É uma foto e tem uma folha marcada no concreto. Imagino que quando foram fazer a calçada, que está em Toronto, a folha caiu inesperadamente naquela retidão toda do concreto e lá ficou, porque ou isso ou pisar no trabalho recém-terminado e ter que refazer tudo. É o resultado de uma preguiça e é atestado de que nesse mundo, o pouco que se pode, e é mesmo muito pouco, fica pequeno diante da ação de um caos extremo que nos governa.

A tentativa é prever e antecipar o caos. A idéia é conduzir nossa mente (igualmente caótica) a ações racionais, que, pré-ordenadas, encontram-se no limite entre o possível e o permitido. E, de onde?, vem uma folha que cai no concreto fresco de uma calçada em Toronto e põe tudo abaixo. Tudo, absolutamente tudo.

Da mesma forma, num exercício de raciocínio, o absurdo de construírem caminhos cimentados por onde andar. Não vou passar por ali, se há uma alternativa melhor -- sei disso. Mas a tentativa é domar esse impulso algo incontrolável. E caminhar pela grama, a partir desse momento, torna-se grave, desaconselhável - em certos casos, proíbe-se com uma placa. As alternativas - "caminhos sociais" - vão surgindo: sinuosos, "errados", ignorando a racionalidade que se impõe de alto a baixo.

A mesma racionalidade que é imposta a tudo, a todo momento - e faz convergirem nossos pensamentos essencialmente libertos de qualquer amarras a uma forma de agir, a um procedimento, a "o certo"; em detrimento de opções. E este, saiba, é um mundo de opções; e somos essencialmente livres para optar. Construir caminhos cimentados, convergentes - quanta crueldade.

De modo que, por estranho que seja, por proibido que seja, por errado e condenável, caminho pela grama.

Mi compás político, compay -- a bússola que me leva longe, adiante, alhures; infinito mar azul (ou vermelho, não sei bem) que se abre diante de mis ojos incrédulos diante da realidade que se me apresenta.

É ao lado de Nelson Rolihlahla Mandela, de Agnes Gonxha Bojaxhiu, a madre Teresa de Calcutá e de Llhamo Döndrub, o 14º Dalai Lama, que me encontro com um sorriso enigmático. Simpáticas companhias em um lugar bastante agradável dentro do compasso desta dança que felizmente não danço sozinho.

Descreditando a autoridade a mim concedida como professor (confuso: "confusor") de algumas crianças, não fazendo uso do poder que esperam que eu exerça, sigo acreditando -- e não vejo muitos motivos pra mudanças -- que enquanto uns quantos forem donos de tanto e tantos outros (tão despossuídos) estiverem subjugados a sistemas de poder que se apropriam de suas liberdades, condenando-os às misérias humanas mais vis e à barbárie em que a vida humana se transforma nesses casos extremos, há que existir quem se posicione contrário a isso. Gritando, fazendo barulho e dando trabalho.

E portanto, eis-me aqui, senhores.

Ocorreu neste domingo um referendo na Bolívia que pretendia consultar a população do departamento de Santa Cruz sobre a possibilidade de maior autonomia econômica e administrativa para esta região. Os últimos números dão conta de que mais de 85% das pessoas foi favorável às mudanças. Entender esse fato passa, necessariamente, por entender o que tem acontecido naquela região do continente e, inclusive, qual o papel do Brasil nesta querela que aparentemente pode tratar-se de assunto interno, exclusivo de nosso vizinho.

É bom que se diga, o departamento de Santa Cruz corresponde a mais de 30% da área territorial boliviana (tão castigada nos últimos duzentos anos). Está economicamente para o país como o estado de São Paulo está para o Brasil ou a província de Buenos Aires está para a Argentina, ou seja, concentra a maior parte do Produto Interno Bruto (com as maiores produções industriais e agrícolas); apresenta os melhores indicadores sociais (medidos segundo a renda per capita, os índices de ocupação e o famoso e famigerado "Índice de Desenvolvimento Humano", IDH) e é onde estão as maiores reservas de hidrocarbonetos (petróleo e gás natural) da Bolívia. É, portanto, a região mais rica e identificada com os modelos externos de "civilidade" que encontramos no país andino.

