Pois é,
As famílias da minha mãe e do meu pai são de Santana do Livramento. Quando meu avô faleceu, fui à cidade, representando meus irmãos (meu pai já era falecido, à época), para as necessárias formalidades legais do inventário. Tira daqui e põe dali, ficou resolvido que somente os bens imóveis, que não estivessem alocados para o sustento e sobrevivência da minha avó, seriam partilhados. Os bens móveis, basicamente a guarnição da casa, permaneceriam até a morte dela.
Lembro-me de ter dito, na reunião, que aconteceu no escritório do meu avô, que a única coisa que me interessava eram os livros que estavam em uma estante. Como ninguém mais demonstrou interesse, ficou combinado que seriam meus.
Passados alguns anos, minha vó faleceu. Retornei a Livramento, desta vez para assistir a uma tradicional "guerra familiar" pela disputa de cristais, móveis, jóias e tudo o mais, menos os livros. Parecia que os livros não tinham valor algum e que nada mais justo que um neto meio avoado ficasse com eles. Afinal, pra que servem livros velhos? Lembro-me que sequer vi quais eram os livros. Não interessava, eram livros e, em sendo livros, para mim não haviam jóias mais valiosas. Carreguei os livros no carro e retornei para Porto Alegre.
Dentre os livros, havia uma coleção antiga, encadernada em percalina verde com dizeres da lombada em dourado. Uma coleção de peso em qualquer sentido. São 24 volumes com 12.224 páginas. Isso mesmo, doze mil, duzentas e vinte e quatro páginas da melhor literatura do mundo. Como é uma edição antiga e não há referências da data de publicação em nenhum dos volumes, resolvi buscar na internet alguma informação. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que Carlos Drummond de Andrade fez um poema para essa coleção.
Uau, uma coleção que merece um poema de Drumond deve ser muito importante. Segui pesquisando e descubro que
"não se sabe exatamente, escreve ele [refere-se, aqui, ao autor do texto, Arnaldo Saraiva], "quem a organizou, nem quando e onde foi impressa e distribuída. As indicações editoriais, sempre as mesmas que ela contém em qualquer dos seus volumes são apenas as do editor "Sociedade Internacional" de "Lisboa Rio de Janeiro São Paulo Londres Paris", referindo redatores principais em 12 capitais e colaboradores em 16 países. Data de 1906 a edição em nossa língua, incluindo autores portugueses e brasileiros, "às vezes com numerosos textos: vejam-se sobretudo exemplos como o de Camões, com mais de 25 textos[] ou de Machado de Assis, com 11 textos. Mas o número de autores e de 'colaboradores e críticos especiais' brasileiros, que são destacados na própria folha de rosto [] José Veríssimo, Vicente de Carvalho, Artur Orlando, Reis Carvalho, Constâncio Alves, Lindolfo Collor, João Ribeiro, indica sem dúvida o público-alvo da edição []."Tudo leva a crer, acrescenta Arnaldo Saraiva, que "ela tenha sido feita em Portugal. Eduardo Freitas da Costa escreveu em 1951 que 'a edição destinava-se a ser publicada no Brasil'. 'Publicada' neste caso quer dizer 'impressa e distribuída' ou só 'distribuída', isto é, vendida?." As coleções tornaram-se raras: Arnaldo Saraíva não encontrou nenhuma na Biblioteca Nacional de Lisboa nem nas bibliotecas públicas portuenses, havendo uma na Biblioteca Municipal de São João da Madeira. No Brasil, esclarece ele, "vimos em 1995 quatro coleções, uma das quais incompleta, à venda em livreiros de Porto Alegre e Rio de Janeiro", lembrando que Carlos Drummond de Andrade ganhou uma, como presente do pai, quando tinha 10/11 anos."1
Pôxa, sequer em Portugal existe mais essa coleção que estará fazendo cem anos no ano que vem. No Brasil, conforme esse relato, existem apenas quatro, uma das quais incompleta. O texto também refere o fato de Drummond ter ganho a coleção.
Ledo engano, pois existem cinco e eles não sabiam. Uma é a agora minha, antes do meu avô, coleção da Biblioteca Internacional de Obras Célebres. Ei-la, completíssima:
Na folha de rosto consta: "Colecção das produções literárias mais célebres do mundo, na qual estão representados os autores mais afamados dos tempos antigos, medievaes e modernos". Há mais de 20 anos ela me acompanha. Não é obra de leitura corrida, mas bem que dá vontade de fazer como no poema do Drummond:
Biblioteca Verde
Papai, me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres.
São só 24 volumes encadernados
em percalina verde.
Meu filho, é livro demais para uma criança.
Compra assim mesmo, pai, eu cresço logo.
Quando crescer eu compro. Agora não.
Papai, me compra agora. É em percalina verde,
só 24 volumes. Compra, compra, compra.
Fica quieto, menino, eu vou comprar.
Rio de Janeiro? Aqui é o Coronel.
Me mande urgente sua Biblioteca
bem acondicionada, não quero defeito.
Se vier com um arranhão recuso, já sabe:
quero devolução de meu dinheiro.
Está bem, Coronel, ordens são ordens.
Segue a Biblioteca pelo trem-de-ferro,
fino caixote de alumínio e pinho.
Termina o ramal, o burro de carga
vai levando tamanho universo.
Chega cheirando a papel novo, mata
de pinheiros toda verde. Sou
o mais rico menino destas redondezas.
(Orgulho, não; inveja de mim mesmo)
Ninguém mais aqui possui a coleção
das Obras Célebres. Tenho de ler tudo.
Antes de ler, que bom passa a mão
no som da percalina, esse cristal
de fluida transparência: verde, verde.
Amanhã começo a ler. Agora não.
Agora quero ver figuras. Todas.
Templo de Tebas. Osíris, Medusa,
Apolo nu, Vênus nua... Nossa
Senhora, tem disso nos livros?
Depressa, as letras. Careço ler tudo.
A mãe se queixa: Não dorme este menino.
O irmão reclama: Apaga a luz, cretino!
Esparmacete cai na cama, queima
a perna, o sono. Olha que eu tomo e rasgo
essa Biblioteca antes que pegue fogo
na casa. Vai dormir, menino, antes que eu perca
a paciência e te dê uma sova. Dorme,
filhinho meu, tão doido, tão fraquinho.
Mas leio, leio. Em filosofias
tropeço e caio, cavalgo de novo
meu verde livro, em cavalarias
me perco, medievo; em contos, poemas
me vejo viver. Como te devoro,
verde pastagem. Ou antes carruagem
de fugir de mim e me trazer de volta
à casa a qualquer hora num fechar
de páginas?
Tudo que sei é ela que me ensina.
O que saberei, o que não saberei
nunca,
está na Biblioteca em verde murmúrio
de flauta-percalina eternamente
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
É um prazer inenarrável ter em mãos o objeto de tão lindo poema. De tanto significado para o poeta. Putz, chega a arrepiar...
1Texto "O Baú do Fernando", de Wilson Martins, publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, 26/06/1999. < Site Jornal de Poesia: http://www.secrel.com.br/jpoesia/1wmartins24c.html >.
A poesia de Drummond está disponível em diversos sites.










































