Chimarrão: março 2007 Archives

Pois é,

Seguimos com nosso "Verdadeiro e Único Manual Ilustrado e Poético do Chato para Iniciantes no Chimarrão"

Vamos ao último post (sei, sei, já estão sentindo saudades...). O post da etiqueta.

Antes, porém...

Faltou falar sobre como se "encilha" o chimarrão. Para maiores esclarecimentos sobre as expressões gauchescas, aguardem o próximo post.

Enfim, encilhar o chimarrão é sinônimo de virar o chimarrão.

Não, não, ô guampa torta! Não é virar o chimarrão no chão. Até porque, tu vai limpar toda a ...que fizeste!

Encilhar é virar de lado.

Putz, não estou dizendo pra deixar de ser coríntia, né meu, e virar parmera. Sequer deixar de ser macho e virar um, politicamente correto falando, agasalhador de protuberância alheia.

Significa trocar o morrinho de lado. Difícil? No início é, sem dúvida. E pra quê fazer isso? Pra prolongar o mate e aproveitar a erva. Pensando bem, vou fazer um post especial sobre isso. Por ora, continuamos com a etiqueta do chimarrão ou, como tomar chimarrão sem se sentir um, politicamente correto falando, agasalhador de protuberância alheia.

8. Etiqueta do chimarrão

Algumas etiquetas servem apenas para demonstrar o quanto um vivente pode ser afetado; o quanto pauta sua vida em "querer aparecer". Não é o caso das regrinhas básicas para se tomar um chimarrão em grupo, ou, como dizemos, numa roda de chimarrão.

E por falar em roda de chimarrão... (lá vem o Chato de novo...):

"Esquentei a água no fogareiro do Mboitatá
Tô cevando um mate com erva boa da barbaquá
E vamo charlando e contando causos que "já lá vão"
É o sabor do pampa, de boca em boca, de mão em mão

Acendi uma vela, que é pro Neguinho nos ajudar
A encontrar as estórias, porque a memória pode falhar
E sabedoria é fechar o amargo e viver em paz
Mate e cara alegre, porque o resto a gente faz

Puxa um banco e senta
Que tá na hora do chimarrão
É o sabor do pampa
De boca em boca, de mão em mão
Puxa um banco e senta
Vem cá pra Roda de Chimarrão
Vem aquece a goela
E de inhapa a alma e o coração

Dizem que não presta mijar cruzado pois dá azar
Se grudou os cachorros só água fria pra separar
Diz que palma benta, pra trovoada, é o melhor que há
E se assobiar o Minuano, é certo que vai clarear

Minha vó me disse que andar descalço dá mijacão
Cavalo enfrenado na lua nova fica babão
Com passarinheiro e mulher sardenta é bom se cuidar
E quem vai depressa demais, a alma fica prá trás

Puxa um banco e senta
Que tá na hora do chimarrão
É o sabor do pampa
De boca em boca, de mão em mão
Puxa um banco e senta
Vem cá pra Roda de Chimarrão
Vem aquece a goela
E de inhapa a alma e o coração

O melhor pra tosse é cataplasma e chá de saião
Pra acabar com a gripe só sabugueiro ou então limão
Pra curar berruga é benzer pra estrela e invocar Jesus
Contra mau olhado, um galho de arruda e o sinal da cruz

Chá de quebra pedra, ipê, arnica e canela em pó
Hortelã, marmelo, marcela, boldo e capim cidró
Tudo tem remédio: churriu, cobreiro e má digestão
Só pra dor de amor é que não tem jeito nem solução."1

A primeira regrinha elementar que deves observar, xirú, é que quem faz o mate toma o primeiro. Não é que o gaudério seja mal educado, é que o primeiro mate ainda não está quente o suficiente e, além do mais, pode conter um pouco de pó da erva. O gaudério tá é sendo gentil contigo. Existem algumas lendas que dizem que o mate já serviu pra envenenar pessoas não mui queridas. Assim, tomar o primeiro é mostrar que o mate está bom.

A roda de chimarrão sempre tem uma ordem pra ser servida. Não espere chegar e ser servido em seguida. Te senta e espera a tua vez, que será a última. Essa regrinha só é quebrada se o taura que chega merece uma deferência especial. E quem decide isso é quem está servindo. Depois a roda segue normalmente.

Pelo geral o mate é servido pela direita de quem serve e sempre com a mão direita (se tu és um portador de destreza na mão esquerda, te vira!). Há situações em que a roda não é bem uma roda, mas não te aperreie, pois o bom patrão (cevador, quem serve o mate) sabe bem a ordem em que está servindo.

