corrermos afoitos ao Anglo houvéssemos conversado com o administrador do porto municipal de Pelotas, teríamos compreendido que o frigorífico era mais um dos bairros de certa cidade paralela, refratária a nossos olhos novatos e oculta dentro de outra cidade, aquela que se pode tocar e fotografar.
as viagens de A. e M. pelo litoral sul gaúcho, boa parte delas na península formada entre a Lagoa dos Patos e o Oceano Atlântico, são relatadas em textos curtos, repletos de lirismo e observações cuidadosas do espaço ao redor. um olhar próximo, mas, ainda assim, de observadores estrangeiros, que não deixam de se surpreender com os aspectos mais característicos de uma vida que é vivida de acordo com os descaminhos das forças naturais -- poderosíssimas -- de mar e de terra.
perguntamos a B. sobre as dunas que, anos atrás, ameaçavam as casas. ele disse que continuavam lá, que as pessoas se acostumavam com elas. uma cerca aqui, um tapume ali. vai-se levando.
o litoral gaúcho não se define como tantos outros. quem vai às praias espera sol rascante, areia branca, mar azul e quente -- o oposto do que se encontra na faixa ininterrupta de areia que se estende desde o sul de Santa Catarina e avança pela costa uruguaia (a maior praia do mundo fica por ali, dizem, a praia do Cassino). um sem-fim de dunas imensas, móveis, vivas, varridas por ventos fortíssimos, olhando pra um mar marrom, frio e sujo de restos de marés imensas. não existe ali a identidade litorânea encontrada em tantos outros lugares, vendida aos turistas de verões e feriados.
a gente que vive ali, "gaúchos do litoral", e aquelas que se aventuram por suas estradas, encontraram maneiras distintas de construir a identidade do local. da leitura depreende-se um espaço contíguo de lendas e histórias fabulosas de marujos, pescadores e senhoras perdidas em vilarejos esquecidos -- ainda hoje. "Piratas dos Neutrais", "O Hermenegildo" e "O filho do faroleiro", três passagens do livro, não me deixam mentir porque atestam o modo como essa população encara o seu espaço: um misto de aceitação do destino que achou de colocá-los ali, de respeito profundo pelo poder do mar, de crença em certa fantasia, certa mitologia, que ajuda a compreender, sem rodeios, o que é estar nesse lugar.
Arranco, os três Arrancos -- livro, filme e disco --, me impressionaram na forma e me deram um soco no queixo no conteúdo. especialmente a trilha sonora -- geografia: field recordings, batata-doce japão, brotas de macaúbas, toponímias, chocalhos e chuva --, que completou seminalmente a leitura.
um grande geógrafo, o professor Milton Santos, me ensinou que "o lugar, à sua maneira, é o mundo" e que o lugar é o intermédio entre o Indivíduo e o Mundo. o que faz o indivíduo transforma e significa o lugar e, dialeticamente, o lugar, com suas características inerentes, termina por condicionar (ainda que não determine) as ações de vida dos indivíduos. dizendo isso o professor me alertou muito tempo antes de Arranco que não basta que eu presuma saber algo sobre o espaço que procuro apresentar a quem quer que seja (alunos, amigos, colegas...), senão que é preciso estar em contato com a gente que dá vida a esse espaço, que cria e é criado por esse lugar, seja ele qual for.
espero visitar o quanto antes o Rio Grande do Sul, mais uma vez, mas escapando do esperado, me perdendo e tentando entender esse lugar que é, pra mim, hoje, dos lugares mais fantásticos que eu ainda desconheço. ainda que talvez eu deva tomar um pouco de cuidado onde meterei os pés, seguindo conselhos da querida Lucia Malla.