Condessa: setembro 2006 Archives

Pois é,

Um BO não resolveria o caso. Não tínhamos elementos probatórios suficientes para levar o caso adiante. Para a Polícia, o Ministério Público e mesmo para o Judiciário, não passariam de "meras desconfianças". E, no fundo, isso nos traria muito mais incomodação do que solução. A solução mais correta era simplesmente afastar a pessoa.

Se ela vai fazer isso com outra criança? Querem saber? Talvez não mais do que isso. A razão é que o motivo que a impulsionou era a iminente e previsível cura da Clarissa. Desde o início, quando a contratamos, foi dito que duraria algo em torno de 10 a 11 meses e que assim que a Clarissa ficasse curada do refluxo não seriam mais necessários cuidados especiais ou, dito de outra forma, não precisaríamos mais dela.

Assim, o jogo era manter a necessidade de cuidados especiais. Ela queria demonstar a necessidade da sua permanência. Não mais que isso, embora os métodos utilizados.

E por isso a inteligência do mal: fazer as coisas no limite necessário, não mais. O mal, quando utilizado de forma inteligente, não "liquida" a sua vítima; a mantém viva, dependente dele. O mal conta com a inocência do bem, com a ingenuidade das pessoas em insitir que "o bem sempre vence". Assim agimos no cotidiano quando buscamos sobreviver, utilizando doses homeopáticas de maldade. É o que chamamos de "sistema", ou quando dizemos "o sistema é assim".

A natureza da Natureza é a predação. A única diferença está no grau: maior ou menor dose. Todas as espécies se alimentam das outras para sobreviver. A cooperação só existe intra-grupos e tão somente com o objetivo de se defender de outros grupos, ou mesmo de extinguí-los, caso representem uma ameça constante. E mesmo no ambiente de cooperação - característica mais externa do que interna, existe a predação materializada na disputa pelo poder, pela liderança do grupo e, até mesmo, pelas melhores fêmeas.

Sob a carapaça de uma pessoa querida (imagina, até fazia coisas para mim) escondia-se uma pessoa que, no fundo no fundo, buscava defender-se das necessidades da vida. Não que isso seja motivo para agir assim - mesmo por que a maioria das pessoas que passam por necessidades não saem por aí fazendo coisas do gênero a toda hora - mas sabe-se lá deus que outras razões a levam a escolher esse tipo de comportamento.

A vida que levamos nós mesmos escolhemos e construimos. Ninguém mais o faz por nós. De certa forma - e é uma maldade minha dizer isso - ela vai continuar o resto da vida na vila onde mora. Nós não!

Ps.: devo atualizar diversos links, mas isso farei aos poucos...

Pois é,

Duas horas antes do ocorrido...

Estava eu a tomar um belo banho, quase que inaugurando as instalações de água quente, quando o vizinho de baixo bate na porta.

- Afonso!
- Que foi, fulano?
- Tá chovendo água quente no meu banheiro!
- Não é possível, falei. O banheiro é todo novo, inclusive os canos e ligações!
- Vamos lá para dares uma olhada.

E lá fui eu já imaginando o pior... De fato, era como se meu chuveiro estivesse instalado diretamete no teto do banheiro dele. No chão, abaixo da lâmpada, jazia um balde já cheio d'água. Com uma cara um tanto debochada, enfiei o dedo na água e disse:

- É, tá quente mesmo!

Ainda bem que o cara é de boa paz. Retornei ao meu ap e liguei imediatamente para o mestre de obras. "Fulano, tá acontecendo assim, assim. Vem pra cá amanhã cedo e resolve!" Ainda bem que temos quatro banheiros e num deles mandei colocar um chuveiro elétrico. E como fica na cobertura, se chovesse seria problema só meu...

No outro dia, depois de vários testes, cola daqui, cola dali, e nada - cada vez que se ligava o chuveiro chovia lá embaixo -, não houve alternativa a não ser ... quebrar o banheiro novinho em folha.

Parece que é sempre assim: se tiver que quebrar, quebra na parte mais cara. E não há nada mais caro do que piso de banheiro, ainda mais quando se usa porcelanato, que exige um rejunte que custa os olhos da cara, também.


Na hora do ocorrido...

Mas como ia dizendo, a Clarissa estava aos berros no colo da babá...

Em seguida a Kaya chegou. Observamos que ela levava a mão em direção da orelha esquerda, como num ato de defesa e, talvez, para fazer parar a dor. A Kaya tentava tocar e ela não deixava, sempre chorando. Não conseguimos examinar para ver o que era, pois ela não deixava, tamanha devia ser a dor. E mais ainda por ter acordado com a dor. O susto era maior ainda. Notei que a orelha estava muito vermelha.

Ligamos imediatamente para o pediatra. A primeira hipótese é sempre doença. Uma otite, talvez. Isso o médico descartou:

- Otite não aparece assim, de uma hora para outra. Normalmente é precedida por uma gripe, resfriado ou outra situação em que o bebê já está debilitado, o que não era o caso dela. Ela está bem. Vamos dar um remédio para a dor e acompanhar. Se persistir, tragam ela aqui. Estou de plantão no hospital.