Se tu estiveres servindo, entrega a cuia com a bomba voltada para a pessoa, nunca pra ti. Não é de bom tom dar trabalho (ter que virar a cuia) para quem vai tomar o mate. O mesmo vale pra quando fores devolver a cuia: a bomba sempre virada pra outra pessoa. E sempre com a mão direita...

Ao tomar o chimarrão, tome até roncar. Isso mesmo, jamais devolva o chimarrão antes de roncar. É das piores coisas que se pode fazer. Não gostou do chimarrão? Te agüenta, vai até o fim, faz roncar e agradece.

Por sinal, só agradeça quando não quiser mais tomar. O ato de agradecer signifca que não queres mais.

Uma das mais importantes regras: nunca mexa na bomba enquanto estiver tomando. Entupiu? Devolve pra quem está servindo que ele - e somente ele - ajeita a bomba. Essa regrinha pode ser quebrada se avisares ao cevador que o mate entupiu e ele te der autorização para mexer na bomba, o que é raro de acontecer.

Não reclama da temperatura da água. Se todo mundo tá tomando, larga de ser fresco e toma junto. Teu problema é língua mal curtida e não a temperatura da água.

Uma roda de chimarrão é lugar pra conversar, contar causos, compartilhar. É muito feio se esquecer da vida, conversando, e ficar com a cuia na mão como se fosse microfone. Toma tento que outros também querem tomar o amargo. Toma logo e depois segue trovando.

Nunca, mas nunca mesmo, passe os dedos no bocal da cuia para limpar. Certamente teus dedos devem estar mais sujos do que a bomba. Tá com nojo de um negócio que passa de boca em boca? Vai procurar tua turma e não uma roda de chimarrão...

1 Roda de Chimarrão. Kleyton & Kledir.



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Antes, porém...

Estou lá no Faça a sua parte. Vão lá, vão lá...

Criei uma categoria nova, chamada "Chimarrão" e mudei essa série para lá. Assim, se algum vivente estiver interessado pode acessar tudo por lá

5. Jujo

Jujo é um termo genérico para ervas "medicinais" que são acrescentadas ao chimarrão. Deve ser um termo de origem espanhola, ou castelhana (o Dicionário da Real Academia Espanhola não registra o termo). Aprendi quando era criança, pois sou de Santana do Livramento, fronteira com o Uruguai. E por falar em Uruguai...

"...
Em bruxas não acredito
'pero - que las hay, las hay',
sou da costa do Uruguai
meu velho pago querido
e por andar desprevenido
há tanto guri sem pai.

..."

(trecho de um poema do Jayme Caetano Braun - Bochincho - um clássico da poesia gauchesca. Não há gaúcho - dos bueno, claro - que não a saiba de cor e salteado... Qualquer dia publico por inteiro.)

Por sinal, é muito comum, no linguajar gauchesco, o uso de expressões do castelhano. (e por falar nisso, depois farei um post com a tradução dos termos que ninguém entendeu, hehehe)

Coisas de estado e de um povo que faz fronteira com outros países. Incompreensíveis para paulistas, cariocas e mineiros, que fazem fronteira entre si (é ruim, hen?!).

Voltando ao jujo, os mais comuns são:

1. carqueja
2. capim-cidreira
3. boldo-do-chile (antes de me mudar, eu tinha um pé de boldo-da-terra - é parecido e mais comum no Brasil - em casa)
4. erva-doce (esse é bom pras meninas)
5. camomila (não gosto)
6. outros menos cotados (por mim, ao menos)

Há quem use uma mistura de ervas. Todas dão um gostinho pra lá de especial. É tão comum,que as fabricas lançaram ervas que já contém esses jujos misturados. Pra quem não tem acesso in natura, é bem melhor que usar saquinho de chá. Mas o saquinho também vale, não se preocupem. Afinal, vivemos em tempos modernos e nem todos podem sair a campo para colher carqueja ao vivo e a cores.

Uma pequena aulinha sobre os jujos:

carqueja

É ótima para afecções hepáticas, reumatismo , diarréias , cálculos biliares , inflamações das vias urinárias , má digestão, para promover o equilíbrio e o funcionamento de fígado, pâncreas e baço. É também boa para diabetes, é emagrecedora, promove a rápida desintoxicação do fígado no caso de ingestão demasiada de bebidas alcóolicas (muito trago já curei com chá de carqueja. Não falha!). Combate a anemia e a inapetência em convalescentes.

