Pois é,
A metáfora das lente é sempre muito apropriada. Vemos o mundo conforme as lentes que usamos. É o caso da minha amada Sandra (primeiro o carinho, né?). Não querendo provocar, reproduzo o comentário que ela fez ao post anterior, sobre a sobremesa de R$26.700,00, mesmo porque, é um pensamento recorrente. Portanto, os comentários que farei não se dirigem a ela, mas ao pensamento expresso:
Se formos pensar assim, meu filho não pode estudar em escola particular quando tantos sofrem com a decadência no ensino "público". Eu não posso ter plano de saúde particular porque o "público" é uma merda. Não deveria ter um automóvel porqu o transporte "público" deveria suprir todas as carências.Resumindo: o país é pobre por causa de um governo corrupto e mal estabilizado. Agora, se eu posso, com minha renda, pagar escola particular, plano de saúde e automóvel, porque os mais ricos não podem comer uma sobremesa com pedras preciosas?
O foco não É o restaurante, Afonso. É, como sempre, o governo.
Vamos, então, por partes:
Um dos piores efeitos da chamada economia de mercado, principalmente do jeito que ela anda por essas bandas, é a perda da capacidade de comparação. Comparamos alhos com bugalhos para justificar o valor das coisas.
Não se está, aqui, a criticar quem queira gastar R$26.700 numa jóia acompanhada de doces. Como disse no título do post, é um direito. Não se discute o direito das pessoas. Mas a moralidade do ato sim. Essa pode e deve ser debatida e rebatida, se for o caso.
Quer queiramos ou não, vivemos numa transição paradigmática (para usar a expressão do Boaventura de Souza Santos) onde justamente esse tipo de valor esta sendo questionado. O direito vem depois, sempre depois. Daí que, usar o exemplo da educação para justificar uma estupidez, é tão somente colocar uma lent cor-de-rosa para ver o mundo; uma lente que nos permite achar que tudo é lindo e maravilhoso,
Não há como comparar o valor (não confundir com preço) da educação com o valor de uma jóia (mesmo que tomado, aqui, o valor pessoal que cada um poderá atribuir aos bens que deseja). Mais ainda quando se quer apenas conduzir o pensamento para uma crítica ao governo, como se o governo fosse, de fato, o responsável por tudo.
E aqui temos mais um efeito da lente cor-de-rosa: ela nos faz ver que a culpa é sempre dos outros. Afinal, já cumpri com a minha obrigação votando nos governantes; agora, eles que façam o seu trabalho direitinho, né? Sintomático, incluisive, que os exemplos tenham sido exatamente aqueles direitos mínimos que os governantes deveriam se empenhar em garantir: educação, saúde e transporte. Faltou falar em alimentação, né?
Uma coisa é pagar por educação, saúde, transporte e alimentação. Quem faz isso é um ser humano do qual ainda se pode esperar tenha consciência de pertencer a uma espécie; do qual ainda se pode esperar que um dia possa realizar atos de solidariedade. De quem come chocolate acompanhado de pedras preciosas - e pensa sinceramente que está fazendo algo moralmente adequado - não se pode esperar absolutamente nada.
E o mundo precisa cada vez mais de gente consciente e solidária e não de gente que "come pedras".
A diferença é comparativa, de grau. E essa capacidade parece que já perdemos.
De fato, Sandra, o foco não é o restaurante. Mas também não é o governo. Somos nós o foco. Somos nós, os que comemos pedras preciosas, e somos nós, os que calamos diante da inépcia do governo. E preferimos justificar um com o outro.
É de valores que se fala e não de direitos. É da falta de valores - ou de valores espúrios como os que hoje tendemos a ter - que nos faz, inclusive, pensar que só temos direitos e não, também, obrigações. É da falta de valores que faz com que as pessoas bradem em qualquer lugar "é meu direito", mas que esqueçam de dizer, mesmo que baixinho "é minha obrigação".
Sabe a tal da "cidadania sustentável" sobre a qual eu vinha escrevendo? Pois é, hoje, cidadania é sinônimo de "exigir seus direitos" e, quando muito, praticar ações de benemerência, muitas delas travestidas de solidariedade apenas para satisfazer o ego.
A cidadania só será sustentável, isto é, poderá ser transmitida como conceito e prática para nossos filhos, netos... quando incorporar definitivamente as nossas obrigações morais (e legais).
É de valores que se fala e não de direitos.








