Aliado aos dados animadores da economia cruceña temos alguns elementos característicos da região que merecem atenção. A população nacional é composta majoritariamente por indígenas e mestiços, numa proporção que beira os 90% -- formada por representantes e descendentes dos dois principais grupos étnicos: aimarás e quéchuas. Em Santa Cruz, no entanto, estão concentradas uma população significativa de guaranis (tanto que sua língua nativa tem status oficial ao lado do castelhano) e, com grande destaque, a minoria branca do país (por volta de 7% da população total, que está em torno de 9,7 milhões de habitantes). Esta minoria branca é identificada, em grande parte, como a elite agrária da Bolívia, responsável pelo salto quantitativo da economia de Santa Cruz. São latifundiários, descendentes dos europeus que ali chegaram com o irmão de Francisco Pizarro, ainda no século 16, vindo de Cuzco, e hoje se dedicam às plantações de soja e algodão.

Em Santa Cruz de la Sierra, a capital do departamento, convivem mais de 1,3 milhão de pessoas, é a segunda cidade da Bolívia, atrás apenas de La Paz. O aumento desenfreado da população começou a partir da década de 1970 e se estende até hoje, com o número dobrando durante as décadas de 1990 e 2000. A cidade, que se organiza em anéis concêntricos --- diferentemente do esperado pra uma povoação colonial espanhola (mais sobre isso, qualquer dia desses) -- está na região conhecida como "llanos", que inclui uma parte do chaco, da bacia do Prata e uma série de grandes tributários da bacia amazônica, uma região de imensas planícies aluvionais (as "llanuras") às bordas da grande floresta.

Pois bem. Esta região faz fronteira com o Brasil (uma extensa fronteira, aliás, com bem mais de 1,5 mil quilômetros); mais exatamente, com os estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia. Não por acaso, a riqueza de Santa Cruz, o tal "salto quantitativo da economia", aconteceu em função do aumento exponencial da área cultivada de soja naquela região -- à semelhança do que vem acontecendo nos estados brasileiros citados. Os responsáveis pelas plantações, seus proprietários, são os cruceños da minoria branca e ruralistas brasileiros radicados em Santa Cruz de la Sierra, que aproveitam os solos férteis, os preços baixos (um hectare de soja na Bolívia custa US$240, ou a metade do hectare brasileiro), a oferta quase inexplorada de terras, a abundância de mão-de-obra (dos bolivianos dos Andes, que invadiram Santa Cruz em busca da prosperidade que não se alastrou pelo resto do país), para levar ao território boliviano a atividade agropecuária predatória que seus patrícios praticam no Brasil.

É sabido na Geografia que as esferas de poder, quando se sobrepõem, normalmente terminam por criar demandas diferentes para cada um dos lados envolvidos. Quando falamos em "poder", normalmente nos referimos à capacidade que tem um determinado grupo (coeso em seus interesses) de alterar o rumo dos eventos. Este referendo que foi levado a cabo neste domingo no departamento de Santa Cruz é um resultado prático e repercutido pela mídia de um processo absolutamente característico do período histórico que vivemos. A fragmentação territorial é determinante para que os interesses desses grupos possam alcançar seu objetivos. Em outras palavras: a elite agrária de Santa Cruz (bem como a elite agrária do Mato Grosso e de Rondônia) tem feito seu jogo no sentido de conseguir para si uma parcela maior e mais significativa do poder que hoje são obrigados a dividir com o presidente índio -- a quem não reconhecem --, que está sentado em La Paz, tentando "impor sua cultura indigenista em tudo ".