Tem um site po aí que diz o seguinte sobre a carqueja (acredite se quiser! E que o Lula não seja leitor do Chato):

"A Carqueja pode ser usada com sucesso pelo "engulidor de sapos". Promove a volta de um pouco de agressividade que é necessária a nossa vida. Traz de volta nossas defesas, e nossa vontade de não sermos passados para traz nem ofendidos e magoados injustamente. Desperta as metas e a vontade de trabalhar e construir coisas. Atua nos muito carentes, que sempre precisam de um suporte dos outros para realizar coisas para si próprios."

capim-cidreira

calmante, sonífero leve, ação analgésica e carminativa, ou seja, atuante dos gases estomacais. Possui efeito calmante nos nervos do cérebro e considerável eficácia contra espasmos e como reconstituinte do aparelho gastrintestinal. Recomendável para mulheres grávidas e por aquelas que estão amamentando uma vez que o capim-limão (outro nome do capim-cidreira) acalma as cólicas e as sensações de vômito freqüentes nesta fase da mulher, além de estimular a produção de leite materno.



boldo-da-terra

é um tônico amargo que facilita o trabalho da vesícula biliar, estimulando a secreção da bílis e favorecendo a digestão de gorduras. É indicado no combates às dores estomacais, males do fígado, diarréia e desconforto causado por gases intestinais. Porém, deve ser usado com cautela pois, em excesso, pode provocar irritação gástrica. É preciso ter cuidado para não confundir o boldo com algumas plantas ornamentais, que são aparentemente semelhantes.

Pra quem toma boldo-do-chile em saquinhos: apresenta propriedades estomáquicas, diuréticas e hepáticas. cuidado, pois os efeitos colaterias são: pode ser abortivo e provocar hemorragias internas.

erva-doce

Digestiva, diurética, carminativa e expectorante. O infuso das sementes facilita a digestão, alivia flatulência e cólicas intestinais, acalma excitação nervosa e insônia. Age contra a cólica de recém nascidos. A erva doce é utilizada na cosmética por suas propriedades de remover impuresas, sob forma de sabonetes, suavizando a pele. Tem também efeito anti-rugas.

(não falei meninas. Tomem bastante erva-doce e passem no rosto também...Querem uma receitinha de um creme caseiro de erva-doce?)

camomila

Não gosto. Não vou falar dela.

6. Tererê

Tererê é semelhante ao chimarrão só que tomado com água fria. A erva utilizada difere um pouco da erva do chimarrão (a trituração é mais grossa). Muito consumido no Paraguai. Nunca provei e espero nunca provar. O tererê é feito em uma guampa e não numa cuia.

7. Mate doce

As meninas mais frescas gostam de adicionar açucar ao chimarrão para torná-lo menos amargo. Quando fizer isso, bagual, te esconde do mundo pra tomar e jamais faça a asneira de convidar um gaúcho pra tomar contigo. Já foi mais comum por aqui. Hoje, no entanto, o mulherio da terra já virou gente e tá tomando o amargo puro!

Pos hoje me vou matear em Taquari. Problemas, problemas...

Segunda-feira o gran finale: a etiqueta do chimarrão. Sábado e domingo algumas abobrinhas...



Pois é,

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4. Tomando o chimarrão

Finalmente teu chimarrão está pronto para ser tomado. Antes, porém...

- Oba, Chato! Quer dizer que já posso meter a boca na bomba e chupar?
- Não faça isso, chinoca! E por falar em chinoca, aproveito o oito de março e...



"A maior das gauchadas
Que ha na Sagrada Escritura,
- Falo como criatura,
Mas penso que não me engano! -
É aquela, em que o soberano,
Na sua pressa divina,
Resolveu fazer a china
Da costela do paisano!

Bendita china gaúcha
Que és a rainha do pampa,
E tens na divina estampa
Um quê de nobre e altivo.
És perfume, és lenitivo
Que nos encanta e suaviza
E num minuto escravisa
O índio mais primitivo!

Fruto selvagem do pago,
Potranquita redomona,
Teus feitiços de madona
Já manearam muito cuera,
E o teu andar de pantera,
Retovado de malícia
Nesta querência patrícia
Fez muito rancho tapera!

Refletem teus olhos negros
Velhas orgias pagãs
E a beleza das manhãs,
Quando no campo clareia...
Até osol que te bronzeia
Beijando-te a estampa esguia
Faz de ti,prenda bravia
Uma pampeana sereia!

Jamais alguém contestou
O teu cetro de realeza!
E o trono da natureza
É teu, chinoca lindaça...
Pois tu refletes com graça
As fidalgas Açorianas
Charruas e Castelhanas
Vertentes vivas da raça!

A mimosa curvatura
Desse teu corpo moreno
É o pago em ponto pequeno
Feito com arte divina,
E o teu colo que se empina
Quando suspiras com ânsia
São dois cerros na distância
Cobertos pela neblina.

