Será que eu sei escrever?: novembro 2005 Archives

Livros - II

| | Comments (12)

Pois é,

Foi aí que senti a minha vaguinha no céu indo pro purgatório. Na minha arrogância, pensei dar um nó no Mestre. E agora, que livro emprestar a Ele? Não sabendo o que indicar, tentei dar uma disfarçada.

- Caríssimo, façamos o seguinte. Temos, lá embaixo, um coisa parecida com livro, só que é cheio de figurinhas. Sabe? Mulher pelada e coisa e tal? Não aprecias?
- Afonso! Esqueces que fui eu o criador dessas preciosidades? E, de mais a mais, ainda prefiro a Eva. Aquilo sim era mulher de verdade...
- Ei, ei, conheço essa. Seja original, ao menos!
- Sim, sim, mas e aqueles peitinhos da Eva. Ah! Afonso, vou te confessar uma coisa.
- Fala! Tenho a eternidade para te ouvir!
- Isso é o que pensas, meu caro. Dependendo do que vais me indicar, te mando de volta logo, logo. Mas como ia dizendo, sacaneei o Adão. Admito. Nem eu resistiria se estivesse no lugar dele.
(hummm, algo me diz para continuar por esse caminho. Talvez ele esqueça do livro.)
- Querido, não tive a oportunidade de conhecer Eva pessoalmente, mas pelo que falas devia ser uma mulher e tanto, não?
- Ô se era! E ainda tinha uma paciência de Jó. Não, Jó não. Jó veio depois. Uma paciência divina, hahahaha!
- hahahaha (sacana, ainda me faz rir de piadinha boba, só pra não arriscar meu lugarzinho) Por quê?
- Imagina agüentar o Adão! Eu sei que fui eu quem o criou, mas, tadinho, ficou tão cheio de defeitos, maniático. Não parava de reclamar do tédio que era o paraíso. Um ingrato, isso sim!
- Ei, ei, defeito tinha a ...ops! Eu! É! Eu sou cheio de defeitos (ih! dancei).
- Afonso?
- Sim?
- Estás querendo me enrolar?
- Longe de mim, Altíssimo! Quem sou eu! Só pensei que estavas tendo prazer com as lembranças da Eva.
- E estou, não posso negar.
- E por falar nela, por onde anda?
- Pois é, Afonso, fugiu com o Demo!
- Como assim?
- É... Afonso. Bem sabes que as mulheres adoram um cafajeste. Bem que eu tentei. Fiz algumas sacanagens do tipo inundação, destrui umas cidades, essas coisas, sabe? Pra ver se ela voltava, mas não deram certo. Ele é bem mais competente que eu.
- E por que não fizeste outra igual?
- O problema é que isso não estava nos meus planos. Queria que os homens fossem capazes de criar outra Eva. E sou meio birrento. Depois que coloco uma idéia na cabeça, nem eu mesmo tiro.
- Sei, sei, conheço vários assim!
- Quem? Quem?
- Aqui tem delação premiada também, é? Tá, deixa pra lá.
- Afonso, Afonso, e meu livro?
- Errrr! Deixa eu ver... Pelo jeito, acho que andas precisando de algum livro de auto ajuda!


Alguém se arrisca a sugerir um livro para emprestar a Deus?

Livros

| | Comments (11)

Pois é,

Vamos supor que exista o Criador. Mais, vamos supor que eu tenha levado uma vida merecedora de, ao menos, uma breve entrevista por parte d'Ele.

