Sobre a estupidez humana: novembro 2005 Archives

Pessoas

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Pois é,

Trabalhar com pessoas é desgastante. Mas trabalhar com pessoas em estruturas de poder é mortal! A vontade pessoal, escorada na estrutura que dá poder, sobrepõe-se ao interesse da coletividade, da organização e, no fim das contas, aos interesses da sociedade.

Por isso o Estado não funciona. Se uma estrutura hierárquica me dá poder, passa a valer o que eu penso e não a racionalidade. Há mais de cem anos que a Ciência da Administração desenvolve métodos de trabalho comprovadamente eficientes, que proporcionam eficácia no atingimento dos resultados que se espera de uma organização.

Pois esses dias escutei: "Afonso, se eu tiver que mudar a minha maneira de trabalhar, é porque o teu método está errado". Claro que o método em questão era algo racional, testado, aprovado e em uso pela humanidade desde que Taylor sistematizou os processos de trabalho. Uma simples linha de produção, fordiana quase. Claro, também, que a pessoa estava bem sentada na estrutura de poder, que lhe permitia o direito de vida e morte (demissão) sobre outras pessoas.


Aí começa o desgaste. Saimos da lógica para adentrar no campo pessoal. Das crenças. Há que se desenvolver toda uma cansativa estratégia de argumentação para demover essa pessoa da crença de que poder e eficácia são sinônimos. Nunca esquecendo que toda conversa poderá terminar num simples "eu quero assim e pronto!".

Mas é o sistema, né?

Pós-conceito - II

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Pois é,

O que é o "sistema"? Tive um colega que dizia ter vontade de sair do trabalho só para poder "ir contra o sistema". Ali, trabalhando, ele jamais conseguiria. Fora, no entanto, dos vínculos com o sistema, nada o impediria de criticá-lo.

A verdade é que vivemos "de rabo preso". Isso é o sistema. Sistema significa abrir mão para não perder o que temos. Essa "coisa" abstrata, a que chamamos sistema, é o que permite a manifestação da hipocrisia como algo normal, natural, sem que ninguém ache estranho. Pensamos de um jeito, agimos e nos expressamos de outro. Tudo para não perder o que já temos, muitas vezes conseguido a duras penas.

Nossa vida se molda em manter aquilo que conquistamos, mais do que por conquistá-las. Dito de outra forma, gastamos mais energia na hipocrisia da manutenção do que na hipocrisia da conquista. As organizações humanas (família, trabalho e sociedade) são o celeiro que alimenta essa batalha entre o que pensamos ser a realidade e o que realmente é a realidade. Vivemos abrindo mão dos nossos princípios em prol da manutenção das nossas pequenas conquistas. E ficamos felizes com isso. Somos ensinados a ser felizes com isso.

Isso é o sistema: viver abandonando princípios para manutenir status. Não mandamos o chefe a puta que o pariu porque podemos perder o emprego, embora tenhamos cereza de que o chefe é um filho da puta ignorante. Isso é o sistema: freios.

Viver de uma imagem da realidade chama-se ilusão. Vivemos iludidos achando que tudo é lindo e maravilhoso, quando achamos que tudo é uma merda!

A conveniência e a irmã gêmea da hipocrisia. Fazemos tudo por conveniência. Fazemos porque nos convém ou fazemos porque não nos convém. Nada de errado nisso. Afinal, somos humanos. A hipocrisia está em não admitir isso. Em vir a público travestido de uma personagem, isto é, aquilo que não somos. A conveniência e a hipocrisia nos fazem os seres conservadores que somos.


Só existem duas formas de mudar o sistema: uma, quando resolvemos abrir mão da conveniência e da hipocrisia e colocamos nossa própria vida à disposição dos nossos princípios. São as revoluções, as guerras civis. Embora rápidas e capazes de mudar o sistema, esse tipo de mudança serve apenas para instalar novas conveniência e hipocrisia e nos tornar conservadores com novos princípios.

A segunda maneira de mudar o sistema é pela revolução cultural ou revolução nos costumes. Elas não funcionam por serem revoluções, pois o sistema sempre estará preparado para absorvê-las, mas por deixarem pequenas mutações sociais capazes de, ao serem disseminadas por longo de um longo período, realizarem a mudança necessária. Pequenas mutações sociais não são percebidas pelo sistema. Ou melhor, o sistema só as percebe quando já se tornaram um câncer capaz de matar o organismo.

