Causos, histórias e outras mentiras: agosto 2005 Archives

Pois é,











Nesse momento minha mão se solta definitivamente do bote. As únicas coisas em que pude pensar foram minha filha e a Kaya. Há um momento, um átimo, em que nos sentimos vencidos. Entregamos, seja lá o quê for, seja lá pra quem for. Desejei apenas que fossem felizes e pedi desculpas por não ter conseguido; por não ter resistido mais. Ainda hoje me é difícil retornar a essas cenas, mesmo que em fotos. É como se estivesse lá. O frio da água gelada e o vazio da escuridão. Sinto, simplesmente sinto.

Há um momento, porém, em que tudo passa. O medo e o desespero acabam, com a certeza da hora chegada.

Pois é,

Começo lentamente a ser puxado em direção ao bote, mas o bote também começa, rapidamente, a ser puxado de volta para o turbilhão...


junto com o bote dos meus colegas de capacete verde, que continuavam perdidos sem conseguir sair da correnteza.


Seguimos em direção à saída...


e eu tentando me aproximar do bote.

Finalmente alcanço o que, naquele momento, ainda pensava ser a salvação. Ainda não tinha me apercebido que os botes estavam retornando.


Consigo segurar na corda lateral do bote e...


pareço, ainda, tranqüilo, pois imagino que irão me puxar para dentro.


Como isso não acontece, começo a pedir, a berrar para que me puxem. Parece que o colega nem escuta, preocupado que estava pelo fato do outro bote estar impedindo a nossa ida para trás da mureta.


Finalmente, após muitos gritos, ele resolve fazer algo ... segurar a corda.


Diante da minha insistência para que me puxassem, ele resolve segurar o meu braço e pedir que não me preocupe. ORA NÃO ME PREOCUPAR, berrei! SOU EU QUE ESTOU AQUI DO LADO DE FORA! ME TIREM DAQUI!


Comecei a perceber que não iriam me ajudar. O colega prefere segurar o capacete a me segurar. O outro bote segue nos empurrando...


Outra bóia é jogada e acaba por atrapalhar. Vendo que o bote seguia inevitavelmente direto para o turbilhão...


comigo do lado de fora, continuo berrando, e berrando, para que me tirem dali. E o outro bote nos empurrando...


A outra corda se enrrosca nos colegas, que começam a se preocupar em não serem eles mesmos jogados para fora do bote. Vendo o que fatalmente iria acontecer, tento um esforço desesperado...


e consigo colocar um braço, tentando segurar no próprio bote.


O colega insiste em tentar me acalmar. Segue sentado, apenas me olhando, como se nada estivesse acontecendo. "Calma, Afonso, calma. Não vai acontecer nada! Já vamos sair daqui". Era só o que ele sabia repetir. Sigo berrando "ME TIREM DAQUI, ME TIREM DAQUI, ESSE NEGÓCIO TÁ VOLTANDO PRA LÁ... EU VOU ME AFOGAR..." e nada. Nesse momento percebi que iria retornar para debaixo d'água, só que desta vez...


Pois é,

A ironia da história é que as cenas foram filmadas por um colega deficiente visual (20% de visão apenas). Ele disse que apontava a filmadora conforme os gritos que ouvia. Providencialmente, na filmagem oficial não aparecem essas cenas. Claro, teriam levado um baita processo nas costas...


A água bate com força nas minhas costas e me joga para dentro do rio. Começa aqui o quase fim. Os dois piores minutos da minha vida. Momentos em que cheguei a vislumbrar o outro lado...


Começo rapidamente a ser tragado pelo turbilhão das águas...


Em questão de segundos...


estaria totalmente submerso...


conduzido pela força das águas. Segundos de completo pavor. Não há chão onde pisar; não há onde se agarrar; não há visão. Impossível levantar para respirar...rodopios, rodopios, ao sabor do turbilhão. A sensação de impotência diante de uma força infinitas vezes maior. A luta pela vida ainda fala mais alto até aquele momento...


Cada tentativa de subir à tona servia apenas para receber mais uma jorrada de água...


Os botes se afastavam de mim...


cada vez mais, levados pela correnteza...


Nesse momento a equipe de capacete azul começa, lentamente, a sair da margem em direção ao ponto onde eu poderia estar...


Os colegas dos dois botes tentam superar as forças para me salvar...


Tempos depois, alguém lembra de jogar a bóia... grande erro que cometi: numa das subidas vi a bóia e me agarrei nela. Não deveria ter feito isso, pois as águas estavam me levando para uma parte tranqüila do rio e lá poderia, caso chegasse vivo, tentar nadar até a margem e sair...