Quem não te adora o cabelo
Mais negro que o picumã?
E essa boca de romã
Nascida para o afago,
Como que a pedir um trago
Desse licor proibido
Que o índio bebe escondido
Desde a formação do Pago?

Pra mim tu pealaste os anjos
Na armada do teu sorriso,
Fugindo do paraíso,
Para esta campanha agreste,
E nalgum ritual campestre,
Por força do teu encanto,
Transformaste o pago santo
Num paraíso terrestre!"

Homenagem do Chato ao Dia Internacional da Mulher.

Bueno, chega de babar que o chimarrão nos espera.

a. servindo a água

Sirva a água pelo canto onde se encontra a bomba. Por quê? Porque o metal da bomba ajuda a arrefecer o calor da água, evitando, assim, que a erva fique "lavada" logo cedo. A aguá só deve ser despejada na beirada do morrinho, quando o chimaraão começar a perder o gosto (ficar lavado). Isso faz com que a erva seca se deposito no fundo e mantenha o sabor. Muita gente boa tem esse péssimo hábito. Depois não sabem por que perdem os parceiros de roda!

- Queres uma dica de como saber se o teu chimarrão ficou mesmo digno do nome e de ser tomado por qualquer gaúcho?
- Quero, quero!, Chato.

Peraí! Quero-quero é um pássaro dos pampas...

"Vulto gaudério e teatino
Do velho pampa deserto,
No teu rancho a descoberto
Dos ventos desprotegido,
ès o pássaro aguerrido
Das lendas da tradição
E o guasca do meu rincão,
Por lei de Nosso Senhor,
Para ser madrugador
Tem que gaurdar teu ferrão!

..."

Tá certo, vou poupá-los de mais uma por hoje. Resposta: ao encher a cuia deverá formar uma leve espuma sobre a água. Será a tua certidão de gaúcho, passada em cartório!

- Queres saber quando o teu chimarrão está lavado?
- Quero, quero!, Chato.

Peraí! Quero-quero é um pássaro dos pampas... tá bom... Resposta: se for erva de "pauzinho" será quando eles começaram a boiar na água. Provavelmente antes, mas muita gente segue tomando até que isso aconteça.

Bueno, bueno, vamos encerrando por hoje. Para os que já estão de saco cheio e sequer fazem idéia de quando essa porcaria de série vai terminar, lhes digo: ainda falta falar de:

- jujo;
- encilhando o chimarrão;
- Tererê e mate doce

e, finalmente,

- etiqueta do chimarrão (lição das mais importantes, se tu pretendes convidar alguém pra tomar um chimarrão, ou numa roda de chimarrão).

E por falar em roda de chimarrão... tá bom... essa fica pro próximo post...

Só mais dois posts. Mas não apeie, índio velho, pois já podes tomar teu chimarrão sem problemas.

China e Quero-quero (1ª estrofe). Poesias de Jayme Caetano Braun.



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Más um "antes, porém". Antes, porém, de continuar, duas observações:

1. voltei a comentar os cometários, desde o post que iniciou essa série. Assim, quem estiver interessado...

2. o Mahai, gaúcho dos buenachos, observou que é possível cevar o chimarrão com cachaça; Sim, Mahai, sei disso, mas estava deixando para um "curso avançado"....hehehe

Pos, continuando...

3. Colocando a bomba

Corro o risco, com esse título, de ter meu humilde blog vasculhado pelo F_B_I. Vão pensar que eu sou terrorista. Assim que, se não tiverem notícias minhas por uma semana, façam uma campanha de assinaturas pedindo ao Cão, vulgo B@sh, minha imediata libertação. Mas cultura também é sacrifício e, se assim for, cumpro feliz com minha missão: colocar a bomba.

Para principiantes, talvez essa seja a fase mais complicada. Mas não se preocupem, tudo se torna fácil com a experiência, que o digam as meninas...

Antes, porém, (hehehe) um aviso para os portadores de destreza na mão esquerda (vulgo canhotos): a bomba, quando o chimarrão será tomado por mais de uma pessoa sempre é colocada com a mão direita (a menos que todas as pessoas que estejam tomando chimarrão sejam portadoras de destreza na mão esquerda). E pronto! Tenho dito! É fácil ver quando o chimarrão foi feito por um canhoto, digo, por um porta.... que esqueceu essa regrinha básica. Vocês vão ver.

E por falar em matear solito:

"Meu patrício,aí foi o mate,
Vá chupando, despacito,
Que é triste matear solito
Quando a velhice nos bate.
Por isso, neste arremate,
Que chegou num arrepio,
Meu velho peito vazio
Que játeve tantadona
Ressonga que nem cordeona
Nos bailes de rancherio!

