Causos, histórias e outras mentiras: julho 2005 Archives

Timidez

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Pois é,

Me perdi. Até no português, pois comecei a frase com o pronome. Uma semana viajando e não consegui ainda retomar o ritmo, comentar os comentários, acompanhar os outros blogs, enfim, uma semana meio fora da rede faz mal pra qualquer um, eu acho. O pior é que viajo semana que vem novamente e daqui a duas semanas mais uma semana fora. Putz, tá na hora de parar. Tô ficando velho pressas coisas...

Por falar em velho...

Sempre fui tímido. Tudo bem que ninguém acredita em mim, mas juro que sempre fui tímido. E fui tímido na pior época da história: os anos setenta. Na época da liberação, na época em que se dizia que as mulheres podiam fazer de tudo. Tudo? Mulheres? Não! Nessa época eu era adolescente e essa brincadeira de liberação era coisa de adulto. Ou eu é que era tímido e não sabia que as adolescentes também eram liberadas.

O fato é que passei minha adolescência perdendo tempo pedindo meninas em namoro. Pode? Pedir para namorar! “Quer namorar comigo?”. E a gente ficava, dependendo da menina, algo como umas duas semanas esperando a resposta. Isso, com o tempo, aumentava a timidez, pois as chances de um tímido “levar um fora” eram grandes, o que demandava muito estudo antes de arriscar um pedido. Havia, ainda, que tentar obter sinais positivos de que o pedido não seria frustrado. Era importante ter amigas por perto, para fazer as sondagens necessárias, levar e trazer recadinhos, e te dar aquela opinião abalizada: “fulano, desiste. Ela tá afim de outro.” E quando elas se faziam de “rogadas” e, mesmo querendo, te davam um chá de espera? Não foram fáceis aqueles tempos.

Esses dias minha filha adolescente estava feliz, pois comemorava cinco meses com o namorado.
- Cinco meses juntos, pai. Os dois primeiros meses a gente só ficou, até que ele me pediu em namoro. De namoro mesmo só três meses.
- Cuméquié? Pediu em namoro? Tá falando sério?
Algo deve ter passado pela cabecinha dela – e não deve ter sido bom – pela expressão de espanto que vi.
- Que história é essa de pedir em namoro, minha filha, isso é coisa do meu tempo.
- Teu tempo coisa nenhuma, pai!
- E deixaste ele esperando também?
- Claro, uma semana!

E eu que pensava que era tímido...

Pois é,

Sejam bem-vindos.

Este post é a prova cabal de que o mundo dá voltas. No dia 29 de abril de 2004, às 10:37h, alguém postou uma mensagem no fórum do EAD de Especialização em Psicologia. A mensagem era uma reclamação contra a obrigatoriedade dos trabalhos em grupo como método de ensino.

Apesar de longo, aí vai o texto. Leiam, ao final, a reposta que um tal de Leandro Gejfinbein postou.


Tudo começou no primário. A professora entrou na sala de aula e sentenciou: trabalho em grupo.

Corta!

Quarenta anos depois. Entro na internet para assistir uma aula (quantas vezes imaginei que o mundo poderia ser melhor do que aquelas aulas do primário) e o que vejo: trabalho em grupo.

Voltemos ao período intermediário. Ah! Doce juventude. Trabalho em grupo! Que grupo, nada! De grupo só queríamos saber para acampar, para festas, às vezes até para namorar...

Corta!

Um pouco mais adiante. Primeira (ou única para alguns) faculdade. Independência ou morte! Pela primeira vez tínhamos a sensação de liberdade. De sermos ADULTOS (ou pelo menos a fantasia). De não ser mais um. Afinal, éramos UNIVERSITÁRIOS. Isso mesmo, com letras maiúsculas e tudo o mais a que tínhamos direito. Pela primeira vez poderíamos exigir das pessoas que nos tratassem como GENTE! Não há bem que sempre dure, já dizia o ditado. Primeira aula e... surpresa! Primeiro trabalho em grupo.

Corta!

Corta para três outras faculdades. Não vamos esgotar a paciência de quem está lendo: trabalhos em grupo!

Primeiro emprego. Beleza! Chega de mesada (ao menos para alguns...). Símbolo maior da independência: comprar o que quisesse sem pedir dinheiro para ninguém. Afinal, não foi isso que nossos pais sempre nos ensinaram? E aquela gatinha? Imagina só poder sair com ela e pagar a conta (é bom lembrar que até pouco tempo – e de certa forma até hoje – as mulheres adoravam que os homens pagassem a conta. Ao menos a primeira conta...). Era tiro certo. Imagina! Elas até chegavam em casa e diziam para os pais que tinham saído com um cara que trabalhava...(isso quando não perguntavam o sobrenome da gente!).

Acorda, meu (como diriam os paulistanos)!

Chega o chefe e diz: aqui o negócio é trabalho em equipe. Trabalho em grupo!

Ai, ai, ai, diz você.

Mas chefe é chefe. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Afinal, você estudou, virou adulto, casou, tem filhos e... continua fazendo trabalhos em grupo.

Anime-se, cara! Em algum lugar deve existir uma luz no fim do túnel (se aprendi alguma coisa com os milhares de trabalhos em grupo é que esse lugar deve ser “o fim do túnel”)!

