Causos, histórias e outras mentiras: setembro 2005 Archives

Biblioteca Verde

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Pois é,

As famílias da minha mãe e do meu pai são de Santana do Livramento. Quando meu avô faleceu, fui à cidade, representando meus irmãos (meu pai já era falecido, à época), para as necessárias formalidades legais do inventário. Tira daqui e põe dali, ficou resolvido que somente os bens imóveis, que não estivessem alocados para o sustento e sobrevivência da minha avó, seriam partilhados. Os bens móveis, basicamente a guarnição da casa, permaneceriam até a morte dela.

Lembro-me de ter dito, na reunião, que aconteceu no escritório do meu avô, que a única coisa que me interessava eram os livros que estavam em uma estante. Como ninguém mais demonstrou interesse, ficou combinado que seriam meus.

Passados alguns anos, minha vó faleceu. Retornei a Livramento, desta vez para assistir a uma tradicional "guerra familiar" pela disputa de cristais, móveis, jóias e tudo o mais, menos os livros. Parecia que os livros não tinham valor algum e que nada mais justo que um neto meio avoado ficasse com eles. Afinal, pra que servem livros velhos? Lembro-me que sequer vi quais eram os livros. Não interessava, eram livros e, em sendo livros, para mim não haviam jóias mais valiosas. Carreguei os livros no carro e retornei para Porto Alegre.

Dentre os livros, havia uma coleção antiga, encadernada em percalina verde com dizeres da lombada em dourado. Uma coleção de peso em qualquer sentido. São 24 volumes com 12.224 páginas. Isso mesmo, doze mil, duzentas e vinte e quatro páginas da melhor literatura do mundo. Como é uma edição antiga e não há referências da data de publicação em nenhum dos volumes, resolvi buscar na internet alguma informação. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que Carlos Drummond de Andrade fez um poema para essa coleção.

Uau, uma coleção que merece um poema de Drumond deve ser muito importante. Segui pesquisando e descubro que

"não se sabe exatamente, escreve ele [refere-se, aqui, ao autor do texto, Arnaldo Saraiva], "quem a organizou, nem quando e onde foi impressa e distribuída. As indicações editoriais, sempre as mesmas que ela contém em qualquer dos seus volumes são apenas as do editor "Sociedade Internacional" de "Lisboa Rio de Janeiro São Paulo Londres Paris", referindo redatores principais em 12 capitais e colaboradores em 16 países. Data de 1906 a edição em nossa língua, incluindo autores portugueses e brasileiros, "às vezes com numerosos textos: vejam-se sobretudo exemplos como o de Camões, com mais de 25 textos[] ou de Machado de Assis, com 11 textos. Mas o número de autores e de 'colaboradores e críticos especiais' brasileiros, que são destacados na própria folha de rosto [] José Veríssimo, Vicente de Carvalho, Artur Orlando, Reis Carvalho, Constâncio Alves, Lindolfo Collor, João Ribeiro, indica sem dúvida o público-alvo da edição []."

Tudo leva a crer, acrescenta Arnaldo Saraiva, que "ela tenha sido feita em Portugal. Eduardo Freitas da Costa escreveu em 1951 que 'a edição destinava-se a ser publicada no Brasil'. 'Publicada' neste caso quer dizer 'impressa e distribuída' ou só 'distribuída', isto é, vendida?." As coleções tornaram-se raras: Arnaldo Saraíva não encontrou nenhuma na Biblioteca Nacional de Lisboa nem nas bibliotecas públicas portuenses, havendo uma na Biblioteca Municipal de São João da Madeira. No Brasil, esclarece ele, "vimos em 1995 quatro coleções, uma das quais incompleta, à venda em livreiros de Porto Alegre e Rio de Janeiro", lembrando que Carlos Drummond de Andrade ganhou uma, como presente do pai, quando tinha 10/11 anos."1

Pôxa, sequer em Portugal existe mais essa coleção que estará fazendo cem anos no ano que vem. No Brasil, conforme esse relato, existem apenas quatro, uma das quais incompleta. O texto também refere o fato de Drummond ter ganho a coleção.

