Pois é,
Seguimos com nosso "Verdadeiro e Único Manual Ilustrado e Poético do Chato para Iniciantes no Chimarrão"
Vamos ao último post (sei, sei, já estão sentindo saudades...). O post da etiqueta.
Antes, porém...
Faltou falar sobre como se "encilha" o chimarrão. Para maiores esclarecimentos sobre as expressões gauchescas, aguardem o próximo post.
Enfim, encilhar o chimarrão é sinônimo de virar o chimarrão.
Não, não, ô guampa torta! Não é virar o chimarrão no chão. Até porque, tu vai limpar toda a ...que fizeste!
Encilhar é virar de lado.
Putz, não estou dizendo pra deixar de ser coríntia, né meu, e virar parmera. Sequer deixar de ser macho e virar um, politicamente correto falando, agasalhador de protuberância alheia.
Significa trocar o morrinho de lado. Difícil? No início é, sem dúvida. E pra quê fazer isso? Pra prolongar o mate e aproveitar a erva. Pensando bem, vou fazer um post especial sobre isso. Por ora, continuamos com a etiqueta do chimarrão ou, como tomar chimarrão sem se sentir um, politicamente correto falando, agasalhador de protuberância alheia.
8. Etiqueta do chimarrão
Algumas etiquetas servem apenas para demonstrar o quanto um vivente pode ser afetado; o quanto pauta sua vida em "querer aparecer". Não é o caso das regrinhas básicas para se tomar um chimarrão em grupo, ou, como dizemos, numa roda de chimarrão.
E por falar em roda de chimarrão... (lá vem o Chato de novo...):
"Esquentei a água no fogareiro do Mboitatá
Tô cevando um mate com erva boa da barbaquá
E vamo charlando e contando causos que "já lá vão"
É o sabor do pampa, de boca em boca, de mão em mão
Acendi uma vela, que é pro Neguinho nos ajudar
A encontrar as estórias, porque a memória pode falhar
E sabedoria é fechar o amargo e viver em paz
Mate e cara alegre, porque o resto a gente faz
Puxa um banco e senta
Que tá na hora do chimarrão
É o sabor do pampa
De boca em boca, de mão em mão
Puxa um banco e senta
Vem cá pra Roda de Chimarrão
Vem aquece a goela
E de inhapa a alma e o coração
Dizem que não presta mijar cruzado pois dá azar
Se grudou os cachorros só água fria pra separar
Diz que palma benta, pra trovoada, é o melhor que há
E se assobiar o Minuano, é certo que vai clarear
Minha vó me disse que andar descalço dá mijacão
Cavalo enfrenado na lua nova fica babão
Com passarinheiro e mulher sardenta é bom se cuidar
E quem vai depressa demais, a alma fica prá trás
Puxa um banco e senta
Que tá na hora do chimarrão
É o sabor do pampa
De boca em boca, de mão em mão
Puxa um banco e senta
Vem cá pra Roda de Chimarrão
Vem aquece a goela
E de inhapa a alma e o coração
O melhor pra tosse é cataplasma e chá de saião
Pra acabar com a gripe só sabugueiro ou então limão
Pra curar berruga é benzer pra estrela e invocar Jesus
Contra mau olhado, um galho de arruda e o sinal da cruz
Chá de quebra pedra, ipê, arnica e canela em pó
Hortelã, marmelo, marcela, boldo e capim cidró
Tudo tem remédio: churriu, cobreiro e má digestão
Só pra dor de amor é que não tem jeito nem solução."1
A primeira regrinha elementar que deves observar, xirú, é que quem faz o mate toma o primeiro. Não é que o gaudério seja mal educado, é que o primeiro mate ainda não está quente o suficiente e, além do mais, pode conter um pouco de pó da erva. O gaudério tá é sendo gentil contigo. Existem algumas lendas que dizem que o mate já serviu pra envenenar pessoas não mui queridas. Assim, tomar o primeiro é mostrar que o mate está bom.
