Retrospectiva: outubro 2006 Archives

Pois é,

Retorno hoje a Porto Alegre. Antes, ainda passo por Caxias do Sul.

Esse post foi escrito em maio de 2005. Uma pequena homenagem a mulher e hoje mãe. Lembrei-me dele ao escutar a Condessa chamando "mamãe".


Duas cartas pra mesma pessoa

Pois é, mamãe. Viste? Nem nasci e já estou pegando a mania do “pois é” do papai. Sinto-te feliz hoje e sei a razão. E fico feliz também, pois em breve poderei beijar-te no rosto e não apenas te dar uns pontapés na barriga.

Sim eu sei. Bem sei que gostarias de ficar aqui comigo, tomando uma cervejinha, batendo papo... mas vai, vai descansar. Hoje é teu dia. Não queres? Então fica. Viste? Ela nem nasceu e já te chama de mamãe. Imagina quando puderes escutar isso. Só de pensar fico arrepiado. Desculpa, eu sei que é teu dia, mas eu vou ficar arrepiado quando ela disser “papai”.

Talvez não saibas, mamãe, mas te escolhi. Sim, aqui nós podemos escolher em qual família vamos nascer. E mais, escolhemos qual mãe queremos ter. Alguns decidem que ainda precisam resolver coisas pendentes; outros decidem que é hora de definitivamente abandonar a Terra e partir para outros mundos. Eu não. Eu sei que ainda preciso de ti. Ainda preciso aprender muitas coisas contigo antes de deixar essa Terra. Não para resolver, mas para aprender.

Sabes de uma coisa? Tem momentos em que a gente quase desiste. Aquele dia, lá no Bar do Beto, era um desses dias. Era o dia mais improvável pra nós. Não querias estar lá. Eu fui com o piloto automático. Foste pra ajudar uma amiga; fui simplesmente porque tinha que ir. Era parte do ser assim. Tinha que ser; se não fosse, seria mais uma noite a odiar o mundo. E fui. E estavas lá.

Esperei, mamãe. Tudo acontece na hora certa. Antes não estavas pronta para me receber. Haviam me perguntado se tinha certeza do que estava fazendo. Respondi que sim. Sim, tenho certeza, mamãe está pronta. Durmo contigo; acordo contigo e sinto contigo. Sofro contigo. Sei melhor que qualquer um que estás pronta. Por que eu te escolhi! E se te escolhi é porque, daqui, sabemos o que é ser mãe. E serás a melhor mãe, assim como as melhores mães de tantos quantos nascem na Terra.

Tudo conspirava contra nós. Eu pensando que estavas brigando com a tua namorada. Admite. Pra quem olhava de fora, ver uma mulher abraçada em ti e chorando no teu ombro, pensaria o quê? O que eu poderia pensar? Pensei o que qualquer besta pensaria: vou curar essa mulher. Como pode? Uma mulher tão linda e gostar de outra mulher. É, já te falei do meu lado machista: adoro ver duas mulheres juntas; desde que sejam as dos outros.

E te realizo assim como me realizas. É a vida, mamãe. E não vejo a hora de me sentir no teu colo; de me sentir no teu peito; de me sentir querida como só tu saberás fazer eu me sentir. Por isso és minha mãe.

E tu? E tu que estavas a pensar que minha amiga era minha mulher? Cafajeste, disseste-me depois. Safado sem vergonha! Fica paquerando na frente da mulher. Pobre de mim, não fosse a Clarissa.

Papai, essa parte é minha. Talvez vocês não soubessem, mas fui eu que arranjei tudo.

Opa, peraí! Que história é essa?

É papai. Nós estamos aqui por uma única razão: realizar a mamãe.

Tá, minha filha, mas assim até parece que eu não tenho nada a ver com isso. E tem mais, não eram cartas separadas?

Eram, mas estamos falando a mesma coisa. Mais do que a mesma coisa, estamos falando da minha mãe, a tua mulher.

Mudei de mesa, lembra? Se o perfil já era maravilhoso, o que dirá ficar te olhando de frente. Os olhos. Os olhos mais maravilhosos que já vi. Olhos que tenho até hoje com pano de fundo nos meus computadores (aqui em casa e no trabalho). A imagem mais bonita. Teus olhos no nosso casamento. Não há o que pague ficar te olhando a cada momento. Sou feliz por isso. Se hoje eu sei o que significa chorar de felicidade é por poder olhar a qualquer momento os teus olhos chorando, na foto do casamento.

