Pois é,
- Afonso?
- Quié, Chato?
- Que crime, hein!?
- Como assim? Não tô entendeeeeendo!?
- O que cometeste nos últimos quarenta anos!
- Quarenta anos? Há quarenta anos eu só tinha oito!
- Exatamente! Oito anos. Isso não te lembra nada?
- Pô, Chato! Bem sabes que ando atrás das minhas memórias.
- Sei, sei. E só quero te ajudar.
- E como?
- Pára de mexer nesses papéis e olha aquela foto que caiu no chão.
- Putz, nem me dei conta de que havia caído uma foto.
E foi ai que eu vi. Foi ai que me lembrei - mas quem não lembraria?
"Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!"
Uma foto dos meus oito anos. Não uma foto qualquer. Uma foto dela! Da minha primeira paixão.
A minha professora! O Chato tem razão. Eu deveria ser condenado ao fogo. Como pude esquecer por todo esse tempo daquela que foi modelo para todas as outras mulheres que tive na vida? Só hoje me dou conta disso, ao rever o rosto dela.
Sempre tive mulheres morenas (nada contra loiras!). Com esse mesmo jeitinho. E nunca me dei conta de que passei a vida a procurar minha professora-paixão. Anos e anos que a correria vai nos tirando.
Em meio a 500.347 coisas por fazer, parei. Parei para relembrar meus oito anos, que os anos não trazem mais. Tive sarampo, cachumba, minha irmã nasceu e foi quando começaram minhas crises de enxaqueca. Fatos que consigo lembrar.
Deve ser importante, na vida de um guri, apaixonar-se pela professora. Não posso falar pelas meninas, mas deve ser o mesmo, imagino. Nesse tempo, professores eram modelos, exemplos a serem seguidos. Havia respeito, consideração, carinho. Professores sabiam que estavam a formar adultos e não apenas repositórios de informações.
Sequer lembro do nome. Estará viva? Talvez tenha algo como 70 anos (pela carinha, na foto, parece ter vinte e poucos). Se procurasse nos registros oficiais talvez encontrasse o nome e, daí, poderia procurá-la. Quanta coisa não deve ter ensinado (também não lembro do que se aprendia com oito anos naquela época). Quantos sonhos não tive com ela? Quantas noites deixei de dormir aguardando a hora de ir para a aula?
Por fim restou uma lembrança. E triste. Lembrei que no ano seguinte teria outra professora. Nunca mais a vi. E hoje descubro que a havia esquecido. O Chato tem razão: que crime imperdoável eu teria cometido se morresse sem me lembrar dela.
Há quarenta anos não me lembrava dos meus oito anos.
"Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!"
A partir de hoje essa poesia assume um outro valor.

Abro a porta do edifício para que a água saia e vejo que a rua está completamente inundada, com a água já batendo na mureta do prédio.








