A roda de chimarrão sempre tem uma ordem pra ser servida. Não espere chegar e ser servido em seguida. Te senta e espera a tua vez, que será a última. Essa regrinha só é quebrada se o taura que chega merece uma deferência especial. E quem decide isso é quem está servindo. Depois a roda segue normalmente.
Pelo geral o mate é servido pela direita de quem serve e sempre com a mão direita (se tu és um portador de destreza na mão esquerda, te vira!). Há situações em que a roda não é bem uma roda, mas não te aperreie, pois o bom patrão (cevador, quem serve o mate) sabe bem a ordem em que está servindo.
Se tu estiveres servindo, entrega a cuia com a bomba voltada para a pessoa, nunca pra ti. Não é de bom tom dar trabalho (ter que virar a cuia) para quem vai tomar o mate. O mesmo vale pra quando fores devolver a cuia: a bomba sempre virada pra outra pessoa. E sempre com a mão direita...
Ao tomar o chimarrão, tome até roncar. Isso mesmo, jamais devolva o chimarrão antes de roncar. É das piores coisas que se pode fazer. Não gostou do chimarrão? Te agüenta, vai até o fim, faz roncar e agradece.
Por sinal, só agradeça quando não quiser mais tomar. O ato de agradecer signifca que não queres mais.
Uma das mais importantes regras: nunca mexa na bomba enquanto estiver tomando. Entupiu? Devolve pra quem está servindo que ele - e somente ele - ajeita a bomba. Essa regrinha pode ser quebrada se avisares ao cevador que o mate entupiu e ele te der autorização para mexer na bomba, o que é raro de acontecer.
Não reclama da temperatura da água. Se todo mundo tá tomando, larga de ser fresco e toma junto. Teu problema é língua mal curtida e não a temperatura da água.
Uma roda de chimarrão é lugar pra conversar, contar causos, compartilhar. É muito feio se esquecer da vida, conversando, e ficar com a cuia na mão como se fosse microfone. Toma tento que outros também querem tomar o amargo. Toma logo e depois segue trovando.
Nunca, mas nunca mesmo, passe os dedos no bocal da cuia para limpar. Certamente teus dedos devem estar mais sujos do que a bomba. Tá com nojo de um negócio que passa de boca em boca? Vai procurar tua turma e não uma roda de chimarrão...
1 Roda de Chimarrão. Kleyton & Kledir.
É ótima para afecções hepáticas, reumatismo , diarréias , cálculos biliares , inflamações das vias urinárias , má digestão, para promover o equilíbrio e o funcionamento de fígado, pâncreas e baço. É também boa para diabetes, é emagrecedora, promove a rápida desintoxicação do fígado no caso de ingestão demasiada de bebidas alcóolicas (muito trago já curei com chá de carqueja. Não falha!). Combate a anemia e a inapetência em convalescentes.
calmante, sonífero leve, ação analgésica e carminativa, ou seja, atuante dos gases estomacais. Possui efeito calmante nos nervos do cérebro e considerável eficácia contra espasmos e como reconstituinte do aparelho gastrintestinal. Recomendável para mulheres grávidas e por aquelas que estão amamentando uma vez que o capim-limão (outro nome do capim-cidreira) acalma as cólicas e as sensações de vômito freqüentes nesta fase da mulher, além de estimular a produção de leite materno.
é um tônico amargo que facilita o trabalho da vesícula biliar, estimulando a secreção da bílis e favorecendo a digestão de gorduras. É indicado no combates às dores estomacais, males do fígado, diarréia e desconforto causado por gases intestinais. Porém, deve ser usado com cautela pois, em excesso, pode provocar irritação gástrica. É preciso ter cuidado para não confundir o boldo com algumas plantas ornamentais, que são aparentemente semelhantes.
Digestiva, diurética, carminativa e expectorante. O infuso das sementes facilita a digestão, alivia flatulência e cólicas intestinais, acalma excitação nervosa e insônia. Age contra a cólica de recém nascidos. A erva doce é utilizada na cosmética por suas propriedades de remover impuresas, sob forma de sabonetes, suavizando a pele. Tem também efeito anti-rugas.