A bóia segue seu rumo...


A corda se estica, sinal que eu havia agarrado. O colega começa a puxar...


Retorno à cena... antes não tivesse retornado. O pior estaria por vir, por conta dessa decisão...


Pois é,

Sete de setembro de 2002, sábado de um sol que já prenunciava os ares da primavera na serra. Iríamos colocar em prática os ensinamentos aprendidos ao longo do ano no curso para os gestores. Liderança, equipes, relacionamento interpessoal, planejamento, autoconhecimento e motivação, e todas as matérias que procuram fazer nós, máquinas trabalhadoras, máquinas mais eficientes.

Alguns esportes, considerados radicais, exigem dos participantes a prática de todos esses conceitos. O rafting é um deles. E o rafting foi o escolhido pela turma para colocar em prática tudo o que havíamos aprendido.

A participação não era obrigatória. Como já havia feito rafting ali, enfrentei com tranqüilidade o desafio. Conhecia o rio Paranhana e imaginei que iríamos sair de um ponto considerado tranqüilo para quem não tem experiência (o rio é considerado de nível III). Ledo engano. Os organizadores escolheram a saída de água da barragem.

Vista da saída da barragem por onde deveríamos passar...





Close da fúria das águas...




Quanto mais perto mais assustador ficava...


Metido a corajoso, resolvi ir na frente do bote, sentado no lado esquerdo, justamente aquele que estaria voltado para a saída das águas...





Uma primeira tentativa de enfrentar as águas. Vê-se, no círculo, que eu já demonstrava não estar suficientemente preso e equilibrado para a tarefa...





Depois de alguns instanstes de luta, conseguimos sair e parar em uma mureta. Aqui pode-se observar um colega sentado (logo atrás de mim) dentro do bote. É um colega com deficiência visual completa. Como não teria condições de remar, foi sentado no meio do bote. Foi um momento de reflexão. Dizia-nos que a vida não se conhece apenas pela visão e que queria sentir as emoções do passeio. Fico a pensar na quantidade enorme de gente inteira de corpo e capenga de alma e espírito que anda solta por aí, gente que reclama da vida... bueno, isso não faz parte da história!





Outros botes já haviam tentado. A equipe de capacete vermelho perdeu o rumo ao tentar e chocou-se com o nosso. Claro que aproveitamos para fazer festa e jogar água nos colegas. Apesar da apreensão quanto à saída por aquela torrente de água, ainda sobrava um pouco de espírito esportivo...





Nenhum barco estava conseguindo passar pela correnteza. Após alguma dificuldade em manejar o bote em direção à saída, tentamos uma segunda vez e ... começa a história...



Pois é,

A serra gaúcha, bairrismos à parte, esconde verdadeiras pérolas em termos de paisagens. Minto! Não esconde, estão ali para quem se dispuser a vencer o vício da televisão aos domingos. Três Coroas é uma dessas pérolas. Pequena cidade de 23000 habitantes, fica a 92Km de Porto Alegre e a 23Km de Gramado, no belo Vale do Rio Paranhana. Colonizada por alemães no início do século passado, hoje abriga o que já foi o primeiro templo budista da América Latina (há outros agora) e vive, além da economia calçadista, do turismo, principalmente o turismo de canoagem.

O templo é visita obrigatória, seja qual for a religião do vivente que por lá passar. O interior (foto) é de uma beleza rara e a cerimônia(?), apesar de diferente de tudo que já tenha visto, é imperdível. Aos amigos que estiverem em passeio pelo sul, recomendo uma parada por ali. Fica no ponto mais alto de um morro e a vista é simplesmente maravilhosa e nos deixa verdadeiramente em paz ao sair de lá. Em dias de chuva é bom sequer se aproximar, pois a subida, íngrime, é feita por uma estradinha de chão batido que fica intransitável quando molhada. Para se ter uma idéia da serra, nos 23Km que separam Três Coroas de Gramado, sobe-se 800 metros.

Pois foi em Três Coroas, num belo e ensolarado sábado, 7 de setembro de 2002, que aconteceram os fatos que serão narrados a partir de segunda-feira.

Não é uma história "baseada" em fatos reais. É uma história real. Quadro a quadro.

Fotos do site http://www.cameraviajante.com.br/trescoroas.htm



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Post em construção

Pois é,

Sabe quando a gente acorda cansado? Não do corpo, mas da cabeça? Estressado? Pois é, acordei assim. Aliás, já fui deitar assim.