Dessa forma, organizam um referendo, convocando a população às urnas para decidir o futuro deles próprios. Ora, se toda a sua família fosse empregada dos grandes sojicultores, se estes empresários pedissem a sua opinião, se o contraponto à sua realidade fosse a realidade dos bolivianos dos Andes, o que você escolheria? Pois aí está a explicação para 85% de aprovação às mudanças constitucionais na estrutura da República da Bolívia.

O que essas pessoas não percebem, como não percebemos nós, brasileiros, é que atender a essas demandas originadas nas elites agrárias, produtoras da "verdadeira riqueza", de modo algum atende (ou atenderá num futuro concebido) às nossas aspirações e necessidades. Os fazendeiros bolivianos e brasileiros que têm destruído a Amazônia nos llanos bolivianos não têm nada a nos oferecer como meta de futuro que não seja alguns poucos empregos, menos florestas, mais soja, mais soja, mais soja, menos Bolívia, menos Brasil, menos gente, mais dinheiro, mais dinheiro. Aparentemente, à maioria, estas recompensas bastam.

A mim não. E por isso, falo.

Tenho uma tendência a não desmerecer produções culturais de qualquer gênero. O que é fruto de um caldo social específico, precisa ser compreendido em função dessa especificidade. A volta gigantesca que minha cabeça dá para aplicar essa noção ao funk carioca, ao "pagode romântico" (e que medo dessas palavras assim juntas), ao "sertanejo universitário" e afins é digna de um prêmio. Mas é assim que funciona. Essas, bem, essas coisas não aparecem espontaneamente -- têm um sentido, um nexo, uma razão; quem sabe, em alguns casos, até uma função bastante clara dentro da realidade em que se desenvolvem... É, portanto, pouco cuidadoso ignorar esses fato e meramente desqualificá-las. É óbvio que são produções mais simples; compará-las a grandes obras é até injusto. Mas até mesmo esse aspecto pode ser devidamente compreendido se por alguns segundos pararmos para analisar a coisa toda.

Agora, tenho uma convicção muito forte que quero compartilhar aqui. Acredito piamente que se todos tivessem direito a uma "cota Radiohead" e fossem devidamente apresentados à banda, este mundo seria muito melhor do que de fato é. Uma música por dia, não mais do que isso -- e ouso dizer que as coisas seriam diferentes.

É impossível ficar impassível diante deles. No vídeo abaixo, Thom Yorke e companhia fazem uma "apresentação verde" no programa de Conan O'Brian. "Verde" porque, ao invés de os caras voarem até Nova York (e sujarem mais um pouco as coisas todas), resolveram gravar a participação diretamente de Londres. A música, "House of Cards", está no último disco, In Rainbows, lançado este ano -- e disponibilizado através da internet, inclusive para download gratuito.

Aumente o som, esqueça da vida e aproveite o som da melhor banda do mundo.

Como início desta seção do blog, seria uma injustiça sem tamanho não fazer o primeiro post falando da Kapela Ze Wsi Warszawa -- especialmente porque foi a partir desta banda que comecei a levar mais a sério minha busca pela música feita em lugares pouco prováveis. Antes deles, minha maior diversão era apenas colecionar bandas de países diferentes, sem entender muito bem o que isso significava.

Quando encontrei essas músicas -- o que não foi difícil, porque já há algum tempo a banda vem recebendo muita atenção fora da Polônia --, a primeira coisa que me impressionou, obviamente, foi a língua na qual elas são cantadas. O polonês é uma das muitas línguas eslavas faladas na Europa oriental, incrivelmente diferente aos meus ouvidos acostumado com a sonoridade das línguas românicas; parente próxima do tcheco, do eslovaco, é-me absolutamente incompreensível.

Aqui um parênteses necessário: não entender as canções, de fato, não se constitui num problema. É possível ouvi-las e apreender-lhes a mensagem sem aparentemente entender o que dizem as letras. Talvez esteja aí a mágica da coisa toda -- mas não sei ao certo. Fim do parênteses.

