Pois é,
Por uma questão de coerência, eu deveria pular essa. DETESTO INVERNO! DETESTO INVERNO! DETESTO INVERNO! DETESTO INVERNO! DETESTO INVERNO! DETESTO INVERNO!
Vá lá! Vocês nâo têm nada a ver com isso e, além do mais, a segunda melodia mais bonita, em violino, está no Inverno. A primeira é um trecho do Concerto para Violino do Beethoven. E não é pra menos que a melodia é linda, pois é a hora em que "o poeta se acha sentado e aquecido ao pé do fogo". Eu não falei? Só o calor para produzir algo tão lindo. É a parte da chuva, fácil de identificar. Vamos ao texto, com comentários intercalados:
Resta apenas uma estação e, consequentemente, as notas repetidas que abrem o Quarto Concerto simbolizam 'o tiritar de frio [tiritar de frio, eu sei bem o que é isso. É como estou agora enquanto escrevo] por entre as neves glaciais do Inverno'. O solo de violino faz sua entrada ao 12º compasso, disfarçado de Vento Amedrontador [certamente é o maldito Minuano que sopra por aqui. Acho que Vivaldi conhecia o RS], e, casualmente une-se ao seus companheiros da orquestra, mesmo num ajuste de notas mais ligeiras e que se repetem: 'batendo os pés para aquecer-se'. [O vizinho de baixo já veio aqui reclamar de tanto que eu bato os pés, mas não adianta, estão sempre gelados] Pausas duplas de tempo ligeiro descrevem queixos que batem, [viu só? Quem é que agüenta viver seis meses de queixo batendo? E são seis meses sim, pois a primavera por aqui também é fria, embora menos que no inverno] após o que o movimento volteia glacialmente [olha a espressão 'glacialmente'. Quer mais frio que isso?] para sua brilhante conclusão. Um sentimento mais de contentamento ocupa o movimento lento e, não há que estranhar - o poeta se acha sentado e aquecido ao pé do fogo, animadamente a observar enquanto 'a chuva lá fora vai ensopando as pessoas as centenas'. [é, até pode ser contentamento por estar quentinho ao lado do fogo enquanto as pessoas se ph...do lado de fora, na chuva. Mesmo assim, essa melodia com os pingos caindo, me dá uma angústia braba, uma melancolia, tristeza até. Mas é linda e só por isso escuto] Estamos de volta ao ar livre [gente mais maluca, trocar o quentinho do fogo para ficar ao ar livre num lugar 'glacial'!] para o entusiástico final, com as movimentadas figuras evocativas de 'tropel, escorregão, corrida e desmoronamento, até que o gelo começa a rachar e a derreter-se' [aí dá enchente, morre gente nas favelas, parece que o Vivaldi conhece o Rio de Janeiro]. Os ventos ligeiros [em ritmo de samba-enredo: olha o Minuano de novo aí, minha gente!!] retornam via solistas, e nos últimos compassos violino e orquestra unem-se para comunicar o aforismo triunfante: 'Este é o inverno; mas oh! que alegria ele encerra'. [aí ó: o cara endoidou de vez! Deve estar revirando na tumba até hoje por ter pensado que inverno encerra alegria. Bebeu o desgraçado, só pode! Pois tomara que esteja bem gelado lá onde ele está!]
Sempre tive a impressão de que em alguma encarnação eu fui um náufrago e, após horas e horas de sofrimento no mar gelado, morri. Essa é a sensação que tenho no frio. Isso é o que o frio representa para mim. Não apenas o frio, mas o mar também. Não há o que me faça chegar perto do mar à noite.
Essa é a razão da associação que fiz entre vazio e frio naquele poema. Embora o poema retratasse um indigente qualquer em uma rua qualquer das nossas capitais, a sensação é a de estar perdido, à noite, na imensidão do mar gelado... e morrendo.
O inverno pode ter seus encantos, mas notem como todos eles estão mais relacionados ao calor do que ao frio: o vinho, a lareira, as roupas, o "aconchego do lar", os cobertores e edredons, inclusive os de orelha, tudo está associado ao calor. O brasileiro é o que é por viver no calor; a cultura predominante no Brasil é a cultura do calor - Rio de Janeiro pra cima. E por favor cariocas exagerados: não me digam que dezoito graus é frio.