Sobre a estupidez humana: setembro 2007 Archives

Lentes

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Pois é,

A metáfora das lente é sempre muito apropriada. Vemos o mundo conforme as lentes que usamos. É o caso da minha amada Sandra (primeiro o carinho, né?). Não querendo provocar, reproduzo o comentário que ela fez ao post anterior, sobre a sobremesa de R$26.700,00, mesmo porque, é um pensamento recorrente. Portanto, os comentários que farei não se dirigem a ela, mas ao pensamento expresso:

Se formos pensar assim, meu filho não pode estudar em escola particular quando tantos sofrem com a decadência no ensino "público". Eu não posso ter plano de saúde particular porque o "público" é uma merda. Não deveria ter um automóvel porqu o transporte "público" deveria suprir todas as carências.

Resumindo: o país é pobre por causa de um governo corrupto e mal estabilizado. Agora, se eu posso, com minha renda, pagar escola particular, plano de saúde e automóvel, porque os mais ricos não podem comer uma sobremesa com pedras preciosas?

O foco não É o restaurante, Afonso. É, como sempre, o governo.

Vamos, então, por partes:

Um dos piores efeitos da chamada economia de mercado, principalmente do jeito que ela anda por essas bandas, é a perda da capacidade de comparação. Comparamos alhos com bugalhos para justificar o valor das coisas.

Não se está, aqui, a criticar quem queira gastar R$26.700 numa jóia acompanhada de doces. Como disse no título do post, é um direito. Não se discute o direito das pessoas. Mas a moralidade do ato sim. Essa pode e deve ser debatida e rebatida, se for o caso.

Quer queiramos ou não, vivemos numa transição paradigmática (para usar a expressão do Boaventura de Souza Santos) onde justamente esse tipo de valor esta sendo questionado. O direito vem depois, sempre depois. Daí que, usar o exemplo da educação para justificar uma estupidez, é tão somente colocar uma lent cor-de-rosa para ver o mundo; uma lente que nos permite achar que tudo é lindo e maravilhoso,

Não há como comparar o valor (não confundir com preço) da educação com o valor de uma jóia (mesmo que tomado, aqui, o valor pessoal que cada um poderá atribuir aos bens que deseja). Mais ainda quando se quer apenas conduzir o pensamento para uma crítica ao governo, como se o governo fosse, de fato, o responsável por tudo.

E aqui temos mais um efeito da lente cor-de-rosa: ela nos faz ver que a culpa é sempre dos outros. Afinal, já cumpri com a minha obrigação votando nos governantes; agora, eles que façam o seu trabalho direitinho, né? Sintomático, incluisive, que os exemplos tenham sido exatamente aqueles direitos mínimos que os governantes deveriam se empenhar em garantir: educação, saúde e transporte. Faltou falar em alimentação, né?

Uma coisa é pagar por educação, saúde, transporte e alimentação. Quem faz isso é um ser humano do qual ainda se pode esperar tenha consciência de pertencer a uma espécie; do qual ainda se pode esperar que um dia possa realizar atos de solidariedade. De quem come chocolate acompanhado de pedras preciosas - e pensa sinceramente que está fazendo algo moralmente adequado - não se pode esperar absolutamente nada.

E o mundo precisa cada vez mais de gente consciente e solidária e não de gente que "come pedras".

A diferença é comparativa, de grau. E essa capacidade parece que já perdemos.

De fato, Sandra, o foco não é o restaurante. Mas também não é o governo. Somos nós o foco. Somos nós, os que comemos pedras preciosas, e somos nós, os que calamos diante da inépcia do governo. E preferimos justificar um com o outro.

É de valores que se fala e não de direitos. É da falta de valores - ou de valores espúrios como os que hoje tendemos a ter - que nos faz, inclusive, pensar que só temos direitos e não, também, obrigações. É da falta de valores que faz com que as pessoas bradem em qualquer lugar "é meu direito", mas que esqueçam de dizer, mesmo que baixinho "é minha obrigação".

Sabe a tal da "cidadania sustentável" sobre a qual eu vinha escrevendo? Pois é, hoje, cidadania é sinônimo de "exigir seus direitos" e, quando muito, praticar ações de benemerência, muitas delas travestidas de solidariedade apenas para satisfazer o ego.

A cidadania só será sustentável, isto é, poderá ser transmitida como conceito e prática para nossos filhos, netos... quando incorporar definitivamente as nossas obrigações morais (e legais).

É de valores que se fala e não de direitos.

Pois é,

A estupidez humana não pára de crescer. E ainda vem justificada... Notícia da BBC:

"Restaurante no Sri Lanka cobra R$ 26 mil por sobremesa

sobremesa preciosa

Sobremesa de chocolate vem com uma jóia de 80 quilates
O restaurante de um luxuoso hotel no Sri Lanka incluiu no cardápio uma sobremesa que custa US$ 14.500 (R$ 26.700).

O prato feito de chocolate, champagne e açúcar caramelizado vem acompanhado de uma pedra água marinha de 80 quilates, o equivalente ao diâmetro de uma colher de sopa.

O gerente do hotel The Fortress, Axel Jarosh, disse que a sobremesa foi criada especialmente para a "clientela exclusiva".

A ousadia, no entanto, tem sido alvo de críticas de grupos de direitos humanos, que consideram "obsceno" cobrar uma fortuna por um doce, enquanto muitas pessoas lutam contra a pobreza no país.

"Publicidade de mau gosto"

"Muitas pessoas no Sri Lanka lutam para sobreviver por causa dos efeitos da guerra local e do tsunami", afirmou o porta-voz de um grupo de ajuda humanitária baseado na capital, Colombo.

"Nestas ciscunstâncias, uma publicidade como essa é de extremo mau gosto", acrescentou.

Jarosh argumenta que não há nada de excessivo no preço da sobremesa preciosa.

"Nós tivemos uma reação positiva local e internacionalmente e não acreditamos que o prato deveria ser vendido em outro país, mesmo que o Sri Lanka tenha índices de pobreza consideráveis", disse Jarosh à BBC.

"Diante de tantas notícias tristes sobre o nosso país, nós quisemos criar algo para levantar os ânimos", disse o empresário, acrescentando que já vendeu uma porção "da jóia".

Com a publicidade que se criou em torno do prato, o empresário espera atrair turistas para o país.

"Estamos confiantes de que quando a alta temporada começar, em dezembro, vamos ter várias reservas do exterior."

O hotel The Fortress fica na cidade de Galle, no sul do Sri Lanka, e é um dos mais caros do país, chegando a cobrar até US$ 1.700 (R$ 3.100) a diária."

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