Causos, histórias e outras mentiras: novembro 2005 Archives

Pois é,

- Afonso?
- Quié, Chato?
- Que crime, hein!?
- Como assim? Não tô entendeeeeendo!?
- O que cometeste nos últimos quarenta anos!
- Quarenta anos? Há quarenta anos eu só tinha oito!
- Exatamente! Oito anos. Isso não te lembra nada?
- Pô, Chato! Bem sabes que ando atrás das minhas memórias.
- Sei, sei. E só quero te ajudar.
- E como?
- Pára de mexer nesses papéis e olha aquela foto que caiu no chão.
- Putz, nem me dei conta de que havia caído uma foto.

E foi ai que eu vi. Foi ai que me lembrei - mas quem não lembraria?

"Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!"

Uma foto dos meus oito anos. Não uma foto qualquer. Uma foto dela! Da minha primeira paixão.


A minha professora! O Chato tem razão. Eu deveria ser condenado ao fogo. Como pude esquecer por todo esse tempo daquela que foi modelo para todas as outras mulheres que tive na vida? Só hoje me dou conta disso, ao rever o rosto dela.

Sempre tive mulheres morenas (nada contra loiras!). Com esse mesmo jeitinho. E nunca me dei conta de que passei a vida a procurar minha professora-paixão. Anos e anos que a correria vai nos tirando.

Em meio a 500.347 coisas por fazer, parei. Parei para relembrar meus oito anos, que os anos não trazem mais. Tive sarampo, cachumba, minha irmã nasceu e foi quando começaram minhas crises de enxaqueca. Fatos que consigo lembrar.

Deve ser importante, na vida de um guri, apaixonar-se pela professora. Não posso falar pelas meninas, mas deve ser o mesmo, imagino. Nesse tempo, professores eram modelos, exemplos a serem seguidos. Havia respeito, consideração, carinho. Professores sabiam que estavam a formar adultos e não apenas repositórios de informações.

Sequer lembro do nome. Estará viva? Talvez tenha algo como 70 anos (pela carinha, na foto, parece ter vinte e poucos). Se procurasse nos registros oficiais talvez encontrasse o nome e, daí, poderia procurá-la. Quanta coisa não deve ter ensinado (também não lembro do que se aprendia com oito anos naquela época). Quantos sonhos não tive com ela? Quantas noites deixei de dormir aguardando a hora de ir para a aula?

Por fim restou uma lembrança. E triste. Lembrei que no ano seguinte teria outra professora. Nunca mais a vi. E hoje descubro que a havia esquecido. O Chato tem razão: que crime imperdoável eu teria cometido se morresse sem me lembrar dela.

Há quarenta anos não me lembrava dos meus oito anos.

"Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!"

A partir de hoje essa poesia assume um outro valor.

Pois é,

Lendo esse post do Flávio Prada, fiquei a pensar sobre a produção de arte.

Após a morte do meu pai, minha mãe resolveu vir morar definitivamente em Porto Alegre. Meus irmãos tinham ficado aqui quando fomos para Brasília e ela achou por bem manter-se perto dos filhos, embora eles já morassem sozinhos havia alguns bons quatro anos. Talvez essa tenha sido mais uma das possíveis frustrações da sua vida, pois o coração lhe mandava retornar ao Rio de Janeiro. Quem sabe ficar perto da filha perdida tão cedo; quem sabe retornar a um tempo e local ao mesmo tempo triste e feliz. Até bem pouco, mantinha uma fotografia do Rio, com o Cristo, pendurada na parede do quarto, atrás da cabeceira da sua cama.

Pouco tempo depois, já instalados na nova morada em Porto Alegre, descubro as coisas do meu pai ainda guardadas. Não descobri sozinho, confesso. Fui motivado pela minha mãe, que na ânsia de continuar a vida, entendia ser a melhor forma, para tal, livrar-se de tudo quanto era lembrança do meu pai.

Chego em casa, num dia qualquer, e vejo sacos e mais sacos contendo tudo o que meu pai havia escrito e guardado ao longo da vida, além de muitas outras coisas. Não sei o que me deu, mas atirei-me sobre os sacos e comecei a resgatar o que ali havia. Não adiantou. Noutro dia, enquanto estava na escola, minha mãe pegou tudo de volta e mandou queimar. Restaram apenas os livros, os discos (LPs, claro) e dois quadros que ele havia pintado, junto com os pincéis e as tintas.

Teve início, então, uma fase de incorporação da figura paterna, até então algo que sentia muito distante. Pra dizer a verdade, só o sentia por perto quando ele tirava a cinta e mandava ver na minha bunda!

Livros, discos de música clássica e pintura. Estava formado o quadro dos meus próximos vinte anos. Tornei-me um chato ( e na bebida busco esquecer...) intelectualóide por muitos anos. Rato de livrarias e discotecas, sócio da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e freqüentador de todos os espetáculos ligados à musica, qualquer tipo de música, e, pasmem, comecei a pintar.

