Causos, histórias e outras mentiras: outubro 2005 Archives

Pois é,


Santuário do Caaró, em São Luiz Gonzaga, onde foram martirizados e mortos os padres Roque Gonzales e Afonso Rodrigues, canonizados em 1988 pelo papa João Paulo II (com esse, já são dois os Santo Afonso que existem. O mundo aguarda pelo terceiro).


São Luiz Gonzaga é uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul. Mas já foi uma grande cidade ao tempo das Missões Jesuíticas. São Luiz Gonzaga compõe, com Santo Ângelo, São Nicolau, São Francisco de Borja (atual São Borja), São Lourenço Mártir, São João Batista e a mais famosa delas, São Miguel Arcanjo, mais conhecida como São Miguel das Missões, os Sete Povos das Missões, reduções jesuíticas tombadas pela Unesco.


São Miguel das Missões

Em 1970, com 13 anos, fui morar em São Luiz Gonzaga. Meu pai fora designado para o comando do 3º Regimento de Cavalaria, lá sediado. Ficamos dois anos, até maio de 1972. Depois disso, nunca mais tinha visitado a cidade. Até que, em 2004, surgiu uma oportunidade de revê-la.

Com medo de reprisar o fracasso da minha busca de memórias pelo Rio de Janeiro, tentei não criar muitas expectativas. Mas era impossível não tê-las. São Luiz Gonzaga representa o auge da minha vida. Lá fiz, pela primeira vez, todas as coisas que se pode fazer pela primeira vez. Ou quase todas.

A começar pela viagem de ida. Minha primeira viagem de Maria Fumaça (depois dessa só larguei as viagens de trem quando aposentaram os trens de passageiros, na última viagem do trem Húngaro). Uma viagem de 18 horas, a bordo de um trem puxado por uma Maria Fumaça, para um pré-adolescente, é algo que jamais vou esquecer. Os campos, as estações, as pontes e pontilhões, o chacoalhar do vagão, o apito e a fumaça daquela coisa imponente para um pirralho mirradinho como eu era. Até hoje sonho com trens e sempre são sonhos bons, sonhos dos quais acordo com uma sensação de felicidade, de paz, de noite bem dormida.

Colocaram um vagão especial para a comitiva militar que acompanhava meu pai para a transmissão do comando. Outra primeira experiência, a transmissão de comando de uma guarnição militar. Da minha posição privilegiada de filho do novo comandante (não esqueçamos que estávamos em pleno período militar), pude sentir e aprender, pela primeira vez, o significado da palavra orgulho. As cerimônias militares exercem um certo fascínio com toda sua "pompa", mais ainda em uma criança.


Cerimônia de transmissão do comando. Meu pai à esquerda, apresentando armas. Eu estou ao fundo, de camisa branca, com as mãos apoiadas na cintura.

Aprendi a andar de cavalo com esse cavalo que meu pai montou para a assunção do comando.


Cerimônia de assunção ao comando. Após a passagem do comando, o novo comandante apresenta armas ao general comandante do Exército a que pertence a guarnição e às autoridades locais. No caso, o III Exército, sediado em Porto Alegre (atual Comando Militar do Sul)

Foram dois anos de uma vida intensa; e me lembro de tudo. Mas existem as memórias afetivas e essas eu queria recuperar. Claro que fracassei novamente. Passados trinta e três anos, tudo ainda está lá, exatamente no mesmo lugar. Visitei tudo, a casa, o colégio, a praça, o quartel, o clube, as ruas, a igreja.


Igreja Matriz de São Luiz Gonzaga. Em seu interior há doze estatuetas feitas pelos índios e jesuítas.

Fiquei três dias e nada. Nada de reaparecerem as tais de memórias afetivas. Andava como ando em qualquer cidade. Percorri a quadra onde fumei meu primeiro cigarro. Na verdade, onde tentei fumar um cigarro, pois o máximo que fiz foi tossir por todo o trajeto da quadra. Nada. Uma quadra como qualquer outra quadra de qualquer outra cidade.

Visitei o quartel para lembrar da cerimônia de passagem do comando e onde, escondido do meu pai, aprendi a dirigir. Em conluio com o motorista, deixávamos meu pai no prédio de comando e íamos para a garagem. Para ele, eu estava aprendendo a andar a cavalo. Que nada. Pegava o carro e ficava andando pelo quartel, que era uma verdadeira fazenda, pois até criação de gado e abatedouro tinha. Nada. Andei por todo o quartel e nada.

