Filosofia: novembro 2006 Archives

Sobrevivência!

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Pois é,

Tem sido difícil o equilíbrio entre o discurso da indignação e o discurso da solução. Até mesmo porque não há solução à vista, parece-me.

Não me sinto bem fazendo posts como os últimos. Quero crer, como fez alusão D.Cláudio, no comentário ao post anterior, que a pulsão de morte anda por aí.

Como Administrador, lido diariamente com o equivalente organizacional da doença: mal funcionamento das organizações e das pessoas que nelas trabalham. Vivo, portanto, em meio a ambientes doentios; em meio a pessoas doentes, mas de doenças muito específicas: doenças do comportamento.

O comportamento humano, como conseqüência da busca pela realização de uma necessidade (motivação) tem sido estudado de forma bastante profunda nos últimos cem anos, a partir de Freud, um dos primeiros, senão o primeiro, a sistematizar uma teoria para explicar a personalidade e o conseqüente comportamento.

Como Administrador, lido diariamente como pessoas desmotivadas e que, portanto, mal e mal aplicam o mínimo de esforço para a realização das suas tarefas. Sofrem as pessoas e sofrem as organizações.

Algumas teorias incluem o ambiente, e não somente a estrutura ou a dinâmica interna, como fator importante no comportamento das pessoas. E quando olhamos o ambiente que nos cerca o que vemos? Ambiente, diga-se, tomado no sentido amplo e não apenas no sentido de natureza.

Que oportunidades de desenvolvimento e crescimento as pessoas têm hoje em dia (lembrando que o desenvolvimento profissional é um dos grandes motivadores)? Jovens não conseguem emprego porque possuem pouca ou nenhuma experiência. Some-se a isso a crise que solapa os postos de trabalho; quem tem mais de quarenta anos não consegue emprego porque, apesar da experiência, acabam custando caro para as empresas, que preferem, ao final das contas, empregar mais gente com menos experiência pelo mesmo valor que pagaria para um profissional experiente.

A tal ponto isso é sério, que o mercado desenvolveu um tipo de empresa especializada na recolocação de executivos. Pessoas altamente qualificadas, mas que sozinhas não conseguem nada.

E porque falo de emprego? Porque trabalho e dignidade humana estão umbilicalmente ligados. A dignidade humana é a primeira coisa que vai embora quando alguém perde o emprego. Que dizer de um país onde quase 40% dos trabalhadores sequer tem um emprego formal? Que dizer de um país onde os que tem um emprego formal sequer podem pensar em desenvolvimento, pois sabem que quanto mais se desenvolverem mais próximos estarão do desemprego?

Que dizer dos servidores públicos, cada vez mais bombardeados como "vagabundos que nada fazem"? Não que não os haja por aí, os vagabundos, mas o que resta para os bons? Nada, a não ser a perspectiva desanimadora de mais uma vez mexerem na sua aposentadoria. Essa é a perspectiva que resta: trabalhar (os que conseguem) até quase o fim da vida e sequer poder ter dignidade como aposentado.

Dignidade humana! Está lá, na Constituição, como fundamento da República Federativa do Brasil. Está expresso como uma CRENÇA indisponível do povo. E o que fazem nossos poderes constituídos? Jogam nossa dignidade na lama. Diariamente!

Como motivar as pessoas se ninguém consegue sequer enxergar um futuro? Talvez esse seja o significado da palavra sobrevivência: mal e porcamente conseguir o de hoje, pois sabemos que o de amanhã pode não existir.

Notas: 1. A imagem do início do post é uma reprodução do quadro "Hypnos and Thanatos" de John Willian Waterhouse (1849-1917). Não sei quem é, pois peguei na internet. Hypnos, deus do sono (pai de Morpheus, deus dos sonhos) e Thanatos, deus da morte. Ambos filhos de Nix, deusa da noite e de Érebos, deus das trevas. Nix e Érebos eram irmãos - além de irmãos do Caos -, o que significa que a putaria já rolava solta até em meio aos deuses. Érebos, por vezes, é associado a Hades, o deus dos infernos. Simpática essa família: sono, morte, sonho, inferno, caos... só gente fina...

2. A imagem dessa nota é da deusa Nix, a noite, de um tal de William-Adolphe Bolguereau. Donde tirei? Advinha!


O Ponto de Mutação

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Pois é,

Diz o I Ching:

"Ao término de um período de decadência sobrevém o ponto de mutação. A luz poderosa que fora banida ressurge. Há movimento, mas este não é gerado pela força... O movimento é natural, surge espontaneamente. Por essa razão, a transformação do antigo torna-se fácil. O velho é descartado, e o novo é introduzido. Ambas as medidas se harmonizam com o tempo, não resultando daí, portanto, nenhum dano."

Há algum tempo pensava-se que a humanidade estaria no ponto de mutação. Uma mudança para a Era de Aquarios, uma Nova Era. O antigo, representado por um cartesianismo/cristianismo que dividia o mundo, cederia lugar ao holismo, onde Gaia viveria em paz e hamonia com seus filhos.