Tudo ficou ainda mais incrível quando descobri, com a ajuda de um aluno intercambista vindo da Polônia, que as músicas são cantadas numa variação antiga da língua. O que faz todo sentido, se procuramos entender a intenção da banda.

O nome, Kapela Ze Wsi Warszawa, significa algo como "A Banda da Vila de Varsóvia". A capital do país, apesar de não ser uma metrópole gigantesca, está longe de ser uma vila -- no entanto, o que está expresso no nome do grupo é a sua motivação: buscar nas raízes da cultura popular elementos tradicionais que, fundidos a retalhos de modernidade, recriassem a Polônia para os próprios poloneses. Numa batalha contra a cultura de massa, que impõe determinados ritmos às pessoas, esse pessoal viajou por todo o país recolhendo expressões populares em todos os cantos. Um mosaico de experiências que estavam sendo esquecidas ou, no mais das vezes, ignoradas pela imensa maioria, em função do que vão chamar de narrow-mindedness em seu manifesto criativo, induzida por um comportamento dito de manada.

Dizer, portanto, que são uma banda da "vila de Varsóvia" não peca quanto à lógica daquilo que desejam fazer, ou seja, trazer Varsóvia (e a própria Polônia, de um modo geral) de volta à sua essência, aos seus sons, à sua identidade -- tornada tão fluida em todos os cantos desse mundo nos dias que correm. É, ao fim e ao cabo, uma tentativa de resistência. Mas nada de faixas e gritos de ordem; pelo contrário, música bonita, bem executada, repleta de tambores e flautas que somadas a uma voz que varia de estridente a rouca, resulta numa apresentação incrível da alma de um país que tem uma história repleta de invasões e, conseqüentemente, de tentativas de desconstrução do sentimento polonês -- que tem gosto de batata.

Recomendo fortemente a audição do disco "Wiosna Ludu" ("Primavera dos povos"), de 2002, lançado pela gravadora Orange World.

Nem sempre as aulas são bem sucedidas. Seja por um motivo externo à escola ou particular, seja por interferência dos alunos que naquela manhã pouco estão interessados na geografia da África, em algumas manhãs, as aulas acontecem de jeito torto.

Às vezes saem mais ou menos como planejamos. E que alegria falar e ser ouvido, explicar e ser entendido, pretender confundir e de fato conseguir...

Ao mesmo tempo, existem assuntos mais interessantes que outros para os alunos -- e mesmo para mim. Algumas aulas me empolgam mais do que outras. A de hoje, no segundo colegial, me empolga muito: uma apresentação sintética do continente africano; desfiando um rosário de atos desumanos, o desrespeito pela própria essência da vida, os direitos mais básicos ignorados em nome do lucro e da cobiça de estrangeiros, etc., etc., e outros dramas. Vou jogando a eles nomes de países que jamais sonharam existir, vou citando ditadores e monstros, vou criando a imagem de um continente largado à própria sorte, chego a ficar sem fôlego e a cada momento, inadvertidamente, costumo ouvir suspiros de comoção e inconformismo.

Costuma ser uma aula sufocante para todos. Hoje, no entanto, não foi. Hoje mais parecia que eu ditava uma receita de bolo qualquer. Hoje não consegui ser o professor que me propus a ser quando tudo isso começou.

E ficou pior.

Numa alternativa desesperada, apelei para um argumento que sempre rende boas discussões: a globalização. Apresentei um único dado, que costuma ser um bom início: o fosso abismal da distribuição de renda nesse país tropical (que diz: 1% da população detém 15% da renda nacional, enquanto 60% das pessoas divide apenas 13%; sendo provavelmente inexato, mas indiscutivelmente impactante). Apenas para descobrir, minutos depois, que todo meu esforço (e cheguei a transpirar) resultaria em risinhos e chacotas sobre meu "radicalismo".

"Professor, você é muito comunista" -- disse um deles, com ênfase irônica no negrito.