Não é que me falte fibra
Nem firmeza no garrão
Pois meu velho coração
Bem compassado ainda vibra.
Quem gastou libra por libra
Da sorte fazendo alarde,
Não cala por ser covarde
Nem chora por ser manheiro,
Lamenta é osol derradeiro
Que vai borcando na tarde!

É a saudade, essa punilha
Que nos vai roendo o carnal,
Esse caruncho infernal
Que fura até curunilha;
É a derradeira tropilha
DA vida mal tironeada
Que chegando ao fim da estrada
Se dá conta, num segundo,
Que veio e vai deste mundo
Sofrendo a troco de nada!

É triste matear sozinho
De tarde ou de madrugada
Amargando a paleteada
De algum passado carinho,
Como dói lembrar o ninho
Que o tempo levou na enchente,
Mas, porém, deixou semente
De tristeza e de amargura
Pra reviver a ternura
De alguém que já foi da gente.

É por isso meu patrício
Que não mateio solito
Embora o verde bendito
Pra mim seja mais que vício.
É meu último munício,
Que não dispenso nem largo
E peço a Deus, sem embargo
Da chucreza do meu canto
Que no Céu me guarde um Santo
Parceiro pra o Mate-Amargo!

As etapas (depois da erva cevada):

a. como segurar a bomba antes de introduzí-la no buraco

Envolva suavemente seu corpo cilindrico com quatro dedos e sinta a dureza, a firmeza ... da bomba, meninas! Mantenha a bomba voltada para a frente e o polegar esticado (olha a foto). Após, tapa a boca com o polegar.

Tchê loco, não deveria dizer, mas vá que alguém se confunda: a boca é a da bomba! (olha a foto).

b. como introduzir a bomba no buraco

Pega a cuia com a mão esquerda de forma que o buraco fique voltado para a direita. A seguir, posicione a bomba a meia distância das bordas do morrinho levemente inclinada. Vá introduzindo aos poucos e girando em direção à borda do morrinho mais proxima de ti. Uma detalhe importante: a bomba deve descer acompanhando a curvatura da cuia, de tal sorte que, quando chegar ao fundo, estará parcialmente tapada pela erva e encostada no morrinho

Só ao sentir que chegou no fundo é que tu deves tirar o dedo. Do bocal! Da boca da bomba, tchê!

c. como ajeitar a bomba

Agora vais chupar (a bomba, por supuesto) para tirar o que sobrou da água da cevadura. Nesse momento aproveita para fazer pequenos ajustes na bomba (girar levemente de um lado para outro) para que a água corra soltita. Cospe fora, pois além de fria, essa água vem carregada de pó e otras cositas más. Chupa bem até roncar!

Teu chimarrão tá pronto pra ser tomado. Mas ainda faltam alguns detalhes importantes. Amanhã seguimos...



Pintura: Pensativo. Óleo sobre tela. Daniel Colnago Fleitas, em www.artelista.com



Pois é,

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Se o vivente seguiu direitinho as instruções para curtir a cuia, deve estar pronto para começar a preparar seu primeiro chimarrão. Um "antes, porém," - porque, afinal, eu sou Chato e Chato que se preze, e eu me prezo, não é Chato se não escrever um "antes, porém," - antes, porém, o vivente deve levar em conta o seguinte: preparar um chimarrão é um ritual e, como todo ritual, requer paciência e crença. E por falar em crença:

"A ORAÇÃO DO POSTEIRO1

De tarde... Boleio a perma
e maneio o redomão,
- no portão do cemitério,
(Tauras... Santas... e gaudérios...
tudo em baixo deste chão!)
- É aqui... A cruz... Pé de flor...
Me ajoelho... E, a voz num temblor,
rezo uma pobre oração:

Mãe-velha! Aqui está o teu piá,
meio estropiado do mundo!
Com o meu recuerdo mais fundo
te juro por esta luz:
- Mãe-velha! pela saudade
da tua antiga bondade,
eu vim te ver na cruz.

Tua benção venho buscar
para os vareios da vida.
Trago espichada e estendida
minha esperança de pobre.
Com medo que ela arrebente,
venho te ver novamente
sobre este chão que te encobre.

Mãe-velha! Não fui maleva!
Eu nunca te contrariei.
E, se um dia te magoei,
logo pedi o teu perdão!
Como quando tu vivias,
no meu jardim de alegrias
derrama teu coração.

Escuta! Santa Mãe-velha:
- Pede a Deus junto de ti,
que, a estes teus netos-guris
faça uns gaúchos de alma reta
na conduta sem desmancho.
E à neta... orgulho do rancho!
(porque inté é linda a tua neta.)