Ledo engano, pois existem cinco e eles não sabiam. Uma é a agora minha, antes do meu avô, coleção da Biblioteca Internacional de Obras Célebres. Ei-la, completíssima:

Na folha de rosto consta: "Colecção das produções literárias mais célebres do mundo, na qual estão representados os autores mais afamados dos tempos antigos, medievaes e modernos". Há mais de 20 anos ela me acompanha. Não é obra de leitura corrida, mas bem que dá vontade de fazer como no poema do Drummond:


Biblioteca Verde

Papai, me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres.
São só 24 volumes encadernados
em percalina verde.
Meu filho, é livro demais para uma criança.
Compra assim mesmo, pai, eu cresço logo.
Quando crescer eu compro. Agora não.
Papai, me compra agora. É em percalina verde,
só 24 volumes. Compra, compra, compra.
Fica quieto, menino, eu vou comprar.
Rio de Janeiro? Aqui é o Coronel.
Me mande urgente sua Biblioteca
bem acondicionada, não quero defeito.
Se vier com um arranhão recuso, já sabe:
quero devolução de meu dinheiro.
Está bem, Coronel, ordens são ordens.
Segue a Biblioteca pelo trem-de-ferro,
fino caixote de alumínio e pinho.
Termina o ramal, o burro de carga
vai levando tamanho universo.
Chega cheirando a papel novo, mata
de pinheiros toda verde. Sou
o mais rico menino destas redondezas.
(Orgulho, não; inveja de mim mesmo)
Ninguém mais aqui possui a coleção
das Obras Célebres. Tenho de ler tudo.
Antes de ler, que bom passa a mão
no som da percalina, esse cristal
de fluida transparência: verde, verde.
Amanhã começo a ler. Agora não.
Agora quero ver figuras. Todas.
Templo de Tebas. Osíris, Medusa,
Apolo nu, Vênus nua... Nossa
Senhora, tem disso nos livros?
Depressa, as letras. Careço ler tudo.
A mãe se queixa: Não dorme este menino.
O irmão reclama: Apaga a luz, cretino!
Esparmacete cai na cama, queima
a perna, o sono. Olha que eu tomo e rasgo
essa Biblioteca antes que pegue fogo
na casa. Vai dormir, menino, antes que eu perca
a paciência e te dê uma sova. Dorme,
filhinho meu, tão doido, tão fraquinho.
Mas leio, leio. Em filosofias
tropeço e caio, cavalgo de novo
meu verde livro, em cavalarias
me perco, medievo; em contos, poemas
me vejo viver. Como te devoro,
verde pastagem. Ou antes carruagem
de fugir de mim e me trazer de volta
à casa a qualquer hora num fechar
de páginas?
Tudo que sei é ela que me ensina.
O que saberei, o que não saberei
nunca,
está na Biblioteca em verde murmúrio
de flauta-percalina eternamente

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

É um prazer inenarrável ter em mãos o objeto de tão lindo poema. De tanto significado para o poeta. Putz, chega a arrepiar...

1Texto "O Baú do Fernando", de Wilson Martins, publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, 26/06/1999. < Site Jornal de Poesia: http://www.secrel.com.br/jpoesia/1wmartins24c.html >.

A poesia de Drummond está disponível em diversos sites.



Pois é,

Como a aurora precursora

Do Farol da divindade

Foi o 20 de setembro

O precursor da liberdade.


"... Pode-se, assim, calcular a atmosfera que reinava em Pôrto Alegre nos agitados dias que precederam o levante, e a tomada da capital pelos farroupilhas chefiados por Gomes Jardim e Onofre Pires.

No dia 18 de setembro, enquanto Braga, avisado, tratava da defesa da capital, José Gomes de Vasconcelos Jardim atravessava o rio Guaíba com 60 homens para juntar-se aos que anteriormente haviam atravessado com Onofre Pires que reunira mais outros por Viamão.

Mostremos valor constância,

Nessa ímpia e injusta guerra.