Naquele dia no bar percebi, no entanto, que algo te incomodava. Deixaste de me olhar. Não me pergunta a razão, mas teu abandono pareceu ser o fim do mundo. Tinha que fazer algo. E fiz. Confessa: foi original, né? Eu sabia! Só algo original estaria a tua altura.

Eu sei, papai, que entendes. Entendes que és e serás meu pai querido. Eu também entendo que amas minha irmã. E venho pra dizer a ela que não vou dividir. Venho para multiplicar nosso pai.
Mais do que te multiplicar, papai, vimos, eu e tu, para multiplicar essa pessoa maravilhosa que é a mamãe. Sabes bem disso.

Sim, minha filha. Sei bem que vens para me ensinar o quanto essa pessoa que escolheste como mãe, e que me escolheu como teu pai, merece tudo. E estava justamente te esperando pra me ajudar. Sozinho não sei se seria capaz, mesmo tendo sido original quando a conheci.

- Papai?
- Sim, minha filha?
- Vamos separar o que escrevemos e mandar pra mamãe como se fossem duas cartas pra mesma pessoa?

A Kaya está de aniversário este mês. No dia certo vou republicar esse post. Pra variar, não será o que de melhor eu poderia fazer por ela. Quem sabe a Clarissa, nos próximos anos, me ensine como fazer.

Pois é,

Esse falava um pouco de mim. A Condessa ainda era um pequeno serzinho de 4,8 cm na barriga da mãe. Março de 2005.

Esse tal de "About Me" aí de cima...

Não sou da área da comunicação (jornalismo, publicidade, etc.); não sou advogado; não entendo de literatura, informática, música e artes em geral. Detesto ficar duas horas sentado olhando pra tela do cinema. Vejo os filmes em casa, deitado. A desvantagem é não poder participar das rodinhas que fazem comentários sobre os filmes. Mas não morro disso. Leio, escuto, vejo e, mal e porcamente, digito. Só! Não sei escrever. Isso já deu pra ver. Ah! Sem esquecer que falo pelos cotovelos. Digo o que tenho que dizer da maneira mais curta e direta. Sofro críticas por isso. Não faço rodeios pra chamar alguém de boçal, imbecil ou seja lá do que for, se é isso que penso. Também elogio sem rodeios. Defendo minhas idéias com unhas e dentes; e por isso, talvez, me chamem de chato.

Penso até que já passei da idade de ter blog. Mas dessa não tenho culpa. Afinal, blog é coisa recente. E não que exista idade para se ter um blog.

Não viajo pelo mundo e nem moro fora do país. Mal e mal vou sobrevivendo nesse clima desgraçado de Porto Alegre – mais até por falta de coragem de ir embora do que por gostar, embora goste.

Sou funcionário público, com formação em Administração de Empresas. Trabalho no ramo, o que é coisa rara na atividade pública de um país que tem gente PhD como “condutor de veículo de deslocamento vertical”.

Se escrever sobre administração e serviço público, perderei os poucos renitentes que ainda me oferecem a oportunidade de um comentário vez por outra. Por outro lado, não levo jeito pra guru de administração. Não nasci americano, não sou psicólogo e não sei vender.

Mas sou feliz. Num país miserável com os índices de analfabetismo e fome batendo recordes, tive e tenho de tudo o necessário; além de seis gatos, uma filha(15), um pimpolho(a) que já está com 4,8cm e, é claro, a mulher, que se não fosse o fato de estar pagando os seus pecados, já teria me deixado. Das duas uma: ou vou morrer cedo e ela já sabia disso, ou pelo jeito a dívida deve ser grande, pois prometeu “até que a morte nos separe”.

Duas coisas me fazem mal e me afastam das pessoas: injustiça e hipocrisia. Elas se alternam no primeiro lugar. Atualmente a hipocrisia está na frente. Até porque anda generalizada. E hipocrisia conduz, necessariamente, à injustiça. Pessoas hipócritas são injustas; o inverso nem sempre é verdadeiro.

Por isso criei o Índice do Chato. Para medir a injustiça e a hipocrisia.

No más, como se diz por aqui, vou levando. Minha cervejinha, meu cigarrinho e, agora, o blog.

Pois é,

Esse foi um dos primeiros post da série "A Culinária do Chato". Por sinal, ando parado nas minha lides gastronômicas...é de março de 2005.


Qual é o meu prato preferido? O purê. Simples assim. Tem a lazanha, mas essa é muito rebuscada, exige todo um cerimonial para comer. Lazanha precisa de convite. Pra comer purê, ninguém te convida. “Vamos fazer uma jantinha lá em casa no sábado?” O mínimo, que esperas, é uma lazanha. Ou qualquer outra coisa, menos purê. Ou, se tiver, fica ali como mero acompanhante.