Algum virus entrou no meu sistema imunológico espiritual e está me derrubando! Tem, é claro, a expectativa pelo nascimento da Clarissa. Quanto mais próximo, mais demora e mais a gente quer que nasça logo. Não dá eu sei, e nem sou marinheiro de primeira viagem.

Tem o trabalho que anda difícil de motivar. Tornei-me, essa semana, uma cobaia dos meus próprios estudos sobre motivação. Ela foi a zero desde segunda-feira. A tal ponto que nem a continuação dos posts sobre isso estou afim de fazer. Não pelo menos nessa semana. Há muito tempo não me via assim, cansado. E não, não tem nada a ver com a crise política. Continuo achando que somos maiores que tudo isso. Taí, apesar de todo o cansaço, a crise não me abateu como tenho visto em quase todo mundo.

Nem sei se é porque morava em Brasilia na época da revolução e vi canhões e tanques apontando para o prédio onde estávamos, que acho tudo isso fichinha. Com Lula ou sem Lula, com Severino ou sem Severino. Aliás, deveriam alardear mais que, se tirarem o Lula, quem assume é o Severino. Aí eu quero ver onde esse país vai parar. Mesmo que digam que será por pouco tempo, até as novas eleições, esse cara será um verdadeiro tsunami...(é, eu sei, tá contraditório, incoerente. Mas e daí? Não falei que estou cansado?)

Mas o assunto é que estou cansado. Cansado da hipocrisia geral das pessoas. Sabe quando um psiquiatra ou um psicólogo resolve xingar o paciente (cliente?) depois de ouvir algo de ruim que ele tenha feito? Pois é, significa que ele perdeu todos os freios. Ou quando um arquiteto vira-se para o cliente e diz: meu caro, essa sua idéia de casa é de girico!

Limite. É isso. Estar no limite da paciência, no limite da tolerância com a ignorância das pessoas e com a hipocrisia. Preciso urgentemente tomar uns passes, descarregar um pouco, ou muito quem sabe. Nem pra escrever aqui estou com saco.

Ainda por cima tem um virus enchendo meu saco por aqui. Daqueles que se esconde no navegador e fica trocando de página a toda hora. Chega a ser gozado: não deixa eu entrar nos blogs, às vezes no Google... e já passei tudo quanto é programa que existe por aí. Nada.

Tô cansado. Pronto, falei!



Dia dos pais

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Pois é,

Como hoje é dia dos pais, dois posts que publiquei lá no blogspot e que falam de pais e uma pequena homenagem a um pai de 20 filhos.

Às dezenove horas toca a campainha da minha casa. Foram chamar minha mãe. Meu pai tinha passado mal fazendo exercícios na ginástica. Não havia porque se preocupar. Era um mal estar, mas seria bom que ela estivesse junto no hospital.

Meia hora depois, um amigo da família vai me buscar. Afinal, eu era o "homenzinho" da casa. Meus irmãos mais velhos tinham ficado em Porto Alegre. Minhã irmã tinha apenas 8 anos. Talvez ele não conhecesse a história do gato que subiu no telhado, ou talvez a dureza da vida militar o tenha ensinado que cabia aos homens "serem fortes" nessas horas. Sem mais nem menos, em meio ao caminho do estacionamento, foi logo contando: "teu pai já morreu. Não contamos ainda para tua mãe. E nem vais dizer nada para ela até que os médicos autorizem".

Não senti nada. O que poderia sentir um piá de quinze anos que nunca tinha visto a tal da morte de perto? Não sabia o que aquilo representava. Lembro-me de ter passado o tempo até chegar no hospital com um único sentimento: o que devo sentir? O que se sente nessas horas? Claro que, misturado a isso, haviam as "ordens": és o homenzinho da casa, homem não chora, mesmo que saibas, não podes contar para tua mãe (juro que até hoje não entendo o por quê disso).

Chegando no hospital vi minha mãe completamente dopada. Enfiaram um monte de calmantes nela e, literalmente, até às onze horas, foram matando meu pai aos poucos para ela. E eu já sabia de tudo e não podia fazer nada. Aliás, não sabia o que fazer. "Estamos tentando", diziam vez por outra. Ela queria vê-lo e não deixavam. E eu ali, sem saber o que fazer, sem saber o que pensar. Sentia apenas a angústia de ver minha mãe daquele jeito e não poder fazer nada. Eu era o homenzinho da casa mas não tinha os poderes correspondentes.