Sirvam nossas façanhas

De modelo a toda terra,

De modelo a toda terra

Sirvam nossas façanhas

De modelo a toda terra.

Braga, entretanto, de nada tinha certeza absoluta. Mas, temeroso, tomava medidas e providenciava. A 19 oficiou ao Vice-consul português, Vitório José Ribeiro, solicitando-lhe "grande auxílio para o governo "...".

Ainda nesse mesmo dia 19 dirigiu o presidente provincial ofícios aos Juízes de Paz e Chefe de Polícia da cidade pedindo-lhes que tomassem tôdas as medidas necessárias para a defesa e que o avisassem de quanto soubessem, pois lhe 'constava que se prepararam movimentos anárquicos que deverão romper talvez em poucas horas'.

Mas todas as medidas foram inúteis. A preparação muito bem feita e os agentes revolucionários na capital, em ação conjunta, procuraram com notável eficiência atrapalhar por completo a ação do governo, espalhando os mais contraditórios boatos. E quando menos esperava, foi Braga avisado de que um grupo de revolucionários se aproximava da cidade, pela estrada da Azenha. Imediatamente mandou que Camamu assumisse a chefia da força e se dirigisse à ponte da Azenha a fim de impedir o avanço dos rebeldes.


Mas não basta p'ra ser livre

Ser forte, aguerrido e bravo.

Povo que não tem virtude

Acaba por ser escravo.

Os farroupilhas, porém, estavam òtimamente preparados. Nem mesmo espiões faltavam, sendo um dêles, e o maior, o dr. Magalhães Calvet, médico, que tinha entrada franca no palácio e assistiu à reunião com Camamu, mandando, logo, avisar Gomes Jardim e Onofre Pires, reunidos np alto da Aenha (hoje local do cemitério), das ordens do Presidente Braga.

Em vista disso, os colocaram os farroupilhas sentinelas nos ângulos mais escuros da ponte e aguardaram a visita do visconde. Pela meia noite, mais ou menos, êste apareceu com um grupo armado, para apoderar-se da ponte. MArchavam com cautela mas meio desprevenidos, pois julgavam ainda longe os revolucionários. Entretanto, ao se aproximarem, alguns tiros a esmo os atordoaram, fazendo com que os soldados recuassem. Camamu tenta avançar e novos tiros, desta vez claramente dirigidos a êles, se fazem ouvir, sendo Camamu ferido. Um de seus soldados, o célebre Prosódia, jornalista Antônio José da Silva Monteiro, pensando salvar-se jogou-se nas águas do Riacho. Mas, ferido também, morreu afogado. Não podendo conter seus soldados e ferido, o próprio Camamu iniciou a fuga. Os legalistas, em número que não se pode dizer exatamente, pois há variantes entre 60 e 300, aterrorizados se apresentaram em palácio, alta madrugada, afirmando Camamu ao Presidente Braga que os farroupilhas que marchavam contra a capital eram em número superior a mil. Na verdade, porém, não iam além de 200. Fernandes Braga, apesar de insistido para retirar-se para bordo de algum dos navios surtos no pôrto, não o fêz, julgando-se ainda garantido. Contudo, mandou sua família e os companheiros, bem poucos, que estavam no palácio que se recolhessem para bordo da escuna Rio-grandense, e ordenou ao comandante do 8º B.C., major João Manoel de Lima e Silva, que atacasse os rebeldes. Mas, bem a ordem não tinha saído do palácio já lhe traziam a notícia de que o 8º marchava ao encontro dos farroupilhas para a êles se reunir. Mandou verificar a exatidão da denúncia que foi inteiramente confirmada. Diante dos acontecimentos, e vendo-se sozinho, resolveu seguir também para bordo da escuna, levando, porém, consigo os dinheiros do Tesouro e da Alfândega.

E quando a aurora do dia 20 de setembro resplandecia sobre a cidade, e o sol enviava seus primeiros raios sobre a terra, os farroupilhas, sem mais um tiro, entre vivas e gritos de alegria, entravam na capital da Província, precedidos por Gomes Jardim, Onofre Pires e Lima e Silva, magnificamente montados.