Não tenho a menor intenção de fazer panfletagem nas minhas aulas. Longe de mim. Gosto da discussão e do debate de idéias saudáveis. E, de fato, sou "muito comunista". Mas nesse caso, hoje, saí daquela sala me sentindo um pouco incompetente. Não por não ter "convencido" os alunos, mas por não ter conseguido transmitir minha mensagem de um jeito adequado. A África continua morrendo à míngua e meus alunos daquela sala pouco se importam.

Escrito na folha de rosto de As cidades invisíveis, de Italo Calvino.

Este livro é pra que você poupe o céu de seu levantar de rosto, de seu franzir de cenho e de seu olhar inquiridor e errante sobre as nuvens.

É pra você poupar o céu de fitar teu rosto franzido. É pra você voltar os olhos para baixo e inquirir Marco Polo e Kublai Khan. Este livro é pra que você possa descobrir (absolutamente) todas as cidades possíveis e impossíveis grafadas sobre o mundo.

Mas vá lá que, talvez, ao ler a descrição de uma ou outra cidade, você acabe, novamente, por voltar o rosto pro céu e inquirir nuvens. Talvez seja por isso que você deva ter este livro.

Um presente da Fernanda, que veio com o livro junto.

Geografias fantásticas nos relatos de Marco Polo ao imperador dos mongóis. Cidades de desejo e de memória. Porque cidade é algo apaixonante; o veneziano sabia disso, o khan descobriu prontamente. Tenho a impressão de que estudá-las exige toques sutis de poesia -- poesia do concreto, poesia de sentir. Não concebo compreender cidades sem procurar pelo que não está expresso. Já disseram sobre as intenções que moldam o espaço (os objetos ficando não necessariamente onde deveriam, mas onde querem que fiquem); vai além.

Um cruzamento de avenidas, não é apenas isso. Pra descobrir o além (e eu acredito que seja esse o grafar de que se constitui o "termo geográfico"), não basta ter olhos para o que está impresso; porque é preciso perceber o cruzamento de avenidas no entendimento da moça que está ali, na janela, observando a criança que vende balas no farol, enquanto conversa com um amigo ao telefone e lhe descreve a cena. Nesse enredo, nesse novelo -- é aí que está a geografia que eu quero, que eu acredito existir.

fazer aniversário é como uma chuva de luvas. é uma corrida de pelicanos. é uma fatia muito grossa de queijo derretendo na frigideira.

é parecido com a sensação de um "eu te amo". um frio que te desce na espinha sem sentido. imagina um dos pelicanos acertando seu estômago e você vai chegar aonde eu quero.

mas se é o caso de ser mais específico, diria que eu nunca fui um bom aniversariante. no ano passado (e no anterior), acordei e tinha me esquecido que dia era. quando cheguei perto e vi sorrisos brotando nos rostos, lembrei.

tudo é mais intenso agora. ao mesmo tempo que nunca fui tão comedido em minhas reações. (são inevitáveis essas pequenas autofagias.) nunca senti tanto sono, também. durmo mais do que sempre dormi -- e tenho, a partir de hoje, 24 anos.

(aposto no pelicano de bico roxo. se quer saber.)

é uma madrugada fria, tem muitas nuvens no céu, mas elas não escondem a Lua. estou ouvindo Balmorhea, me devem uma versão rouca de "Sweetie", do Josh Rouse, e abraços pela manhã -- digo isso pra me lembrar daqui a alguns meses, quando reler isso me acostumando aos meus 24 anos recém-conquistados.