Já pintei mais de centena de quadros. Deixei de dormir. Passava as madrugadas escutando música e pintando. Pintar era um prazer. A cada pincelada sentia algo meu sendo jogado na tela. As cores, as sombras e luzes, as tonalidades, a preparação das misturas, o fazer e refazer até atingir "o ponto". Que êxtase sentimos ao atingir esse "ponto". É algo inexplicável a sensação diante de uma pincelada "bem dada". Quem faz arte, e eu falo de arte - literatura, música, pintura, etc. - e não de produtos para venda, sabe do que eu falo (não confundir vender arte com "arte" para vender). Muitas vezes, a picelada era a música traduzida em cores, em formas, em tonalidades.

Mas meus quadros eram quadros de solidão, diziam as pessoas. Vazios de vida. Eu não os via assim, replicava. Ali estava eu e eu estava vivo! Até que, anos mais tarde, me dei conta de que pintava neles o vazio que havia ficado com a morte de meu pai. Num gesto simbólico, fiz o mesmo que minha mãe: queimei tudo o que havia acumulado ao longo desses anos. Inclusive os quadros que estavam comigo. Queimei o primeiro quadro que pintei. Uma porcaria, com era de se esperar, mas representava muito em minhas memórias. Precisava passar por isso. Precisava queimar um passado que não era meu, um passado que era um futuro que jamais existiria. Por isso o fogo, pois o fogo é o único dos elementos que é capaz de transformar. Queimei no mesmo lugar que minha mãe havia queimado as coisas do meu pai.

Diferente da minha mãe, que queimou tudo escondido de mim, levei minha filha Fernanda para assistir à "cerimônia". E com que prazer eu a vi se debruçando sobre os sacos. Não para resgatar coisas - ela não precisava disso - mas para ajudar a jogá-las ao fogo. O pai estava ali, ao seu lado.

Os quadros do meu pai continuam lá na casa da minha mãe. São quadros de solidão. Não pintei mais, desde então!

Pois é,


Sexta-feira, final de tarde. Estava eu, mui belo e faceiro, tomando uma cervejinha e começando a escrever a continuação do post de ontem. Clarissa dormia tranqüila. Eis quando o céu começou a escurecer. Com o horário de verão, nessa hora o sol ainda se encontra alto. Uma tempestade de verão se aproximava. São lindas as tempestades de verão. Fortes, rápidas e luminosas. Relâmpagos iluminavam o céu já escuro. Trovões e raios. Um espetáculo. Resolvi fotografar. Claro que o aprendiz de feiticeiro ainda não descobriu como funciona a máquina digital.

As duas fotos foram tiradas em seqüência, o que mostra a rapidez com que o céu escureceu. Mal havia tirado essas duas e uma ventania, que depois li ter andado na casa dos 80Km/h, me obrigou a fechar as portas que dão para a sacada. E o céu desabou.

Uma chuva de granizo com pedras de tamanho suficiente para colocar num copo e tomar um uísque. Mas a festa ainda estava por começar. Enquanto me divertia a tirar fotos, os gatos entram em pânico e começam a correr pela casa em busca de abrigo. Estavam assustados. Com a correria e o barualho dos trovões, Clarissa acordou e começou a chorar. E toca a campainha.


Eram os vizinhos avisando que que o telhado se rompeu e a água estava inundando o prédio e os apartamentos do andar de cima (o edifício é pequeno, apenas dois andares e eu moro no primeiro). Queriam ajuda para tirar a água do corredor, antes que o estrago fosse maior. Foi quando vi que a água já estava invadindo o meu apartamento. Imediatamente peguei um rodo e desci para o térreo, onde a água se acumulava. Nenhum dos três vizinhos do andar térreo se manifestava. Toco a campainha do apartamento mais próximo da entrada do prédio, para onde eu estava empurrando a água, e literalmente convoco a moça para ajudar.

Lembram da vaca (a vizinha) que dava choques nos cachorros? Pois é, a fdp simplesmente olhou o que estava acontecendo e, como não estava entrando água no ap dela, fechou a porta e o resto que se dane. Confesso que tive vontade de inverter o sentido para onde estava empurrando a água e jogar tudo pro lado do ap dela. Um dia eu chego lá. Ando treinando minhas maldades.

Abro a porta do edifício para que a água saia e vejo que a rua está completamente inundada, com a água já batendo na mureta do prédio.

Ficamos nessa função por duas horas. Alguns vizinhos subiram no vão do telhado e, iluminados apenas por velas, com baldes tratavam de ir tirando a água que continuava a entrar.

O que era para ser uma linda tempestava transformou-se numa aventura assutadora. Porto Alegre teve cenas que estamos acostumados a ver apenas pela TV ou nos jornais. Tipo essa:

O post "Pós-conceito II" ficará para segunda-feira.

Foto da senhora sendo resgatada: http://www.clicrbs.com.br. As demais, pode-se notar, são minhas.

Pois é,



Ambos publicados no mesmo dia 7 de julho de 1946, no jornal A Platéia, de Santana do Livramento/RS.

A moça da entrevista casou-se com o rapaz da propaganda. Zuleika Alencastre e Jorge Escosteguy. Luiz Afonso Alencastre Escosteguy, esse Chato que vos escreve.

O jornal os uniu sem querer; três anos após, uniram-se por um querer; a morte os separou sem que quisessem.

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