O único lugar que não entrei foi a casa onde morei. Não por falta de convite, pois o comandante fez questão que eu fosse lá. Recusei gentilmente a oferta, prometendo que voltaria outra vez. Não poderia voltar com a mesma sensação de nada em relação à casa. Talvez ali estivessem as minhas memórias afetivas e não poderia perdê-las. Era melhor não entrar.



Pois é,


Euzinho mesmo! Lá no Rio de Janeiro.

Este post, no final, é proibido para menores e mulheres à perigo!

A Yvonne e o Allan notaram - e anotaram - que utilizei a expressão "infelizmente" quando me referi ao fato de ter nascido no Rio de Janeiro. A Yvonne, com justa razão, ficou indignada, pois parecia que eu estava falando mal da tão querida cidade maravilhosa. Duas são as razões para a expressão:

1. Ao sair do Rio, fomos para Brasília. É somente a partir daí que começo a ter qualquer espécie de lembrança, inclusive as afetivas. Depois viemos para o Rio Grande do Sul. Minha família é toda daqui. Eu fui o único "desgarrado". Cresci e me criei nesse estado. Aprendi a ser gaúcho e a valorizar essa terra e sua gente. Não tive tempo de aprender a ser carioca. É uma questão de identidade, mais que de "carteira de identidade". Talvez o infelizmente refira-se ao fato de não ter nascido aqui, o que me causa certo desconforto, pois apesar de "ser" gaúcho, não posso dizer de mim mesmo que "sou" gaúcho.

2. Da mesma forma que aprendi a ser gaúcho, a imagem que a mídia vende do Rio de Janeiro me faz não gostar do Rio. Nada a ver com qualquer carioca em particular. É a expressão do todo, da imagem.

Parece que o Rio de Janeiro não aceitou deixar de ser a capital do Brasil e o umbigo do mundo. São arrogantes, tentam, via mídia, empurrar de tudo que é seu para o resto do Brasil, como se Brasil fosse apenas a cidade maravilhosa. E não passa disso, uma bela cidade maravilhosa. Tudo é melhor lá, o futebol, as praias, a paisagem, as mulheres, os artistas (esquecem que muitos deles são gaúchos). Para o Rio de Janeiro só existe o Rio de Janeiro e - como colher de chá - um pouco de Bahia. Em tudo e por tudo, a mídia carioca tenta fazer o Rio de Janeiro melhor que o resto do Brasil.

A constante tentativa de fazer do Brasil o modelo da malandragem carioca, eles são ixpertosssss, os melhoriiisssss. Os próprios cariocas são os culpados por essa imagem, pois não fazem nada para que a mídia mostre outra coisa a não ser: violência, praia e carnaval. Ah! sim, e tentar fazer do Flamengo o eterno melhor time do mundo.

Quando visito uma cidade, não alugo automóvel. Ando de ônibus e metrô (quando tem) que é para conhecer o povo, o modo de vida, como andam, como se vestem, como usam a cidade. Fiz isso na semana que passei por lá. A imagem da violência que passam é tamanha, que fiquei com medo os sete dias. E vi pessoas com medo. E vi uma Copacabana tomada pela prostituição e pelas drogas. Ofereceram-nas descaradamente para nós.

Infelizmente não consegui, apesar da linda cidade, mudar a imagem que fizeram eu ter do Rio. Daí o "infelizmente" ter nascido lá. Nada contra as pessoas, o povo do Rio. É a imagem.

E por falar em imagem, meninas controlem-se:


Euzinho, já mostrando o que o futuro reservava para as mulheres, heheheh.


Pois é,


"Menino, 1886, Antônio Rafael de Pinto Bandeira"

Rever a foto do post de ontem me deixou triste.

Estou perdido e estou perdendo os melhores momentos da minha vida. Não os passados, mas os de agora. E que um dia serão passado. E talvez seja tarde para querer recordá-los.

Ver a Kaya feliz daquele jeito me lembra o quanto estou falhando hoje. Querer abraçar o mundo com as mãos dá nisso. Esquecemos de abraçar quem está na nossa frente.

