Ocorreu neste domingo um referendo na Bolívia que pretendia consultar a população do departamento de Santa Cruz sobre a possibilidade de maior autonomia econômica e administrativa para esta região. Os últimos números dão conta de que mais de 85% das pessoas foi favorável às mudanças. Entender esse fato passa, necessariamente, por entender o que tem acontecido naquela região do continente e, inclusive, qual o papel do Brasil nesta querela que aparentemente pode tratar-se de assunto interno, exclusivo de nosso vizinho.
É bom que se diga, o departamento de Santa Cruz corresponde a mais de 30% da área territorial boliviana (tão castigada nos últimos duzentos anos). Está economicamente para o país como o estado de São Paulo está para o Brasil ou a província de Buenos Aires está para a Argentina, ou seja, concentra a maior parte do Produto Interno Bruto (com as maiores produções industriais e agrícolas); apresenta os melhores indicadores sociais (medidos segundo a renda per capita, os índices de ocupação e o famoso e famigerado "Índice de Desenvolvimento Humano", IDH) e é onde estão as maiores reservas de hidrocarbonetos (petróleo e gás natural) da Bolívia. É, portanto, a região mais rica e identificada com os modelos externos de "civilidade" que encontramos no país andino.
Aliado aos dados animadores da economia cruceña temos alguns elementos característicos da região que merecem atenção. A população nacional é composta majoritariamente por indígenas e mestiços, numa proporção que beira os 90% -- formada por representantes e descendentes dos dois principais grupos étnicos: aimarás e quéchuas. Em Santa Cruz, no entanto, estão concentradas uma população significativa de guaranis (tanto que sua língua nativa tem status oficial ao lado do castelhano) e, com grande destaque, a minoria branca do país (por volta de 7% da população total, que está em torno de 9,7 milhões de habitantes). Esta minoria branca é identificada, em grande parte, como a elite agrária da Bolívia, responsável pelo salto quantitativo da economia de Santa Cruz. São latifundiários, descendentes dos europeus que ali chegaram com o irmão de Francisco Pizarro, ainda no século 16, vindo de Cuzco, e hoje se dedicam às plantações de soja e algodão.
Em Santa Cruz de la Sierra, a capital do departamento, convivem mais de 1,3 milhão de pessoas, é a segunda cidade da Bolívia, atrás apenas de La Paz. O aumento desenfreado da população começou a partir da década de 1970 e se estende até hoje, com o número dobrando durante as décadas de 1990 e 2000. A cidade, que se organiza em anéis concêntricos --- diferentemente do esperado pra uma povoação colonial espanhola (mais sobre isso, qualquer dia desses) -- está na região conhecida como "llanos", que inclui uma parte do chaco, da bacia do Prata e uma série de grandes tributários da bacia amazônica, uma região de imensas planícies aluvionais (as "llanuras") às bordas da grande floresta.
Pois bem. Esta região faz fronteira com o Brasil (uma extensa fronteira, aliás, com bem mais de 1,5 mil quilômetros); mais exatamente, com os estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia. Não por acaso, a riqueza de Santa Cruz, o tal "salto quantitativo da economia", aconteceu em função do aumento exponencial da área cultivada de soja naquela região -- à semelhança do que vem acontecendo nos estados brasileiros citados. Os responsáveis pelas plantações, seus proprietários, são os cruceños da minoria branca e ruralistas brasileiros radicados em Santa Cruz de la Sierra, que aproveitam os solos férteis, os preços baixos (um hectare de soja na Bolívia custa US$240, ou a metade do hectare brasileiro), a oferta quase inexplorada de terras, a abundância de mão-de-obra (dos bolivianos dos Andes, que invadiram Santa Cruz em busca da prosperidade que não se alastrou pelo resto do país), para levar ao território boliviano a atividade agropecuária predatória que seus patrícios praticam no Brasil.
É sabido na Geografia que as esferas de poder, quando se sobrepõem, normalmente terminam por criar demandas diferentes para cada um dos lados envolvidos. Quando falamos em "poder", normalmente nos referimos à capacidade que tem um determinado grupo (coeso em seus interesses) de alterar o rumo dos eventos. Este referendo que foi levado a cabo neste domingo no departamento de Santa Cruz é um resultado prático e repercutido pela mídia de um processo absolutamente característico do período histórico que vivemos. A fragmentação territorial é determinante para que os interesses desses grupos possam alcançar seu objetivos. Em outras palavras: a elite agrária de Santa Cruz (bem como a elite agrária do Mato Grosso e de Rondônia) tem feito seu jogo no sentido de conseguir para si uma parcela maior e mais significativa do poder que hoje são obrigados a dividir com o presidente índio -- a quem não reconhecem --, que está sentado em La Paz, tentando "impor sua cultura indigenista em tudo ".
Dessa forma, organizam um referendo, convocando a população às urnas para decidir o futuro deles próprios. Ora, se toda a sua família fosse empregada dos grandes sojicultores, se estes empresários pedissem a sua opinião, se o contraponto à sua realidade fosse a realidade dos bolivianos dos Andes, o que você escolheria? Pois aí está a explicação para 85% de aprovação às mudanças constitucionais na estrutura da República da Bolívia.
O que essas pessoas não percebem, como não percebemos nós, brasileiros, é que atender a essas demandas originadas nas elites agrárias, produtoras da "verdadeira riqueza", de modo algum atende (ou atenderá num futuro concebido) às nossas aspirações e necessidades. Os fazendeiros bolivianos e brasileiros que têm destruído a Amazônia nos llanos bolivianos não têm nada a nos oferecer como meta de futuro que não seja alguns poucos empregos, menos florestas, mais soja, mais soja, mais soja, menos Bolívia, menos Brasil, menos gente, mais dinheiro, mais dinheiro. Aparentemente, à maioria, estas recompensas bastam.
A mim não. E por isso, falo.