Me ajuda a ver se dou jeito
que eles aprendam a ler,
para o mundo compreender,
sem gritos, ralhos, nem relhos.
Por mim ensino o que posso:
- já les dei o Padre-Nosso
e um pouco de teus conselhos.

Que eles, sendo moços feitos,
se por outros pagos cruzem,
buenos e leais, não abusem
da força que os tauras têm.
Faa, que o destino confirme,
tua neta - a gauchita firme!
que nunca engane a ninguém.

E se um dia estale a guerra,
que encarem o sol de frente!
com essa bondade valente
que, Mãe-velha, de ti.
e honrem a marca da herança
dos que empunharam com a lança
esta fronteira até aqui!

Que a mãe deles seja sempre
a boa e fiel companheira
a quem pobreza e canseira
é um galardão de Jesús.
Quando a encontrei (comparando...)
fui como um cego sarando!
- bobo de encontro com a luz.

Que eu tenha força nos braços,
coragem no coração,
para agüentar o tirão,
e a minha gente conduzir.
E me dê sorte e bom vento
para eu ganhar o sustento
e os trapos para eles vestir.

Que a saúde não me deixe!
para eu criar a ninhada
sem andar esparramada
como filhos de avestruz.
E com partões mais humanos
possa eu viver muitos anos
para enfeitar a tua cruz!

Bueno... Mãe-velha... Vou indo...
E ao tranco... Tenho a alma inteira
presa na estrela boieira,
que me olha, no céu parada,
também tão longe e solita...
- Como se o olhar da velhita
me acompanhasse na estrada!"

Chorou? Não? Pois devia. Eu choro cada vez que leio ou escuto.

O vivente não vai à missa todo domingo e fica lá por uma hora sem reclamar? Pois então! Aqui é a mesma coisa.O vivente não toma vinho e fica cheio de frescura tentando "sentir" os aromas e sabores que o vinho tem? Pois então! Aqui é a mesma coisa. Chimarrão tem aromas e sabores também. E para sentí-los, há que despertá-los.

IV - A Cevadura

A cevadura (favor não confundir com picadura ou com cerveja congelada) é o segredo que nos permite extrair da erva todos os aromas e sabores que ela contém. Pra dizer a verdade, o chimarrão depende de uma boa cevadura. Por sinal, trate bem a erva, pois sua árvore é símbolo oficial do Estado do Rio Grande do Sul (Lei 7.439/80).

Cevar é engordar. Cevar o porco é engordá-lo. Porco cevado é porco gordo, no ponto para o abate! O mesmo se dá com a erva: erva pronta pra ser tomada é erva "gorda", cevada. No caso, "inchada".

A cevadura compreende três etapas (olha nas fotos. E olha mesmo, vivente, pois deu um enorme trabalhão tirar essas fotos sozinho...):

1. despeja erva na cuia até atingir a "dobra", ou "pescoço". Para quem tem cuia "reta", mede algo como dois terços da cuia (e não me pergunta se a cuia está dois terços cheia ou um terço vazia. Isso é falta de joelhaço!). Dependendo do lado que o vivente estiver olhando, bota erva até dois dedos antes da borda.

(um parênteses, porque Chato que é Chato sempre faz parênteses: a "regra dos dois dedos" é universal, vale pra tudo: pra fazer arroz, pra esquentar a mulher...)

Continuando...

2. Agora é que são elas, como dizem por aí! Vamos formar o "morrinho", a "coxilha". E vamos deixar de frescura! Bota a mão direto. Sem essa de pegar uma "latinha", uma "tampa" (tem gente que usa "bolacha de chopp" pra isso). Vai virando a cuia enquanto forma a mão em concha e coloca sobre a cuia. Vai virando a cuia e sacudindo devagarzito até que comece a formar um "montinho" na tua mão. (diriam os cientistas que deves fazer isso até que a cuia esteja a 90° em relação à perpendicular, isto é ao Zênite. Ainda bem que cientista quando toma chimarrão esquece que é um...) Sinta a erva na mão. Faça com que ela se conforme a ti. Depois, tira a mão. Um pouco sempre cai. Põe de volta na cuia com todo cuidado.

É a tua mão que será passada "de mão em mão". A lo más, terás o prazer de ver que o morrinho ficou como tu querias e não com a cara de uma bolacha. Reto que nem defunto em caixão!

Olha só que bonito que fica:

Por isso que usar outros "materiais" é frescura. Coisa de gente que diz: "ai, sujou minha mão!". Larga de ser fresco(a) e passa uma água na mão depois.

Feito isso, vais observar que apareceu um "buraco" dentro da cuia. Tá fazendo o quê, que ainda não botou água nele? Tá perdendo tempo me lendo? Ainda bem que estás lendo, pois senão estarias fazendo besteira!