Finalmente, às onze horas resolveram contar. Lembro até hoje da cena: entramos numa das salas do hospital, sentaram minha mãe numa cadeira e eu fiquei em outra, ao lado. O médico contou aquilo que ela, por mais dopada que estivesse, já deveria saber. A reação foi de raiva por não terem falado desde o início. Ainda tentaram disfarçar, justificando que estavam fazendo de tudo para salvá-lo e as baboseiras todas. Foi aí que explodi e falei pra ela que era tudo mentira e que eu já sabia desde o início, mas que não me deixavam falar. Coração. Aos 46 anos.

Hora das formalidades: identificação do corpo. Tive que ir eu, pois minha mãe não tinha condições e, afinal, eu era o homenzinho da casa. Pela primeira vez vi um cadaver; pela primeira vez toquei num cadaver; pela primeira vez beijei um cadaver. E pelo que me lembro, foi uma das poucas vezes que beijei meu pai, nos quarenta e seis únicos anos da vida dele.

Voltamos pra casa e os deveres de homenzinho continuaram. Queriam contar para minha irmã. Não! Falei. Eu conto! Chegando em casa, sentei com ela no sofá e contei. Claro, se nem eu entendia, menos ainda uma criança de oito anos. Mas cumpri minha tarefa de homenzinho da casa. Depois fui telefonar para a família. Meus irmãos em Porto Alegre; meus tios em Livramento e todo o resto da família que morava lá. Meus tios contariam para meus avós, pais dele.

Não era hora de chorar. Preparativos para a viagem do dia seguinte. Meu pai seria enterrado em Livramento. O Exército fretou um aviãozinho de oito lugares. Tiraram quatro bancos e colocaram o caixão ali. Nós fomos com os pés encima do caixão, pois não havia espaço. Oito horas de viagem de Brasília até Livramento, com paradas. Eu, minha mãe, minhã irmã e o médico que a acompanhava.

Velório na casa dos meus avós. No dia seguinte não queriam me deixar ir ao enterro. Nessa hora já não era mais o "homenzinho". Claro que armei o maior barraco. Fui. Quem já viu sabe: enterro de militar é muito bonito. Minha família é tradicional na cidade e meu pai destacado na profissão. Cortejo em carro aberto com o caixão coberto pela bandeira do Brasil; salva de tiros, hino nacional, discurso do comandante da guarnição, etc. Finalmente, talvez pela emoção da cena, sei lá, pude chorar. Quieto, no meu canto, pois homem não chora.

Em dezembro voltamos, eu e minha mãe, para Brasília. Fazer a mudança e as providências necessárias. Desses dias, a única coisa que me lembro é que estávamos lá no Natal. Como já tínhamos entregue o apartamento, ficamos, na noite de 24 para 25, no apartamento daquele casal de amigos que nos avisou da morte. A viagem definitiva seria no dia seguinte.

Estávamos só nós no apartamento, pois a família tinha viajado. Ficamos no quarto dos filhos, dois amigos meus. Mamãe sentada numa das camas e eu na outra. A noite inteira aquele silêncio. Era véspera de Natal. Lá pelas onze horas, pedi uma única coisa para minha mãe: mãe, posso ao menos tomar um copo de coca-cola? E chorei pela segunda vez naquele ano.

A foto foi a última que ele tirou, um mês antes de morrer. Estava a bordo do porta-aviões Minas Gerais.

A segunda:

Vi minha filha antes dela nascer. Aliás, antes de ser concebida. Certo dia estávamos sentados na sala de estar, eu e a mãe dela, quando, ao olhar para seu rosto, vi algo que me surpreendeu: havia outro rosto ali. Saltei assustado! Ainda tentei convesar e explicar o que tinha visto. Claro que ela riu: "que bobagem é essa, Luiz (ela me chamava de Luiz, nome que detesto até hoje), não tem mais ninguém aqui!". Um ano depois vi qual rosto era. Ela havia se mostrado para mim, como a dizer: "tu serás meu pai, eu te escolhi!". Linda, como lindos são todos os filhos.

Um mês antes da data prevista para o nascimento, o gineco-obstetra resolveu fazer uma especialização na Itália. "Fiquem tranqüilos. Tem um colega que vai seguir com todas as minhas pacientes como se fosse eu". Oito meses nos acompanhando e, na última hora, resolveu "sartar fora do barco". (Ah, o mundo dá voltas. Não é que hoje - quinze anos passados, fomos recomendados para fazer um exame com um médico e, advinha qual era o médico?).