Preparar uma lazanha é fácil. Difícil é dar o ponto no purê. Tem gente que mistura queijo ralado; outros, claras em neve. Alguns botam no forno; outros fazem recheado. Purê mesmo, aquele só com batata, leite e manteiga, esse é difícil. E por quê? Porque o purê é simples. E coisas e pessoas simples são difíceis. Somos educados para enfrentar desafios, não coisas simples. Achamos todo mundo difícil, a priori. Não acreditamos quando alguém é simples na sua maneira de ser ou de se expressar. Jogamos milhões de adjetivos por cima.

Quando quero recuperar o sentido da simplicidade, faço um purê. As batatas estão cozinhando... mais uma vez tento acertar o ponto. É difícil. E ele? Ele vai me encher de simplicidade por uns dois dias...

Licença que vou comer meu purê. Bom apetite!

Pois é,

Casualmente eu gosto muito desse post. Escrevi em janeiro de 2005.

Somos seis

Somos seis, é o que diz minha mulher.

O Luiz, o Afonso, o Eu Mesmo, o Comigo Mesmo, o Zumbi e o Universo. Cada qual com suas manias. Tem um que só a física quântica consegue explicar, pois só sabemos da existência dele pelos efeitos que causa nos outros, particularmente no Luiz.

Luiz e Comigo Mesmo passam o tempo inteiro conversando. Daí que conseguimos deduzir a existência de Comigo Mesmo. "Tá falando com quem?!!", berra de lá a mulher. Comigo Mesmo, responde o Luiz. É sempre assim. Um a sombra do outro.

Do Luiz ela diz que não gosta. É rigoroso, cheio de nove horas e não-me-toques. Tudo no seu lugar e na sua hora. Lei é lei, ordem é ordem e ambas foram feitas para serem cumpridas. É de pouca conversa, mas Comigo Mesmo consegue arrancar verdadeiros discursos dele. Já os
peguei, certa feita, numa cena hilária: um mandando o outro calar a boca. Só pararam quando Eu Mesmo interrompeu dizendo que assim acordariam o Zumbi.

O Zumbi é o embaixador plenipotenciário de todos os demais. É convocado quando a turma não quer saber de sair da cama. "Acorda Zumbi e vai trabalhar, que hoje não saio daqui nem pra buscar uma SKOL na geladeira!!!", dizem os preguiçosos. Coitado, passa o dia como se
estivesse em outro mundo. O que não deve ser boa coisa para os que são obrigados a passar o dia com ele. Por sorte não é muito comum ele aparecer, pois parece que os demais fazem uma escala. Assim, sempre tem um que acaba leventando e cumprindo com a vida.

Mas falei de Eu Mesmo, né? Pois Eu Mesmo é o mais maniático de todos. Egocentrista, acha que tudo existe por causa dele. Quando alguém pergunta "quem fez isso?", Eu Mesmo, responde ele. Só fica quieto quando se apercebe, a tempo, de que o resultado do feito não foi
bom. O que é muito raro - ele se aperceber - pois rapidinho em dar respostas como é, sempre acaba metendo as mãos pelos pés. Quem escreveu errado isso? Eu Mesmo.

Ah! Mas temos algo de bom! Isso mesmo. Temos o Universo, que pensa que é a encarnação da perfeição. Sempre tem razão, em tudo o que diz e faz. Os outros só existem por um descuido. O Universo é cheio de paciência, pois tem que aturar as coisas sem razão que os outros dizem. Onde chega, preenche todo o espaço. Também, não fora assim e não seria chamado de Universo.

Em meio a seus irmãos vive e convive o Afonso. É ate um bom sujeito. Cidadão, trabalhador, pai de família, esposo amantíssimo (essa foi soprada pelo Luiz, que dentre outras coisas adora expressões empoladas). Tem lá suas manias, algumas aprendidas com Eu Mesmo; de quando
em vez ("cala a boca, Luiz!". Eu não tinha razão? Esses dois vivem brigando!!) escorrega e se aventura a achar que tem razão. O Universo tem muita influência sobre o Afonso. Mas é esforçado e, por isso, não se dá muito bem com o Zumbi. Adora ajudar os outros. Sempre que pode ou mesmo quando não pode.

Somos seis, diz a minha mulher. Só não sei se fico com pena dela ou se a felicito. Afinal, não é todos os dias que se casa com o Afonso e se leva mais cinco de brinde.

Pois é,

Saio agora para Passo Fundo. Vou reprisar, durante a semana, alguns dos meus primeiros posts, do tempo do blogspot.