3. A água. Motivo da terceira guerra mundial, dizem por aí. Tás a ver como esse item é importante, bagual! Aqui temos a Alquimia, tão sonhada pelos nerds da Idade Média. Os quatro elementos se unem para te dar a essência da vida:

o fogo que aquece a água; a água quente que molha a terra; e, juntos - fogo, água e terra -, exalam o aroma.

Tomar chimarrão é se entreverar com a natureza. (anota essa. Um dia vai ser famosa e sair na "Caras". Pode ser reproduzida desde que citado o autor).

Atenção!

Existem três tipos de água: fria, morna e quente. A água quente está para o chimarrão assim como a era industrial está para a natureza: destrói! NUNCA UTILIZE ÁGUA QUENTE PARA CEVAR O CHIMARRÃO!'

Utilize apenas água fria ou morna. A diferença está no amargo. A água fria produz um chimarrão mais forte, mais amargo. Em compensação, dura mais. A água morna produz um chimarrão mais suave ao paladar, principalmente das moçoilas e chinocas e de alguns guapos ainda não acostumados...

Com a cuia ainda inclinada, despeja a água até que ela atinja a borda do morrinho.

Pára! Pára! Assim vai derramar! Calma, tchê! Vai devagar, sentindo o aroma que se despreende.

(Pode ocorrer, nesse momento, um fenômeno:: ao colocar a água, ela começa a "vazar" por baixo do morrinho. Isso se deve a dois fatores, que podem atuar separados ou concomitantemente: a qualidade da erva e à rapidez com que a água é colocada. Para evitar quaisquer dos dois, é bom colocar a água bem devagarzinho...)

Apoia a cuia no avio próprio e espera de três a cinco minutos, que é o tempo que a erva vai levar pra "chupar" essa água e "inchar", isto é, cevar, ficar "gorda".

E, bueno, amanhã continuamos com outra etapa: como colocar a bomba. Não percam essa, pois não há pior coisa do que chimarrão entupido porque o guasca não soube colocar a bomba. De mais a mais, tô subindo pra Caxias do Sul. Vou fazer uma mateada com os gringos.

1. Poesia de Aureliano de Figueiredo Pinto.



90 - Chimarrão

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Pois é,

A Roberta Malta ganhou de presente uns mimos aqui da terrinha pampeana. Junto, algumas instruções sobre como preparar essa que é a bebida símbolo do gaúcho e que tanta estranheza causa nos demais povos.

Este Chato que vos escreve, no entanto, e no uso das suas atribuições de melhor representante do gênero, resolveu dar uns pitacos no blog da moça e acabou por dexá-la ainda mais confusa. Como o Chato pode ser qualquer coisa, menos um causador de males pra outros viventes, resolveu escrever aqui o "Verdadeiro e Único Manual Ilustrado e Poético do Chato para Iniciantes no Chimarrão", que por hora dou a público, para deleite de tantos quantos queiram experimentar a "velha infusão gauchesca".

I - Introdução

Manual que se preze tem que ter introdução. Pois este também tem.

Chimarrão não é coisa que se estude desgarrada das tradições. Tomar chimarrão não é como beber um cafezinho, que se faz rapidinho numa esquina de balcão. Requer certa reverência. E pra começar, então, há que se ler Jayme Caetano Braun, como forma de preparar o espírito para a aventura:

"AMARGO!

Velha infusão gauchesca
De topete levantado
O porongo requeimado
Que te serve de vazilha
Tem o feitio da coxilha
Por onde o guasca domina,
E esse gosto de resina
Que não é amargo nem doce
É o beijo que desgarrou-se
Dos lábios de alguma china!


A velha bomba prateada
Que atrás do cerro desponta
Como uma lança de ponta
Encravada no repecho
Assim jogada ao deleixo
Até parece que espera
O retorno de algum cuera
Esparramado do bando
Que decerto anda peleando
Nalgum rincão de tapera!


Velho mate-chimarrão
Ás vezes quando te chupo
Eu sinto que me engarupo
Bem sobre a anca da história,
E repassando a memória
Vejo tropilhas de um pêlo
Selvagens em atropelo
Entreverados na orgia
Dos passes de bruxaria
Quando o feiticeiro inculto
Rezava o primeiro culto
Da pampeana liturgia!

Nessa lagoa parada
Cheia de paus e espuma
Vão cruzando uma, por uma,
Antepassadas visões
Fandangos e marcações
Entreveros e bochinchos
Clarinadas e relinchos
Por descampados e grotas,
E quando tu te alvorotas
No teu rancor anunciador
Escuto ao longe o rumor
De uma cordeona floreando
E o vento norte assobiando
Nos flecos do tirador!

