Pois é,
Como hoje é dia dos pais, dois posts que publiquei lá no blogspot e que falam de pais e uma pequena homenagem a um pai de 20 filhos.

Às dezenove horas toca a campainha da minha casa. Foram chamar minha mãe. Meu pai tinha passado mal fazendo exercícios na ginástica. Não havia porque se preocupar. Era um mal estar, mas seria bom que ela estivesse junto no hospital.
Meia hora depois, um amigo da família vai me buscar. Afinal, eu era o "homenzinho" da casa. Meus irmãos mais velhos tinham ficado em Porto Alegre. Minhã irmã tinha apenas 8 anos. Talvez ele não conhecesse a história do gato que subiu no telhado, ou talvez a dureza da vida militar o tenha ensinado que cabia aos homens "serem fortes" nessas horas. Sem mais nem menos, em meio ao caminho do estacionamento, foi logo contando: "teu pai já morreu. Não contamos ainda para tua mãe. E nem vais dizer nada para ela até que os médicos autorizem".
Não senti nada. O que poderia sentir um piá de quinze anos que nunca tinha visto a tal da morte de perto? Não sabia o que aquilo representava. Lembro-me de ter passado o tempo até chegar no hospital com um único sentimento: o que devo sentir? O que se sente nessas horas? Claro que, misturado a isso, haviam as "ordens": és o homenzinho da casa, homem não chora, mesmo que saibas, não podes contar para tua mãe (juro que até hoje não entendo o por quê disso).
Chegando no hospital vi minha mãe completamente dopada. Enfiaram um monte de calmantes nela e, literalmente, até às onze horas, foram matando meu pai aos poucos para ela. E eu já sabia de tudo e não podia fazer nada. Aliás, não sabia o que fazer. "Estamos tentando", diziam vez por outra. Ela queria vê-lo e não deixavam. E eu ali, sem saber o que fazer, sem saber o que pensar. Sentia apenas a angústia de ver minha mãe daquele jeito e não poder fazer nada. Eu era o homenzinho da casa mas não tinha os poderes correspondentes.
Finalmente, às onze horas resolveram contar. Lembro até hoje da cena: entramos numa das salas do hospital, sentaram minha mãe numa cadeira e eu fiquei em outra, ao lado. O médico contou aquilo que ela, por mais dopada que estivesse, já deveria saber. A reação foi de raiva por não terem falado desde o início. Ainda tentaram disfarçar, justificando que estavam fazendo de tudo para salvá-lo e as baboseiras todas. Foi aí que explodi e falei pra ela que era tudo mentira e que eu já sabia desde o início, mas que não me deixavam falar. Coração. Aos 46 anos.
Hora das formalidades: identificação do corpo. Tive que ir eu, pois minha mãe não tinha condições e, afinal, eu era o homenzinho da casa. Pela primeira vez vi um cadaver; pela primeira vez toquei num cadaver; pela primeira vez beijei um cadaver. E pelo que me lembro, foi uma das poucas vezes que beijei meu pai, nos quarenta e seis únicos anos da vida dele.
Voltamos pra casa e os deveres de homenzinho continuaram. Queriam contar para minha irmã. Não! Falei. Eu conto! Chegando em casa, sentei com ela no sofá e contei. Claro, se nem eu entendia, menos ainda uma criança de oito anos. Mas cumpri minha tarefa de homenzinho da casa. Depois fui telefonar para a família. Meus irmãos em Porto Alegre; meus tios em Livramento e todo o resto da família que morava lá. Meus tios contariam para meus avós, pais dele.
Não era hora de chorar. Preparativos para a viagem do dia seguinte. Meu pai seria enterrado em Livramento. O Exército fretou um aviãozinho de oito lugares. Tiraram quatro bancos e colocaram o caixão ali. Nós fomos com os pés encima do caixão, pois não havia espaço. Oito horas de viagem de Brasília até Livramento, com paradas. Eu, minha mãe, minhã irmã e o médico que a acompanhava.
Velório na casa dos meus avós. No dia seguinte não queriam me deixar ir ao enterro. Nessa hora já não era mais o "homenzinho". Claro que armei o maior barraco. Fui. Quem já viu sabe: enterro de militar é muito bonito. Minha família é tradicional na cidade e meu pai destacado na profissão. Cortejo em carro aberto com o caixão coberto pela bandeira do Brasil; salva de tiros, hino nacional, discurso do comandante da guarnição, etc. Finalmente, talvez pela emoção da cena, sei lá, pude chorar. Quieto, no meu canto, pois homem não chora.
Em dezembro voltamos, eu e minha mãe, para Brasília. Fazer a mudança e as providências necessárias. Desses dias, a única coisa que me lembro é que estávamos lá no Natal. Como já tínhamos entregue o apartamento, ficamos, na noite de 24 para 25, no apartamento daquele casal de amigos que nos avisou da morte. A viagem definitiva seria no dia seguinte.
Estávamos só nós no apartamento, pois a família tinha viajado. Ficamos no quarto dos filhos, dois amigos meus. Mamãe sentada numa das camas e eu na outra. A noite inteira aquele silêncio. Era véspera de Natal. Lá pelas onze horas, pedi uma única coisa para minha mãe: mãe, posso ao menos tomar um copo de coca-cola? E chorei pela segunda vez naquele ano.
A foto foi a última que ele tirou, um mês antes de morrer. Estava a bordo do porta-aviões Minas Gerais.
A segunda:

Vi minha filha antes dela nascer. Aliás, antes de ser concebida. Certo dia estávamos sentados na sala de estar, eu e a mãe dela, quando, ao olhar para seu rosto, vi algo que me surpreendeu: havia outro rosto ali. Saltei assustado! Ainda tentei convesar e explicar o que tinha visto. Claro que ela riu: "que bobagem é essa, Luiz (ela me chamava de Luiz, nome que detesto até hoje), não tem mais ninguém aqui!". Um ano depois vi qual rosto era. Ela havia se mostrado para mim, como a dizer: "tu serás meu pai, eu te escolhi!". Linda, como lindos são todos os filhos.
Um mês antes da data prevista para o nascimento, o gineco-obstetra resolveu fazer uma especialização na Itália. "Fiquem tranqüilos. Tem um colega que vai seguir com todas as minhas pacientes como se fosse eu". Oito meses nos acompanhando e, na última hora, resolveu "sartar fora do barco". (Ah, o mundo dá voltas. Não é que hoje - quinze anos passados, fomos recomendados para fazer um exame com um médico e, advinha qual era o médico?).
Não existe essa de alguém fazer as coisas como eu faria. Só eu faço como eu faço. Ficamos sem médico. Tudo bem, falei. Na hora a gente vai para o hospital e dá um jeito. Dito e feito. Terça-feira, 6 de março de 1990, uma semana passada da data prevista. Duas da tarde e, "Afonso, tem uma coisa diferente saindo..." Pega o que der e vamos pro hospital, falei e já saí correndo pro carro. Chegando lá, conversa daqui, conversa dali; paguei o "por fora", mesmo tendo convênio e ficamos esperando.
Cinco e meia da tarde, tudo pronto. Eu, vestido a caráter, com a câmara nas mãos. Tinha que filmar. Afinal, a primeira vez a gente nunca esquece, desde que filme!
Corta daqui; corta dali, e corta a perna da miha filha. Incompetente no corte, era também incompetente no resto. Parada cárdiorespiratória. Eu filmando sem poder fazer nada. Colocam minha filha nas mãos de quem, na hora, eu achava que era o pediátra. Nada. Aperta daqui, dali, respiração boca-a-boca e nada... Colocam num respiradouro artificial. Eu filmando. Talvez tenha aprendido, com meu pai (post anterior) a impassividade diante da morte.
Novamente não sabia o que fazer. Pela segunda vez tive que mentir sobre a morte. Voltei para a sala de parto e disse para a mãe: "está tudo bem, fica tranqüila". Repeti o que haviam me ensinado quando tinha quinze anos. Subi para o quarto e fiquei sozinho. Dessa vez não agüentei. Liguei para meu irmão: "vem pra cá que a Fernanda nasceu e ... não sei o que houve!". Uma hora depois ele chegou, tazendo minha mãe.
Não tive coragem. Pedi a ele que fosse lá ver o que realmente tinha acontecido. Todas as noites havia conversado com ela. Ela me avisou que nasceria. Eu a esperava, mais que a tudo. Mas a vida é cíclica e nos ensina. Meu irmão olhou para mim e disse: "Seja homem! Vai lá e vê tu mesmo o que aconteceu!". De "homenzinho da casa", virei "homem da casa". De ter beijado meu pai morto, teria que, talvez, beijar minha filha morta!.
Talvez tenha revivido o que meus pais sentiram quando minha irmã morreu aos onze meses. Desci, degrau por degrau, com vontade de subir, de fugir. Encontrei a enfermeira e ela, vendo minha expressão, falou, antes de qualquer pergunta minha:" está viva; mal, mas está viva!". E vive, e viverá todos os dias que lhe tenham sido dados.
Depois de algumas peripécias, que não vêm ao caso, consegui levar minha filha para um hospital que tinha UTI neonatal (descobri que o hospital, onde ela nasceu, não tinha UTI, mas isso é outra istória).
Ali, pela primeira vez, depois de cinco dias, finalmente toquei na minha filha. E pude beijá-la: não morta, mas viva.
Pois hoje almoço com ela e com a Clarissa. Quinze anos separam as duas. Espero que a vida as mantenha juntas e amigas.
E agora o herói de 20 filhos, o "Peruca Velha":

Johann Sebastian Bach (21.03.1685 - 28.07.1750 - datas não gregorianas), fez a proeza de ter 20 filhos: sete com a primeira mulher, sua prima Maria Bárbara, e 13 com a segunda, Anna Magdalena Wilchen. Nada mal para quem passava boa parte do tempo compondo (mais de mil obras registradas) e se apresentando. Bach foi mais um dos iluminados a ter problemas sérios de saúde: morreu cego. Quando pequeno lia à luz da lua para não acender velas e com isso incomodar seu irmão mais velho. Isso causou-lhe um problema que seria agravado pelo charlatão que fez uma operação em seus olhos, pouco antes de morrer (1749). Seu filho, Carl Philip Emanuel Bach apelidou-o de "Peruca Velha", em função do apego que o pai tinha pelas formas antigas. Apesar de famoso enquanto vivo, Bach passou alguns anos após sua morte quase esquecido do grande público. Foi outro compositor famoso, Felix Mendelssohn quem descobriu a Paixão segundo São Mateus em 1829 e, com isso, iniciou o movimento por reavivar e executar a música instrumental mais antiga. Com a morte de Johann Sebastian Bach em 1750, encerra-se a idade Barroca da música clássica. Bach era meu parceiro na genealogia. Fez a árvore genealógica da família que, aliás, tem uma sigularidade: todos ligados à música.
Feliz dia dos pais para todos os pais e filhos.