Você resolve fazer uma “pós” (como ouvi dizer esses dias: “chique, né? Fazer pós...”) e pensa: bom, finalmente vão parar com esse negócio de trabalho em grupo.

Más que guri ingênuo, tchê!, Já diria o gaúcho.

Você se inscreve para um “pós” em Recursos Humanos pensando que “recursos humanos” é tratar as pessoas como gente. Brilhante! Só você descobriu isso.

Corta!

Primeira aula do “pós”. Você cheio de razão senta na primeira fileira e...

Primeiro trabalho em grupo.

Precisa cortar? Corta (diria a galera)!!!

Você desiste e vai para casa. Deita e não consegue dormir. Por quê? Trabalho em grupo na sua cabeça. Toda essa gente se reúne (na sua cabeça, é claro!) e começa a discutir.

Mas veja bem, diz o professor. É preciso compartilhar experiências, conhecimentos, etc., etc., etc. Epa! Peraí, diz alguém. Existem tantas outras maneiras de compartilhar tudo isso que não apenas fazendo trabalho em grupo... Bueno, para encurtar, você consegue dormir depois de algumas horas se revirando na cama.

Corta!

Nada melhor que esse mundo da tecnologia. Internet, intranet e tantas outras net’s. Não dá nem tempo de ver tudo. Aí, um belo dia, você navegando desinteressado pelas páginas dá de cara com uma página de uma coisa chamada EAD – Ensino a Distância (sem crase, é claro. Até porque na internet não dá tempo de pensar em crases e outras cositas más...) e entra. Surpresa, novamente!

Imagina! Aulas pelo computador. Que sucesso!!! Chega desse negócio de perder tempo ouvindo professor ler o livro na sua frente. Chega desse negócio de ser “rodado” porque não foi em setenta e cinco por cento das aulas. Chega!!!

Finalmente: à DISTÂNCIA dos trabalhos em grupo!

Finalmente você acha que vai ser tratado como um adulto capaz de buscar o conhecimento a partir de uma orientação inicial do professor e, quando precisar, ele estará lá para ORIENTÁ-LO.

É isso aí, crianças. A diferença entre nós e adultos formados é que, às crianças, se ensina, aos adultos formados, se orienta (exatamente como diz o Aurélio: “indicar o rumo a; dirigir, encaminhar, guiar”).

Corta!

Você continua dormindo e o trabalho em grupo já faz parte do seu sonho (sonho?). Meu caro, diz um “expert” em educação, segundo os pós-modernos conceitos piagetianos, o desenvolvimento... e segue com aquela mesma baboseira dita pelo professor.

Ai! Bons tempos em que podia realmente sonhar...

Uma palavra começa a retumbar na sua cabeça: bum! Bum! Bum! Você acorda e se lembra dela: paradigma. Palavrinha bonita, né? Até faz parte do conteúdo do curso. Você viu, estava lá. Todo mundo fala em mudar o paradigma. Mas é a mesma coisa: pimenta nos olhos dos outros é refresco. São sempre os outros que devem mudar seus paradigmas. Eu não, diria o professor. Há quarenta anos que as coisas são assim. Pra quê mudar?

Nem lembro mais quando eu fiz a faculdade, segue o professor, e também era obrigado a fazer trabalhos em grupo e detestava, porque sempre acabava fazendo o trabalho para todo o grupo. Mas isso são águas passadas. Agora sou professor. E não posso me esquecer que só cheguei até aqui porque segui o sistema. Até me lembro que a minha dissertação foi um tema sugerido pelo orientador, porque fazia parte da pesquisa de doutorado dele. Legal seguir o sistema. Legal ensinar aos demais que mudem enquanto eu sigo o sistema.

Querem falar de paradigmas? Comecem por mudar esse: há quarenta anos que a única coisa que se faz são trabalhos em grupos. Ousem mudar! Ousem dar liberdade para as pessoas. Ousem deixar quem quer fazer trabalho em grupo que faça. Mas ousem deixar quem não quer livre para poder fazer seus trabalhos SOZINHOS!

Quando, neste país, vão parar de tratar adultos como crianças?

A resposta de um tal de Gejfinbein veio rápida, às 11:01h do mesmo dia 29:

"Quando cortar para a cena em que o adulto de fraldas, segura um pêndulo que tem como fim um espelho, supenso pelo seu próprio cordão umbilical.

Zum... zum... zum... zum...

De um lado para o outro, pende.

Hipnose funciona. Ele pensa que cresceu e que mudou tudo. Pena que pensa isso sozinho.

Quer dizer... "o adulto" não. O mesmo adulto do filminho acima."

E assim, passados um ano,2 meses e 19 dias, o autor do "filminho" estréia suas produções na Verbeat. O detalhe da história é que acabei fazendo o trabalho em grupo sozinho, como sempre...

Sejam todos bem-vindos a esta nova casinha. Entrem e fiquem à vontade para comentar, reclamar, sugerir ou tomar um chimarrão. Parece que o cargo de zelador do condomínio está vago. Posso assumir, seu síndico? E trouxe meus gatos para espantar quaisquer ratos...

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