Sangue verde do meu pago
Quando o teu gosto me invade
Eu sinto necessidade
De ver céu e campo aberto
É algum mistério por certo
Que arrebentando maneias
Te faz corcovear nas veias
Como se o sangue encarnado
Verde tivesse voltado
Do curador das peleias!


Gaudéria essência charrua
Do Rio Grande primitivo
Chupo mais um pra o estrivo
E campo a fora me largo,
Levando o teu gosto amargo
Gravado em todo o meu ser,
E um dia quando morrer,
Deus me conceda esta graça
De expirar entre a fumaça
Do meu chimarrão querido
Porque então irei ungido
Com água benta da raça!!!"


Bueno, bueno, vivente. Se não terminaste a leitura arrepiado é pouco provável que gostes do chimarrão. Em todos os causos, vamos aos preparativos.

II - A cuia

Pra quem tá começando de cuia nova é muito importante prepará-la antes de começar a tomar chimarrão. E te segura que ainda vais ficar uns dois dias sem poder tomar. E por quê? Porque é um bom tempo pra deixar a cuia no ponto, curada, como se diz por aqui.

- Tá, Chato! Ninguém me disse isso e eu já saí tomando. Como é que eu faço para preparar a cuia?

- Olha, tchê, tomar até que dá, mas se preparar antes, teus mates ficarão supimpas! Vamos lá. Enche a cuia de erva (não precisa ser até a borda) e coloca água quente até a erva ficar bem molhada. Deixa assim por uns dois dias, colocando mais água de quando em vez, só pra manter a umidade.

Isso faz com que as paredes da cuia absorvam o mate e ela (a cuia, vivente) fique curtida. Depois, retira a erva e lava a cuia com água quente e deixa secar, antes de preparar o teu primeiro chimarrão. Só assim poderás sentir...

"Cuia morena queimada
confeccionada a lo bruto,
rude cálice matuto
de amarguentas comunhões;
na tradição campechana
serves o vinho que irmana
dono de estância e peões.

Velho utensilho crioulo
da utilidade nativa,
que misturando saliva
no ritual dos chimarrões,
estarrece gente estranha
que não sabe que a campanha
não conhece convenções.

Quando em teu bojo recebes
a erva pro chimarrão,
e da tua carnação
verde o sangue se desata,
me entristeço, imaginando,
que és um coração sangrando
por uma artéria de prata!"1

Te arrepiaste de novo? Viste pra que serve preparar a cuia? Outra coisa: existem tantas formas de cuias quantas são as estrelas do céu. O Chato prefere cuias tipo essa da foto. Cada uma prepara um tipo diferente de chimarrão.

E vamos pro mais importante, que é a erva. Afinal, se faltar cuia até em copo se faz.

III - A erva

Olha aqui o vivente, se tu chegou aqui procurando aquela outra erva, te arranca!

Já foi? Bueno, então continuamos...

A erva-mate, ou ervateira, é a planta (árvore) de onde sai a erva pro chimarrão. Tu imaginavas o quê, o bagual? Que era de um pezinho de verde qualquer? Toma tento, tchê, pois o Chato sabe ser

"... duro sem ser maleva,
quem me pisa o troco leva
e às vezes mais da quantia.
Respeito farda e batina,
criança e choro de china,
Jesus e a Virgem Maria.

Prezo muito a liberdade,
sou sacudido e mui macho!
Pra china nunca me agacho,
isto nunca aconteceu!
Fui assim desde menino:
- em mim quem manda é o destino,
nelas quem manda sou eu!"2

Agora sim ficaste arrepiada! Confessa!

Existem, basicamente, dois tipos de erva pra chimarrão: a pura folha e a barbaquá. A pura folha, como o nome já diz, é feita apenas com a folha da ervateira. A barbaquá aproveita os talos, também chamados de "pauzinhos" da erva. Cada uma produz um tipo de chimarrão; e cada uma exige uma técnica diferente para o seu preparo. Entre elas há modelitos também, dependendo do tipo de trituração utilizado na fabricação.

Meu conselho, e esse vai de graça, é experimentar todos os tipos e marcas, até descobrir qual o mais adequado pro gosto. O Chato, em casa, só toma a pura folha. Há ervas fortes e fracas. As puras folhas com trituração mais "fina" são mais suaves que as de trituração "grossa". As barbaquá de pó "fino" são mais faceis de entupir a bomba que as de pó "grosso".

- Pára de reclamar e experimenta, ora!

E por falar em experimentar, vou lá tomar meu chimarrão. Continuamos na terça-feira.

1. Cuia. Aparício Silva Rillo.
2. Trechos de Gaudério. Aparício Silva Rillo.



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