A Clarissa tem sofrido. Há trinta dias chora de dor. Quatro pediatras e nada de resolver o problema. É normal, dizem eles. "Todas as crianças passam por isso até os três meses". Até num cardiopediatra já fomos, pois escutaram um sopro no coraçãozinho dela. Felizmente era apenas um "sopro fisiológico", nada de mais. Não bastasse o susto pré-parto da perda de líquido amniótico, agora isso.

Ontem fomos ao quinto pediatra. Finalmente temos um diagnóstico provável e, o mais importante, um médico que se preocupou em investigar. Um médico que entendeu que dor não é uma coisa "normal". O exame só é feito nos EUA. Colhe-se o sangue aqui e o laboratório envia para lá. É uma reação a um não-sei-o-quê, por causa de um não-sei-o-quê, e sei-lá-o-quê. Felizmente Brasil é Brasil e poucos sabem disso (fodam-se os EUA. Não vão levar meus pilas). Um médico, aqui de Porto Alegre, desenvolveu um método ecográfico capaz de detectar o problema pelas conseqüências que causa no esôfago (provável origem da dor). Segunda-feira faremos essa tal ecografia. Pelo menos fiquei sabendo que o Ph do suco gástrico, no estômago, é 2. Isso derrete qualquer coisa, inclusive o esôfago. E causa dor. Esofagite causada por um mau funcionamento do esfincter, que separa o estômago do esôfago, e que permite que uma provável reação alérgica à proteína animal esteja causando um refluxo gástrico. E mais não-sei-o-quê. O exame que detecta a alergia é que é feito nos EUA.

Não nascemos para sentir dor. Acostumar-se à dor foi-nos imposto pela religião, que precisava vender cadeiras cativas no céu. Clarissa nos olha com olhos de dor, com olhos de sofrimento. E sofremos com ela. Só não choro com ela porque me falta coragem para tanto. Mas sobra vontade. E sei que sobra para a Kaya também. E eu preocupado em abraçar o mundo com as mãos. Por isso falho.

Mas mãe é mãe. E mãe sabe das coisas. Mãe sente. Só isso: mãe sente. Mãe sente coisas que pais jamais sentirão. Sentimos também, mas nunca como as mães. Há uma frase que tenho colocada na parede da minha sala no escritório e que diz:

"The difference between the ordinary and extraordinary is that little extra"

Isso é a Kaya, that little extra. Isso é mãe. Qualquer mãe.

Por vezes me pego, no racionalismo masculino, dizendo:

- Mas Kaya, quatro pediatras já disseram a mesma coisa. Temos que acreditar em alguém!
- Afonso, acredita em mim então. Ela tem algum problema e não importa quantos médicos digam que é normal. Algum há de descobrir o que ela tem.

Maldita humanidade que transformou a nós, homens, em seres racionais, quase insensíveis. Que nos deu a razão para, a tudo, com ela, julgar.

Ela é forte. Sofre o sofrimento da Clarissa. E sofre sozinha. Eu sofro, mas sofro ao lado. É diferente. Ela só quer um abraço. E eu querendo abraçar o mundo.

Ontem abandonei o mundo e abracei a Kaya. E choramos. E trouxe de volta, mesmo que por instantes, os olhos que brilham. Mesmo assim foi mais forte que eu. Acabou por me abraçar, como que dizendo, chora, Afonso, eu te entendo.

E quando esse tempo for passado, espero poder chorar novamente.



Pois é,

Quem me conhece dos tempos do blogspot deverá lembrar que nasci (infelizmente) no Rio de Janeiro, então estado da Guanabara.

Alguma coisa deve ter acontecido, que não tenho absolutamente nenhuma recordação dessa época. Morei no Rio até os quatro anos e onze meses. Muita gente tem lembranças de coisas dessa idade, e até menos. Eu não!


Lua-de-mel no Rio, dez 2003. Não precisa dizer onde, né?

Quando casamos, eu e a Kaya, minha vontade era de passar a lua-de-mel no Caribe. O sonho da Kaya era passar no Rio. Pois bem, acabamos dividindo entre o Rio e Fortaleza (o mais próximo do Caribe que ela aceitou ir). De certa forma, aceitei de bom grado a idéia de passar uma semana no Rio, pois pensei em recuperar a memória perdida. Quem sabe se visitando o local onde nasci e morei (Praia Vermelha) eu não conseguiria "rever" minha primeira infância depois de 43 anos?