Esse foi escrito numa das minhas primeiras viagens a Passo Fundo (a quarta), em abril de 2005.

Carta

Amantíssima,

Espero que esta te encontre na mesma graça que havia quando parti: plena de saúde e de felicidade. Devo admitir, no entanto, que partilho da saudade que deves estar sentindo, pois o mesmo sentimento em mim se avoluma.

A viagem foi ótima. Como sabes, prefiro o caminho do meio, embora seja um pouco mais longo. Tem menos movimento, menos caminhões, sem falar que a paisagem é imensamente mais bonita. É uma estrada calma, tranqüila, o que torna a viagem segura, pois é impossível sentir vontade de correr. A subida da serra serpenteia o Vale do Taquari e lembro-me de ti a cada curva sinuosa, pois sei que enjoas em estradas com muitas curvas. Mas devo dizer-te, que, nesse aspecto, essa estrada é uma perfeita representação de como a engenhosidade humana pode se aliar a natureza: as curvas acabam por pertencer às montanhas; dão-nos a impressão de estarmos caminhando por trilhas feitas na mata.

Ao início passamos por uma linda ponte de pedra sobre o Rio Taquari, na pequena e graciosa Muçum, suporte que foi um dia dos trilhos que levavam os trens para as cidades do planalto central. Fico a lembrar das nossas viagens de Maria Fumaça para passeios no pequeno pedaço da Itália que temos aqui no Estado. Lembra das vezes em que colocavas, perigosamente, a cabeça para fora da janela, ignorando os avisos de que as pontes metálicas poderiam deixar-te sem cabeça? E que eu dizia aos guardas que não ficassem preocupados, pois nunca havia visto alguém perder aquilo que não possuía? Se pudesses ver-me agora, verias que estou rindo, tanto quanto ria ao ver o olhar de espanto que se traía na face dos guardas. É uma pena que hoje não se possa mais fazer passeios como aqueles. Asfalto, caminhões e loucos correndo, como se dez minutos a mais para chegar fosse torná-los mais felizes. Felizmente essa estrada ainda está livre disso. Dos loucos.

O viaduto 13, em Vespasiano Corrêa. Um dos mais antigos e lindos viadutos do Estado. Vale a pena desviar-se alguns quilômetros do caminho só para vê-lo. Próximo a Guaporé, um belvedere descortina o horizonte em meio à serra. Perde-se a vista diante de tanto verde. É parada obrigatória. Recarrega as baterias, como dizem hoje em dia. Faz-nos lembrar que há algo mais nessa vida do que o que vemos nos jornais e na televisão. Em noites claras, de céu aberto e límpido, é possível ver as luzes de todas as cidades da serra gaúcha, cintilando e fazendo coro com as estrelas. Impossível correr nessa estrada, como disse.

Nosso maldito inverno manda seus mensageiros avisar que está próximo. Faz frio por aqui. Talvez nem tanto, se olharmos para o termômetro, mas me conheces: qualquer valor abaixo de 25 graus provoca-me arrepios. Por sorte tenho seguido teus preciosos conselhos e trouxe o pullover que carinhosamente deixaste dobrado em cima da cama.

Já te disse, anjo, que de todas as cidades do interior do nosso Estado, a única pela qual trocaria nossa amada Porto Alegre, era Passo Fundo. E bem sabes que tenho conhecido inúmeras cidades, nessas minhas andanças. Confesso que nunca entendi a razão de tal sentimento. Pois não é que hoje, ao entrar na cidade pela quarta vez, descobri, assim por acaso, a razão? Talvez o outono tenha dado a ela um toque inigualável. É que, de todas as cidades, Passo Fundo é a que mais se parece com Porto Alegre. Chega a confundir-se com um bairro qualquer de Porto Alegre. É esse o sentimento que tenho, o de estar em casa. E só não é completo porque não estás aqui comigo.

Bom, minha querida, devo resguardar-me, pois amanhã, as razões que aqui me trouxeram deverão preencher meu dia.

E como estão nossos filhos? Joseph Afonso segue bem as instruções que deixei para que te cuide sem descanso? Naná tem dormido contigo? E os meninos? Aprontam muito ainda? Cuida bem do tesouro que carregas. E lembre-se: não te esforces mais do que o necessário. O que poupares hoje, será a energia do nosso filho amanhã.

Do sempre teu,


- Afonso!!!
- Hummmm.
- Afonso, acorda! Tá na hora!
- Hein? Que tu estás fazendo aqui?
- Como assim, o que estou fazendo aqui! Eu durmo nessa cama todos os dias. E levanta logo, que tens que viajar para Passo Fundo!
- Ãnnnhhhh???

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