Não existe essa de alguém fazer as coisas como eu faria. Só eu faço como eu faço. Ficamos sem médico. Tudo bem, falei. Na hora a gente vai para o hospital e dá um jeito. Dito e feito. Terça-feira, 6 de março de 1990, uma semana passada da data prevista. Duas da tarde e, "Afonso, tem uma coisa diferente saindo..." Pega o que der e vamos pro hospital, falei e já saí correndo pro carro. Chegando lá, conversa daqui, conversa dali; paguei o "por fora", mesmo tendo convênio e ficamos esperando.

Cinco e meia da tarde, tudo pronto. Eu, vestido a caráter, com a câmara nas mãos. Tinha que filmar. Afinal, a primeira vez a gente nunca esquece, desde que filme!

Corta daqui; corta dali, e corta a perna da miha filha. Incompetente no corte, era também incompetente no resto. Parada cárdiorespiratória. Eu filmando sem poder fazer nada. Colocam minha filha nas mãos de quem, na hora, eu achava que era o pediátra. Nada. Aperta daqui, dali, respiração boca-a-boca e nada... Colocam num respiradouro artificial. Eu filmando. Talvez tenha aprendido, com meu pai (post anterior) a impassividade diante da morte.

Novamente não sabia o que fazer. Pela segunda vez tive que mentir sobre a morte. Voltei para a sala de parto e disse para a mãe: "está tudo bem, fica tranqüila". Repeti o que haviam me ensinado quando tinha quinze anos. Subi para o quarto e fiquei sozinho. Dessa vez não agüentei. Liguei para meu irmão: "vem pra cá que a Fernanda nasceu e ... não sei o que houve!". Uma hora depois ele chegou, tazendo minha mãe.

Não tive coragem. Pedi a ele que fosse lá ver o que realmente tinha acontecido. Todas as noites havia conversado com ela. Ela me avisou que nasceria. Eu a esperava, mais que a tudo. Mas a vida é cíclica e nos ensina. Meu irmão olhou para mim e disse: "Seja homem! Vai lá e vê tu mesmo o que aconteceu!". De "homenzinho da casa", virei "homem da casa". De ter beijado meu pai morto, teria que, talvez, beijar minha filha morta!.

Talvez tenha revivido o que meus pais sentiram quando minha irmã morreu aos onze meses. Desci, degrau por degrau, com vontade de subir, de fugir. Encontrei a enfermeira e ela, vendo minha expressão, falou, antes de qualquer pergunta minha:" está viva; mal, mas está viva!". E vive, e viverá todos os dias que lhe tenham sido dados.

Depois de algumas peripécias, que não vêm ao caso, consegui levar minha filha para um hospital que tinha UTI neonatal (descobri que o hospital, onde ela nasceu, não tinha UTI, mas isso é outra istória).

Ali, pela primeira vez, depois de cinco dias, finalmente toquei na minha filha. E pude beijá-la: não morta, mas viva.

Pois hoje almoço com ela e com a Clarissa. Quinze anos separam as duas. Espero que a vida as mantenha juntas e amigas.

E agora o herói de 20 filhos, o "Peruca Velha":

Johann Sebastian Bach (21.03.1685 - 28.07.1750 - datas não gregorianas), fez a proeza de ter 20 filhos: sete com a primeira mulher, sua prima Maria Bárbara, e 13 com a segunda, Anna Magdalena Wilchen. Nada mal para quem passava boa parte do tempo compondo (mais de mil obras registradas) e se apresentando. Bach foi mais um dos iluminados a ter problemas sérios de saúde: morreu cego. Quando pequeno lia à luz da lua para não acender velas e com isso incomodar seu irmão mais velho. Isso causou-lhe um problema que seria agravado pelo charlatão que fez uma operação em seus olhos, pouco antes de morrer (1749). Seu filho, Carl Philip Emanuel Bach apelidou-o de "Peruca Velha", em função do apego que o pai tinha pelas formas antigas. Apesar de famoso enquanto vivo, Bach passou alguns anos após sua morte quase esquecido do grande público. Foi outro compositor famoso, Felix Mendelssohn quem descobriu a Paixão segundo São Mateus em 1829 e, com isso, iniciou o movimento por reavivar e executar a música instrumental mais antiga. Com a morte de Johann Sebastian Bach em 1750, encerra-se a idade Barroca da música clássica. Bach era meu parceiro na genealogia. Fez a árvore genealógica da família que, aliás, tem uma sigularidade: todos ligados à música.

Feliz dia dos pais para todos os pais e filhos.



Pois é,

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