Por outro lado, aproveitaria para localizar o túmulo da minha irmã, falecida um ano antes de eu nascer e que morrera com onze meses. Nunca mais, em 47 anos da minha vida, alguém foi lá. Meus pais jamais falavam dela. Eu apenas sabia da sua existência por outras pessoas da família. Como sou metido a genealogista e já percorri uma centena de cemitérios fotografando túmulos e desencavando livros de registro de enterros em busca de informações, a ida ao Rio representava a oportunidade de localizar minha irmã e, talvez, render-lhe alguma pequena homenagem. Difícil tarefa, mas achei o túmulo no Cemitério do Catumbi.

Primeira decepção. Fiquei ali uma boa meia hora. Mesmo velho, tive a inocência de achar que algo ali me levaria de volta ao passado. Tentei imaginar o que teria acontecido com ela, para que tivesse morrido com apenas onze meses e - num rasgo de egoísmo - se a morte dela teve alguma influência no sumiço das minhas memórias. É bem possível que meus pais tenham me superprotegido com medo de que se repetisse, comigo, o infortúnio que tiveram.

Meu nome, Afonso, deve-se a um primo do meu pai - chamava-se José Afonso - que os acompanhou, ao meu pai e a minha mãe, e os confortou nesse duro período. Talvez eu seja fruto da dor de uma perda e do amor de uma homenagem. Ambos, meu pai e o primo, morreram jovens e com a mesma idade, 46 anos, do mesmo problema: coração. Parece que a vida os uniu pela morte e os manteve unidos na morte.

Limpei o mármore onde estava gravado o nome dela, já quase apagado pelo tempo e pela ausência: Maria Elisa. Essa foi minha pequena homengem, além das fotos que tirei e da lembrança que hoje, mais do que simples história de família, ela representa.

No dia seguinte fomos para a Praia Vermelha. Tentei me preparar controlando a expectativa. Passei na frente do hospital onde nasci e do prédio onde morei. Ficamos a tarde toda ali, na praia. Sentamos para tomar umas cervejinhas e olhar para a paisagem. Depois de um tempo, criei coragem e fui até ao mar.

Fiquei ali olhando, buscando, escutando. Mas o mar não me disse nada. Esperava que ele me dissesse: "Afonso, lembra quando tua mãe te trazia aqui pelas manhãs? Lembra quando corrias desajeitado pelas minhas areias? E que quando eu te tocava saias correndo assustado?"

Não lembro! Não lembro! eu gritava baixinho. Pisei no mar, tive vontade de mergulhar com roupa e tudo. Não fiz. E saí triste. Triste porque o mar não me sentia. Doeu! Doeu muito, mas não pude chorar, pois não tinha pelo que chorar. Restou a decepção comigo mesmo, por imaginar que, Assim fazendo, poderia recuperar algo que deve ter sido importante. Talvez não devesse ter ido. Ao menos poderia continuar na ilusão de que um dia ainda poderia recuperar minhas memórias. Hoje tenho a triste certeza de que elas jamais retornarão.

Cinco anos sumiram da minha vida. E o Rio de Janeiro continua sendo apenas três palavras na minha carteira de identidade.



Pois é,

O Chato, contrariando diversos artigos do seu Código do Chato e antevendo o iminente risco que toda a blogosfera corre, abre uma exceção para prestar um serviço de Utilidade Pública.

Finalmente revela-se a identidade daquele que, por muito tempo, tem sido o causador das desgraças sofridas pela humanidade. Falo do próprio, do inominável (dá azar até escrever o nome), o caído, a besta, o cão.







Causador de guerras e matanças; mentor dos que votaram no "NÂO", está sempre a espreita para arranjar confusão. Ultimamente tem sido visto disfarçado de El Rey no condomínio Verbeat. O Chato, arriscando a vida em prol da blogosfera, conseguiu finalmente a verdadeira imagem desse que é o mais temido ser que o universo já criou.







Se você está se sentindo ameaçado, ligue 911-TENHOMEDO. Claro que ninguém é besta (ops) de atender, mas você vai ouvir uma canção relaxante, enquanto aguarda o destino cruel, cruel, cruel...

Veja outros informes sobre a passagem desse, desse... não arrisco dizer... aqui, aqui e aqui.

Não! Não! Não faça isso! Prometo que não publico o post, mas por favor, deixa a Clarissa em paz. Solta ela! Solta ela...socorroooooo!





Mais um disfarce d'El Rey...



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