Solidariedade era a palavra dessa Nova Era. Mais do que um simples ajudar ou sentir-se ligado por um sentimento de responsabilidade, solidariedade significava , para os visionários da Nova Era, uma total comunhão entre seres humanos. O velho é descartado e o novo é introduzido.

Não sei como, pois o velho dá mostras de que ainda tem força para mais um milênio, pelo jeito que anda o mundo. Há um certo paradoxo no ar: quanto mais evoluimos no domínio da vida, mais abandonamos a própria vida.

Explico: quanto mais a ciência desenvolve meios de preservar a saúde e a vida das pessoas, mais gente morre de fome, nas guerras, nos embates fundamentalistas e por tantas outras causas, que chega a ser difícil de acreditar que sobrará alguém para aproveitar o desenvolvimento. Mais e mais destruimos o planeta e mais e mais gente morre de sede, por falta daquilo que mais tem no próprio corpo: água.

Algo está errado nesse ponto de mutação. Não faltam religiosos, de todas as espécies, prontos para apresentar a promessa da divina salvação. Não faltam economistas, de todas as espécies, prontos para apresentar a promessa do mercado como a salvação. Seja com deus, seja com o mercado, continuamos morrendo à mingua... E matando o planeta.

O novo parece não ter forças para suplantar o velho, pois o velho é sábio e alimenta-se do novo. Talvez o ponto de mutação signifique apenas uma ilusão como a foto acima: ambos, novo e velho caminham inexoravelmente para o buraco negro que se encontra bem no centro da galáxia.

Dark!

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Pois é,


Embarquei numas de dark. Resolvi escurecer (pretear, pra dizer a verdade) os temas dos aplicativos que tenho, inclusive o fundo deste blog que vos fala.

A imagem aí eu roubei de um site, descaradamente.E não vou dizer de onde.

O final de ano se aproxima e, contrariando todas as minhas expectativas, está cheio de trabalho. Até pouco tempo era diferente. Chegava final de ano e sabíamos que por três meses as "coisas" quase paravam. Um mês de férias e dois de "corpo mole". Beleza! O que deu nessa gente de querer trabalhar pra valer no verão?

E como se não bastasse, caminhamos a passos largos para morrer trabalhando. Corre por aí a notícia de que um projeto prevendo a aposentadoria somente aos 67 anos será proposto na nova legislatura. Quer dizer: eles fodem com o trabalhador e ainda pedem aumento de 90%. Beleza!

Por que não acabam de vez com a aposentadoria e decretam que o sujeito só para de trabalhar quando morrer? E poderiam aproveitar e deixar claro que trabalhamos para sustentar essa corja toda!

Ando revoltado ultimamente! No fundo, no fundo, fingimos que estamos por aí. Já morremos há muto tempo e ninguém nos avisou. Ando cercado pela mediocridade. E a mediocridade sempre vence! Os bons se matam trabalhando enquanto as medíocres dão o rabo e conseguem tudo o que querem e os medíocres se agarram no saco de algum poderoso e vão vivendo. Qualquer dia abro o bico! É muito dinheiro posto fora nesse país.

Quer saber por que esse país não funciona? Porque tem gente demais fazendo coisas de menos E GANHANDO MUITO!

A receita é simples: reduz em dois terços o número de serviores públicos e em três quartos os lucros dos bancos e grandes empresas. Aplica tudo em saneamento, saúde e educação.

As coisas não funcionam porque os políticos (governantes pricipalmente) não querem que funcionem. E ninguém tem coragem de botar na cadeia um prefeito que deixa um posto de saúde ser sucateado pura e simplesmente por "falta de verba"! E ainda tem a cara de pau de justificar a não contratação de mais profissionais de saúde porque está amarrado pela LRF. Enquanto isso, crianças e adolescentes em estado de risco ficam sem atendimento; pessoas em geral ficam sem atendimento.

Enquanto isso um bando de vagabundos finge que trabalha.

Chega de discursos empolados, de análises econômicas que só servem para justificar o status quo. Chega de gente hipócrita que paga fortunas para comprar sêmem de touro naquela conhecida lojinha. Pra isso há dinheiro!

Sabem de onde virá a grande mudança? Das ruas. Qualquer dia desses um pedinte vai perder a paciência com os seguidos "nãos" que recebe e, invés de ficar simplesmente frustrado, vai colocar toda a raiva pra fora e agradir algum motorista.

Fingimos que nos protegemos ao fechar a janela do carro, ou ao negar "dez centavos". Dia desses um pedinte se aproximou e, antes mesmo que ele falasse eu já fui dizendo que não tinha nada pra dar. Sabem o que ele respondeu? "Pô, cara, tu nem me deixou falar!" E saiu brabo.

É isso que estamos fazendo: chegamos no limite de sequer deixar as pessoas falarem. Ao fechar as janelas do carro estamos sufocando a última forma dessa gente expressar suas necessidades: falar. Ao menos falar!