Estamos acostumados a associar as grandes mudanças da humanidade a eventos e suas datas e, com isso, tendemos a esquecer que esses eventos representativos são apenas o ápice de algo que já vinha acontecendo há muito tempo.

Nenhuma novidade até agora. Apenas uma contextualização para o que segue... fora o fato, é claro, que a análise comporta suas exceções. Mas o altruísmo ainda é, infelizmente, uma pequena exceção.

Para adiantar: todos temos a liberade de fazer o que bem entendemos. O que alguns fazem, no entanto, é que faz a diferença. O que os outros fazem é apenas exercício de liberdade, não muda nada.

Original em www.crystalinks.com/bastille.jpg

Pós-conceito - I

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Pois é,


Estamos acostumados a chamar de preconceito qualquer idéia formada sobre algo, sem que tenhamos conhecimento desse algo.

"A palavra “preconceito” tem como significado uma opinião ou um conceito formados por antecipação, geralmente com precipitação, destituídos de análise mais profunda ou conhecimento de determinado assunto, sem levar em consideração suficientes argumentos contrários e favoráveis, sem o devido cotejo entre os múltiplos aspectos que incidem sobre os fatos, por conseguinte, sem a suficiente e necessária reflexão."1

Dizer que não gosta de Toddy porque prefere Nescau, sem mesmo ter conhecido Toddy, não é preconceito contra o Toddy. Não somos obrigados a experimentar de tudo para, então, escolhermos aquilo de vamos gostar. Podemos gostar de algo e passarmos o resto da vida apenas com aquele algo, sem que isso seja preconceito com os similares.

Preconceito é algo que não existe. O que existe são pós-conceitos. Explico.

Ninguém forma conceitos por conta própria. Os conceitos nos são ensinados. Nascemos e vamos crescendo sem conceito algum. Os primeiros a nos trasmitir conceitos são nossos pais, e aqui as mulheres exercem papel de protagonistas, notadamente as mães. E se não temos conceitos, tudo o que vier após, são pós-conceitos.

Há um momento, no desenvolvimento humano, em que o bebê realiza uma identificação com a pessoa do mesmo sexo que está próxima (pai, mãe, avó, avô, etc.). Até aí tudo bem. O problema começa na fase seguinte, quando a criança se des-identifica e, com a identificação gerada, passa a disputar a relação com o sexo oposto dentro da familia. Uma questão de modelo. O menino cria a identidade masculina pelo modelo do pai. Depois, com o modelo estabelecido, vai disputar a mãe.

Aí tem início o processo de formação dos conceitos.Na chamada fase "fálica" ou "genital", as crianças sequer imaginam o que seja sexo. Mexem em si mesmas tão somente pelo prazer que isso lhes proporciona. Os pais, no entanto, estabelecem o primeiro conceito: meninas não podem sentar no colo do pai e meninos não podem roçar nas pernas da mãe: é sexo, dizem.

A partir desse momento, os pais - e, repito, notadamente as mães - começam a formar o conjunto de conceitos que levaremos para o resto da vida. Quando, ao final da infância e início da adolescência, tomamos contato com o sexo, não mais como mero prazer próprio, mas como descoberta do outro, já estamos com nossos conceitos formados. O que vier daí sempre será PÓS-CONCEITO.

Podemos ter pênis, mas não podemos ser gentis, carinhos, suaves, amorosos, delicados. Esse é o "papel" reservado a quem tem vagina. Meninos "dão porrada!". Se não derem, serão viados. O mesmo, no outro sentido, vale para as meninas.

Está na hora de des-confundirem sexo de gênero. Masculinidade, ou feminilidade, não tem nada a ver com sexualidade. O grande problema é que as próprias pessoas adoram fazer barulho com essa confusão. O dia que homens homossexuais pararem de desmunhecar; pararem de agirem com se mulheres fossem e simplesmente optarem por uma relação homoafetiva e não "homoafetada", pode ser que a sociedade os aceite com naturalidade.

Homosessuais deveriam lutar não contra "preconceitos" mas, sim, contra manifestações que sempre os associaram ao "ser mulher", ou ao "ser homem".

Sejam homens, sejam mulheres. Depois escolham suas preferências sexuais.

Só o sistema muda o sistema.


1www.dhnet.org.br/oficinas/scdh/parte1/conceitos/preconceito.html
Primeira foto: www.cadaumdaoquetem.blogger.com.br
Segunda foto: diferentblog.blogs.sapo.pt

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