- Afonso?
- Senhor!!?? Permita-me, antes de mais nada, expressar minha surpresa. Nada há de mais imprevisto que Sua existência. Hás, com perdão da intimidade, de concordar comigo!
- Afonso, deixa pra lá essas questões filosóficas. Queres permanecer aqui no céu?
- Putz! Ai, desculpa o cacoete terreno! E o que é preciso fazer mais do que já fiz lá na Terra para merecer o céu?
- Responder a uma única pergunta!
- Só uma? Uminha?
- Só!
- E não tem pegadinha?
- Afonso!!!
- Tá legal, desculpa. Manda ver!
- De todas as coisas que a humanidade produziu, qual terá sido a maior delas?
- PQP! Putz, falha minha! Não tens mãe, né? Só teu filho teve uma.
- Afonso!!!?
- Sim?
- Não sejas chato!
- Mas, Senhor, esse é o blog do Chato! Como não sê-lo? E se não sê-lo, como sabê-lo?
- Mais uma e vais pro Inferno!
- E tem picanha mal passada por lá? Hummm, já fiquei em dúvida se quero responder.
- Última vez: de todas...
- Ai, que meda! Tá bom, meu caro! Demorei porque estava em dúvida entre o livro e a música. Entre os dois, fico com o livro. A música é uma criação tua. Tens essa mania de ficar soprando nos ouvidos dos homens as melodias maravilhosas que eles produzem. Devias parar com isso, sabes? Sei, sei. No século vinte deixaste todos por conta própria e deu no que deu! Mas, de qualquer forma, a música é a natureza. Os livros não. Livros são uma genuína criação do homem.
- Como assim??? Nada se cria debaixo do céu que não seja por minha vontade, insolente!!!
- Ei, peraí, ô onipotente! Perdeste de há muito o controle das cousas lá pela Terra! Cá pra nós, quem mandou criar mais mundos do que podias controlar? Teu amiguinho, o Demo - lembra? - andou se aproveitando da tua ausência desde que resolveste descansar no tal sétimo dia e nos ensinou a escrita.
- Que história é essa, se eu joguei esse cara lá no quinto dos infernos?
- Esse foi teu problema, jogá-lo no quinto dos infernos (com o perdão da Vossa Pessoa, que dizem ser brasileiro, mas, sabes que dizem ser o Brasil esse tal de quinto dos infernos?). De lá ele arranjou tudo: deu ao homem, que dizes ser tua imagem e semelhança, a imaginação. Mais, deu a ele onde colocar essa imaginação. Criou o livro. E tão poderoso é o livro, que por diversas vezes jogaram-no ao fogo, crentes que estavam a eliminá-lo, quando na realidade nada mais faziam que devolvê-lo ao seu criador. Teria sido o Senhor dos Fogos Eternos?
- Afonso?
- Sim, caríssimo? Posso chamá-lo assim, né? A essas alturas da conversa...
- Vá lá! Mas diz-me uma coisa!
- Se estiver ao alcance de uma simples figura, tão somente semelhante...
- Esquece isso e me responde: o que tem de tão grandioso esse tal de livro?
- Arrá! Admites, não? Vamos combinar uma coisa: eu falo, tá? Mas sem punições, Ok?
- Putz (com tua licença, Afonso, tá?), mas nem eu seria capaz de criar alguém tão chato como tu! Fala logo!
- hahahahah Começamos a nos entender! Nos livros, meu Senhor, os homens descobrem o mundo. Neles, os homens amam e odeiam. Nos livros os homens descobrem o que são e o que gostariam de ser. Nos livros eles se tornam eternos. Tu nos expulsaste do paraíso! Pois nos livros retornamos a ele sem te pedir licença. Nos livros nos revoltamos contra a tua vontade, falamos mal e bem de ti. Dizemos da desgraça humana, contamos números da morte e registramos nossas tragédias. E registramos nossa vontade de sermos iguais a ti. Neles somos a favor e somos contra. Dizemos do sim e do não. Nos livros escrevemos a fórmula da morte e a fórmula da vida...
- Afonso, chega!
- Como assim, chega? Querias saber, não querias?
- Já me é suficiente a tua resposta. Tenho, porém, outra pergunta para ti?
- Arrá! E para quem mais terias, ó Divino, se estamos só nós dois aqui, Sábio dos Sábios?
- PQP! Afonso!!! Sem gozação, tá?
- Opa! Já te disse! Pelo que sei, só teu filho tem mãe. Se tu não tens mãe, eu tenho!!! Mantenha o nível!
- Certo! Mas vamos lá! Valendo um lugar no céu, última pergunta: podias me emprestar algum livro?

About this Archive

This page is a archive of entries in the Será que eu sei escrever? category from novembro 2005.

Será que eu sei escrever?: setembro 2005 is the previous archive.

Será que eu sei escrever?: dezembro 2005 is the next archive.

Find recent content on the main index or look in the archives to find all content.