Pois é,
Enfim, acabou. Ou acabará à meia-noite de hoje, para ser mais exato (e chato!).
Foi, sem dúvida, igual aos anteriores; e será, certamente, igual aos que ainda porventura virão.
Vai ano e entra ano e continuamos a nos iludir que cada novo ano será diferente - de preferência melhor - que os anos anteriores. Besteira, sabemos! Mas mesmo assim gostamos dessa ilusão. Mesmo eu, que penso ter chegado ao limite do meu descrédito com o mundo, mantenho uma pontinha de ilusão.
Atravesso o final de ano ainda montado no pangaré (alusão ao Don Quixote) que me propus a abandonar no final de 2005. Desacreditar totalmente é uma tarefa difícil. Estamos rodeados de gente pelas quais nutrimos um sentimento de responsabildade. Por elas é que mantemos um pouquinho de esperança.
O ano termina com o assasinato oficial - de estado - do Saddam. Com ele vai-se, também, um pouco daquilo que chamamos certeza. Termino o ano em dúvida. Se, por um lado, reconheço que as atrocidades por ele cometidas mereciam castigo de igual monta, por outro, penso que matá-lo resolve apenas o problema de quem deseja vingança. Teria sido melhor cortar-lhe as mãos e os pés e deixar que sofresse pelo resto da vida a consciência de que isto foi feito em razão dos crimes cometidos.
A morte acaba com tudo, menos com o prazer dos que continuam vivos.
E os outros líderes mundiais, RESPONSÁVEIS PELA MORTE DE MILHARES DE INOCENTES, será que terão o mesmo destino?
- Afonso?
- Quié, Chato?
- Já não disseste que não acreditas mais em Papai Noel?
- Sim, mas o que isso tem a ver com o post?
- Tudo! Pensar que um dos maiores genocídas da humanidade - o tal de B@sh- poderia ser enforcado é a mesma coisa que acreditar em Papai Noel!
- Queres saber, Chato?
- O quê?
- Já não acredito em mais nada, essa é que é a verdade. De Clin..aos B#shs, os americanos já mataram - direta ou indiretamente - mais inocentes que muito ditador pelo mundo afora!
- Isso significa, então, Afonso, que a tua listinha de 10 coisas nas quais não acrefitas mais deverá aumentar?
- Antes fosse assim, Chato! O problema é o velho pangaré que sempre me acompanha.
- E o que vais fazer em 2007?
- Ja disse que em 2006 se esgotou meu estoque de certezas. Entro em 2007 com pelo menos três caminhos a seguir: ou largo tudo de mão e vou procurar a tal da paz de espírito, ou me revolto definitivamente e "pego em armas", ou abro uma Skol. Que te parece?
- Abre uma Skol!!!
- Quem dera a vida decesse tão redondinha feito uma Skol, Chato! Quem dera eu não tivesse esse pingo de consciência que tenho! Quem dera tivesse faltado alimento na minha infância e meus neurônios não fossem capazes de perceber e pensar o mundo! Quem dera eu não precisasse me incomodar com o mundo!
- Posso fazer uma perguntinha íntima, Afonso?
- Poder, pode. Mas quem pergunta o quer quer, pode ouvir o que não quer!
- Precisas mesmo te incomodar com o mundo?
- Porra, meu! Já não te disse que termino o ano e entro noutro somente com dúvidas?
- Caraca! Tô vendo que em 2007 vais incomodar no blog!
- E daí, Chato? Pra que serve um blog, afinal? E não te esqueças que ainda não terminei aquela história sobre teres me prendido no castelo. Lembra? As Aventuras da Condessa Clarissa? Pois é, fica quieto que qualquer dia desses resolvo liquidar contigo.
- Hehehe, isso é uma característica tua, Afonso. Começa e não termina!
- Tá, chega de papo! Passaste o ano inteiro me enchendo saco e agora não me deixa escrever um post de final de ano decente!
- E se puder não vou deixar, ora! Um post todo desanimado? Era só o que me faltava!
- Conta, então, o que pode ter sido animador em 2006?
- Compraste uma cobertura.
- Só deu trabalho!
- Tens emprego.
- Só deu trabalho!
- Chato!?
- Quié?
- Cala a boca e deixa eu terminar o post.
- Mas o que mais queres dizer que possa interessar a alguém?
- Sei lá, algo do gênero "sejam felizes em 2007"?
- Ah tá! Palhaçada, agora!? Desde quando acreditas nisso?
- Nunca é tarde!
- Conta outra!
- Que seja. Não quero que as pessoas sejam felizes em 2007. Quero apenas que possam realizar, cotidianamente, a vida. Seja ela qual for. Feliz ou triste, fácil ou difícil. Que morram se tiverem que morrer; que vivam se tiverem que viver. Façam tudo que a vida e a morte nos permitem fazer. Mas façam, também, uma coisa diferente, pra variar:
façam algo diferente! Não esperem morrer para se arrependerem daqulio que não fizeram. A vida começa ali e acaba logo ali, sem avisar. Numa esquina, num tiro, num câncer que mata em dois meses, num ônibus incendiado! Esqueçam a religião. Mas não esqueçam da maior lei da vida: não faças aos outros aquilo que não queres que façam a ti!
- Meu desejo para 2007, Chato, é que a vida e a morte continuem!
"- Severino, retirante,deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida
como a de há pouco, franzina
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."(Morte e Vida Severina, João Cabral de Mello Neto)








