é parecido mas diferente. é meu ano novo.

devo estar enganado, mas acho que estava invadindo uma casa. penso que com algum sucesso, já que lembro de ouvir a sirene e, de repente, as janelas explodirem; fui carregado pelos braços pra fora e uma luz muito forte só me deixava entrever o azul tosco das viaturas. gritavam comigo. muitas vozes e um burburinho de rádios indecifrável.

parece que sentado no banco de trás do carro -- que corria muito -- via relances de rostos assustados. não me conheciam, mas estavam familiarizados com o barulho das viaturas: o ronco propositalmente alto dos motores, o apito agudo e os gritos pedindo passagem que os soldados cuspiam, pendurados nas janelas. o motorista do carro onde eu estava falava ininterruptamente comigo algumas frases soltas e muitos insultos -- parecia muito alterado, muito satisfeito.

não sei porque invadira a casa. disso não me lembro. houve uma explicação no sonho, um começo, mas o dia inteiro se encarregou de deixar somente uma lembrança pálida. conversava com alguém, alguns momentos de dúvida e, logo em seguida, estávamos na casa a ser aberta.

chegamos ao prédio que um dos guardas disse se chamar "Quartel do DOI". era uma construção quadrangular de dois andares, com uma grande área aberta no centro. em cada andar, muitas celas -- ou quartos --, dispostos com as janelas para a tal área aberta. lembro de ter pensado: "podia ser pior, ainda bem que tenho diploma". um segundo depois, não era mais esse prédio. era um lugar subterrâneo, escuro, frio, barulhos de gotas caindo... paredes altíssimas. e eu (ou aquele que supus ser), sentado num canto, abraçando os joelhos.

não demorou muito, ouvi as grades se abrindo e eram quatro homens. usavam coturnos sujos. dois deles seguravam cassetetes, um terceiro empurrava uma espécie de carrinho de compras e o último, na minha direita, trazia fios e um grande alicate. ao me cercarem, os dois que empunhavam cassetetes me levantaram e arrancaram minha camiseta. o que levava o carrinho deu uma risada e disse algo em uma língua que não reconheci -- que soou próximo ao meu ouvido, apesar de ele estar do outro lado da sala (ou cela, não sei bem).

no segundo em que o dono dos fios se aproximava, rindo muito e gritando, um barulho qualquer me despertou.

olhei pro lado, esperando o choque (imagino que era isso que pretendiam), mas só vi o relógio marcando "07:02". ainda tinha mais quarenta minutos de sono. preferi levantar e beber algum café.

e agora não sei se quero deitar de novo.

Sigo numa busca interminável por aquilo que costumam chamar "world music". Me interesso absurdamente pela música feita nos lugares mais improváveis - e esse será um assunto recorrente por aqui.

Tenho algumas predileções, mas não costumo refutar nada antes de ouvir com calma. É um trabalho sem fim (e fico contente que seja assim), porque quanto mais fundo se vai, mais o abismo se alarga. As novidades nunca cessam. Há sempre uma sonoridade diferente em algum canto do mundo por ser descoberta; e quando relaxo e penso "até que enfim encontrei esse disco", no segundo seguinte descubro algo absolutamente inesperado e a empresa recomeça.

Já foi mais difícil encontrar essas músicas. Quando comecei a me interessar por elas, as redes de compartilhamento não davam conta de suprir minha curiosidade. Encontrar esses discos à venda aqui no Brasil é ainda mais difícil - especialmente porque este comércio depende de importações e, garanto, "world music" não é a etiqueta mais procurada nas lojas do ramo (mesmo nas boas lojas).

O termo vem entre aspas porque, como toda classificação, merece ressalvas. No caso, este nome vem colado a virtualmente toda música que é produzida fora dos Estados Unidos e do Reino Unido. De um modo geral, sambas brasileiros, tangos argentinos, reggaes jamaicanos, mantras tibetanos, fados portugueses, batuque africano, chançons francesas, enfim, todos esses gêneros musicais são identificados genericamente como "world music" pelos críticos americanos e britânicos. Esta classificação, como convém a todas elas, homogeneíza num grupo amorfo experiências musicais que não falam inglês e que são, obviamente, distintas entre si. Mesmo dentro do Reino Unido, as músicas cantadas nas línguas celtas são "world music".

