Pois é,
Tem sido difícil o equilíbrio entre o discurso da indignação e o discurso da solução. Até mesmo porque não há solução à vista, parece-me.
Não me sinto bem fazendo posts como os últimos. Quero crer, como fez alusão D.Cláudio, no comentário ao post anterior, que a pulsão de morte anda por aí.
Como Administrador, lido diariamente com o equivalente organizacional da doença: mal funcionamento das organizações e das pessoas que nelas trabalham. Vivo, portanto, em meio a ambientes doentios; em meio a pessoas doentes, mas de doenças muito específicas: doenças do comportamento.
O comportamento humano, como conseqüência da busca pela realização de uma necessidade (motivação) tem sido estudado de forma bastante profunda nos últimos cem anos, a partir de Freud, um dos primeiros, senão o primeiro, a sistematizar uma teoria para explicar a personalidade e o conseqüente comportamento.
Como Administrador, lido diariamente como pessoas desmotivadas e que, portanto, mal e mal aplicam o mínimo de esforço para a realização das suas tarefas. Sofrem as pessoas e sofrem as organizações.
Algumas teorias incluem o ambiente, e não somente a estrutura ou a dinâmica interna, como fator importante no comportamento das pessoas. E quando olhamos o ambiente que nos cerca o que vemos? Ambiente, diga-se, tomado no sentido amplo e não apenas no sentido de natureza.
Que oportunidades de desenvolvimento e crescimento as pessoas têm hoje em dia (lembrando que o desenvolvimento profissional é um dos grandes motivadores)? Jovens não conseguem emprego porque possuem pouca ou nenhuma experiência. Some-se a isso a crise que solapa os postos de trabalho; quem tem mais de quarenta anos não consegue emprego porque, apesar da experiência, acabam custando caro para as empresas, que preferem, ao final das contas, empregar mais gente com menos experiência pelo mesmo valor que pagaria para um profissional experiente.
A tal ponto isso é sério, que o mercado desenvolveu um tipo de empresa especializada na recolocação de executivos. Pessoas altamente qualificadas, mas que sozinhas não conseguem nada.
E porque falo de emprego? Porque trabalho e dignidade humana estão umbilicalmente ligados. A dignidade humana é a primeira coisa que vai embora quando alguém perde o emprego. Que dizer de um país onde quase 40% dos trabalhadores sequer tem um emprego formal? Que dizer de um país onde os que tem um emprego formal sequer podem pensar em desenvolvimento, pois sabem que quanto mais se desenvolverem mais próximos estarão do desemprego?
Que dizer dos servidores públicos, cada vez mais bombardeados como "vagabundos que nada fazem"? Não que não os haja por aí, os vagabundos, mas o que resta para os bons? Nada, a não ser a perspectiva desanimadora de mais uma vez mexerem na sua aposentadoria. Essa é a perspectiva que resta: trabalhar (os que conseguem) até quase o fim da vida e sequer poder ter dignidade como aposentado.
Dignidade humana! Está lá, na Constituição, como fundamento da República Federativa do Brasil. Está expresso como uma CRENÇA indisponível do povo. E o que fazem nossos poderes constituídos? Jogam nossa dignidade na lama. Diariamente!
Como motivar as pessoas se ninguém consegue sequer enxergar um futuro? Talvez esse seja o significado da palavra sobrevivência: mal e porcamente conseguir o de hoje, pois sabemos que o de amanhã pode não existir.
Notas: 1. A imagem do início do post é uma reprodução do quadro "Hypnos and Thanatos" de John Willian Waterhouse (1849-1917). Não sei quem é, pois peguei na internet. Hypnos, deus do sono (pai de Morpheus, deus dos sonhos) e Thanatos, deus da morte. Ambos filhos de Nix, deusa da noite e de Érebos, deus das trevas. Nix e Érebos eram irmãos - além de irmãos do Caos -, o que significa que a putaria já rolava solta até em meio aos deuses. Érebos, por vezes, é associado a Hades, o deus dos infernos. Simpática essa família: sono, morte, sonho, inferno, caos... só gente fina...
2. A imagem dessa nota é da deusa Nix, a noite, de um tal de William-Adolphe Bolguereau. Donde tirei? Advinha!
"Ao término de um período de decadência sobrevém o ponto de mutação. A luz poderosa que fora banida ressurge. Há movimento, mas este não é gerado pela força... O movimento é natural, surge espontaneamente. Por essa razão, a transformação do antigo torna-se fácil. O velho é descartado, e o novo é introduzido. Ambas as medidas se harmonizam com o tempo, não resultando daí, portanto, nenhum dano."
Arma-se, no momento em que começo a escrever este post, uma tempestade aqui em Porto Alegre. Depois de um dia em que a temperatura atingiu os agradáveis 36 graus, assisto, do terraço, a passagem de um dos fenômenos mais bonitos e intrigantes da natureza.







































