Pois é,
Santuário do Caaró, em São Luiz Gonzaga, onde foram martirizados e mortos os padres Roque Gonzales e Afonso Rodrigues, canonizados em 1988 pelo papa João Paulo II (com esse, já são dois os Santo Afonso que existem. O mundo aguarda pelo terceiro).
São Luiz Gonzaga é uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul. Mas já foi uma grande cidade ao tempo das Missões Jesuíticas. São Luiz Gonzaga compõe, com Santo Ângelo, São Nicolau, São Francisco de Borja (atual São Borja), São Lourenço Mártir, São João Batista e a mais famosa delas, São Miguel Arcanjo, mais conhecida como São Miguel das Missões, os Sete Povos das Missões, reduções jesuíticas tombadas pela Unesco.
São Miguel das Missões
Em 1970, com 13 anos, fui morar em São Luiz Gonzaga. Meu pai fora designado para o comando do 3º Regimento de Cavalaria, lá sediado. Ficamos dois anos, até maio de 1972. Depois disso, nunca mais tinha visitado a cidade. Até que, em 2004, surgiu uma oportunidade de revê-la.
Com medo de reprisar o fracasso da minha busca de memórias pelo Rio de Janeiro, tentei não criar muitas expectativas. Mas era impossível não tê-las. São Luiz Gonzaga representa o auge da minha vida. Lá fiz, pela primeira vez, todas as coisas que se pode fazer pela primeira vez. Ou quase todas.
A começar pela viagem de ida. Minha primeira viagem de Maria Fumaça (depois dessa só larguei as viagens de trem quando aposentaram os trens de passageiros, na última viagem do trem Húngaro). Uma viagem de 18 horas, a bordo de um trem puxado por uma Maria Fumaça, para um pré-adolescente, é algo que jamais vou esquecer. Os campos, as estações, as pontes e pontilhões, o chacoalhar do vagão, o apito e a fumaça daquela coisa imponente para um pirralho mirradinho como eu era. Até hoje sonho com trens e sempre são sonhos bons, sonhos dos quais acordo com uma sensação de felicidade, de paz, de noite bem dormida.
Colocaram um vagão especial para a comitiva militar que acompanhava meu pai para a transmissão do comando. Outra primeira experiência, a transmissão de comando de uma guarnição militar. Da minha posição privilegiada de filho do novo comandante (não esqueçamos que estávamos em pleno período militar), pude sentir e aprender, pela primeira vez, o significado da palavra orgulho. As cerimônias militares exercem um certo fascínio com toda sua "pompa", mais ainda em uma criança.
Cerimônia de transmissão do comando. Meu pai à esquerda, apresentando armas. Eu estou ao fundo, de camisa branca, com as mãos apoiadas na cintura.
Aprendi a andar de cavalo com esse cavalo que meu pai montou para a assunção do comando.
Cerimônia de assunção ao comando. Após a passagem do comando, o novo comandante apresenta armas ao general comandante do Exército a que pertence a guarnição e às autoridades locais. No caso, o III Exército, sediado em Porto Alegre (atual Comando Militar do Sul)
Foram dois anos de uma vida intensa; e me lembro de tudo. Mas existem as memórias afetivas e essas eu queria recuperar. Claro que fracassei novamente. Passados trinta e três anos, tudo ainda está lá, exatamente no mesmo lugar. Visitei tudo, a casa, o colégio, a praça, o quartel, o clube, as ruas, a igreja.
Igreja Matriz de São Luiz Gonzaga. Em seu interior há doze estatuetas feitas pelos índios e jesuítas.
Fiquei três dias e nada. Nada de reaparecerem as tais de memórias afetivas. Andava como ando em qualquer cidade. Percorri a quadra onde fumei meu primeiro cigarro. Na verdade, onde tentei fumar um cigarro, pois o máximo que fiz foi tossir por todo o trajeto da quadra. Nada. Uma quadra como qualquer outra quadra de qualquer outra cidade.
Visitei o quartel para lembrar da cerimônia de passagem do comando e onde, escondido do meu pai, aprendi a dirigir. Em conluio com o motorista, deixávamos meu pai no prédio de comando e íamos para a garagem. Para ele, eu estava aprendendo a andar a cavalo. Que nada. Pegava o carro e ficava andando pelo quartel, que era uma verdadeira fazenda, pois até criação de gado e abatedouro tinha. Nada. Andei por todo o quartel e nada.
O único lugar que não entrei foi a casa onde morei. Não por falta de convite, pois o comandante fez questão que eu fosse lá. Recusei gentilmente a oferta, prometendo que voltaria outra vez. Não poderia voltar com a mesma sensação de nada em relação à casa. Talvez ali estivessem as minhas memórias afetivas e não poderia perdê-las. Era melhor não entrar.













