Putz! Não dormi. Um dia eles explodem e aí quero ver. Dar os dez centavos resolve o problema de consciência de muita gente (pricipalmente daqueles que gastam milhões em sêmem de touro), mas não precisamos resolver problemas de consciência e sim de vida!

Quer saber de uma coisa? Acho que estou precisando de férias!

Tempestade

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Pois é,

Arma-se, no momento em que começo a escrever este post, uma tempestade aqui em Porto Alegre. Depois de um dia em que a temperatura atingiu os agradáveis 36 graus, assisto, do terraço, a passagem de um dos fenômenos mais bonitos e intrigantes da natureza.

Lembrei-me da historia do "Soldadinho de chumbo". Há nela uma tempestade e altas temperaturas. E também é uma das histórias de terror que mais marcaram minha infância. Deviam recomendá-la ao Index. Queimá-la na fogueira, assim como Hans C. Andersen fez com seu personagem ao atirá-lo na lareira.


"O soldadinho de uma perna só, como de costume, era o último da fila.
De repente, a janela se abriu, batendo fortemente as venezianas. Teria sido o vento, ou o geniozinho maldoso?
E o pobre soldadinho caiu de cabeça na rua.
O menino viu quando o brinquedo caiu pela janela e foi correndo procurá-lo na rua. Mas não o encontrou. Logo se consolou: afinal, tinha ainda os outros soldadinhos, e todos com duas pernas.
Para piorar a situação, caiu um verdadeiro temporal."

Esse trecho exprime bem o desprezo com que as pessoas normalmente tratavam os deficientes físicos: sempre por último. Inculcava-se, nas crianças, a idéia de que que, não era "completo" não merecia cuidados. Afinal, sempre há os que têm "duas pernas" para tomar nossa atenção.

Não bastasse o desprezo com que o soldadinho era tratado, foi jogado de cabeça janela afora.

TERROR PURO!

E aqui aparece a tempestade para piorar a situação. Não a do soldadinho, mas a das crianças que acabam vendo nela algo muito ruim.

"Construíram um barquinho com uma folha de jornal, colocaram o soldadinho dentro dele e soltaram o barco para navegar na água que corria pela sarjeta. Apoiado em sua única perna, com o fuzil ao ombro, o soldadinho de chumbo procurava manter o equilíbrio."

Muito sonhei com esta cena. E me via, ali, tentando manter o equilíbrio diante da adversidade. Muito cedo para ensinar isso às crianças. Causa um nível de angústia que levamos para o resto da vida.

TERROR PURO!

"Lá pelas tantas, o barquinho foi jogado para dentro de um bueiro e continuou seu caminho, agora subterrâneo, em uma imensa escuridão."

Depois não querem que as crianças tenham medo do escuro!

TERROR PURO!

E os monstros, então? Vejamos isso:

"De repente, viu chegar em sua direção um enorme rato de esgoto, olhos fosforescentes e um horrível rabo fino e comprido"
Qual é a criança que não fica a procurar, embaixo da cama, por um rato desses? E por tantos outros monstros?

TERROR PURO!

E chegamos quase ao auge do terrorismo infantil. Uma seqüência inacreditável de puro terror:

"Enfim, o soldadinho viu ao longe uma luz, e respirou aliviado; aquela viagem no escuro não o agradava nem um pouco. Mal sabia ele que, infelizmente, seus problemas não haviam acabado. A água do esgoto chegara a um rio, com um grande salto; rapidamente, as águas agitadas viraram o frágil barquinho de papel. O barquinho virou, e o soldadinho de chumbo afundou. Mal tinha chegado ao fundo, apareceu um enorme peixe que, abrindo a boca, engoliu-o. O soldadinho se viu novamente numa imensa escuridão, espremido no estômago do peixe."

Aprendemos que o pior sempre está por vir, de que as luzes no fim do túnel servem apenas para nos enganar. Aprendemos a ilusão dos "tempos melhores que virão". Crescemos acreditando na esperança. E o que nos acontece? Somos jogados ao fogo:

"O garotinho agarrou o soldadinho de chumbo e atirou-o na lareira, onde o fogo ardia intensamente. O pobre soldadinho viu a luz intensa e sentiu um forte calor. A única perna estava amolecendo e a ponta do fuzil envergava para o lado. As belas cores do uniforme, o vermelho escarlate da túnica e o azul da calça perdiam suas tonalidades..."

Não bastasse o trágico final do soldadinho e ainda temos que assistir à morte da bailarina:

"Naquele momento, a porta escancarou-se com violência, e uma rajada de vento fez voar a bailarina de papel diretamente para a lareira, bem junto ao soldadinho. Bastou uma labareda e ela desapareceu. O soldadinho também se dissolveu completamente."

TERROR PURO!

O que era para ser uma linda manifestação da natureza em forma de tempestade torna-se uma terrível histório de PURO TERROR!

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