Está em curso no mundo um movimento de resgate de ritmos tradicionais. São inúmeras as publicações (virtuais ou não) que se dedicam a mostrar ao resto do mundo exemplos do que está sendo feito. Cito aqui as que mais visito: fRoots, Mondomix, At-Tambur, National Geographic World Music... Há, também, muitos festivais que reúnem artistas das mais diferentes origens. Citaria como principais, incorrendo em erros certamente: o Festival de Sines, em Portugal, o Festival de Kaustinen, na Finlândia, o Festival Masala e o Carnaval de Culturas, ambos na Alemanha. Mas a Europa é pródiga em eventos internacionais que se dedicam à música folclórica e étnica (aqui o calendário com todos os eventos do continente e aqui, todos os que acontecem apenas na Grã-Bretanha).

Este resgate, se me permitem a digressão, tem uma finalidade muito particular, qual seja, a de barrar o processo de nivelamento de todas as culturas em função de uma única expressão artística, que eu chamaria "hegemônica". É sabido que as rádios ao redor do mundo (especialmente as FMs) contribuem sobremaneira para esta homogeneização, na medida em que entregam a todos os povos pacotes pré-fabricados que acabam obscurecendo a visão das pessoas para outras possibilidades. São muito comuns as caras de espanto (pra dizer o mínimo) quando pessoas entram em contato com músicas diferentes daquilo que estão acostumadas a ouvir. Não percebem, por comodismo ou manipulação, a importância que têm essas outras músicas na construção do modo como nos compreendemos enquanto grupo, povo ou mesm como indivíduos.

Penso que trazer relatos sobre as descobertas que fiz seja algo relevante. E, mesmo que ignorada essa digressão anterior, estar em contato com diferenças é sempre muito interessante.

Está, portanto, inaugurada esta seção no blog. Espero que acrescente de alguma forma e fomente descobertas em outros cantos.

Numa aula rápida sobre polonês hoje aprendi como ler "Ę", "Ą" e que, pra dizer tchau, é só escrever "ćał". Numa aula rápida sobre polonês, se dermos sorte, sempre é possível entendermos um pouco mais sobre como, no fundo, somos todos parecidos. Um mesmo instinto curioso que movimenta o mundo por baixo do verniz. O polonês que me ajudou a ver isso não tinha idéia do que encontraria aqui quando saiu de Koszalin há quase um ano. Veio animado por imagens que pouco correspondiam à nossa realidade, mas que explicava o Brasil aos poloneses.

O que há de impressionante nas descobertas que faço enquanto ouço o polonês é muito parecido com o que há de incrível no que a Larissa contou hoje. A geografia criativa, uma idéia de um teórico da linguagem do cinema - que te leva a Roma, numa caminhada entre Paris e Nova York, ao invés de ao fundo do Atlântico -, é a geografia que paira na imaginação das pessoas de um jeito muito semelhante a como desde sempre. Apesar dos tempos, de tecnologias de informação, de GPS no carro, de Google Earth, de uma propaganda pesadíssima sobre a "aldeia global", a imensa maioria das pessoas mantém uma relação distante com os lugares que estão além do habitual. Poucos sabem realmente o que está "lá" - especialmente quando o "aqui" é confortável, conhecido, familiar.

Numa perspectiva que passa pelo polonês, pelo teórico do cinema, pela esquina incógnita, por atravessar barreiras, penso o "ser geógrafo" como algo ainda envolto num mistério antigo; sou aquele que existe para acabar com os "estereótipos geográficos". Aquele que te conta certas peculiaridades distantes com a intimidade de quem vive diversos cotidianos. O "grafar" ao qual me disponho não é mais o mesmo a que se dedicaram tantos outros antes de este mundo se tornar um único ecúmeno¹. Hoje já não preciso de grandes descrições de um todo amplamente conhecido - me ocupo em compreender como as partes se relacionam entre si e com esse todo.