Fui para um canto do terraço e falei:

- Doutor, a orelha dela está muito vermelha. É possível que isso seja resultado de uma agressão?
- Olha, Afonso, diante do quadro que vocês me contaram não é de se descartar essa possibilidade. Não é comum bebês acordarem, sem mais nem menos, aos gritos e se defendendo como ela está. É bom observar isso.

Demos o remédio e, meia hora depois, a Clarissa estava dormindo na maior tranqüilidade. Chamei a Kaya e falei:

- Não importa o que aconteceu. Não temos como provar nada, mas, por via das dúvidas, estamos tratando com a segurança dela. Já temos aquelas outras situações e não é hora de arriscar. Hoje ela dorme conosco e amanhã cedo bota a babá na rua, definitivamente.

Embora não possamos provar, o que nos impede de uma ação mais rigorosa, não há dúvidas de que ela deu um enorme biliscão na orelha da Clarissa enquanto ela dormia. É a única explicação para a vermelhidão e a dor. Felizmente a coisa parou por aí.

Há uma possível explicação para esse comportamento, mas fica para amanhã... O mal é muito mais inteligente que o bem.

Vamos aos fatos...

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Pois é,

Mudança marcada para o dia 20 de julho. A última coisa que faltava terminar na obra era a tal da escada que, diga-se de passagem, era o gargalo. Tudo dependia dela, pois mais da metade da mudança iria para a cobertura.

Tudo combinado e acertado com a empresa que fez e iria montar a escada: dia 19 ela estaria pronta. No dia 20 à tarde, quando a mudança chegaria, existiam apenas 2 dos 12 degraus previstos.

Duas semanas antes...

- Afonso!
- Sim, Kaya.
- Preciso falar algo muito sério contigo!
- Ih! Doeu! (em geral, assuntos sérios da Kaya doem no bolso)
- Sem brincadeira!
- O que houve dessa vez? Juro que não fiz nada! E se fiz, não era eu!
- Acho que vi a .... dando um tapa na bunda da Clarissa.
- Imagina, impressão tua! Vai ver é um daqueles tapinhas carinhosos que tudo mundo dá. Conforme a gente olha pode parecer que é tapa de verdade. Afinal, ela está com a gente há dez meses. Certamente não faria isso.

E o assunto ficou por isso mesmo.

Uma semana antes...

- Afonso!
- Sim, Kaya.
- Preciso falar algo muito sério contigo!
- Ih! Doeu! (em geral, assuntos sérios da Kaya doem no bolso)
- Sem brincadeira!
- O que houve dessa vez? Juro que não fiz nada! E se fiz, não era eu!
- A ... (empregada) me telefonou falando da babá.
- E daí? Ela faz isso todos os dias.
- É, mas dessa vez a coisa é grave!
- E o que ela te disse?
- Que já era a segunda vez que ela via a ... jogando fora o remédio da Clarissa em vez de dar para ela.

(Aqui cabe uma pequena explicação: pela manhã, enquanto nos arrumávamos, a babá estava encarregada de preparar a Clarissa e de dar os remédios. Nesse momento - e sabe-se lá Deus em que outros - é que ela estava jogando fora os remédios)

Reunião de família...
Presentes: eu e a Kaya
Pauta: o que fazer?

Aos xxx dias do mês de julho de 2006, reunidos no banheiro da casa (sim, pois a babá andava solta por todo o resto) Afonso e Kaya reuniram-se para decidir o que fazer diante das informações de que a babá, vulgo ...., estaria jogando fora os remédios da Clarissa.

- "Põe na rua amanhã mesmo!", falei, e com ares de quem manda na casa...
- Não posso!
- Como, "não pode"?
- Olha a bugança que está essa casa! E como é que vou conseguir arrumar tudo para a mudança com a Clarissa no colo? Assim não dá. Temos que ficar com ela até nos mudarmos.
- Que seja! Mas assim que a gente se ajeitar no novo apartamento, ela vai pra rua!

Nada mais tendo a relatar, eu, Afonso, que a tudo assisti, assino e dou fé!

(nesse meio tempo, a Clarissa, talvez em virtude do pó gerado pelos preparativos da mudança, pega uma dermatite de contato. Visitas ao pediatra que receita os remédios apropriados - mais dois entre os tantos que ela já tomava - e nada da coisa sarar...)

No dia da mudança...

Como a escada não estava pronta e a casa estava cheia de pó, sujeira, mudança empilhada e serragem, a dermatite tomou conta de todo o corpo da Clarissa, quando a trouxemos no final do dia.

Uma semana depois...

- Afonso!
- Sim, Kaya.
- Finalmente vou conseguir descansar um pouco. A Clarissa está dormindo, vou lá em cima fumar um cigarrinho e descansar 15 minutos. Depois vou ligar para o pediatra, pois não há jeito dessa dermatite acabar. Já estamos dando o remédio mais forte e nada...
- Vai e aproveita.

Ato contínuo, ouvimos a Clarissa aos berros, desesperada de dor. Algo como nunca tínhamos visto, sequer quando ela estava com esofagite. Saí correndo e fui até o quarto dela. A babá estava com ela no colo. Perguntei o que havia acontecido e ela me respondeu que não sabia, que a Clarissa havia acordado chorando...

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