Mostremos valor constância,

Nessa ímpia e injusta guerra.

Sirvam nossas façanhas

De modelo a toda terra,

De modelo a toda terra

Sirvam nossas façanhas

De modelo a toda terra.

Bento Gonçalves que, de Pedras Brancas (hoje Guaíba) tudo assistia e ordenava, à tarde do dia seguinte fazia sua entrada triunfal em Pôrto Alegre".1

E assim, no dia 20 de setembro de 1835, começava a Revolução Farroupilha. Quase um ano após, em 11 de setembro de 1836, o General Antônio de Souza Neto proclamaria a República Rio-grandense.

1Walter Spalding, A Epopéia Farroupilha.



Pois é,

Talvez tenha faltado ao meu tataravô o que sobrou em Chiquinho da Vovó: marketing. Autor da primeira letra utilizada no Hino Rio-grandense, Serafim Joaquim de Alencastre não soube propagar o feito, ou não teve tempo, pois faleceu em 1858, ao passo que Chiquinho da Vovó viveu até quase o final do século, segundo algumas fontes (outras dizem que morreu em 1856. Não confirmei os dados). Assim, a posterior letra de Francisco Pinto da Fontoura é a que foi adotada e permanece até hoje como sendo a letra oficial.

De qualquer sorte, fica aqui o resgate e registro da letra original, reproduzida no livro A Epopéia Farroupilha, do historiador gaúcho Warter Spaldind (ed. 1963). O hino fora composto após a tomada de Rio Pardo pelos farroupilhas:

"Possuiam os legalistas excelente banda de música organizada e dirigida pelo célebre maestro Joaquim José de Mendanha, mineiro de nascimento e d côr. Esta banda que Neto, na sua parte do combate, qualifica de 'rica' - 'fizemos presa de uma banda de música, que felizmente ficou intacta' (4-5-38) - foi incluída nas forças farroupilhas, conservando-se até 1840, quando, numa sortida dos imperiais sôbre Rio Pardo, êstes a resgataram. A pedido dos chefes farroupilhas compôs o maestro Mendana o HINO NACIONAL RIO-GRANDENSE, o Hino da República. Não o fez, entretanto, peça original: sôbre uma valsa do velho Strauss, mudando o ritmo e acrescentando parte nova para o estribilho, escreveu a música. A primeira letra que acompanhou a música foram uns versos alusivos à tomada de Rio Grande, escritos pelo capitão Serafim Joaquim de Alencastre. Mais tarde Francisco Pinto da Fontoura redigiu outros versos que ficaram populares porque o autor, também conhecido como Chiquinho da Vovó, poeta popular, viveu até fins do século ensinando a todos os seus versos ao som da música de Mendanha. O verdadeiro HINO DA REPÚBLICA, entretanto, foi o que divulgou o jornal O Povo, em seu número de 4 de maio de 1839, precedido das seguintes palavras: - '...postos de pé em torno do pavilhão todos os cidadãos e senhoras convidadas, cantou-se acompanhado da música o Hino da Nação', que noutra página foi transcrito como título HINO NACIONAL:

Nobre povo Rio-Grandense
povo de Heróis, povo bravo,
conquistaste a independência,
nunca mais será escravo.

(estribilho)
Da gostosa Liberdade
brilha entre nós o clarão,
da constância e da coragem
eis aqui o galardão.

Avante ó povo brioso,
nunca mais retrogradar,
porque atrás fica o inferno
que vos há de sepultar.

Da gostosa Liberdade ...

O majestoso progresso
é preceito divinal:
não tem melhor garantia
nossa ordem social.

Da gostosa Liberdade ...

O Mundo que nos contempla,
que pesa nossas ações,
bendirá nossos esforços,
cantará nossos brazões.

Da gostosa Liberdade ..."

UP: um alerta para que não pairem confusões: essa letra é de um autor anônimo. Por um tempo foi considerada a letra oficial. A letra composta por Serafim Joaquim de Alencastre é outra e vou publicar somente amanhã. A versão atual ficará para depois.



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