Às outras pessoas, no entanto, a relação que permanece é com seu entorno. Quanto mais distante estiver o "lá", mais imaginação entrará no processo que cria a imagem do tal lugar. Mesmo hoje; mesmo depois de tudo - caravelas, séculos, guerras, internet -, o que o outro representa para nós é feito em grande parte da mesma imaginação que permite Roma entre Paris e Nova York. A Polônia não existe, a não ser como resultado das histórias de Koszalin que ouço, da atmosfera que algumas músicas criam, do "ćał" que pronuncio com o sotaque de um país que do ponto de vista dos poloneses, igualmente não existe por si.

_______________

¹ 1) diz-se de ou área geográfica que é permanentemente habitada pelo homem; 2) o todo em oposição às partes; o geral, o universal.

A intenção, escorrendo pelo ralo, era um primeiro post que destilasse duas coisas: 1) sincero apreço pelo convite (público e desavergonhado) feito por el_rey em meio a um post sobre cervejas, irlandeses e rosângelas; 2) algum orgulho (que tentarei explicar) por estar ora instalado na Verbeat, que surge em função de algo que, se me permitem, reproduzirei aqui, copiando do que dizem os fundadores.

Queremos agregar pessoas em não-grupos, onde se cria e se faz valorizando o indivíduo, seu talento, experiência e ambiente, misturando aos outros, mas que não sejam assimilados e nem assimiladores. A diferença fundamenta o desenvolvimento, a evolução, a transformação.

E por que o "orgulho"?

Especialmente porque me alegra existirem iniciativas como a Verbeat. E antes que me acusem de "novato deslumbrado", de "bixo" e queiram me aplicar trotes que me abaixem a crista, vale dizer que não afirmo isso apenas por agora estar aqui. Há anos acompanho os projetos que Tiagón e Gejfin mantêm - participando de todos: como leitor, como comentarista, como propagador das idéias, como admirador, como entusiasta, enfim. Portanto, não é mero oportunismo minha emoção verdadeira.
A blogosfera brasileira, como bom pote adolescente de hormônios que é, passa ultimamente por crises existenciais profundas. Tão profundas que se nos sentamos em suas beiradas, é provável que não alcancemos o asfalto.

Não raro, caminhando alhures, assistimos a chuvas de regras. Nada me irrita mais do que regras, é bom que se diga. E -- indo além do meu belo umbigo - nada em absoluto foge mais da idéia essencial de blogosfera do que essa tentativa capenga de sugerir (pouco sutilmente) o modo de agir de uns quantos a todos os que formamos esta fuzarca. Blog é liberdade: inclusive para sermos como uns quantos e inclusive para não sermos.

No momento em que perdemos isto de vista, o fim - com o pacote completo: seus quatro cavaleiros, quedas de servidores, atualizações mal-sucedidas de plataformas, confusão de códigos - estará, inexoravelmente, batendo à nossa porta. (Provavelmente com menos educação.)

Os blogs são possibilidades incríveis de subversão da ordem posta. São ferramentas impressionantes na difusão de informações - e, preferencialmente, de conhecimento. Têm a chance de motivar mudanças estruturais em todo o aparato de produção dessas informações. E de fato têm feito isso; não são poucos os exemplos nesse sentido.

Se o que é anárquico, não-hierárquico, fluido, descentralizado, acessível, em suma, livre, ganhar correntes, deixa de ser o que é, e se transforma no que já existe - e não nos ajuda. O que põe as crises existenciais numa perspectiva tão profunda quanto um pires. Aqui, na blogosfera, tudo é possível. Não acabar com essa idéia, reproduzi-la, difundi-la, evoluir com ela, encontrar semelhanças, respeitar diferenças de usos/interpretações, quero crer, é a proposta da Verbeat. E por isso, é uma honra sem tamanho estar aqui.

Com mais tempo, certamente, voltarei ao tema "blogs". Dissecando essa ferramenta e, como geógrafo, tratando de inseri-la numa realidade "macro", que vai além dos teclados de cada um.

Agradeço o convite, a oportunidade, o espaço. É um prazer. Sejam bem-vindos.

v e r b e a t  b l o g s

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