Não gosto. Não vou falar dela.
Tererê é semelhante ao chimarrão só que tomado com água fria. A erva utilizada difere um pouco da erva do chimarrão (a trituração é mais grossa). Muito consumido no Paraguai. Nunca provei e espero nunca provar. O tererê é feito em uma guampa e não numa cuia.
"Vulto gaudério e teatino
3. Colocando a bomba
"Meu patrício,aí foi o mate,
Envolva suavemente seu corpo cilindrico com quatro dedos e sinta a dureza, a firmeza ... da bomba, meninas! Mantenha a bomba voltada para a frente e o polegar esticado (olha a foto). Após, tapa a boca com o polegar.
Tchê loco, não deveria dizer, mas vá que alguém se confunda: a boca é a da bomba! (olha a foto).
Pega a cuia com a mão esquerda de forma que o buraco fique voltado para a direita. A seguir, posicione a bomba a meia distância das bordas do morrinho levemente inclinada. Vá introduzindo aos poucos e girando em direção à borda do morrinho mais proxima de ti. Uma detalhe importante: a bomba deve descer acompanhando a curvatura da cuia, de tal sorte que, quando chegar ao fundo, estará parcialmente tapada pela erva e encostada no morrinho
Só ao sentir que chegou no fundo é que tu deves tirar o dedo. Do bocal! Da boca da bomba, tchê!
Agora vais chupar (a bomba, por supuesto) para tirar o que sobrou da água da cevadura. Nesse momento aproveita para fazer pequenos ajustes na bomba (girar levemente de um lado para outro) para que a água corra soltita. Cospe fora, pois além de fria, essa água vem carregada de pó e otras cositas más. Chupa bem até roncar!

Se o vivente seguiu direitinho as instruções para curtir a cuia, deve estar pronto para começar a preparar seu primeiro chimarrão. Um "antes, porém," - porque, afinal, eu sou Chato e Chato que se preze, e eu me prezo, não é Chato se não escrever um "antes, porém," - antes, porém, o vivente deve levar em conta o seguinte: preparar um chimarrão é um ritual e, como todo ritual, requer paciência e crença. E por falar em crença:
A cevadura compreende três etapas (olha nas fotos. E olha mesmo, vivente, pois deu um enorme trabalhão tirar essas fotos sozinho...):
2. Agora é que são elas, como dizem por aí! Vamos formar o "morrinho", a "coxilha". E vamos deixar de frescura! Bota a mão direto. Sem essa de pegar uma "latinha", uma "tampa" (tem gente que usa "bolacha de chopp" pra isso). Vai virando a cuia enquanto forma a mão em concha e coloca sobre a cuia. Vai virando a cuia e sacudindo devagarzito até que comece a formar um "montinho" na tua mão.
(diriam os cientistas que deves fazer isso até que a cuia esteja a 90° em relação à perpendicular, isto é ao Zênite. Ainda bem que cientista quando toma chimarrão esquece que é um...) Sinta a erva na mão. Faça com que ela se conforme a ti. Depois, tira a mão. Um pouco sempre cai. Põe de volta na cuia com todo cuidado.

Com a cuia ainda inclinada, despeja a água até que ela atinja a borda do morrinho.
Velha infusão gauchesca
A velha bomba prateada
Velho mate-chimarrão
Nessa lagoa parada
Sangue verde do meu pago
Gaudéria essência charrua
Pra quem tá começando de cuia nova é muito importante prepará-la antes de começar a tomar chimarrão. E te segura que ainda vais ficar uns dois dias sem poder tomar. E por quê? Porque é um bom tempo pra deixar a cuia no ponto, curada, como se diz por aqui.
A erva-mate, ou ervateira, é a planta (árvore) de onde sai a erva pro chimarrão. Tu imaginavas o quê, o bagual? Que era de um pezinho de verde qualquer? Toma tento, tchê, pois o Chato sabe ser









































